quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

A Carta de 1488 de D. João II a Cristóvão Colombo


1488 – 3 – 20, Avis
Carta de D. João II a Cristóvão Colombo em Sevilha agradecendo o que lhe foi escrito e a boa vontade e afeição mostrada ao seu serviço. Declara que terá prazer nos serviços propostos e que deles dará boa satisfação. Esta carta constituirá segurança contra a Justiça Real por algumas coisas por que seja procurado.
Assinatura autógrafa de D. João II.
Suporte (aparente) em pergaminho; caligrafia gótica semicursiva.
Contém na parte inferior tradução em língua castelhana escrita com caligrafia de tipo humanista do século XVI.
Archivo General de las Indias, Sevilha, (...)
(Transcrição e edição a partir de imagem do documento em O Mistério Colombo Revelado, p. 231, confrontada com a edição de Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo (...), pp. 35-36, e com a cópia da mesma transcrição em O Mistério (...), p. 230, onde se corrige uma gralha na versão anterior).

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A Christovam Collon noso espicial amigo em Sevilha.//


Christoval Colon nos Dom Joham per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daaquem e daallem mar em Africa Senhor de Guinee vos envyamos muyto saudar; Vymos a carta que nos scrivestes e a booa vontade e afeiçom que por ella mostraaes teerdes a nosso serviço vos agardeçemos muito / E quanto a vossa vynda ca certo assy pollo que apontaaes como por outros respeitos pera que vossa industria. e bõo engenho nos sera necessareo nos a desejamos e prazer-nos-ha muyto de virdes porque em o que a vos toca se dará tal forma de que vos devaaes seer contente ./ E porque por ventura teerees alguum reçeo de nossas justiças por razam dalguumas cousas a que sejaaes obligado, nos per esta nossa carta vos seguramos polla vynda stada e tornada que nom sejaaes preso reteudo acusado çitado nem demandado por nehuuma cousa ora seja civil ora crime de qualquer qualidade ./ E per ella meesma mandamos a todas nossas justiças que ho cumpram asy ./ E portanto vos rogamos e encomendamos que vossa vynda. seja loguo e pera ysso nom tenhãaes pejo alguum ./ e agardecer-vo-lo-emos e teeremos muyto em serviço scripta em Avis a xx dias de Março de 1488 ¶


El-Rey ·:· —


Notas:


O melhor copista engana-se pelo menos duas vezes por página, logo...


Por causa da pouca qualidade da imagem há partes cuja leitura ofereceu algumas dúvidas, pelo que é muito provável mudar-se de opinião perante o original ou melhor cópia.


Por qualquer razão Cristóvão Colombo escreve ao rei propondo-lhe qualquer coisa que o rei acha boa, convidando-o a deslocar-se a Portugal prometendo-lhe ao mesmo tempo uma satisfação, embora se não refira o tipo nem o porquê.
Por este documento não se deduz que Cristóvão Colombo servisse ou tivesse servido D. João II ou a Coroa. A carta revela a «boa vontade e a afeição» que Colombo tem por esse serviço – o que poderá querer dizer que quer começar a servir D. João II.
Não se pode deduzir que está ao serviço de D. João II porque o rei português, por esta carta, parece disposto a recebê-lo na sequência da missiva que Colombo lhe enviara. O rei admite que para o convite contribuiu o que Colombo lhe escrevera na carta cujo conteúdo presentemente se desconhece, além de outras razões também não especificadas e que no que a Colombo diz respeito sairá satisfeito. Esse serviço a acontecer terá um carácter temporário já que na carta se prevê o regresso do destinatário ao seu local de origem.
Cristóvão Colombo por ventura teme a Justiça e nessa eventualidade recebe um salvo conduto limitado, assinado pelo rei para poder entrar, deslocar-se e sair de Portugal sem incómodo. Não se trata duma carta de perdão, pois não cumpre as mais elementares regras diplomatísticas para o efeito, nem por aqui se pode inferir ser Colombo suspeito de qualquer crime grave ou menos grave, já que o rei, a saber do que se tratava, parece não querer dar-lhe grande relevância[1].
No geral, até parece haver um certo tom de condescendência em toda a carta.
Este documento revela alguma cautela, não se comprometendo com algo de concreto, para além de assegurar a Cristóvão Colombo que não será accionado pela justiça régia pelas razões que eventualmente existam contra ele – repare-se que não se refere haver causa contra Colombo, simplesmente que Colombo por ventura terá algum receio da Justiça. Não se firma nesta carta qualquer compromisso além do referido, o resto são promessas vagas e vazias de conteúdo.
A carta é cautelosa sem ser conspirativa; é espectante e nunca assertiva.


