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terça-feira, 17 de março de 2009

Subsídios para a História de uma polémica (II)

Waldemar Paradela de Abreu, editor da Referendo, publica o livro de Augusto de Mascarenhas Barreto O Português Cristóvão Colombo Agente Secreto do Rei Dom João II em 1988 do qual ainda no mesmo ano, em Setembro, se publica uma segunda edição – ou se calhar, mais propriamente, uma segunda impressão.
O livro em si poucas, ou nenhumas, novidades apresenta em relação ao que outros autores já haviam escrito em Portugal desde que em 1915-1916 Patrocínio Ribeiro teve a duvidosa honra de primeiro reclamar a nacionalidade portuguesa para Cristóvão Colombo na refutação que fez de Celso Garcia de la Riega, ideias essas que mereceram três edições.
Pouco acrescentando ao que anteriormente havia sido escrito, mantendo praticamente os mesmos erros e acrescentando outros de sua lavra, o que consta no livro de Mascarenhas Barreto é dado como se de grande originalidade e descoberta do seu autor se tratasse. É uma simples desonestidade intelectual, mas nada de mais, pois há que vender o produto a um grande público que não tem, propriamente, memória de bibliófilo, o que já não acontece com os especialistas.
Precisamente porque os especialistas sabem de bibliografias (e têm mais com que se preocupar do que com o trabalho de amadores a fazerem pela vida) ignoraram o livro de Mascarenhas Barreto – ou pelo menos não foram lestos a cantarem hossanas como o autor desejaria, mas de modo algum impediram que propagandeasse as suas ideias como muito bem quis e entendeu.
Tanto assim foi que a própria Academia de Marinha – uma instituição que contava (e conta) entre os seus membros alguns dos mais prestigiados especialistas em História da Marinha e dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa – lhe abriu as portas para que pudesse aí apresentar as suas ideias. Como se isso não bastasse, a mesma instituição publicou essa comunicação em 1990 (por esta altura também deverá ter ocorrido uma comunicação do mesmo autor na Sociedade de Geografia de Lisboa).
Estas atenções da Academia de Marinha são tão mais louváveis, quanto, desde muito cedo, Mascarenhas Barreto não se coibiu em trazer para a praça pública um debate que deveria processar-se no meio científico. E isso é ainda mais lamentável quando rapidamente começa a recorrer à insinuação, ao insulto e, até mesmo, ao logro.
Fosse uma estratégia comercial, pressa em obter reconhecimento (numa área onde se leva décadas a obtê-lo) ou simples maus-fígados, Mascarenhas Barreto enveredou por uma via agressiva de apresentação e defesa das suas ideias, sem que lhe faltassem lugares onde o pudesse fazer. O jornal Correio da Manhã facultou-lhe um espaço onde, livremente, apresentou o que lhe ia na alma, sem, durante muito tempo, qualquer oposição ou réplica. O primeiro destes artigos, seis meses depois da segunda impressão do livro, é publicado em 13 de Março de 1989 com o título Os Caluniadores do Infante D. Henrique e, em pouco tempo, mais de duas dezenas de outros são passados nas rotativas do mesmo jornal.


A. Mascarenhas Barreto, «Os Caluniadores do Infante D. Henrique (I)», Correio da Manhã, 13-3-1989, pp. 2-3.
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À parte do amontoado de factos, interpretações e notas pseudo-eruditos, e portanto pouco esclarecedores de um qualquer problema histórico - além de a maior parte deles não serem coevos ou respeitarem à época do Navegador (e que se destinam somente a impressionar os leigos) – sobressai o modo displicente como se refere a alguns dos mais notáveis historiadores portugueses desde Luciano Pereira da Silva até Luís de Albuquerque, ao qual alude depreciativamente várias vezes quando não se lhe dirige abertamente de forma desagradavelmente negligente. Não é que os erros, imprecisões e interpretações alternativas não devam ser apresentados, o que não cai bem é a duplicidade de comportamento, pois na dedicatória que fizera a Luís de Albuquerque desfizera-se subservientemente em encómios, enquanto que publicamente insinua falta de patriotismo, motivações políticas e desmandos na gestão da coisa pública.


A. Mascarenhas Barreto, [«Dedicatória a Luís de Albuquerque»], in Luís de Albuquerque, Dúvidas e Certezas..., I, p. 173.
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A pretexto da protecção da honra do Infante D. Henrique, serve-se de um jornal de grande tiragem e muito popular para levar a cabo um vingança privada contra aqueles que considera servirem interesses nefastos ao país, defendendo alternativamente uma visão já ultrapassada da História e da política – se é que alguma vez as concepções que defende foram dominantes.
Sem grande subtileza, o auto-intitulado historiador Mascarenhas Barreto, desmascara os por si considerados pseudo-historiadores que ousaram denegrir o mito criado ao longo de séculos em torno da imagem do Infante D. Henrique. No entanto, sem qualquer propósita relação com o Infante, mete Cristóvão Colombo ao barulho – afinal a (quase) sua grande tese – e lá vem o Salvador Fernandes Zarco cujo nome descobriu depois de outros terem inventado um Cristóvão de Cólos, um Simão Palha ou um Salvador Gonçalves Zarco – outros agora querem-no D. Diogo, o Zombie, ou ainda Salvador Henriques Zarco, mas enfim...
Neste esforço acaba por se esquecer de explicar ao grande público como chegou a tão fabulosa descoberta, mas há que deixar os leitores na expectativa para que comprem o livro. Também não explica aqui, nem noutro lado, porque é que só ele usou uma sigla cabalística e mais ninguém antes ou depois dele.



A. Mascarenhas Barreto, «Os Caluniadores do Infante D. Henrique (II)», Correio da Manhã, 14-3-1989, pp. 2-3.
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Como quase todos os amadores que incautamente metem as mãos no passado, Mascarenhas Barreto revela grande dificuldade em lidar com o tempo histórico. A diacronia e a sincronia estão completamente ausentes no discurso, na interpretação e no uso dos conceitos. Como consequência cai no pecado mortal do historiador: o anacronismo. Mas isso não o impede mostrar complexos negativos em relação aos graus académicos e ao ofício de historiador enquanto actividade individual cujo mérito é de reconhecimento exclusivo pelos pares. Ao amesquinhá-los, tanto nestes artigos como no que publicará no Diabo, está a manifestar o sentido de inferioridade que continuará a afligir os partidários destas ideias pouco consistentes mais de vinte anos depois de dar início a estas diatribes.
Parafraseando um grande professor, um licenciado em Direito intitula-se jurista; um em Economia, economista, etc. No entanto, os licenciados em História (bem como a maior parte dos que se dedicam à História) não se intitulam historiadores e arranjam sempre uma qualquer outra designação para definir o seu trabalho. Na comunidade historiográfica o grau académico detido e a proveniência do mesmo são pouco relevantes, pois a competência manifestar-se-á pelo trabalho desenvolvido. Assim sendo a designação historiador é geralmente um atributo, como que um título de reconhecimento, dado aos autores já falecidos e de mérito firmado.
Se Mascarenhas Barreto, com toda a legitimidade, queria ser um historiador tinha de esperar para ver o seu trabalho reconhecido como sendo historiográfico; tinha de sujeitá-lo ao normal processo de reconhecimento deste ofício, que é a discussão e a crítica pela (e dentro da) comunidade historiográfica. Mas o mais notável de tudo isto nem é o esforço propagandístico (insultos à parte) de Augusto Mascarenhas Barreto. O espantoso é que vinte anos depois ainda haja quem leve este disparate a sério, chegando ao ridículo de, muitas vezes, chamar a si a autoria de ficções que, na realidade, são pertença de outros.

