domingo, 17 de dezembro de 2006

As armas de Cristóvão Colombo, as Quinas, e as outras

Como anteriormente mostrei, há outras famílias em cujas armas figuram cinco elementos repetidos dispostos em X. Os exemplos apresentados foram escolhidos de forma perfeitamente casual, mas duvido que tenham maiores relações sanguíneas com a família real que a maioria das restantes famílias brasonadas de Portugal.
Barbosa Soeiro escrevinhou sobre armas de Colombo e das Quinas nacionais, fez uns poucos jogos de geometria (e mais poderiam ser feitos) para chegar ao ponto de partida: Cristóvão Colombo era português! Este método historiográfico fez escola e quase 80 anos depois é retomado e adaptado no Mistério Colombo Revelado, p. 524 e ss. Só que em vez de pontos e linhas trabalha-se agora com círculos.
Há explicação de origem coeva para três quartos do escudo (a saber: castelo invoca Castela, leão o reino do mesmo nome, as ilhas as terras descobertas) e estando reservado o último para as armas de família, aonde acabaram por figurar as tidas por enigmáticas âncoras.
Estas âncoras têm sido vistas sob as mais especulativas e delirantes perspectivas, excepto pela mais óbvia e normativa da armaria que é o representarem serviço naval de relevo. Se Colombo anteriormente não tinha armas, e para não ficar o campo vazio, o que é que lá havia de pôr e que mais sentido fizesse?

O que é que significam as imagens acima apresentadas?
Não sei. Diga-mo quem souber. A mim pareceu-me um exercício engraçado.

6 comentários:

Anónimo disse...

Caro J. C. S. J.,

Não é verdade dizer "Se Colombo anteriormente não tinha armas".
Está claro na carta patente da Rainha que C. Colon tinha armas que todos as conheciam e que seriam essas armas que ele customava usar que deviam de figurar no quarto quartel.
Não siga com uma teoria estupida que ele não tinha armas pois aí tem que provar que a Rainha de Castela não sabia o que dizia.
Agora as peças espostas em X não são só reservadas a Portugal.

Anónimo disse...

Caro J.C.S.J.

Se Colombo teve armas próprias, anteriores às concedidas em Espanha, quem as teria concedido? Seria importante, embora não decisivo, responder a esta questão.

Já foi feito um estudo sério e exaustivo sobre o 4.º quartel? As âncoras parecem indicar, de facto, feitos marítimos relevantes, mas nessa época navegavam vários povos…

Português Racional disse...

A ser verdadeiro o documento cuja transcrição em tempos me foi dado ler, o seu texto expressando que a concessão em Castela de brasão a Colombo eram armas acrescentadas, não armas de mercê nova, ali se lendo realmente que ele já usava algum símbolo heráldico antes de receber essa mercê de Isabel a Católica, isso não significa porém que Colombo fosse nobre antes dessa data, pois o uso de brasão não era exclusivo da Nobreza.

Existiam armas burguesas, mesmo em Portugal, aonde só a partir de certa altura (esqueci quando) passam a ser legalmente exclusivas da Nobreza e do Clero. Qualquer pessoa era então, como aliás hoje em dia, livre de criar e usar o símbolo que bem entendesse como facilitador de identificação pessoal e familiar, desde que ainda não utilizados tais símbolos por outrém, sem por isso se retirar daí qualquer pretensão de nobreza (ficando interditos logicamente às armas burguesas quaisquer símbolos de cavalaria ou militares, ou próprios do Clero). Muitas vezes as armas assumidas (ou espontâneas) se tornam depois armas de nobreza, até porque de todas as categorias de nobreza a nobreza imemorial foi sempre a mais prestigiosa, sendo anterior ao próprio Reino, e essa nunca pediu armas a ninguém (excepto modernamente, em casos de bastardia ou outras excepções à regra).

Penso que este fenómeno ocorre justamente pela principal característica da nova nobreza sob os Aviz: a de gradual e pontualmente poder passar a exercer o comércio (ultramarino no litoral, mas também o têxtil, por exemplo, entre a pequena nobreza do interior, que recebia alvarás régios de licença renováveis para o efeito pelo menos já no sc. XVI, se não antes), assimilando rapidamente na Nobreza, pela sua porta inferior, os cidadãos já senhores das cidades marítimas com mais expressão entre a burguesia em expansão. Noutros povos Burguesia e Nobreza se mantiveram rigidamente separados. Não em Portugal, onde tendiam a comunicar socialmente antes de se fundir.