No endereço da carta aparece a menção de «especial amigo», o que é tido por muito relevante pelos autores que querem ver nela algo mais do que lá há. Considerando todas as interpretações abusivas, descontextualizadas e estapafúrdias que aparecem neste tipo de escritos, o relevo dado a este caso parece-me à partida suspeito.
Já alguém procurou outras cartas cujo endereço contenha igual fórmula?
Já alguém estudou as fórmulas de endereçamento na parte que se destina ao correio ou carteiro?
A referência a «especial amigo» no destinatário é, sem dúvida, interessante. No entanto, e incompreensivelmente, a mesma expressão não é repetida no conteúdo da carta. É, pois, bem mais significativo o facto de não constar qualquer menção de familiaridade no interior dessa carta, limitando-se a um seco «Cristóvão Colombo, nós D. João...», não havendo, tampouco, a expressão muito frequente para com funcionários, oficiais ou dignitários que é «Fulano amigo, nós D. João/El-Rei vos enviamos muito saudar», preferindo-se a fórmula mais distante onde entra o título régio e sem qualquer outra expressão de afecto.
Outro facto que talvez possa ter alguma relevância, é as cartas serem endereçadas depois de assinadas e fechadas, ou seja depois do rei as ter assinado e muito pouco provavelmente na sua presença. Também relevante para as hipóteses que se formulem em torno desta carta, e que as obras que a apresentam não indicam, é a indicação do nome do remetente para além do do destinatário.
Pelas imagens apresentadas não dá para determinar se a pena e tinta usadas, ou mesmo a mão, são as mesmas. Mas do endereço para a carta ressalta claramente a diferença na grafia do nome de Cristóvão Colombo: Cristovam Collon no endereço e Cristoval Colon no texto principal. Também é notável o facto de no endereço aparecer noso e no texto da carta aparecer uma vez nosso e três vezes nossa(s) e em nenhum caso aparecer este pronome possessivo com um só S.


Só isto não basta para declarar a oração «noso espicial amigo» apócrifa, já que é muito frequente a oscilação ortográfica, mas estes factos tornam-na bastante suspeita. Para já vai dar-se crédito a Patrocínio Ribeiro[2] quando diz que o documento foi declarado verdadeiro por José Pessanha, conservador da Torre do Tombo, se bem que me pareça possível que para isso não tenha sido dada atenção a este detalhe.


Tomando o documento por aquilo que se tem dito que é algumas perguntas se podem fazer. Mas essas ficarão para outra vez.


[1] Patrocínio Ribeiro, A Nacionalidade Portuguesa de Cristovam Colombo, 1927, p. 36, transcrevendo a carta não a analisa com grande detalhe; comedido como outros depois dele o não foram, cita a interpretação de Teixeira de Aragão, via Luciano Cordeiro, de não se tratar esta carta dum convite [na medida em que não decorre duma iniciativa do rei] mas sim da aceitação dum pedido condicionado feito por Cristóvão Colombo.
[2] Id., Ib., p. 36.

1 comentário:

Anónimo disse...

humm..Mas que carta tão curiosa!!

Se eu fosse o amiral, utilizaria essa carta numa especie de chantagem destinada a intimidar os reis catolicos e seus cientistas (ignorantes na materia), contrarios aos meus planos...

Quanto mais leio sobre o assunto mais admiro D. Joao II!