sábado, 10 de novembro de 2007

O código Colombo - O Método da Sopa de Letras

Mascarenhas Barreto, depois de Patrocínio Ribeiro, Pestana Júnior, et al. e uns anos antes de Doron Witztum, Eliyahu Rips, e Yoav Rosenberg inventarem o Código do Génesis, aplicou à assinatura de Cristóvão Colombo aquilo a que chamou o método cabalístico, mas que (nesta variante) com melhor propriedade se pode chamar de Método da Sopa de Letras.
Munido desse poderoso instrumento analítico gerou várias séries de caracteres donde sem grande esforço, mas não menor arrebatamento, extraiu das letras que figuram na assinatura de Cristóvão Colombo o nome Salvador Fernandes Zarco (e não importa que já antes outros, com menor esforço e menos palavreado, lhe tivessem chamado Salvador Gonçalves Zarco, entre outros epítetos).


Um dos muitos quadros de seriação de caracteres resultado da aplicação do Método da Sopa de Letras. Repare-se nos originais pormenores dos itálicos ou de como até existem reais palavras portuguesas pelo meio e que foram totalmente desprezadas na construção do personagem SFZ.
Mascarenhas Barreto, Cristóvão Colombo..., 2.ª ed., Lisboa, imp. 1988, p. 351.


Salvador Fernandes Zarco (SFZ, para os íntimos e para os amigos da vinhaça) é caso único em toda a História Universal. A Sopa de Letras que o gerou não mais foi usada para a revelação dos mistérios históricos. Será um daqueles moldes perdidos depois do uso? É que para além do alienado navegador – que demorando mais um pouco a compor a assinatura nunca seria almirante e ainda hoje pastariam bisontes nas Grandes Planícies – ninguém mais usou, que se saiba, esta ou semelhante chave de encriptação. Será que, em alternativa, deixou de haver historiadores capazes de identificarem a utilização da Chave Sopa de Letras e por isso mesmo ninguém mais foi descoberto como não sendo quem se pensava ser?

Genealogia de Cristóvão Colombo, na versão Salvador Fernandes Zarco, resultante da aplicação por Mascarenhas Barreto do método cabalístico à assinatura do Almirante.
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(Última actualização: 25-02-2010)

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Patrocínio Ribeiro - O carácter misterioso de Colombo (3)

RIBEIRO, Patrocínio. O Carácter Misterioso de Colombo e o Problema da sua Nacionalidade, Coimbra, Imp. da Universidade, 1916, Sep. Academia de Sciencias de Portugal, 1 série, t. 5.

Texto Integral


Mas a nacionalidade portuguesa de Cristóvam Colombo – afirmada pela carta de Toscanelli e confirmada pela de D. João II – é esclarecida, ainda, por outras pontos comprovativos, por factos históricos que vou enunciar transcrevendo, primeiramente, para elucidação preambular das minhas deduções o que diz o ilustre escritor J. A. Coelho, eruditíssimo autor da «Evolução geral das sociedades ibéricas», que Teófilo Braga cita na sua «Historia da Literatura Portuguesa»:

«... é lusa e bem lusa a ideia, levada definitivamente à pratica, de uma navegação atlântica, científica, sistematicamente realizada, e tendo por objectivo – numa primeira fase devassar os mistérios do Oceano, e numa segunda, relacionar o Levante e o Ocidente, e portanto, substituir por uma nova, linha de comunicabilidade de carácter atlântico a simples artéria de carácter mediterrâneo que se alargava, passando pelos desertos, desde o Indo às Colunas de Hércules. Esta concepção, verdadeiramente nova, de carácter aventuroso e essencialmente marítimo, nunca poderia sair do cérebro dum castelhano, pois estava isolado na cerrada continentalidade do seu planalto... Na Península, só a podia criar o Lusitano, porque ocupava uma situação verdadeiramente insular... franca e largamente atlântica... Por isso, apesar da América ter sido descoberta por um homem de génio ao serviço de Castela, não foi do cérebro do Castelhano que despontou essa ideia; ... criada sob La influencia da alma lusa, levaram-lha de fora, encontrou mesmo por parte do génio castelhano dura e intransigente aposição e, francamente aceita, só o foi por uma mulher superior – a grande Isabel, a qual bisneta do grande Mestre de Avis, era de alguma maneira a nobre e digna representante do génio luso em terras de Castela» ([1]).

Posto isto, vejamos pois.

O maior amigo de Colombo, o seu grande amigo íntimo, foi um frade português que, se estava de posse do segredo confidencial da descoberta, havia de estar, evidentemente, bem informado também sobre a verdadeira personalidade do descobridor do Novo Mundo.

É pena que nada deixasse escrito sobre o assunto esse modesto franciscano, que os historiógrafos têm confundido com outro religioso chamado frei João Perez, quando afinal as suas entidades são perfeitamente distintas.

Colombo – numa carta endereçada aos monarcas de Castela – referiu-se a este seu dilecto amigo duma forma que, de futuro, destruirá todas as dúvidas que ainda prevaleçam no espírito indeciso dos investigadores:

«Ya saben Vuestras Altezas que anduve siete años en su côrte importunandoles por esto; nunca en todo este tiempo se halló piloto ni marinero, ni filosofo, ni de otra ciencia que todos no dijesen que mi empreza era falsa; que nunca yo hallé ayuda de nadie, salvo de Fray António de Marchena, después de aquella de Dios eterno» ([2]).

A oposição singular que o navegador encontrou na côrte de Isabel, a católica, – especialmente dum cortesão de grande influência e muito devotado ao soberano português, Hernando de Talavera, – afim de lhe ser concedida autorização para o seu empreendimento, é bem sintomática; D. João II sabia, tudo quanto se passava em Castela, dentro e fora da côrte; refere Resende que a espionagem diplomática; paga pelo ouro, português, era exercida até pelos próprios castelhanos de destaque em cargos oficiais do paço, «de quem recebia muitos avisos bem necessários a seu serviço e estado e ao bem de seus reinos» e «todolos conselhos e segredos lhe eram descobertos primeiro que nenhuma coisa se fizesse». Desta forma se explica que, tendo sabido que um piloto e dois marinheiros se haviam ausentado do reino afim de irem oferecer os seus serviços a Castela, mandasse, pelos seus espias, apunhalar os marinheiros no caminho e trazer preso a Portugal o piloto que foi enforcado em Évora, para exemplo de futuros traidores à pátria. Mas a despeito da oposição tenaz aos projectos de Colombo, oposição que durou anos seguidos, como se sabe, sempre e sempre mais cheia de embaraços de toda a ordem, a viagem foi autorizada, por fim, e o descobridor fez-se ao mar sob o patrocínio de Isabel, a católica. Ora o ousado nauta pôde, afinal, partir da Península para efectuar a descoberta a que se tinha proposto, porquê?

