segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jorge Luís Matos – As Viagens de Colombo e a Náutica Portuguesa de Quinhentos (2)

Colombo tem muitas notas que nos permitem inferir que, efectivamente, esteve na Guiné e, eventualmente, em S. Jorge da Mina. As que me parecem mais significativas são as assimilações de vocabulário e as comparações que faz quando chega a novas terras, tomando como referência objectos, pessoas, ambiente ou flora da região da Guiné19. Há, apesar de tudo, informações con­cretas dessa sua presença que, nalguns casos, nos suscitam apenas mais dúvi­das e interrogações. Por exemplo, diz-nos a certa altura que “debajo de la línea equinoccial, en perpendicular, se encuentra la fortaleza de la Mina”. O referido lugar está afastado do Equador de 5º 10’ para norte, parecendo o erro demasiado grosseiro para se aceitar que efectivamente por ali andou e –como diz– “observé con diligencia la derrota, como suelen los capitanes y marine­ros, y después tomé la altura del sol con el cuadrante y otros instrumentos muchas veces”20 . O erro de mais de cinco graus pode dever-se ao facto de ter perdido a estrela Polar e de não saber, efectivamente, usar a altura do sol para determinar a latitude, apesar de o dizer. Hoje, a estrela deixa de ser observável abaixo da altitude de seis graus norte (depende da habilidade do observador), mas na época poderia sê-lo até um pouco mais a sul, dado que o seu afastamento polar era um pouco maior. Ponho a hipótese, portanto, de que ao ver a Polar muito baixa ou até de ter deixado de a ver, tenha inferido que estava sobre o Equador, estando ainda um pouco a norte dele. Em todo o caso esta é apenas uma hipótese plauzível para um erro que se afigura incom­preensível em face do saber anunciado21. Numa outra nota, do género das anteriores, diz que “El Rey de Portugal envió a Guinea en el año del Señor 1485 al maestro José, su físico y astrólogo, para reconocer la altura del sol en toda Guinea. Este cumplió com todo y dio cuenta al dicho sereníssimo rey, cuando yo me encontraba presente”. Esta afirmação (que não podemos esquecer ter sido escrita uma década depois dos factos) poderia entender-se como tendo Mestre Vizinho explicado a D. João II, quais as latitudes de diversos pontos de África, verificados por si próprio, sendo que isso “acon­teceu” na presença de Colombo, talvez quando veio a Portugal na segunda metade da década de oitenta, já depois de daqui ter saído, em 1484.

Poderíamos aceitar que tal facto foi simultâneo com a descrição de Bartolomeu Dias dos lugares do sul e da posição do Cabo da Boa Esperança, que Colombo também diz ter ouvido contar ao rei pelo próprio, apesar de ter registado a latitude com um erro de cerca de 10º22. Um problema um pouco diferente surge numa das anteriores notas do seu punho, ao afirmar que tomou (o próprio) a altura do sol com o quadrante “y encontre que concor­daba con Alfragano, es decir, que correspondian a cada grado 56 milhas y 2/3 [...] Lo mismo halló el maestro José, físico y astrólogo y otros muchos”23. Não cabe no âmbito deste trabalho analisar com pormenor os valores do grau terrestre com que contou Colombo, Toscanelli ou, eventualmente, Ptolomeu, para deduzirem que o espaço da terra desconhecida, entre o extremo da Ásia e a Europa, era bastante curto e estava ao alcance de uma viagem marítima muito fácil. O que não levanta dúvidas é que o módulo do grau terrestre de Mestre Vizinho era de 17 ½ léguas, e presumia um perímetro equinocial que não permitia as interrogações (sonhos) que assaltavam Colombo. E isto quer dizer que não pode ser verdade que se tenham encontrado e partilhado expe­riências desta natureza na costa da Guiné.

Bem sei que, no emaranhado de medidas de comprimento, que povoaram o Mediterrâneo desde a Antiguidade, e respectivas correspondências com o grau terrestre, não é fácil saber com certezas, que valor tinha a milha de que falava Colombo. Que comprimento tem cada um dos estádios daqueles que quinhentos perfazem um grau de latitude, segundo Ptolomeu? Que tamanho exacto teria a milha das que considera Alfragano?... É muito difícil sabê-lo e os jogos de números, quando estes nos surgem nestas quantidades, permi­tem tudo. O que parece óbvio é que, atendendo à distância que permeia entre o extremo ocidental da Europa e o extremo oriental da Ásia (medida em está­dios, em milhas, em léguas ou em côvados árabes, isso pouco importa), o almirante acreditava que das Canárias a Cipango distavam apenas cerca de 45 ou 50 graus. Sendo evidente que esta ideia não era aceite nem pelos cosmó­grafos portugueses nem pelos castelhanos. Não quer isto dizer isto dizer que Colombo não foi à Guiné. Significa apenas que não teve com Mestre Vizinho as conversas que afirma terem ocorrido, e que não estava a par dos mais avançados conceitos geográficos do seu tempo. A fabulosa biblioteca de Cristóvão Colombo só foi formada a partir do momento em que saiu de Portugal (talvez por razões de natureza económica), e é como anotações a alguns dos livros que adquiriu então, que surgem os comentários supracita­dos, com as afirmações acerca de factos e acontecimentos que, nalguns casos, me parece difícil que tenham ocorrido. Não quer isto dizer que o almirante desconhecesse as matérias sobre que lia. Na maioria das situações, os dados e os utensílios intelectuais da época, não permitiam uma explicação incon­testável da maioria dos conceitos, e as suas ideias poderiam parecer tão legí­timas como quaisquer outras. É muito fácil olhar para o que disse ou para o que acreditou e defendeu desesperadamente, e criticá-lo com o saber de hoje, mas não é legítimo fazê-lo. Entendo que estava no limiar de um saber de ori­gem clássica, que avançava a passos largos, e que o deixou petrificado no patamar onde imaginou que podia fazer algo tão fabuloso como chegar à China e ao Japão navegando para ocidente. Terá falhado como renascentista erudito, mas não falhou como navegador, como veremos mais adiante.

As grandes navegações portuguesas que conduziram à exploração do Atlântico até ao Cabo da Boa Esperança, abrindo o caminho da Índia e do Extremo Oriente, começaram de forma sistemática a partir de 1415/18, após a conquista de Ceuta levada a cabo pelo rei D. João I, com a estreita colabo­ração dos seus três filhos mais velhos. É sabido como o infante D. Henrique ficou encarregado dos assuntos africanos, a partir de 1418, e como a concen­tração de meios navais no porto de Lagos permitiu o lançamento de sucessi­vas viagens de reconhecimento que, persistentemente, foram chegando mais e mais longe. Ao ler o Diário da Primeira Viagem de Colombo, e tomando consciência dos temores que afligiram as tripulações, ao ponto de viverem a eminência de motins e revoltas, entendemos a angústia daqueles que pela pri­meira vez seguiram ao longo das praias desertas da África Ocidental, camin­hando para sul, mas sentindo o medo de não conseguirem regressar, e de não terem meios suficientes para sobreviver. Tinham herdado os portugueses as técnicas ancestrais de navegação praticadas no Mediterrâneo desde longa data, e que eram do conhecimento de quase toda a Europa.

Conheciam a bús­sola, sabiam manter um rumo no mar, estimavam a distância percorrida e esperavam alcançar uma costa em pouco tempo, acreditando que a chegada a um porto onde pudessem obter apoio não seria muito difícil. E foi com estas técnica simples que se aventuraram pelo Atlântico, não ousando, porém, afastar-se muito de terra, confiando em sinais que a experiência tinha ensi­nado a ler e interpretar, como avisando de mau tempo, da proximidade de terra, da existência de baixos ou escolhos, etc. E defendiam-se com técnicas que observamos também nas viagens de Colombo, quando sabe que está na proximidade de ilhas e tem de navegar devagar, sempre de dia e com vigias nas vergas, etc. São saberes ancestrais, nalguns casos milenares, transmiti­dos de geração em geração, com uma aplicabilidade que, nalguns casos, vem até aos dias de hoje, apesar do desenvolvimento técnico e da panóplia de aju­das à navegação disponíveis. Estou em crer que no primeiro reconhecimento da Madeira (1418) e nas viagens até às Ilhas Canárias nada mais se utilizou do que o velho saber marinheiro do Mediterrâneo, delineando as rotas com base em referências de terra e estimando os caminhos percorridos, quando das sempre pequenas travessias. Um problema grave se levantava, contudo, a estas viagens ao longo da costa africana. No caminho do sul –sobretudo durante as épocas de bom tempo, favoráveis à navegação– corre um ventin­ho favorável de norte ou noroeste, a que se soma uma corrente franca com o mesmo sentido, a ajudar à viagem. O problema é que, a constância desse tempo, faz com que o regresso se transforme num suplício, em que os navios tinham de fazer bordos alternados, demorando um tempo infindo para ganhar o mesmo caminho que para sul fora feito num instante. O que sentiria essa gente, quando olhava para a costa deserta das praias africanas, sem um local onde recolher alimentos ou água, sabendo que cada dia de viagem para sul, poderia significar vários dias para voltar ao ponto de partida?