Pessoalmente, no entanto, considero que Colombo (já) seria da pequena nobreza enquanto súbdito de D. João II, visto viver à lei da nobreza, e ter casado na pequena nobreza nova-rica aventureira que emergiu em Portugal paralelamente à expansão de uma nova categoria híbrida que precede o fidalgo-mercador: a dos burgueses e cidadãos que ascendem pela riqueza comercial e postos de chefia e de senhorio medievalizante de destaque à mistura por aliança com a Nobreza tradicional, já de per si tornada algo porosa depois da Crise de 1383-85.
Também me parece que o exercício efectivo e nomeação para cargos de chefia naval lhe concederiam esse estatuto, senão oficial, pelo menos oficiosamente, entre nós. É talvez um pouco cedo para se falar do que depois se veio a denominar nobreza civil.

A ser igualmente verdade a afirmação que alguém (o filho natural? esqueci) põe na boca de Colombo de que ele "não era o primeiro almirante da sua família", nada impede que tenha pertencido a alguma família da República de Génova aonde seria de estudar as armas dos patrícios coevas. E também indagar o que se conhece sobre armas burguesas usadas localmente no território da República naquela época. Em Portugal, se não os Pessanhas (Pezzagno), que não estudei, pelo menos os Perestrelos (Pallestrelli, astrólogos, hoje astrónomos) solicitaram e obtiveram da nossa Coroa o reconhecimento, registo e uso público das suas armas italianas que com eles trouxeram. As armas dos Perestrelos são ditas nobres na carta régia que lhes autoriza o uso: mas suponho que fossem antes as de uma família de cidadãos patrícios de Placência (Piacenza).

Por outro lado, não me parece que as âncoras simbolizem apenas a marinharia simples: pois o seu uso heráldico costumou estar adstrito aos mais altos postos de chefia da Marinha, sob as suas sucessivas denominações ao longo dos séculos. O facto de serem cinco, como aliás a própria frase de Colombo de ter antecedentes almirantes na sua família, pode-se também dever a mera gabarolice inverificável própria dos povos latinos, mormente do italiano e do castelhano, como é consabido.

J. C. S. J. disse...

evfcidqTendo armas antes de 1493 e sabendo quem lhas deu resolveria grande parte dos problemas que se colocam.
Não conheço nenhum estudo que tivesse estudado as armas, mas também o que desconheço nesta, e noutras, matérias é mais do que aquilo que conheço.
Seguir o rasto das âncoras é uma boa via, nem que seja para no fim a pôr de lado. Mas isso dá trabalho.

Anónimo disse...

Caro "Português Racional"

Obrigado por uma boa mensagem mas quando diz que os
"Perestrelos são ditas nobres na carta régia que lhes autoriza o uso: mas suponho que fossem antes as de uma família de cidadãos patrícios de Placência (Piacenza)"
Eles eram descendentes do conde Langosco da Itália e fazaim parte dos governo de Lisboa no século XIV.

De qualquer modo as armas mostram que Colon não era um zé-ninguém, e as linguas que conhecia mostram que não era um zé-niguém, e as pessoas que conhecia mostram que não era um zé-ninguem, a pessoa com quem casou em 1479 mostra que não era um zé-ninguem, e os seus feitos provam que não era um zé-ninguem tecelão de lã da Génova.
Se era da Génova era outro um nobre e não aquele que nos têm forçado engolir.

Português Racional disse...

Caro Anónimo

Pelo adiantado da hora talvez não tenha expressado correctamente o que penso e o pouco que sei.

"Perestrelos são ditas nobres na carta régia que lhes autoriza o uso: mas suponho que fossem antes as de uma família de cidadãos patrícios de Placência (Piacenza)"
Eles eram descendentes do conde Langosco da Itália e fazaim parte dos governo de Lisboa no século XIV."