«... porque nesse tempo – é o cronista Garcia de Resende que esclarece, – entre os Reys de Portugal e Castela houve causas e cousas que pareciam de quebra; El Rey alem das lianças que com França mostrava mandou no reino e fora delle fazer grandes e dissimulados apercebimentos que para se segurar da guerra que desejava escusar, por causa da sua doença, muita lhe aproveitaram» ([3]).

No entanto, dias antes do embarque em Palos, os reis de Castela tinham mandado apregoar pelos seus estados que as caravelas que iam enviar-se às Índias não podiam tocar em portos portugueses, aviso este que tanto poderia ser para salvaguarda dos nossos interesses de povo vizinho e evitar complicações previstas como para obstar a uma deslealdade de Colombo de que, de resto, não se livrou da fama, como as suas cartas posteriores o demonstram, suficientemente, muito em especial aquela que dirigiu a Dona Juana, ama do príncipe D. Juan e irmã de Pedro de Torres, secretário da rainha Isabel, a católica:

«Yo creo que se acordará vuestra merced quando la tormenta sin velas me echó en Lisbona, que fui acusado falsamente qué habia ido ya alla al Rey para darle las Indias. Despues supieron sus Altezas al contrario, y todo fue con malicia. Bien, que yo sepa poco: no sé quien me tenga por tan torpe que yo no conozca que aunque las Indias fuesen mias, que yo no me pudiera sustener sin ayuda de Príncipe».

Mas, apesar da recomendação proibitiva dos soberanos Colombo – no regresso – aportou, intencionalmente, a terras portuguesas. Em 18 de Fevereiro de 1493 fundeou nos Açores, no porto de S. Lourenço da ilha de Santa Maria, onde foi pagar uma promessa que fizera à Virgem durante a viagem, a uma capelinha rústica, edificada sobre a rocha, sobranceira ao Oceano vasto que a sua caravela vinha de sulcar pela segunda vez. Depois, aproando novamente à terra portuguesa, entrou a barra de Lisboa, a 4 de Março, subiu o Tejo; fundeou em frente do Restelo, e foi visitar D. João II – que se achava em Vale de Paraíso – que o hospedou, durante três dias, presenteando-o, à despedida, com uma mula como sinal de distinção. E só a 13 de Março é que levantou ferro para se ir a Sevilha levar, aos castelhanos, a notícia estrondosa do seu feito épico.

Não foram apenas os súbditos de Isabel, a católica, que tiveram a honra insigne de ir descobrir o Novo Mundo, nas caravelas, capitaneadas pelo glorioso nauta. Colombo quis levar portugueses consigo, também. Ao certo, não se sabe quantos teriam ido mas numa relação incompleta da equipagem, que chegou até nossos dias, figuram os nomes de dois grumetes, compatriotas nossos, que a imortalidade bafeje:

JOAO ARIAS

filho de Lopo Arias – de Tavira –

e

BERNALDIM

criado de Afonso, marinheiro de João de Mafra.

Relatando uma transacção comercial com os naturais, quando da sua chegada a S. Salvador, escreveu Colombo aos soberanos de Castela: «Vi dar 16 ovillos de algodon por tres ceotis de Portugal, que és una blanca de Castilla...». O ceotil (nome derivado de Ceuta), foi mandado cunhar por D. João I, exclusivamente, em comemoração da primeira empresa marítima dos portugueses à Africa em 1415, de que resultou a conquista daquela praça mourisca para o nosso domínio. O facto de Colombo consignar este episódio da sua primeira viagem – em que figura a pequena moeda comemorativa portuguesa, tem o seu quê de significativo...

Realmente, Colombo só deixou ficar à posteridade escritos seus em latim e em castelhano; mas, nos escritos castelhanos que dele nos restam, a mais superficial análise revela logo que a ortografia de muitos termos é aportuguesada, que bastantes vocábulos são, a rigor, da nossa língua, e que a construção sintáxica – como da era então por esse tempo – é, positivamente, lusitana.

Colombo, que possuía a crença sincera e fervorosa do português do tempo das descobertas, tinha uma devoção especial com o Espírito Santo. Tendo-se em vista o quanto as impressões subjectivas dos primeiros anos actuam na alma plástica, no espírito dúctil, das crianças isto parece até que vincula, etogéniamente, a sua naturalidade insulana. A festividade dos Açores – a mais antiga, a mais tradicional, – é a do «Divino Espírito Santo», que teve a sua origem primitiva na ilha de Santa Maria onde a divinizada pomba, tinha uma capela sob a sua invocação e festejos anuais de grande pompa, já ao tempo da descoberta da América. Se foi, efectivamente; à ermida do Espírito Santo que Colombo foi orar, quando veio do Novo Mundo; e se a ilha de Santa Maria é de facto, a que figura por «insula de Colombi» (ilha dos Pombos) na carta catalã e no atlas inédito italiano da biblioteca Pinelli, a que já fiz referência, talvez se possa esclarecer um pouco o tenebroso mistério colombino, pois as epistolas latinas de Toscanelli, de 1474, chamam-lhe «Christophorus Columbus» (Cristovam Pombo) e o apelido Pombo ainda hoje existe em Portugal...

No descritivo das suas viagens ao Continente Novo ele extasia-se perante as belezas emocionantes da Natureza, exaltando a frescura convidativa: das sombras dos arvoredos, o pitoresco das encostas alcantiladas, a elevação soberba das montanhas colossais, a fragrância penetrante das flores e o canto melodioso dos passarinhos. Isto- caracteriza, profundamente, a alma lírica do lusitano, o espírito contemplativo do português, navegador e poeta.

Quando a má fé dos espanhóis o intrigava com mais bravio furor e maior hostilidade, não lhe permitiram desembarcar na ilha Espaniola nem sequer fazer consertos nos seus navios avariados pelas tormentosas rotas dos mares ocidentais que ele, pelo seu génio luminoso, lhes dera. Naufragou na Jamaica e após ter pedido, com ansiada insistência, varias e repetidas vezes socorros à colónia daquela outra ilha, o governador resolveu-se, afinal, a atendê-lo e enviou-lhe, como viveres, um porco pequeno e um barril de vinho que mandou pôr no meio da praia, recomendando muito que ninguém da sua gente comunicasse com os companheiros do desventurado nauta e, em especial, com ele. Este gesto infame dos castelhanos demonstra um ultraje feito a um compatriota nosso pois é sabido que já por esse tempo portugueses e espanhóis se assacavam, mutuamente, o epíteto depreciativo de marranos (judeus). E por isso, escarnicadores, lhe enviaram a cuba de vinho e o animal excomungado em que o israelita não pode tocar.