Assim compreendemos como foi difícil o avanço e como apenas 16 anos depois do reconhecimento da Madeira, se conseguiu passar além do mítico Cabo Bojador. Por incrível que isso possa parecer, quando tal aconteceu, já há sete anos que tinham sido avistadas as primeiras ilhas dos Açores (1427). Gago Coutinho tem uma explicação lógica para esta precoce descoberta, imaginando que os navios que regressavam de África começaram a fazer um imenso bordo ao largo do Atlântico, com o vento na amura de estibordo, para depois virarem e demandarem a costa portuguesa, por alturas do Algarve ou de Lisboa. Foi num desses bordos largos que foi avistada a primeira ilha aço­riana. Contudo, essa navegação, mais ou menos larga, que constituía a solução mais fácil de regresso a Portugal, apresentava uma dificuldade que se veio a notar na forma titubeante e lenta como se colonizou este arquipélago. Os marinheiros embrenhados assim no mar alto, não tinham uma maneira de saber onde estavam, confiando em intuições que, de maneira nenhuma, se podiam revelar seguras. Impôs-se aos homens do mar alto a necessidade de utilizar um meio astronómico de orientação, semelhante, no fundo, aquele que já era conhecido dos cosmógrafos, mas que era difícil de aplicar por gente tosca e mal preparada em coisas de matemática, com dificuldade para contas complicadas. A primeira informação concreta da utilização de um quadrante para observar a altura da Estrela Polar, como forma de identificar o local onde se navegava, consta de um relato de Diogo Gomes, numa viagem ao largo das Ilhas de Cabo Verde, entre 1455 e 1460. Nessa altura já se sabia bem que a forma de contornar os ventos de norte e noroeste, para regressar a Lagos, era fazendo uma enorme volta pelo largo, passando, nal­guns casos, para oeste dos Açores, e regressando a terra, num outro bordo, quando a altura da Estrela Polar indicasse que era tempo de o fazer. Foi assim que se fez a aprendizagem do Atlântico Norte, aperfeiçoando a técnica de observação astronómica, sabendo que a altura do Pólo Norte era igual à lati­tude do lugar, e analisando como se comportavam os ventos e as correntes. No tempo de D. João II, quando Colombo já estava em Portugal, as viagens já tinham entrado pelo Golfo da Guiné e já tinham revelado as voltas que o mar dá nas zonas equatoriais. Provavelmente, já existia uma nova forma de cálculo da latitude, por observação da altura do sol e realização de um cál­culo simples, onde entra a declinação do astro, lida numa tabela própria.

Depois de que, em 1481, foi construída a fortaleza da Mina, as viagens eram frequentes porque o comércio era lucrativo. O caminho do sul era fácil porque, depois da “nortada portuguesa” associada à circulação de ar em torno do anticiclone dos Açores, surgem os ventos alísios de nordeste, que permi­tem fazer toda a viagem relativamente perto da costa. Passada que era a Serra Leoa e dobrado o Cabo das Palmas, os navios continuavam a ter uma contra corrente equatorial que os arrasta para dentro do golfo da Guiné e que conti­nua a facilitar a viagem, mesmo em situações de calmaria. Para regressar era praticamente inútil tentar fazer o mesmo caminho, porque a corrente o impossibilitava. Navegava-se francamente a sul, procurando a corrente equatorial do sul, e entrava-se na tal volta larga que, muitas vezes, ia bastante para ocidente, e que pode estar na origem de avistamentos de ilhas a que não era possível regressar, mas que podem ter alimentado as lendas ouvidas por Colombo quando da sua estadia em Portugal. Com a sua ida à Mina –even­tualmente pelos anos oitenta a oitenta e três do século XV– o almirante pode não ter falado com Mestre José Vizinho (como já se disse) e pode até nem se ter apercebido bem da latitude desse local, mas aprendeu que existia uma vento regular, soprando de NE, entre o paralelo das Canárias e o Golfo da Guiné24, e numa extensão considerável para oeste. Era esse vento que tinha de ser contornado com uma volta larga, até que pela latitude dos Açores sur­gia um vento de oeste que permitia a aproximação à costa portuguesa com toda a facilidade25. E é na conjugação destes dois ventos, conhecidos dos por­tugueses desde que se efectuavam as viagens à Mina, que reside o “segredo” náutico das viagens de Colombo. E a forma serena como ele conduz os seus navios parece demonstrar que sabe isso muito bem, embora compreenda que os outros não estão tão seguros quanto ele.


Observemos, portanto, alguns aspectos registados no chamado Diário de Bordo da 1ª viagem e que, infelizmente, não é mais do que uma cópia modi­ficada e simplificada, provavelmente tirada de outras cópias de um original perdido. E é importante referi-lo porque o texto, apesar de ser o produto da consciência de Las Casas, apresenta erros grosseiros, que nos parece impossível constarem do documento primitivo, se o mesmo foi escrito por quem dirigiu a navegação e esteve atento aos fenómenos marinhos. A pri­meira questão que me parece pouco coerente é a constante referência ao facto de Colombo, na viagem de ida, estimar uma distância percorrida e registar um valor ligeiramente inferior, com o intuito explícito de dar a entender ao pessoal de bordo que não estavam a afastar-se tanto de terras de Espanha, quanto, na verdade, acontecia. Esta atitude ocorre logo no registo de 10 de Setembro, pouco depois de perderem de vista a terra das Canárias. Diz expli­citamente: “Nesse dia e nessa noite fez sessenta léguas [...] Mas só contou quarenta e oito léguas a fim de que sua gente não se assustasse com a duração da viagem”26. Esta situação repete-se até à chegada às Bahamas, mas tem como contradição o facto de que, em determinadas alturas, se reunirem os pilotos dos diferentes navios, e acertarem entre si a estima, como aconteceu no dia 19 de Setembro. Na minha opinião, este género de descrições de “manobras” atribuídas a temerários comandantes, para ludibriar as tripu­lações ou mesmo forçá-las a ficar no mar sem revoltas ou protestos (porque entregues à competência daquele único homem), tem algo de mítico, que se repete em muitos outros relatos e, de um modo geral, são histórias construí­das a posteriori27. Não estou inclinado para valorizar o facto.

Não me parece serem de valorizar, igualmente, pequenas incongruências de registo como a que acontece no dia 17 de Setembro. “Continuou a navegar para oeste [...] A corrente ajudava-os” –e logo a seguir– “Viram muita erva e muitas vezes. Era erva de rocha e vinha do poente”. Ora se vento e corrente “empurravam” para oeste, a erva não podia vir desse mesmo lado. Trata-se, naturalmente, de um interpretação que tem a ver com a ansiedade de encontrar terra daquele lado, presente na forma como se interpretavam todos os sinais.

Há, no entanto, um conjunto de registos referentes a variações nas agul­has magnéticas que é interessante comentar. O primeiro vem logo no dia 13 de Setembro, onde se lê: “Nesse mesmo dia, ao começo da noite, as bússolas marcaram o noroeste, e de manhã ligeiramente o nordeste.” O fenómeno tem hoje uma natural explicação na variação da declinação magnética em função do local, havendo linhas chamadas de agónicas, onde essa declinação é zero. A fazer fé no registo do Diário –que me parece perfeitamente verosímil– Colombo afastou-se para oeste ao encontro dessa linha agónica, que hoje é difícil saber onde passava exactamente, mas sobre a qual há alguns registos do princípio do século XVI que apontam para a região das Canárias (não é incompatível que fosse ligeiramente mais a oeste). O Tratado da Agulha de Marear, de João de Lisboa (1514), não só aponta a existência da mesma, como a identifica com um meridiano, e, com base nisso, aponta uma solução para determinação da longitude que logo se revelou errónea. As mais rigoro­sas informações que até nós chegaram foram-nos dadas por D. João de Castro, na sequência da sua primeira viagem à Índia (1538), e indicam que nas proximidades das Canárias as agulhas declinam 5º 30’ para nordeste (nordesteiam, na linguagem da época). Mas, alguns anos antes destas obser­vações, surge no extremo sul do continente africano o topónimo “Cabo das Agulhas”, referenciado nos roteiros portugueses como um sítio onde as agul­has não variavam. Quando os navios passavam demasiado ao largo, sem con­seguirem avistar terra, saberiam que cruzavam o cabo, verificando este fenómeno, dizem-nos. O Cabo das Agulhas é uma designação relativamente tardia, mas tive ocasião de ver recentemente que o planisfério português anó­nimo, dito “Cantino”, refere a pequena baía, contígua a esse cabo, designada “Golfo das Agulhas”, revelando que no princípio do século XVI, os marin­heiros portugueses conheciam o fenómeno da declinação, e sabiam que variava de local para local. Ora, em boa verdade, os registos do Diário, refe­rem a variação das agulhas, mas não são muito claros quanto à interpretação dos mesmos. No entanto, não me parece possível que alguém possa andar no mar alto sem ter reparado nele. Se Colombo observava a Polar, para deter­minar a latitude do lugar e sabia até que havia um regimento para acertar os valores da altura, em função da posição da Ursa Menor, não me parece possí­vel que nunca tivesse reparado na diferença (por pequena que fosse) entre a direcção do Pólo e a que é indicada pela agulha. E em abono da diligência e atenção com que observava as estrelas, faço notar o que consta no registo de 30 de Setembro, onde está escrito o seguinte: “Anotou que «as estrelas a que se chama guardas, quando cai a noite, estão perto do braço da porta do poen­te; e quando o dia nasce, estão alinhadas, sob o braço, na direcção nordes­te...»”28.