Queria eu dizer "família com ilegitimidade oriunda de cidadãos etc.". Até agora apenas em Gaio (fonte secundária) encontrei referida a Sentença de Justificação de Nobreza de 1399 dada no Porto a Filipe Perestrelo (Filippo Pallastrelli) , o primeiro Perestrelo passado a Portugal. Irei procurar melhor e se encontrar algo em fonte primária copiarei aqui. Parte do Cartório da Nobreza desapareceu da Torre do Tombo em 1755...

Não sou especialista nestas questões, mas não me parece que alguém ter feito parte da administração municipal fosse ainda nitidamente nesta época sinal de nobreza. Pois nas Câmaras se representavam separados os vereadores que ali estavam pela Nobreza, dos restantes que ali estavam pelos "Povos" (possidentes em ascensão nobilitante ainda não bem definida. O senhorio pleno ou enfitêutico da terra, e dos cargos rendosos, é o que aproxima estes dois extractos sociais ajudando a sua fusão em poucas gerações). Ainda não estariam bem definidas as categorias que depois se vieram a cristalizar como nobreza distinta, principal, e ordinária.

Estou neste momento a começar a ler autores italianos que escreveram sobre Colombo depois do abandono definitivo, há alguns anos atrás, da hipótese do tecelão forjada no sc. XIX para efeitos de marketing norte-americano quando do centenário de 1892. Geralmente insistem que a mulher de Filippo Pallastrelli - o Filippone ou Filipe Perestrelo, seria Catarina Visconti, enquanto que em Portugal é tradicionalmente havida como uma mais modesta Catarina Vicente, que assim se diz estar documentada. A profissão de astrólogo/astrónomo, por um lado, o casamento por outro, indiciam a meu ver que Filipe Perestrelo poderá ter tido algum "defeito de nascimento" que aliado eventualmente a problemas de status da sua mulher, pode ter sido razão determinante no pedido de reconhecimento de armas de 1399 que o declara cavaleiro (si vera est fama ter existido esta SJN). Pois se os Perestrelos italianos eram nobres e patrícios, Filipe parece casar e trabalhar abaixo do que seria de esperar-se, além de ter sido talvez forçado a singrar através da emigração.

Por outro lado, também em Itália as relações entre os estatutos de Burguesia e Nobreza, com exercício comercial por esta, são complexas e não domino totalmente a questão, longe disso. Alguns burgueses chegam não só a nobres mas a soberanos - os Medícis por exemplo - outros burgueses nobilitados continuam a comerciar, mas penso que tudo isto variou dentro da rede de micro-estados italiana.

Não creio que desde a prova da falsificação documental do Colombo tecelão alguém ainda pense que o dito fosse de muito humilde origem. Mas também não nos é permitido duvidar que algum mistério no seu nascimento quiz encobrir. Isto não nos permite porém extravazar e divagar que ele não fosse italiano de nascimento, até prova documental cabal, quando todas as fontes secundárias coevas, incluindo os que o conheceram pessoalmente e terão notado o seu sotaque ao falarem com ele, o declaram oriundo dos Estados de Génova.

Finalmente, quanto ao facto de Colombo não escrever em italiano, e de o seu castelhano ser eivado de portuguesismos, parece-me isso muito natural. Naquela época o ensino era feito em latim, aprendiam a escrever em latim. Não havia nenhum italiano norma padrão até ao sc. XIX, e ignoro a data em que o genovês vulgar começou a ser utilizado e ensinado por escrito na República de Génova. Mas em Portugal sabemos que além do latim era utilizado o português vulgar, que Colombo aqui aprendeu e depois castelhanizou ao passar a Castela, terra aonde ainda hoje ninguém sobrevive sem se acastelhanar não só na língua como nos costumes. Isto é apenas uma hipótese, mas parece-me lógica e viável. Não penso sequer que este tipo de questões possam ser bem estudadas sem o contributo sério e científico de historiadores italianos confiáveis.
No caso de Colombo ter tido por língua materna não o dialecto genovês, mas a língua lígure, ou no caso desse dialecto, o que ignoro, estar então ainda muito marcado oralmente pela influência da língua lígure, é de salientar que esta e o português arcaico (e em muitos casos, mesmo o português moderno) possuiam muito de comum, segundo em tempos ouvi a uma historiadora e linguista que infelizmente já não está entre nós.