Daí a razão de Colombo consignar, no seu «Diario», esta frase dolorida referindo-se a si próprio: – «O que te esta sucedendo agora é a recompensa dos serviços que prestas-te a outros amos». Outros amos São os reis de Castela, porque o seu verdadeiro amo era o rei de Portugal.

E, por essa ocasião, escreveu também: – «Quem, depois de Job, não morreria de desespero ao ver que, apesar do perigo que corria a minha vida, a de meu filho, a de meu irmão, a dos meus amigos, nos vedavam a terra e os portos descobertos a preço do meu sangue? A preço do seu sangue?!... Sim, a preço do seu sangue, porque tendo-se insurgido contra a autoridade do seu legitimo rei, D. João II; tivera necessidade de se mascarar de genovês para salvar a vida e evitar a vingança do monarca mas vendo sempre ameaçadoramente, na alucinação remordente da sua deslealdade, o punhal homicida dos espias.

No entanto, reconforta-o a esperança da justiça póstuma, a certeza da futura imortalidade: – «Quando chegaste a uma idade conveniente Deus encheu maravilhosamente toda a terra com a fama do teu nome, e o teu nome tornou-se célebre entre os cristãos». Nada receies, tem confiança. Todas estas tribulações estão escritas no mármore e não são sem motivo».

Era a submissão heróica da raça portuguesa que palpitava nele, essa heróica submissão ao fatalismo do lusitano verdadeiro, essa resignação piedosa perante a fatalidade vendo, unicamente, no que lhe acontecia a interferência súbita de Deus omnisciente, o dedo justo da Providência impondo um desígnio, inexorável. No seu brado vibra a força máscula, o belo estremecimento nervoso que ainda anima o português de hoje, quando pretende arrojar-se a um lance perigoso de que possa sobrevir o fim da vida: – Morra o homem e fique fama!

Por disposição testamentaria, o descobridor do Continente Novo, legou várias quantias a mercadores genoveses e a judeus, residentes em Lisboa, recomendando, porém, que «... hasele de dar en tal forma que no sepan quien se las manda dar». Colombo parece pretender pagar, assim, uma dívida antiga de gratidão – aos genoveses, de quem recebeu, talvez, auxílios monetários ou outros quaisquer, e aos judeus que lhe deram a ilustração, a preparação intelectual, como os seus escritos, todos cheios de citações bíblicas, comprovam. A colónia de mercadores genoveses era então muito vasta e acreditada no nosso país, e os sábios semitas viviam livremente na côrte, apadrinhados pelo rei ([4]). Todavia, Colombo recomenda, misteriosamente, que se não diga quem mandou entregar as quantias legadas. Recearia ele que os contemplados – criaturas honestas, decerto – se recusassem a receber o dinheiro do homem que, por egoísmo, privara a sua própria pátria da glória duma descoberta épica?

Cheguei, finalmente, ao ponto mais importante deste meu estudo histórico-determinativo da personalidade misteriosa do descobridor da América: – a análise do curioso hieroglífico com que autenticava os documentos oficiais, e todos os seus escritos em Castelhano, hieroglífico singular que é a chave do enigma colombino. Colombo não era «Colombo», nem «Colomo», nem «de Colon», pois nunca assim se assinou mas, unicamente, desta maneira inconfundível:

XPOFERENS (Chrispoferens).

Ele deixou muito recomendado, aos seus descendentes, que firmassem sempre com a firma de que tinha feito uso:

«... firme de mi firma la cual agora acostumbro, que és una X com una S en cima, y una M com una A romana, en cima, y en cima dela una S y despues una y griega con una S en cima com sus rayos y virgulas, como yo agora fajo; y se parecerá por mis firmas de las cuales se hallaran muchas y por esta parecera. Y no escrebira sino el Almirante puesto que otros titulos el Rey le desse o gafiasse: esto se entiende en la firma y no en su ditado que podra escribir todos sus titulos como la pluquire; solamente en la firma escrebirá el Almirante» ([5]).

Esta recomendação aos descendentes – certamente para que a firma-hieroglífica se perpetuasse através dos tempos – não deixa de ser significativa num homem tão misterioso, dum carácter tão reservado e tão enigmático, que conforme via o seu nome tornar-se mais e mais célebre «... tanto menos Conocido y cierto quiso que fuese su origen y patria». Ora a assinatura do grande nauta, antes de embarcar para a primeira viagem ao Ocidente, era esta:

.S.

.S. A .S.

XMY

XPOFERENS.

Depois da descoberta – quando entrou na posse de todos os direitos e honras que pelo seu feito ganhara – passou a assinar-se assim:

.S.

.S. A .S.

XMY

EL ALMIRANTE.

Varias escritores de diversas nacionalidades – excepto portugueses, que eu saiba, – têm tentado decifrar o enigma da firma. Entre algumas interpretações que existem impressas, apontarei as duas que conheço, não podendo, porém, precisar os seus autores:

Suplex

Servus Altissimi Salvatoris

Christi Maria Yosephus

Christoforo.

Servus

Sum Altissimi Salvatoris

Xriste Maria Jesus

Xriste Ferens.

O Sr. Dr. Arribas y Turull ao tratar da firma «de Cólon», no seu livro, passou sobre ela como gato por brasas... pois diz, textualmente, isto: «Dejando aparte los multiples significados que se han dada a esta geroglifica firma, segundo mr. Lambert de Saint Bris la traduccion del autografo és la siguiente:

Salva me

Sanctos Altissimi Spiritu

Xristos Maria Josephus

Cristobal.

«Mucho menos laberintico el autografo de su hijo y biografo D. Fernando, podeis contemplarlo en esta nueva proyeccion», etc., etc. E segue divagando, largamente, sobre judeus, voltando a afirmar que «el idioma de Cristobal Colon, no ha sido otro que el castellano», acrescentando ainda que «nada hay escrito en italiano ni en português». Pois vai sofrer a decepção de saber que ele deixou um escrito em português puro – a sua firma hieroglífica!

Ora na firma-hieroglífica do descobridor da América – conquanto pese aos eruditos não há latim; há, muito lusitanamente, isto apenas: X (chris) M () Y (y); juntando depois, de novo, o M com o A central e com o S superior, ligando-se-lhes o S lateral, para qualquer dos lados, se poderá ler: – «Me assy», porque a letra chris (X) tem também, neste caso, o duplo valor de i grego, segundo o seu desenho caligráfico em alguns autógrafos, cujos fac-similes analisei para estudar a minha interpretação. Portanto a firma diz isto, escrito em português – português antigo, português do século XV, mas português autêntico, português de lei, –

«Chrismey me assy»

crismei-me assim, alcunhei-me, denominei-me, adoptei o apelido porque me conhecem, evidentemente.

Mas, se alguma hesitação restar, basta o nome, logo por baixo da firma, para diluir a incerteza e destruir a dúvida.