(Olhando o norte na noite de 29 para 30 de Setembro de 1492, ao anoitecer e ao amanhecer, podiam ver-se as guardas da Ursa Menor nas posições referenciadas no Diário.Clique para ampliar)

Hoje esta disposição do céu é fácil de verificar como verdadeira e rigorosa com a ajuda de um computador e de um programa de astronomia, como tive ocasião de fazer. De certo modo, parece-me difícil que qualquer navegador que utilize correntemente a bússola e a altura da Polar, não tenha noção das variações da agulha. Deve dizer-se, no entanto, que a mais antiga referência escrita que conheço é a que consta no Diário. Estou em crer que quem não percebeu o fenómeno foi Las Casas, porque não tinha de o per­ceber, mas o almirante não podia deixar de o conhecer muito bem29.

Por último saliento a rota que o almirante procurou realizar até ao seu destino (que para si seria Cataio ou Cipango) e como regressou à Europa. Do que se infere do Diário, partiu de Palos a 3 de Agosto, realizando um per­curso simples e conhecido até às Canárias, onde reparou a Pinta que fizera uma avaria no leme. Só zarpou em direcção ao Atlântico ocidental a 6 de Setembro, partindo de La Gomera (28º N). Seguiu um rumo oeste, com um vento favorável, que suponho ter soprado de NE, fazendo-lhe orçar os navios e levando a que tivesse de chamar a atenção dos marinheiros do leme30. Só mesmo no final da viagem cedeu em guinar para SW, porque avistou muitas aves que nesse sentido voavam. O Diário afirma “porque o almirante sabia que a maior parte das ilhas que são dos Portugueses foram descobertas seguindo o voo das aves”, mas eu julgo esta consideração irrelevante, por me parecer que esse saber era de todos os marinheiros e não só dos portugueses... Alcançou a ilha de S. Salvador em 12 de Outubro de 1492, percorrendo toda a região das Bahamas. A 30 de Outubro, estando em Cuba, opinou que esta­ria “quarenta e dois graus norte da linha equinoxial”, segundo o texto de Las Casas. Mas o copista acrescenta, “se o manuscrito de onde copiei isto não estiver errado”, o que efectivamente acontecia. Estavam por cerca de 21ºN. Aliás, no dia 2 de Novembro está escrito “Nesse local [não muito longe do anterior], nessa noite, o almirante fez o ponto com o auxílio de um quadran­te e achou que estava a quarenta e dois graus da linha equinoxial”. Volta a haver um erro, para o qual não tenho explicação coerente e não quero espe­cular. Apenas não creio que seja falta de conhecimento de Colombo ou defei­to do instrumento em causa, tanto mais que, noutros locais do Diário, se tecem considerações sobre que a latitude daquelas ilhas deve ser próxima das Canárias. Além do mais, era conhecida a latitude das Ilhas dos Açores, de Lisboa, de Cádiz e de Palos. Não seria, portanto, normal que achando-se a 42º de latitude, procurasse ganhar ainda mais norte para regressar a Espanha, como de facto aconteceu. A meados de Janeiro iniciou o regresso a Espanha e a 16 de Fevereiro estava em Santa Maria, nos Açores, precisamente no caminho que tinha de seguir.


Jorge Luís Matos

Jorge Luís Matos – As Viagens de Colombo e a Náutica Portuguesa de Quinhentos (3)


À maneira de conclusão, resumo pois os pontos de vista que tentei explanar ao longo do texto. Colombo era descendente de um mercador ita­liano (ele próprio ligado ao negócio), familiarizado com toda a riqueza ine­rente ao comércio com o Levante e com os produtos orientais, que não podia deixar de sonhar com uma forma de chegar a toda a riqueza que lhe passava diante dos olhos. Fascinou-o, por isso, o espaço português da segunda meta-de do século XV, quando se desenvolveu o comércio africano e Lisboa se tor­nou uma metrópole cosmopolita. Teve condições de acesso a um saber clássico, muito ao jeito do Renascimento. Aprendeu latim, leu livros que falavam de mundos distantes e prodigiosos e tomou conhecimento de con­ceitos geográficos que lhe suscitaram soluções alternativas à rede comercial que sempre conhecera. Pensou até que, se conseguisse abrir uma nova e revo­lucionária via para esse comércio, caber-lhe-ia o lugar que vira ser ocupado por gente que invejou durante a sua infância e juventude. Portugal foi, talvez, o local onde esta imaginação fértil e espírito aventureiro, mais se desenvol­veram, fosse pelo momento que se vivia, fosse pelas viagens que teve opor­tunidade de efectuar. Imaginou que o Oriente, de onde vinham as mercadorias ricas que, desde miúdo via chegar à sua terra e com que se cru­zara em Lisboa, podia estar ao alcance de meia dúzia de dias de viagem, caminhando atrás do sol poente. Foi um sonho de muitos outros, contudo, no caminho da Guiné e no contacto com as viagens portuguesas ele percebeu que no Atlântico Norte havia uma via de vento favorável ao caminho para o sul e ocidente (os alísios de NE) e outra de regresso, um pouco mas a norte. Digamos que ao juntar este saber prático, colhido no mar, com um conheci­mento geográfico clássico e difuso, aprendido em leituras rápidas e em dis­cussões literatas, elaborou o plano que seria a obsessão da sua vida. Apesar de não ter alcançado os objectivos que se propunha, as suas viagens são o espelho de um conhecimento náutico que não é possível negar, e que resul­tou de uma experiência múltipla onde teve um papel determinante o conhe­cimento do regime de ventos e correntes do Atlântico. A herança que levou de Portugal.

NOTAS
1 Casas, Bartolomé de las: Historia de las Índias, México, 1995, vol I, p. 34.

2 Colón, Hernando: Historia del almirante, Barcelona, 2006, p. 56.

3 “Cullam famoso cossairo Francês”, Cf. Rui de Pina, Crónicas de [...], Porto, 1977, p. 851.

4 Cf. Pedrosa, Fernando: Cristóvão Colombo corsário em Portugal (1469-1485), Lisboa, 1989, passim.

5 Colón, H.: Historia..., p. 74. Esta afirmação datou a viagem de Diogo Teive e a descoberta das ilhas de Flores e Corvo de 1452 e, segundo o relato de Hernando, com Diogo Teive ia um “piloto” de Palos (“gallego” segundo Las Casas), chamado Pedro Velasco (ou Pedro Vasquez), que, em La Rábida falou com Colombo.

6 Damião Peres, Damião: História dos Descobrimentos Portugueses, Porto, 1992, p. 252. Existem sérias reservas quanto à autenticidade do referido documento.

7 Radulet, Carmen: “As viagens de Descobrimento de Diogo Cão”, in Mare Liberum, nº 1, Lisboa, 1990, p. 188.

8 Apenas João de Barros –que escreveu muitas décadas depois do sucedido– lhe dedica umas linhas para dizer que “todos houveram por vaidade as palavras de Colom”. Apud Peres, D.: História dos..., p. 257.

9 É provável que esta viagem venha na sequência da que fora interrompida em 1476, pelo ata­que corsário, mas isso é apenas uma conjectura.