A palavra XPOFERENS (Chrispoferens) escrita metade em grego XPO (Chrispo) e metade em latim FERENS (o que leva) foi inventada pelo misterioso nauta para achar equivalente próprio ao seu nome de baptismo «Chrispouam» ou «Xpouão» (Cristóvam), segundo a ortografia da época; ora o vocábulo Cristóvam é de origem portuguesa, e a sua significação literal diz: – o que conduz Cristo, o que vai com Cristo, o que leva Cristo. Logo se quisesse assinar-se em latim, escreveria Christophorus, em italiano Christoforo, em castelhano Christobal, e em galego Christobo. Porém, – como era português e não podia assinar o seu nome correctamente (Xpouão ou Chrispouam), que seria revelar a sua verdadeira pátria, – inventou então uma palavra onde entram duas línguas clássicas querendo assim simbolizar nela, talvez, a sua linguagem natal – a nossa bela língua, a língua de Nuno Álvares Pereira, de Gonçalo Velho Cabral, de Fernão Lopes, derivada em grande parte do grego e do latim!



[1] V. Historia da Literatura Portuguesa – Segunda Época: Renascença, pág. 20-21, Porto, 1914, por Teófilo Braga.

[2] «Todo esto engendró nueva ansia y golosina en Cristobal Cólon (que de suyo era, aunque pobre, de anima alentado para emprender este descubrimiento, pero no tenia el con que executarlo. Aviendo se aconsejado cõ su hermano Bartolomé Colon, y con uno Relegioso llamaao Fray Juan Perez de Marchena, del Monasterio de la Rabida del Orden de San Francisco, Portugués de nacion, que sabia algo de Cosmografia y con parecer y acuerdo suyo fué a valerse del favor del Rey don Juan de Portugal, que no lo oyó como el quiera...», etc. V. Historia general de la Orden de Nuestra Señora de la Merced, vol. 2.º, cap. VI. pág.89, por Frei Alonso Remon, mercenário.

Neste cronista monástico o nome do frade Marchena não condiz com o dos seguintes documentos, mais antigos, que ,confirmam o da carta de Colombo, com todo o rigor:

«Nos parece que seria bien llevasedes con vos un buen estrologo y nos parescio que seria bueno para esto Fray António de Marchena, porque és buen estrologo, y siempre nos paresció que se conformaba con vuestro parecer».

V. «Carta mensajera», dirigida pelos reis católicos ao Almirante, em 25 de Setembro de 1493, dando-lhe várias instruções para a sua segunda viagem ao Novo Mundo, publicada, nos «Documentos Diplomáticos», por Navarrete.

Las Casas – na sua «Historia general de las Índias», parte 1.ª, cap. XXXII, – diz também:

«Segundo parece por algunas cartas de Cristobal Colon escritas por su mano (que yo he tenido en las mias) á los Reys desde esta isla Espaniola, un relegioso que habia por nombre Fray Antonio de Marchena, fué el que mucho le ayudó, á que la Reyna se persuadiese y aceptase la peticion. Nunca pude hallar de qué Orden fuese, aunque creo que fuese de San Francisco, por cognoscer que Cristobal Colon después de Almirante siempre fué devoto de aquella Orden. Tampoco pude saber cuando, ni en qué, ni como le favoreciese ó que entrada tuviera con los Reys el ya dicho Padre Fray Antonio de Marchena».

[3] V. «Chronica de D. João II», respectivamente, cap. CLXVIII, CLXIX e CLXIV.

[4] Mestre António, cirurgião-mor do reino, era judeu, e ao tornar-se cristão-novo foi seu padrinho de baptismo o próprio monarca, segundo refere Resende no cap. XCI da «Chronica de D. João II».

O físico-mor de D. João II era um judeu, mestre Rodrigo, que tinha grande ascendente sobre o soberano.

O grande «estrolico judeu» Abraham-ben-Samuel Zacuto, professor de astronomia e matemática e autor do «Almanach perpetuus», veio para Portugal a convite de D. João II, que o nomeou astrónomo real.

Mestre Josepo Judeu ou José Vizinho era astrónomo de D. João II e médico da Junta dos Matemáticos; em 11 de Março de 1485 achava-se próximo da Serra Leoa, pois fôra à Guiné de propósito para determinar algumas latitudes, segundo uma nota marginal de Bartolomeu Colombo, irmão do descobridor, no livro «Historia Papae Pii» (Veneza, 1477) que se achava presente quando foi recebido o relatório. Convêm notar aqui, de passagem, que este irmão de Cristovam, parece que tinha algum emprego oficial, e que ainda o desempenhava em 1485.

[5] V. o testamento do imortal navegador, publicado por Navarrete na «Coleccion de los viajes», etc. vol. 2.º

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Patrocínio Ribeiro - O carácter misterioso de Colombo (2)

RIBEIRO, Patrocínio. O Carácter Misterioso de Colombo e o Problema da sua Nacionalidade, Coimbra, Imp. da Universidade, 1916, Sep. Academia de Sciencias de Portugal, 1 série, t. 5.


Texto Integral


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A personalidade íntima de Cristóvam Colombo é muito tenebrosa mas a sua individualidade heróica é fulgurantíssima.
Este homem superior – que era um persistente, um obstinado, um tenaz, – oferece o fenómeno pouco trivial do génio inato.
A sua decisão inabalável em levar a efeito a descoberta, teve todos os característicos mórbidos dum grande caso de impulsivismo místico.
A sua viagem reveladora foi uma alucinação maravilhosa.
Nenhum homem célebre teve, como ele, a previsão do seu destino; nenhum outro se submeteu, com ar mais resignado, aos desígnios imperiosos do fatalismo.
Foi sobretudo a Fé, a sua singular fé ardente, o grande motivo moral que o impeliu através do Oceano para as regiões ignotas porque Colombo julgava-se um predestinado, um iluminado do Espírito Santo ([1]).
Mas não foi este o primeiro caso de tenacidade heróica que surgiu no mundo, em fins do século XV. Na segunda metade do século anterior aparecera Nuno Álvares Pereira.
Ora entre o génio de Colombo, o herói do Novo Mundo, e o génio de Nuno Alvares, o herói de Aljubarrota, – cada um no seu campo de acção – as manifestações impulsivas de concepcionismo e maneira de executar são análogas.
Fisicamente pareciam-se, e moralmente são duma semelhança flagrante.
Ambos eram rudes de carácter, pouco amáveis na conversa, sendo no entanto afáveis quando queriam e exaltados quando se irritavam.
Ambos tinham uma confiança ilimitada na protecção de Deus e nos desígnios do Céu.
Ambos possuíam a crença cega, a abrasada fé, e essa loucura épica que gera os actos de heroísmo.
Ambos fizeram a preparação metódica do seu génio pela leitura antecipada: – Nuno Álvares bebeu a sua iniciação de guerreiro no livro famoso «História de Galaás», Colombo a de descobridor no famoso livro de Marco Polo, «Viagens».
Apesar do meio ambiente pretender sufocá-los, o lema de ambos foi este – Efectuo!
E se apenas um homem – D. João I, – compreendeu Nuno Álvares, apenas um outro homem – frei António de Marchena – compreendeu Colombo.
E se um ouviu objecções dos tímidos, pelo seu piano, o outro também as ouviu dos incrédulos, pelo seu.
Nuno Álvares insurge-se contra os que condenavam a batalha; Colombo irrita-se contra os que condenavam a empresa.
Nuno Álvares volta as costas ao rei e sai de Abrantes para pôr em prática a sua ideia, Colombo teve de voltar as costas aos portugueses para poder executar a sua.
Nuno Álvares escreve, de Abrançalha, a D. João I convidando-o a deixar à Posteridade um nome glorificado, imorredoiro; Colombo, fazendo o mesmo convite escreve, de Sevilha, a D. João II.
Nuno Álvares chegou a um entendimento com o seu rei, mas o rei de Portugal não chegou a um acordo com Colombo, porque Colombo exigia muito para si e Nuno Álvares, desinteressadamente, só solicitara a adesão do monarca.
Colombo foi considerado louco pela sua proposta, também Nuno Álvares o fôra pela sua temeridade.
Ambos foram combatidos pelas pessoas sensatas, e eles ambos tinham razão como, a final, se viu.
E se Nuno Álvares, tenaz, empunhando a espada se defrontou com a Vitoria, Colombo, tenaz, manejando o leme defrontou-se com a Glória.
Ambos se imortalizaram pelo seu feito, ambos são gloriosos, ambos enaltecem a sua raça, pois ambos tinham esse supremo espírito guiador que faz conduzir os povos ao fatalismo dos seus grandes destinos, e essa mão poderosa que inscreve a História heróica da Humanidade através dos tempos.
Foi, exclusivamente, o fervor da crença que incitou estes dois homens superiores; por isso ambos, reverentes, agradeceram à Virgem a graça excelsa dos seus feitos épicos joelhando – cousa curiosa! – sobre o mesmo solo bendito – o solo do nosso país, o solo da terra portuguesa.
Após a batalha ganha, Nuno Álvares orou em Aljubarrota; Colombo, com a descoberta efectuada, veio orar numa ilha dos Açores.
Mas o descobridor do Novo Mundo apesar de ter sido um espírito abertamente crente foi, também, uma criatura excessivamente misteriosa, pois ocultou sempre os seus antecedentes, não revelando nunca a sua pátria verdadeira nem a sua verdadeira família durante a sua permanência em Castela, parecendo até que quanto mais subia em dignidades «tanto menos conocido y cierto quiso que fuese su origen y pátria», como o declara seu filho Fernando.
Ora é pela análise sintética do carácter misterioso de Colombo – servindo-me, é claro, dos documentos históricos, que eu vou tentar resolver o problema da sua nacionalidade.
Em Portugal, que me conste, não há em cronistas nem em documentos inéditos referência alguma aos Colombos, italianos, ou aos Colons, espanhóis.
Rui de Pina alude, apenas, a um famoso corsário francês, chamado Cullam, que tendo feito reverência a D. Afonso V, em Lagos, o ajudou depois na defesa de Ceuta; contra os mouros ([2])
Segundo o visconde de Santarém, na carta catalã da biblioteca de Paris e no atlas inédito da biblioteca Pinelli, do século XIV, encontram-se as ilhas dos Açores designadas com nomes italianos, e entre elas uma chamada – Li Colombi ([3]).
Rui de Pina e João de Barros só se referem a Cristóvam Colombo pelo feito que o celebrizou, mas duma forma muito breve e vaga, acentuando, porém, este último historiador, depois de lhe enaltecer os méritos de homem do mar, – que «ele era muito esperto».
Historicamente sabe-se que o descobridor da América casou com uma dama da aristocracia portuguesa de quem teve um filho e que, acompanhado deste abandonou Portugal dirigindo-se a Sevilha, parece que de maneira oculta, como um fugitivo, mas desconhecem-se os motivos verdadeiros porque assim procedeu.
Pela primeira vez, eu vou procurar explicar, pelo lado mais racional, essa saída misteriosa de Colombo do nosso país baseando-me, exclusivamente, na teoria das hipóteses onde, de resto, se tem baseado, também, toda a enorme bibliografia colombina, como é notório.
Consta que o denodado nauta – irritado contra D. João II – saiu de Portugal, às escondidas, pobremente vestido, e como mercador de livros, de estampas ou de atlas de mapas geográficos, dirigindo-se a Sevilha; mas a data deste facto não é determinada, com precisão, pelos historiógrafos indicando uns um ano e outros outro, hipoteticamente.
Vejamos se se poderá fazer luz sobre este obscurecido ponto.
Segundo Fray Bartolomeu de Las Casas, o descobridor do Novo Mundo, encontrando-se na ilha Espaniola, escreveu uma carta aos reis de Castela – carta que reproduz na sua «Historia general de las Indias» – onde, entre outras cousas, diz o seguinte, referindo-se à descoberta:

«Ya saben vuestras Altezas que anduve siete años en su côrte importunandoles por esto».

Ora Colombo embarcou para a sua prime ira viagem em 3 de Agosto de 1492, no porto de Palos; retrocedendo sete anos, desde 1492, da a data 1485 ano em que, evidentemente, foi apresentado na côrte de Isabel, a católica.
O historiador Bernaldez chega mesmo a indicar o dia: 20 de Janeiro, do referido ano ([4]).
Navarrete, nos «Documentos Diplomaticos», publica uma carta do Duque de Medinaceli, escrita em 19 de Março de 1493 dirigida ao grã cardeal de Espanha para que este peça à rainha autorização para ele poder enviar cada ano, duas caravelas suas às novas terras descobertas por Cristobal Colomo, como lhe chama, «que se vénia de Portugal y que se queria ir al Rey de Francia para que se empreendiesese de ir a buscar las Índias».
Alega o duque, para justificar a pretensão, os seus serviços anteriores à coroa, nesta passagem interessante da carta:

«... a mi cabesa y por yo determinarle em mi casa dos años, y haberle enderezado a su servicio, se ha hallado tan gran cosa como esta».