10 Historia Rerum ubique gestarum de Eneas Sílvio Piccolomini, eleito Papa Pio II.

11 Cólon, Cristobal: Textos y documentos completos, Alizana Editorial, Madrid, 2003, p. 285.

12 Em anos de extremo frio os gelos vêm até à ilha.

13 Esta afirmação de Colombo é, aliás, mais um problema para a análise da verdade do que ele próprio escreve. Por perto do Canal da Mancha e nalguns portos da costa ocidental da Grã-Bretanha, as marés podem atingir 10 metros (cerca de cinco braças e meia), mas na Islândia e na costa leste da Groenlândia é bastante mais pequena, não alcançando sequer os dois metros.

14 Estava há algum tempo em escavações uma estação arqueológica do que supunha ser uma povoação viking na Terra Nova.

15 Jaime Cortesão, Jaime: Os Descobrimentos Portugueses, vol. IV, 4ª Ed., Lisboa, 1985, p. 1146 e ss. Cristiano I tem um reinado quase coincidente com o de Afonso V.

16 Uma carta escrita pelo mercador veneziano, Lorenzo Pasqualigo, datada de 23 de Agosto de 1497 diz que “o nosso veneziano [Caboto] que partiu de Bristol num pequeno navio, para procurar novas ilhas, regressou e diz que descobriu terra firme a 700 léguas daqui, e que é o país do Grande Can [China]”. São palavras que demonstram bem o intuito da viagem de Caboto.

17 Apenas por intuição, e porque as informações que dá nos textos já citados não me parecem de quem conheceu a Islândia e muito menos os mares gelados que lhe estão a norte, estou a admitir que Colombo não passou de Bristol, reservando a possibilidade que tenha ido a Galway (Irlanda).

18 Estas informações referem-se a uma direcção predominante da corrente que só poderá arrastar objectos para as praias do norte e leste da Ilha do Porto Santo. No entanto, ocorrem fenómenos locais e de pequena duração que se manifestam de outra forma. Sobre o caso específico do Porto Santo tive o cuidado de contactar com o Comandante Castro, meu amigo, que desempenhou o cargo de Capitão do Porto do Porto Santo, durante quatro anos e meio. É um cargo que obriga a uma particular atenção sobre os fenómenos marinhos, e o seu testemunho era particularmente importante. Disse-me não ter notícia de nenhum relato de objectos vindos de longe, sobretudo de ocidente, mas refere que, em circunstâncias par­ticulares de vento dos quadrantes do sul, chegam às praias do Porto Santo objectos vindos da própria Ilha da Madeira. É insólito e invulgar, ocorre apenas numa área restrita, mas acontecia duas ou três vezes por ano. Esses objectos aparecidos na praia ocidental do Porto Santo podem ser identificados como vindos de longe, sobretudo, se é isso que se quer ver neles.

19 Varela, Consuelo: Cristobal Colom. Retrato de un hombre, Alizana Editorial, Madrid, 1992, p. 56.

20 Colón, Cristobal: Textos y documentos..., ed. de Consuelo Varela, Madrid, 2003, p. 90

21 Há muitos erros absurdos de coordenadas em escritos de Colombo ou em textos supostamen­te copiados deles. Nalguns casos não encontro explicação, mas aqui atrevo-me a avançar esta hipótese.

22 Colombo afirma ter ouvido Bartolomeu Dias dizer que o Cabo estava a cerca de 45º S, quan­do, na realidade está em 34º 30’S. Alguns historiadores quiseram interpretar esta informação de Colombo como o resultado de uma tentativa portuguesa de alongar distâncias e criar a sensação, em Castela, de que a volta do Cabo para a Índia era, de facto, muito longa. Sem querer afirmar nada em definitivo, porque me parece que o assunto necessita de mais estudo eu entendo todos estes erros de Colombo (Mina, Thule, Cabo da Boa Esperança, etc.) como uma tentativa do próprio de dar consistência à sua argumentação sobre as terras que descobrira a Ocidente.

23 Sobre esta eventual presença de Mestre Vizinho na Guiné, que me parece bastante duvidosa, veja-se Luís Albuquerque, int. e notas, Guia Náutico de Munique e Guia Náutico de Évora, Lisboa, 1991, p. 78.

24 Refiro-me aos alísios de NE que sopram no Hemisfério Norte e se sentem até regiões mais ou menos a sul, consoante a época do ano considerada e o deslocamento do chamado Equador Meteorológico.

25 A latitude dos chamados “gerais do oeste” varia também com a época do ano, como é com­preensível.

26 Colombo, C.: Diário de Bordo da 1ª viagem, Mem Martins, 1990, p. 24.

27 Apenas como exemplos desta forma mítica de fazer o relato, no sentido de valorizar a cora­gem do capitão, em relação a uma turba de pessoal assustado, realço o relato da viagem de Vasco da Gama, feito por Gaspar Correia (que não é confirmado por nenhuma outra fonte). Na Moby Dick, de Melville, num gesto de arrojo que transformaria a aventura irreversível, o capitão destrói as agulhas de bordo à frente de toda a tripulação.

28 A introdução é de Las Casas, mas a parte mais importante está assinalada como transcrição do que escreveu Colombo.

29 O que não quer dizer que o tenha estudado com rigor e atenção, procedendo a registos sis­temáticos. Pelo menos, eles não são conhecidos e não é isso que se deduz do texto de Las Casas.

30 “Os marinheiros governavam mal, derivando para o quarto noroeste e mesmo para o meio quarto”. Cf. Colombo, C.: Diário de..., p. 24. É um fenómeno natural com o vento fresco.

Jorge Luís Matos

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A nacionalidade de Colombo é irrelevante

A palestra Em Torno da Mistificação de Colombo realizada na Academia de Marinha no passado dia 2 de Fevereiro saldou-se por uma completa desilusão. A comunicação foi dividida por três oradores e arrastou-se durante uma penosa hora e meia ouvindo-se dos comunicantes aquilo que já todos sabem das suas ideias. Esta estratégia revelou-se bem sucedida pois assim, tomando todo o tempo, não deixaram ao público a possibilidade de ver esclarecidas as suas dúvidas ou de poder contraditá-los na fase que neste tipo de encontros se reserva às perguntas e respostas.
Embora muitos ouvintes presentes pedissem a palavra no final, só três a obtiveram – dada a hora tardia – e estes limitaram-se ao discurso de circunstância na mesma linha de pensamento dos comunicantes. Salvou-se a promessa do presidente da Academia de Marinha de fazer futuramente uma mesa redonda sobre o tema.
O Presidente da Academia de Marinha, Almirante Vieira Matias, ladeado pelos vice-presidentes Prof.ª Doutora Raquel Soeiro de Brito e Prof. Doutor Francisco Contente Domingues dirigiram a sessão.

A apresentação de factos históricos foi algo em que os comunicantes foram avaros, selectivos, simplistas e manipulativos.
Carlos Calado iniciou a sessão ocupando grande parte do tempo a publicitar a associação de que faz parte, distribuindo referências aos seus membros e no meio disso ficou uma frase em que as duas orações que a compõem constituem afirmações contraditórias entre si. Parafraseando, a dita associação tem por objectivo (e segue-se uma citação livre) «Defender a portugalidade do navegador [Colombo] e divulgar os respectivos factos históricos».
Além disto ainda constata que os descendentes de Colombo não casam com gente de Génova deixando no ar a suspeita de não haver por isso qualquer relação com a república, não se lembrando de que os interesses desta família se localizavam em Castela e que essa é a razão para o estabelecimento de alianças matrimoniais. Alude também às romãs, S. Cristóvão e ao convento de Mafra; Bobadilla, capitulações de Santa Fé e à rota do regresso da sua primeira viagem ao Novo Mundo. Nessa altura alguns oficiais de Marinha presentes na sala começaram a mexer-se na cadeira com o mesmo desconforto que deveriam sentir os velhos pilotos do século XVI quando ouviam as teorias que vinham da Aula da Esfera.
Brandão Ferreira (Duby não é um filósofo francês!) apresentou uma explicação monocausal para a expansão ultramarina portuguesa que é nada menos a da espiritualidade especial dos portugueses – a devoção ao Divino Espírito Santo –, pois até chegarem à Mina estes só tiveram prejuízo. Já na Mina conseguiam atrair a cobiça dos castelhanos que começam a frequentar essas paragens (assim, sem mais). É neste quadro que aparece um agente secreto com o pseudónimo de Colón (ou será Colom?), mas sobre quem seria realmente e qual era o objectivo da sua missão nada foi dito a não ser a há muito conhecida teoria do desvio das atenções castelhanas para um novo continente (pairava no ar o factício Salvador Gonçalves/Fernandes/Henriques Zarco, mas não se materializou, do mesmo modo também esteve sempre omnipresente a figura de Mascarenhas Barreto, pelo menos na maior parte das ideias que aí foram apresentadas).
Paiva Neves começou por evocar a «versão oficial» [da História] sem dúvida inspirado no seu colega primeiro orador que também se referiu à «tese oficial» da naturalidade de Colombo. Um mau princípio porque usando essas expressões negam a possibilidade da própria História, é que história oficial não é História.
Continuando, duvida que a naturalidade genovesa e origem humilde possibilitasse ao navegador chegar onde chegou: casar, navegar, ser culto, etc. Cita alguns historiadores, descontextualizando-os o suficiente para parecer que partilham das mesmas ideias, o mesmo fazendo com Rui de Pina quando alerta para as referências a Colombo e a ausência das mesmas para Bartolomeu Dias.
Entrou depois no tema forte da sua comunicação: a mística franciscana em Colombo, o que sempre é uma alternativa à, há muito, insustentável mística templária.
Também insustentável é a interpretação da recepção de Colombo por D. João II no regresso da primeira viagem e é completamente absurda a leitura do «especial amigo» na carta de 1488 deste monarca ao futuro almirante. Nestes casos revela-se desconhecimento das formas protocolares de tratamento, seja na Corte, seja na correspondência.
Já o presidente da Academia apelava para o fim da conferência quando, na linha de José Martins, Brandão Ferreira remata lançando o repto à Academia de Marinha para criar um grupo interdisciplinar de estudo – inclusivamente com especialistas na cabala – para provar a nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo.
Para quem afirma haver uma história oficial propõe que, em vez dessa, se faça história oficial, a sua.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Mais um atentado ao património histórico nacional