Por conseguinte, os sete anos de solicitações a que alude Colombo, pela sua parte, com os dois anos que viveu em casa de Medinaceli, antes de ser apresentado na côrte, perfazem a soma de nove anos de permanência em Castela; retrocedendo, pois, desde que embarcou para a sua primeira viagem temos 1483, ano em que saiu de Portugal e entrou em Espanha, segundo os meus cálculos.
Referem os historiadores que D. João II rejeitara as propostas de Colombo, depois de ter mandado analisá-las pela junta dos cosmógrafos do reino, que se pronunciou contra a empresa, mas parece mais crível que o monarca se não conformasse com o que o navegador exigia para si pela descoberta, descoberta de que – segundo diz Las Casas – estava tão seguro como se a tivesse já na mão.
Ora no dia 3 de Março de 1483, Ferdinand van Olm, capitão da ilha Terceira (Açores), foi autorizado por D. João II a tentar a descoberta das fantásticas «ilhas das sete cidades e terra firme», que se imaginava que ficassem para o poente, no rumo ocidental do Atlântico ([5]).
É natural que esta autorização do rei descontentasse Colombo ao ter conhecimento do facto, e daí se tornasse inimigo figadal do monarca, colocando-se ao lado dos partidários do duque de Bragança D. Fernando, – que conspirava então contra a soberania real – isto motivado pelo despeito de ter sido preterido em benefício de outro ou por promessas de antemão feitas de poder realizar a planeada descoberta logo que este fidalgo conseguisse os seus fins.
Mas a conspiração foi descoberta a tempo, por uma casualidade, e o rei informado dela por denúncia.
Os conjurados trataram de salvar a vida passando a fronteira, fugindo para Castela, França e Inglaterra; e o Bragança, descoberto, foi imediatamente preso, julgado num processo sumário, e executado no cadafalso de Évora, a 21 de Junho de 1483.
Colombo, comprometido também, – mas como «era muito esperto», no dizer do cronista, – muito provável que se disfarçasse em vendedor de livros de estampas ou álbuns de mapas geográficos e fazendo-se passar por genovês, auxiliado um tanto pelo seu físico de homem de tez rosada e cabelo louro, conseguisse chegar até casa do duque de Medinaceli, na Andaluzia, sem ser apanhado na fuga e onde se conservou oculto durante dois anos, enquanto os ares andaram turvos para os que haviam conseguido escapar-se de Portugal a salvo.
Foi na mesma casa protectora de Medinaceli que se acolheu o refugiado político português D. Afonso, conde de Faro, irmão do Bragança executado em Évora, para escapar à vingança que D. João II jurara à nobreza conspiradora, pois uma filha sua era casada com o duque.
E, assim, comeram ambos o pão amargo do exílio sob o mesmo tecto andaluz: o fidalgo português de ascendência nobre – irmão dum duque e sogro doutro duque – e o mísero plebeu foragido que, mais tarde, havia de dar um Novo Mundo ao mundo!
Entretanto fôra descoberta uma outra conspiração na nobreza. Em 23 de Agosto de 1484, D. João II apunhala, em Setúbal, o duque de Viseu, tido como chefe. Novas prisões, nova revoada de fugitivos para além-fronteiras. Mas desta vez o ouro do soberano paga, largamente, o punhal dos sicários, o veneno dos facínoras. Ai! dos que fossem indigitados pelos espiões do rei! Nem o próprio país estranho valia de refugio, nem a própria terra estrangeira evitava a morte violenta! Como uma maldição, seguia os fugitivos, cheios de pavor, galopando à morte esta praga condenatória do monarca: Quiseste matar-me?! Morrerás... E o Príncipe perfeito executava na perfeição, pela Europa fora, a caça ao homem...
Afim de evitar o ódio vingativo do rei, que os perseguia por toda a parte, muitos dos exilados tiveram de usar o velho estratagema de mudar de nome, o que nem sempre surtia efeito como sucedeu a um fidalgo dos da conjura que tendo conseguido passar os Pirinéus, sob um suposto nome francês, mesmo assim foi reconhecido e apunhalado em Ruen.
É muito natural, pois, que o futuro descobridor da América houvesse de usar do mesmo estratagema, para segurança pessoal, dizendo-se de Génova e fazendo constar que se apelidava Colomo, pois é com esta ortografia que figura na primeira verba da pensão que recebeu na côrte de Isabel, a católica, ortografia que, de resto, é do próprio escrivão.
Pelo que deixo exposto não é arriscado concluir-se que Colombo era cúmplice na conspiração contra D. João II, e tanto assim parece que a seguinte carta, conservada preciosamente por ele entre os seus papéis, é bem significativa porque tem todo o teor dum salvo-conduto, concedido a quem tinha culpas muito graves no cartório régio:

«A Christovam Colomo, noso especial amigo em Sevilha.
«Cristobal Colon.
«Nos Dom Joham per grasa de Deos Rey de Portugall e dos Algarbes; daquem e dallem mar em Africa, Senhor de Guinee vos enviamos muito saudar. Vimos a carta que nos escrebestes e a boa vontade e afeizaon que por ella mostraaes teerdes a noso. serviso. Vos agradecemos muito, Emquanto a vosa vinda cá, certa, assy pollo que apontaaes como por outros respeitos para que vossa industria e bõo engenho nos será necessario, nós a desejamos e prazer-nos-ha muyto de que viesedes, porque em o que vos toca se dará tal forma de que vos devaaes ser contente. E porque por ventura terees algum rezeo de nossas justizas por razaon dalgumas cousas a que sejaaes obligado, Nós por esta nossa Carta vos seguramos polla vinda, estada, e tornada, que não sejaaes preso, reteudo, acusado, citado, nem demandado por nenhuma cousa ora seja civil ora criminal, de qualquer cualidade. E por ella mesmo mandamos a todas nosas justizas que o cumpram assy. E portanto vos rogamos e encommendamos que vossa vinda seja loguo e para isso non tenhaaes pejo algum e o tereemos muito em servizo. Scripta em Avis a vinte de Marzo de 1488.

El Rey» ([6]).

Por esta carta de D. João II em resposta à de Colombo, que não se encontrou, pode ver-se que o monarca não se dirigia a um genovês e sim a um vassalo seu que residia no estrangeiro por «rezeo de nossas justizas».
É muita para lastimar que a carta de Colombo se tivesse perdido nos nossos arquivos, pois talvez ela esclarecesse o receio a que o rei se refere...
Assim, esta carta do rei de Portugal – confrontada com a de Paulo Toscanelli, de 1474, – explica, duma maneira bem clara, o motivo porque o célebre cosmógrafo florentino chamou português a Colombo, tendo-lhe sido feita a apresentação deste pelo italiano Giraldi; Giraldi, que, evidentemente, devia conhecer a verdadeira nacionalidade do indivíduo de quem fazia a apresentação indicou-a, decerto, a Toscanelli pois só assim se explica a razão dos elogiosos termos da carta do sábio, enaltecendo a nação portuguesa e os seus homens ilustres entre os quais já inclui Colombo o qual – se bem que já manifestasse disposições de navegar para o Ocidente – vivia ainda em Lisboa, muito modesto e obscuro ([7]).
Logo o nauta imortal que descobriu a América era um português ao serviço da Espanha – como Fernão de Magalhães e outros – para honra e glória da nossa pátria, para maior celebridade da nossa terra de heróis do mar, de descobridores intrépidos, de navegantes arrojados, que, – sulcando os Oceanos em todos os rumos – foram levar aos confins do mundo a emissão sonora da sua linguagem fortemente nasalada, o fervor rútilo da sua grande fé cristã, e a rútila corroboração do seu génio ousado!