A eventual construção dum cais de cruzeiros em Angra do Heroísmo destruirá irremediavelmente o património arqueológico subaquático da baía. Com isso Portugal continuará a vender os anéis para sustentar interesses (quiméricos) passageiros à custa dum património que não é nosso mas dos nossos netos e da humanidade e do qual somos simples gestores.
À carta aberta ao Presidente do Governo Regional dos Açores que Alexandre Monteiro escreveu em 23 de Outubro de 2009 e à notícia do Público de 25 de Janeiro de 2010 deve-se acrescentar uma outra informação veiculada por outro arqueólogo subaquático português acerca da miragem que são os navios de cruzeiro: em Tobago este tipo de navios arrancaram do fundo do mar com as suas hélices de manobra não só os vestígios arqueológicos como também os restos humanos que aí repousavam e em San Juan de Porto Rico as hordas de turistas que desembarcam por poucas horas conspurcam e incomodam a população local sem lá deixarem dinheiro que compense esses danos.

O turismo de cruzeiro pouco ou nada de valor dá aos portos de escala e certamente não dará a Angra do Heroísmo, mas se ainda assim o poder quiser esbanjar o dinheiro público em mais um projecto faraónico que o faça na Praia da Vitória.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

António Gallo - De navigatione Columbi per inacessum antea Oceanum Commentariolus


Thacher, John Boyd
Christopher Columbus, His Life, His Works, His Remains, as revealed by original printed and manuscript records, together with an Essay on Peter Martyr of Anghera and Bartolomé de las Casas, the first Historians of America, Volume I, Parte I, 1903, pp. 189 a 195.

Rerum-Italicarum-Scriptores

«

189

CHAPTER XXVIII

THE FIRST GENOESE BIOGRAPHERS

The historian can perform no better service than to present

the sources of his information.

(...) Antonio Gallo, the first of

these, was one of the most eminent citizens of Genoa. He was //

190

// Chancellor of the Bank of St. George, (1) as his father, Ambrosio,

had been before him, and as his own son, Bernardo, was after

him. From June 14, 1477, until he died he was the official

chronicler of the Republic. The following is his record concern-

ing Christopher Columbus:Rerum_Italicarum_Scriptores

"Muratori, Rerum Italicarum, vol. xxiii., p. 301. Antonii Galli.

"De navigatione Columbi per inaccessum antea Occeanum Commentariolus

"Christophorus & Bartholomaeus Columbi, fratres, natione Ligures, ac

Genuae plebejis orti parentibus, & qui ex lanificii (nam textor pater, car-

minatores filii aliquando fuerunt) mercedibus victitarent, hoc tempore per

totem Europam, audacissimo ausu, & in rebus humanis memorabili novitate,

in magnam claritudinem evasere. Hi siquidem intra pueriles annos parvis

literulis imbuti, & puberes deinde facti, de more gentis in navigationes ex-

iverant. Sed Bartholomaeus, minor, natu in Lusitania demum Ulissipone

constiterat, ubi intentus quaestui tabellis pingendis operam dedit, queis ad

usum nauticum justis illineationibus, & proportionibus servatis, maria, por-

tus, littora, sinus, Insulae effigiantur. Proficiscebantur ab Ulissipone quo-

tannis, ac redibant emissa navigia, quae coeptam ante hos annos quadraginta

navigationem per Oceanum ad Occidentales AEthiopes continuatas terras,

gentesque omnibus retro seculis incognitas, aperuere. Bartholomaeus autem

sermonibus eorum assuetus, qui ab alio quodammodo terrarum orbe redibant,

studio pingendi ductus, argumenta, & animi cogitatum cum fratre rerum

nauticarum peritiore communicat, ostendens omnino necessarium. si quis

AEthiopum Meridionalibus littoribus relictis in pelagus ad manum dexteram

Occidentem versus cursum derigeret, ut is procul dubio continentem terram

aliquando obviam esset habiturus. Qua persuasione Christophorus in-

ductus, in aulam Regum Castellae se se insinuans, viros doctos alloquitur, ac

docet, in animo sibi esse, nisi adjumenta defecerint, multo praeclarius, quam

Lusitani fecissent, novas terras, populosque novos, unde minime putetur,

invenire. Haec autem ad aures Regias per hos viros, quibus ea vana non

viderentur, delata, studio glorise, atque cum Lusitanis aemulationis incensos,

Reges perpulere, ut Columbo bina navigia exornari ad eam navigationem,

quam meditatus erat, jusserint. Quibus ille navigiis postquam ab Insulis

Fortunatis Meridiem versus navigaverat, ac jam proximus ei Paralello vi-

deretur, qui sub Cancro est, declinans ad manum dexteram, atque altum,

inaccessum, vastumque petens, omnium navigantium audacissimus com-

plures dies ad Occidentem tenuit. Neec tamen usquam aut Insulae, aut

aliae terrae apparebant, quamvis quadragies centena millia passuum a Gadi-

bus Occidentem versus remotum se se jam esse arbitraretur. Jamque in

desperationem verti audacia coeperat; nam etiam ex comitibus plerique

retro cursuum, ne, si perseverarent, alimenta deficerent, suadebant. Sed

________

(1) It was in his hand as an official of the bank that one finds recorded in the books of

that institution the reception of the two famous holograph letters written by Chris-

topher Columbus.//

La-fiaccola-della-Verità-An

191

// ipse animi constans, & vultu intrepidus, turn demum dixit, certum sibi esse,

quod cognitis ac perspectis signis animadverteret, in posterum diem terras

apparituras; dictoque mox fides non deficit: quae illi maximam auctori-

tatem, ac dictorum factorumque omnium posthac fiduciam apud suos

addidit. Insulae erant, ut postmodum ipse per epistolas scripsit, ad septin-

gentas a continenti (quam tamen Insulam nondum circumactis navigiis

arbitraretur) non multum diremtae. Ex his feri quidam homines aliquot

inculunt, quos Canibales appellant, humana carne vescentes, ac Insularum

aliarum Populos latrociniis infestantes. Nam cavatis magnarum arborum

truncis navigantes ad proximos trajiciunt, atque homines quasi feras incibos

venantur. Ex his cavatis arboribus unum in mari nactus Columbus plenum

hujusmodi feris hominibus, non sine proelio, ac magna vi, cum se se accer-

rime defenderent, cepit, captivosque ex his nonnullos in Hispaniam usque

postea pervexit.

"Primam, ad quam appulit, Insulam, Hispaniolam nuncupavit, in qua

multi mortales paupertate ac nuditate conspicui cernebantur. Hos primo

nutibus ad securitatem congressus evocatos, postque donis & omni genere

humanitatis alliciebat. Facile apparebant stupentes novi coloris, novique

habitus alienigenas homines, non tamquam terrigenas, sed tamquam e

coelo demissos admirati. Nulla ibi animalia quadrupedia, praeter canes

quosdam pusillos haberi cognitum est. Alimenta hominum sunt radices

quaedam, & glandes longe alia figura quam nostrae, pares tamen sapore, nisi

essent etiam jucundiores. Aurum modicum collo pendente lamina an-

nexum, & pectori haerente; ac ad usque pudenda quasi velamen paucis

deductum, virorum mulierumque commune. Sed Christophorus quad

maxime quassiverat, consequutum se existimans, retro ad Hispaniam re-

meare quamprimum constituit, ut instructior deinde ad has easdem Insulas

terrasque rediret. Relictis igitur quadraginta ex suis in locum, quem

ceperat, & communiverat, quasi possessionem pro Regibus Castellae adeptus,

& se se mox rediturum pollicitus, linquens littora illa cursum retro ad Ori-

entem, unde venerat, direxit, in Hispaniamque revertitur; nuntiosque

praemisit, quibus omnia a se gesta Reges pernoscerent: quibus ea plusquam

dici posset gratissime fuere. Nam Christophorum delatis honoribus extollen-

tes, & Praefectum Regium totius rei maritimae declarantes, obviam illi miser-

unt clarissimos ex omni Regno proceres, a quibus ad se honorificentissime

deduceretur. Adduxerat ipse ex Barbaris secum aliquot, per quos gestae rei

fides magis confirmaretur. Ceterum ut Reges volebant, fama per omnes

terras interea diflunditur, auro plurimo inventum orbem (quem Indiam

vocitabant) & aromatibus, & plerisque rebus pretiosissimis ad usum vitae

mortalium abundare. Alia igitur navigia pluscula, & minora parantur, &

rebus his instructiora, quibus Barbarorum animi allici magis posse puta-

bantur. In primis autem homines ex omni artificio, & animalia complura

ex omni genere, etiam sues, quorum incrementum mirabile postea fuit. Sed

triticum a semente prima statim ad altitudinem grandiusculam enatum,

antequam spicesseret, evanescens, deperierat. At Regum jussu arma

virique navibus numero duodecim imponuntur, ut vel etiam renitentes//

192

// Barbari ad quodlibet officium cogerentur. Bartholomaeum, ac tertium fra-

trem jacobum in ea expeditione Christophorus secum duxit, classemque

hujusmodi ad Hispaniolam per navigationem dierum non amplius viginti

salvam perduxit; suosque quos reliquerat, ad unum omnes a Barbaris

reperit strangulatos, quod in eorum mulieres injurii fuisse dicerentur.

"Sed Christophorus accepta quidem Barbarorum ingratitudine atque

saevitia, cum his tamen per nova beneficia reconciliatus, dolorem dissimu-

lans, quo ad reliqua destinata animo expeditior progrederetur, de auro

primo inquirit, & de speciebus in nostro orbe pretiosioribus. Aurum modi-

cum, & semen quoddam Piperi persimile & figura & sapore, non multum

colligit. Oppidum adductis materiis aedificat, eique Elisabat nomen in-

didit. Ipse duabus ex omni numero navium assumtis Insulam ipsam cir-

cuit; utque ulteriora pernosceret, litus Johannae, quam Insulam quoque

penetraverat, ita primo adventu nuncupatem, dies unum & septuaginta

pernavigat, Occidentum versus perpetuo cursum tenens. Nullam umquem

navigationem, neque longiorem, neque diuturniorem continuatione fuisse

constat; quippe circiter sexagies centena millia passuum vir nauticus, &

cursus navigiorum aestimator peritissimus confecisse se ex dierum noctium-

que cursu computato, ipsemet in epistolis, quas vidimus manu propria

ipsius subscriptas, prodidit. Ultimum locum Evangelistam nuncupavit.

Remeansque, quantum licuit, sinus, promontoria, portus, atque omne litus

decursum signavit in Tabula. Referebat autem hoc litus elevationem

Aretici Poli decem & octo graduum habere, cum quatuor & viginti.

Septentrionale littus Hispaniolae Insulae Poli ipsius altitudinem ostendat.

Dicebat quando etiani ex observatione suorum, Anno Domini Quarto, &

Nonagesimo & Quadringentesimo supra Millesimum Eclipsim apparuisse

mense Septembris quatuor horis naturalibus ante in Hispaniola quam Hispali

visam fuisse: ex qua computatione colligi licet, cam Insulam horis quatuor,

& Evangelistam, si modo vera referuntur, decem a Gadibus & Hispania

distare; quo modo non amplius duabus horis, hoc est duodecima parte

totius circuli terrarum ab eo loco, quem Bartholomaeus Catigara vocat, &

ultimum habitabilem in Oriente constituit, abesse. Per quas duas horas

si dabitur, non obviantibus terris, posse navigare, ultimus Oriens, omni de-

curso inferiori nostro Emispherio, cursu contrario conjunctus fuerit a ten-

dentibus in Occidentem. Finis.

Incaluere-Animi

"Brief Relation of Antonio Gallo Concerning the Voyage of Columbus by Way
of an Ocean Hitherto Unknown

"Christopher and Bartholomew Columbus, brothers, of the Ligurian

nation, sprung from plebeian parentage and who supported themselves

from the wages of wool-working (for the father was a weaver and the sons

were at times carders), at this time acquired great fame throughout the

whole of Europe by a deed of the greatest daring and of remarkable novelty

in human affairs. Even if these had small learning in their youth, when//

193

// they were come of age, they gave themselves to navigation after the manner

of their race. But at length Bartholomew, the younger by birth, estab-

lished himself at Lisbon in Portugal, where for his livelihood he undertook

the production of painted maps adapted to the use of mariners, on which in

correct drawings and their true proportions are represented seas, harbours,

coasts, bays, and islands. Every year there went forth from Lisbon and

returned expeditions by the sea to the Western coasts of Africa, which had

their beginning forty years before, and which revealed continental lands

and peoples unknown in all ages. But Bartholomew, influenced by his

study of maps and familiar with the tales of those who in some manner re-

turned from distant parts of the world, communicated their arguments and

thoughts to his brother, more skilled in maritime matters, disclosing how, as

a matter of necessity, if any one leaving behind him the southern shores of

Africa should direct his course in the open sea to his right hand, toward the

west, he would surely come somewhere on his way upon continental lands.

Christopher, influenced by this reasoning, obtaining admission to the Court

of the Sovereigns of Castile, discussed the matter with learned men and

declared his purpose, unless he failed to secure assistance, to discover much

more easily than the Portuguese had done, new lands and new peoples in

places little thought to hold them. But these things being reported by

these men to the ears of the Sovereigns, to whom they did not seem chimer-

ical, the Sovereigns urged on by a desire for glory and roused to action by a

spirit of rivalry toward the Portuguese, commanded that Columbus should

be supplied with a couple of ships from the expedition which he had planned.

With which ships, after that he had sailed toward the south of the Fortu-

nate Islands and when it seemed that he was on the same parallel, turning

to the right hand and thus directing his course out on the deep, unknown,

and vast ocean, most daring of all navigators, he held on his way toward the

West for many days. Notwithstanding, neither islands nor other lands ap-

peared, although he estimated that he had sailed in the distant sea 4000

miles from the straits of Cadiz. And now courage altered and despair be-

gan, for many of his crew pleaded with him to turn back on his course, lest

if they persevered their supplies should fail. But he himself, constant of

purpose and serene of countenance, declared that he was himself certain,

judging by signs which he knew and recognised, that lands would appear

the following day: and thereupon confidence in him was not wanting: and

this increased his great authority and the faith in his words and deeds

which ever afterward prevailed among his followers. The islands were

seven hundred, as he afterwards wrote in his letters, not very far from the

continent (which he considered the island to be as it had not yet been cir-

cumnavigated by ships). Of these islands some are inhabited by wild men

whom they call cannibals, feeding on human flesh, disturbing the people of

the other islands with their robberies. For they cross over to the neigh-

bouring islands, navigating in the hollowed trunks of trees, and the men are

hunted for food as if they were wild beasts. Columbus, meeting on the sea

with one of these hollowed trees filled with the wild men, captured it, not//

Lodovico_Antonio_Muratori

194

// without a struggle and great force, for they defended themselves valiantly,

and when he returned he brought back to Spain with him as captives some

of these. He named the first island on which he landed, Española, in which

were seen many people conspicuous for their poverty and nakedness. He

enticed to him these people, who were crowded together for safety, first by

signs and afterwards by gifts and all kinds of gentleness. They easily ap-

peared affected by their new colour and by men dressed in strange and new

ways, admiring them as not natural to their world but as if sent from heaven.

No quadrupeds are known to be there except certain very small dogs. The

foods of these people are certain roots and acorns longer in shape than ours,

but equal in flavour, unless they might be a little more pleasant. From

their neck and breasts and fastened by a hanging plate they have a little

gold: and some of them have a sort of garment covering their natural parts,

a custom common to both men and women. But Christopher, thinking

that he had found that for which he so eagerly sought, determined to sail

back to Spain in order that with better equipment he might return to these

same islands and lands. Therefore forty of his people being left behind in

the places which he had taken and fortified, taking possession as if for the

Sovereigns of Castile, and promising his people quickly to return, leaving

those shores, he directed his course toward the East, whence he had come,

and returned into Spain: and he sent messengers, from whom the Sovereigns

learned of all that had been accomplished, by which they were pleased more

than it is possible to relate. Extolling Christopher with honours and nam-

ing him Royal Admiral for all maritime affairs, they sent to meet him the

most illustrious men in their whole kingdom, by whom he was most honour-

ably conducted into their presence. He himself had brought with him

some of the savages, by whom he was able to confirm the magnitude of the

thing accomplished. And so the Sovereigns wished that the fame of this

might be disseminated throughout all lands and that the world discovered

(which they called India) abounded in much gold and spices and many

things most precious for the use of mortals. Other ships were prepared,

some larger and some smaller, but better adapted for these things, with

which the minds of the savages might be more easily won. But first of all

they sent men representing every trade and many animals of every kind as

well as sows, whose fertility afterward was marvellous. But wheat from its

first sowing sprang up to a most inordinate height, and then, before it had

blossomed, it withered away. And at the order of the Sovereigns twelve

of the ships in number were loaded with men and arms so that if the savages

resisted they might be brought to whatever employment was best. Chris-

topher took with him on this expedition Bartholomew and a third brother

Jacobus and he conducted his fleet safely to Española by a navigation

lasting not more than twenty days; he found his people whom he had left

behind him strangled to the very last man by the savages because they said

their women had suffered injury.

"But Christopher, enduring the ingratitude and treachery of the savages,

reconciled himself to them with renewed benefits, dissimulating his grief in//

195

//order that he might proceed more expeditiously to the things remaining to

be done: he inquired first for gold and for the things most precious in our

world. He gathered a little gold and a seed like to that of pepper in shape

and flavour. He built a town of materials brought with him, and to it he

gave the name of Elizabeth. He himself, with two vessels selected from all

the fleet, sailed around the island: and as he thoroughly examined the

country farther along, he navigated to the coast of Joanna, which island he

had found, so naming it on his first voyage, sailing along it for one and

seventy days, continually holding a course toward the west. Never has

there been such a navigation nor one of such length, nor one of such dura-

tion, as this sailor man declares that it was of 6000 miles, and he is most

skilled in estimating the courses of navigations, computing the course by

days and nights, as he himself described in his letters which we have seen

written by his very own hand. He named the region farthest distant,

Evangelista. And returning, as he chose, he described on a map the bays,

promontories, harbours, and the entire coast. He reported that on this

coast the Arctic Pole was elevated 18 degrees and on the north side of the

island of Española the elevation was 24 degrees. He declared also from

the observation of his people that when in the year of our Lord 1494 there

appeared an eclipse in the month of September, it was seen in Española four

hours before that it was visible in Spain: from which calculation it may be

deduced that this island is distant four hours and that Evangelista, if they

are correctly reported, ten hours from the straits of Cadiz and Spain: by

which it is estimated that it is not more than two hours, that is the twelfth

part of the whole circumference of the earth, from that place which Bar-

tholomew calls Catigara and the last habitable place to the East. So if it

be possible to sail on these two other hours, no intervening lands occurring,

the farthest East lying directly under our hemisphere will be united in a

contrary course by those going to the westward." »

____________

Ver também:

L.A.MURATORI

___________

Imagens:

Christophorus Columbus, apud, Giovio, Paolo (1483-1552): Elogia virorum bellica virtute illustrium: Septem libris iam olim ab Authore comprehensa, Et nunc ex eiusdem Musaeo ad vivum expressis Imaginibus exornata. - Basil.: Petrus Perna, 1596.

Incalvere Animi em, Antiquitates Italicae, Medii Aevi, sive Dissertationes (...) Ludovico Antonio Muratorio (...)Mediolani, MDCCXLI

La fiaccola della Verità, dall'opera Antiquitates Italicae Medii Aev

Ludovico Antonio Muratori

L.A.MURATORI

Eduardo Albuquerque

Mais do mesmo...

  • Rosa, Manuel da Silva. Colombo Português - Novas Revelações, Lisboa, Ésquilo, 2009.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Naturalização de Diogo Colombo


DON MARTIN FERNANDEZ DE NAVARRETE, Colección de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV, con varios documentos ineditos concernientes á la historia de la marina castellana y de los establecimientos españoles en Indias, Tomo II, De Orden de S. M. Madrid, en la Imprenta Nacional, 1859, pp. 333 a 335.

«(...)

NÚMERO CLIV.

Naturaleza de Reinos á D. Diego Colon, hermano del Almirante
Don Criatóbal. (Registrada en el Real Archivo de Simancas
en el Sello de Corte.)

1504
8 de Febr.

Don Fernando é Doña Isabel, por la gracia de Dios &c.: Por
hacer bien é merced á vos D. Diego Colon, hermano del Almi-
rante D. Cristóbal Colon, é acatando vuestra fidelidad é leales
servicios que nos habéis fecho, é esperamos que nos fareis de
aquí adelante, por la presente vos facemos natural destos nues-
tros Reinos de Castilla é de León, para que podais haber é ha-
yáis cualesquier dignidades é beneficios Eclesiásticos que vos
fueren dados, é podáis gozar é goceis de todas las honras é gra-
cias é mercedes é franquezas é libertades, exenciones é perro-
gativas é inmunidades, é de todas las otras cosas é cada una//

334

// dellas que podiades é debiades haber é gozar si fuesedes natural,
de los dichos nuestros Reinos é Señoríos, é por esta nuestra Car-,
ta, ó por su traslado signado de Escribano público, mandamos
á los Ilustrísimos Príncipes D. Felipe é Doña Juana, Archiduques,
de Austria , Duques de Borgoña &c. nuestros muy caros é muy
amados Fijos; é á los lnfantes, Duques, Prelados, Condes, Mar-
queses, Ricos-Homes, Maestres de las Ordenes; é á los del nues-
tro Consejo é Oidores de la nuestra Audiencia é Alcaldes é Algua-
ciles de la nuestra Casa é Corte é Chancillerías, é á los Priores,
Comendadores é Subcomendadores, Alcaides de los Castillos é
Casas fuertes é llanas, é á los Concejos, Corregidores, Asistente,
Alcaldes, Alguaciles, Regidores, Caballeros , Escuderos, Oficia-
les é Homes-Buenos de todas las Ciudades é Villas ó Logares de
los nuestros Reinos é Señoríos, é á otras cualesquier personas,
nuestros súbditos é naturales, de cualquier ley, estado ó condi-
ción, preeminencia ó dignidad que sean ó ser puedan, que agora
son ó serán de aquí adelante, que vos hayan é tengan por na-
tural de estos nuestros Reinos, así como si fuesedes nacido é
criado en ellos, é vos dejen ó consientan haber cualesquier dig-
nidades é beneficios Eclesiásticos é otras cualquier cosas que en
ellos hobieredes é vos fueren dados é encomendados, según di-
cho es, así como si fuesedes nacido é criado en ellos, como dicho
es; é vos guarden é fagan guardar todas las honras é gracias é
mercedes é franquezas é libertades é exenciones, preeminencias,
prerogativas é inmunidades é todas las otras cosas, é cada una
de ellas que podiades é debiades haber é gozar siendo natural de
estos dichos nuestros Reinos, é que en ello ni en parte de ello
embargo ni contrario alguno vos no pongan ni consientan poner;
lo cual mandamos que así se faga é cumpla no embargante cua-
lesquier leys é ordenanzas de estos nuestros Reinos que en con-
trario de lo suso dicho sean ó ser puedan: con las cuales, y cada
una dellas, de nuestro propio motu, y cierta ciencia y poderío
Real absoluto, de que en esta parte como Rey é Reina é Señores
naturales queremos usar, dispensamos en cuanto á esto toca é
atañe, quedando eu su fuerza y vigor para en las otras cosas
adelante: é los unos ni los otros no fagades ni fagan ende al por
alguna manera, so pena de la nuestra merced é de diez mil ma-
ravedís para la nuestra Cámara á cada uno que lo contrario fi-
ciere; é demas mandamos al horne que les esta nuestra Carta mos- //

335

// trare que los emplace que parezcan ante Nos en la nuestra Corte,
do quier que Nos seamos, del dia que los emplazare fasta quince
dias primeros siguientes, so la dicha pena; so la cual mandamos
á cualquier Escribano público, que para esto fuere llamado, que
dé ende al que ge la mostrare testimonio signado con su signo,
porque Nos sepamos en cómo se cumple nuestro mandado. Dada
en la Villa de Medina del Campo á ocho dias del mes de Febrero,
año del Nascimiento de nuestro Señor Jesucristo de mil quinien-
tos é cuatro años.=YO EL REY.=YO LA REINA.=Yo Gaspar
de Gricio, Secretario del Rey é de la Reina nuestros Señores, la
fice escribir por su mandado.=M. Doctor.=Archidiaconus de Ta-
lavera.=Licenciatus Zapata.=Licenciatus Polanco.»

______________

Imagens:


______________

Eduardo Albuquerque

domingo, 15 de novembro de 2009

Os Fugger - Um Notável Exemplo de Ascensão Social


Da Bayerische Landesbibliothek Online divulgamos estas breves notas:

«Resources on the history of the Fugger family

The Fugger family, a family of weavers that had moved to Augsburg in 1367, in the course of the 15th and 16th century became one of Europe's most powerful merchant dynasties. Ennobled at the beginning of the 16th century, the Fuggers started to withdraw step by step from business during the second half of the century. In the decades following 1600 they adopted an aristocratic lifestyle.
In 2009 the Bayerische Staatsbibliothek (Bavarian State Library) acquired two precious and highly informative books on the family history of the Fuggers.

Das Geheime Ehrenbuch der Fugger
Signatur: Cgm 9460



Fuggerorum et Fuggerarum... imagines
Signatur: Cod.icon. 380
»

Em acréscimo, damos publicidade a mais estes registos da Wikipédia:

«"Jacob Fugger the Rich"

He was elevated to the nobility of the Holy Roman Empire in May 1511, and in 1519, led a consortium of German and Italian businessmen that loaned Charles V 850,000 florins (about 95,625 oz(t) of gold) to procure his election as Holy Roman Emperor over Francis I of France. The Fugger's contribution was 543,000 florins. Jakob died in 1525. He is considered to be one of the richest persons of all time, and today he is well known as Jakob Fugger 'the rich'. »

«La asociación con Maximiliano I

La arriesgada, pero también extremadamente lucrativa, asociación de los Fugger con Maximiliano I es sin duda atribuible a Jakob. Con su apoyo la casa de los Habsburgo fue la dinastía dominante en el futuro del Sacro Imperio. (...)

El 15 de julio de 1507 el empeñó a Jakob Fugger el condado de Kirchberg, la ciudad de Weißenhorn y los señorío de Senden, Pfaffenhofen an der Roth y otras posesiones de los Habsburgo en Austria Anterior (...)»

Jakob Fugger era representado na Península Ibérica por Fernão de Noronha ou Fernão de Loronha, português, cristão-novo, no futuro um dos maiores exploradores de pau-brasil, elevado à condição de fidalgo de cota de armas por D. João III, em 1532.

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Fontes:



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Ver também:

Ehrenberg, Richard
Das Zeitalter der Fugger: Geldkapital und Creditverkehr im 16. Jahrhundert (1896);
Haebler, Konrad
Die Geschichte der Fugger'schen Handlung in Spanien (1897);
Stauber, Anton
Das Haus Fugger;
Schulte, Aloys
Die Fugger in Rom, 1495-1523. Mit Studien zur Geschichte des kirchlichen Finanzwesens jener Zeit (1904);
Jansen, Max
Die anfänge der Fugger (1907);
Hümmerich, Franz
Die erste deutsche Handelsfahrt nach Indien, 1505/06: ein Unternehmen der Welser, Fugger und anderer Augsburger sowie Nürnberger Häuser (1922);
Klarwill, Victor
Fugger-Zeitungen: ungedruckte Briefe an das Haus Fugger aus den Jahren 1568-1605 (1923).
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Imagens:



Eduardo Albuquerque

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Cristóvão Colombo - Despacho de D. Pedro de Ayala




BIGGAR, Henry Percival
The Precursors of Jacques Cartier, 1497 - 1534, A Collection of Documents Relating to the Early History of the Dominion of Canada, Publications of the Canadian Archives - n.º 5, Ottawa, Government Printing Bureau, 1911, pp. 27 a 29.

«(...)



XIV.

25 July, 1498.(1)

DISPATCH OF PEDRO DE AYALA TO FERDINAND AND ISABELLA.

... Bien creo Vuestras Altezas an oido (2) como el rey de Ingla-
terra ha fecho armada para descubrir ciertas islas o tierra
firme que le han certificado hallaron ciertos que de Bristol
armaron el año passado para lo mismo. Yo he visto la carta
que ha fecho el inventador que es otro ginoves como Colon que
ha estado en Sevilla i en Lisbona procurando haver quien le


ayudasse a esta invencion. Los de Bristol, ha siete años que
cada año an armado dos, tres, cuatro caravelas para ir a buscar
la isla del Brasil i las Siete Ciudades con la fantasia deste Gin-
oves. El rei determino de enbiar porque el año passado le
truxo certenidad que havian hallado tierra. Del armada que hizo,
que fueron cinco naos fueron avituallados por un año. Ha
venido nueva, la una en que iva un otro Frai Buil aporto en Ir-
landa con gran tormenta roto el navio. El ginoves tiro su
camino. Yo, vista la derrota que llevan y la cantitad del cam-
ino hallo que es lo que han hallado o bucan lo que Vues-
tras Altezas poseen, porque es al cabo que a Vuestras Altezas
cupo por la convencion con Portugal. Sperase seran venidos
para el setiembre. Hago lo saber a Vuestras Altezas. El Rei
[de Ynglaterra] me a fablado algunas vezes sobreello; spera aver muy gran in-
teresse. Creo no ai quatro cientas leguas. Lo le dixe, creya
eran las halladas por Vuestras Altezas, i aun le dia la una
razon, no lo querria. Porque creo Vuestras Altezas ia tendran
aviso de todo esto y ansimisnio al carta o napamundi (sic) que


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(1) For a supposed dispatch of De Puebla's of this date, vid. Revue
Hispanique, tome XV. 482-5 Paris, 1906.
(2) The words in italic are in cipher in the original. //

28

// este ha fecho, io no le enbio aora, que aqui la ai, y a mi ver bien
falso por dar a entender, no son de las islas dichas....

De Londres a xxv de Julio.



From the Archives at Simancas, Tratados con Inglaterra,
leg. 2º, fol. 196: original: printed in Desimoni, op. cit., 234-5;
Harrisse, Jean et Sebastien Cabot, 329-30; Tarducci, op. cit.,
332-3; Raccolta Colombiana, parte V, vol. II, p. 218; and
Weare, op. cit., 160-1 (from Harrisse).

XIV A.

... I think Your Highnesses have already heard how the king
of England (1) has equipped a fleet to explore certain islands or
mainland which he has been assured certain persons who set out
last year from Bristol in search of the same have discovered. I



have seen the map made by the discoverer, who is another
Genoese like Columbus, who has been in Seville and at Lisbon
seeking to obtain persons to aid him in this discovery. For the
last seven years the people of Bristol have equipped two, three
[and] four caravels to go in search of the island of Brazil and
the Seven Cities according to the fancy of this Genoese. The
king made up his mind to send thither, because last year sure
proof was brought him they had found land. The fleet he pre-
pared, which consisted of five vessels, was provisioned for a year.
News has come that one of these, in which sailed another, Friar
Buil (2), has made land in Ireland in a great storm with the ship
badly damaged. The Genoese kept on his way. Having seen
the course they are steering and the length of the voyage, I find
that what they have discovered or are in search of is possessed
by Your Highnesses because it is at the cape which fell to Your
Highnesses by the convention with Portugal.(3) It is hoped they
will be back by September. I let [?will let] Your Highnesses
know about it. The king has spoken to me several times on the
subject. He hopes the affair may turn out profitable. I believe
the distance is not 400 leagues. I told him that I believed
the islands were those found by Your Highnesses, and
although I gave him the main reason, he would not have it.
Since I believe Your Highnesses will already have notice of all

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(1) Henry VII.
(2) Who sailed with Columbus on his second voyage.
(3) The treaty of Tordesillas [1494].cf. p. XV., note 2. //




29

// this and also of the chart or mappemonde which this man has
made, I do not send it now, although it is here, and so far as I
can see exceedingly false, in order to make believe that these are
not part of the said islands [of Your Highnesses]...

London, 25 July, 1498.

Also translated in Bergenroth op. cit., 176-7, No. 210 (the
sentence about the convention with Portugal being omitted);
Proceedings of the American Antiquarian Society for 21 Oc-
tober 1865, 25-6 (from Bergenroth); Weise, op. cit, 195-6;
Nicholls and Taylor, op. cit., Ill, 296-7 (from Bergenroth);
The Historical Magazine, 2nd ser. Ill, No. 3, 134 F, (ditto);
Markham, op. cit., 208-9; Old South Leaflet No. 115, p. 5;
Prowse, op. cit., 29; Weare, op. cit., 161-3 (from Bergenroth);
Beazley, op. cit., 101-2; and Bourne, op. cit., 429-30.»