[1] Cristóvam Colombo escreveu uma obra muito curiosa, que deixou inédita, intitulada – «Libro de las Profecias» – onde se jactava de ter sido escolhido do Céu para descobrir o Novo Mundo; nesse livro de pseudorevelação divina há períodos interessantíssimos como, por exemplo, estes dois:
«Quien dubida que esta lumbre no fue del Espirito Santo, asi como de mi, el cual con rayos de claridad maravillosa consola con su santa y sacra Escritura a voz muito alta y clara con 44 libros del Viego testamento, y 4 Evangelios con 23 epistolas daquellos bienaventurados Apostolos avivando-me que yo proseguiese, y de contino sin cesar un momento me avivan com gran priesa?»
«... e digo que no solamente el Espirito Santo revela las cosas de por venir a las criaturas raionales mas nos las amuestra por señales del cielo, del aire y de las bestias cuando le aplaz».
Como se sabe a prioridade da descoberta da América foi-lhe contestada pelos seus próprios contemporâneos que a atribuíam a um piloto náufrago que lhe fornecera elementos a ponto de ele poder efectuá-la, mais tarde, como ideia exclusivamente sua. Essa insinuação absurda, que tinha em vista obscurecer o mérito do grande navegador, criou raízes no seu tempo tanto que ele escreveu o «Livro das Profecias» para se justificar e fazer emudecer os seus detractores, procurando demonstrar que a previsão da descoberta lhe fôra sugerida pelo próprio Espírito Santo. Ainda hoje, em Portugal, quando alguém efectua alguma cousa imprevista cuja decisão súbita é posta em dúvida, parecendo ter sido anteriormente segredada por outrem, se diz por ironia: – «Parece que teve Espírito Santo... de orelha!» Remontará a origem desta frase ao tempo de Colombo?
[2] V. «Chronica del Rey Dom Affonso V», cap. CLXIV.
[3] V. «Saudades da Terra», de Gaspar Frutuoso, edição anotada por A. Azevedo.
[4] V. «Cristobal Colon, natural de Potevedra», por Arribas y Turull, 1913, pág. 41.
[5] Foi algures, parece-me que, salvo erro, dum artigo sobre Martim de Boémia, publicado na «Revista Portuguesa Colonial e Marítima», que copiei a seguinte nota: «Em 3 de Março de 1483 foi Fernão Dulmo (Ferdinand van Olm) capitão da ilha Terceira, autorizado por D. João II a tentar a descoberta das fantásticas «ilhas das sete cidades e terra firme». Posteriormente associou-se este com João Afonso Estreito, sendo em Lisboa sancionado o seu contracto, para este fim, pelo rei em 24 de Julho de 1486. Deviam ser equipadas duas caravelas para largarem da ilha Terceira em 1 de Março de 1487. Parece que nunca se levou a efeito porque desta tentativa nada se sabe».
Virá daqui a origem dessa lenda – que alguns historiógrafos referem – de que D. João II, tendo simulado rejeitar a proposta de Colombo por inexequível, mandara, secretamente, caravelas suas em busca das terras ocidentais?
[6] V. o texto desta carta em Navarrete, «Coleccion de los viajes y descubrimientos», etc. e em Teixeira de Aragão, «Memoria acerca do descobrimento da América», 1892. Luciano Cordeiro, que a transcreveu a pág. 17 do seu opúsculo «De la découverte de l’Amérique», 1876, anota-a nestes termos: «Cette lettre n’est pas une invitation comme l’ont dit toutes les biographes de Colomb. C’est, au contraire, une aceptation». Anteriormente assim o notara, também, Pinilla designando-a por «aceptation obligeante».
[7] V. o texto da carta de Toscanelli na obra de Hernan Colon, «Vida del Almirante» e nas notas da «Historia Universal», de Cesar Cantu. Como a autenticidade da correspondência havida entre o descobridor do Novo Mundo e o cosmógrafo italiano fosse posta em dúvida por Mr. Enrique Vignaud no seu livro «La carta y el mapa de Toscanelli sobre la ruta de las Indias por el Oeste, enviadas en 1474 al portugués Fernán Martins, y trasladados más tarde a Cristobal Colon», D. Celso García de la Riega defende-a, calorosamente, num interessante artigo «Colon y Toscanelli», publicado em 15 de Agosto de 1903, em «La Ilustration Española e Americana».

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Patrocínio Ribeiro - O carácter misterioso de Colombo

RIBEIRO, Patrocínio. O Carácter Misterioso de Colombo e o Problema da sua Nacionalidade, Coimbra, Imp. da Universidade, 1916, Sep. Academia de Sciencias de Portugal, 1 série, t. 5.


Texto Integral

O carácter misterioso de Colombo e o problema da sua nacionalidade
Memória apresentada em 23 de Novembro de 1915

Por

Patrocínio Ribeiro



«De modo que cuando fué su persona a proposito y adornada de todo aquello que convenia para tan grand hecho, tanto menos conocido y cierto quiso que fuese su origen y patria, y casi algunos que en cierta manera quisieron oscurecer su fama, dicen que fué de Nervi, otros de Cugureo, otros de Buggiasco, logarcillos cerca de Genova, y situados en su ribera; otros que quisieron exaltarle mas, dicen és Saona, y otros, genevés, y algunos tambien saltando mas sobre el viento, lo hacen natural de Plasencia».
HERNAN COLON, Vida del Almirante.



Intencionalmente, premeditadamente, com um fim reservado muito pessoal e muito íntimo, o descobridor da América ocultou, em todas as circunstâncias da sua vida oficial, – a mais conhecida – o nome da terra do seu nascimento e até mesmo o seu próprio apelido de família.
As variantes ortográficas deste pressuposto apelido em documentos coevos, – Colomo e Colombo – a declaração singular de seu filho Fernando, na «Vida del Almirante», – que seu pai «volvió a renovar el de Colon» – e o facto de nem uma única vez ele se ter assinado pelo sobre nome porque era conhecido, são provas mais que suficientes para fazer crer que o grande navegador adoptou um pseudónimo.
Todavia a cidade de Pontevedra, baseada em simples deduções de fácil refutação, pretende demonstrar, ultimamente, que Cristóvam Colombo é natural da Galiza, colocando-se assim ao lado das dezoito povoações que, entre si, já disputavam a, honra insigne de terem visto nascer o nauta imortal!
Colombo é espanhol, nasceu em Pontevedra, – afirma-se.
Quem primeiro o afirmou, em terras de Espanha, foi Celso Garcia de la Riega, erudito investigador histórico; e foi o Sr. Dr. D. Enrique Maria de Arribas y Turull – distinto advogado – que veio preconizar, na nossa terra; por meio de conferências públicas efectuadas em Lisboa e Porto, esta verdade evidente, segundo a sua maneira de ver.
Ora eu – que à época me encontrava em Beja absorvido nas ocupações da minha vida profissional, – não assisti a essas interessantes prelecções mas adquirindo há tempo o livro que o ilustre conferente publicou sobre o assunto li-o atentamente, e tão atentamente o li que não posso deixar de refutar certas afirmativas exóticas que na referida obra são feitas, em especial nas referências directas ao nosso país ([1]).
Depois de, para defesa da sua tese, ter apontado algumas, analogias de nomes entre as terras baptizadas por Colombo, no Novo Mundo, e uma igreja, – San Salvador – uma baía, – Porto Santo – uma praça, – La Galea – e quatro confrarias de Pontevedra – San Miguel, Santa Catalina, San Nicolas e San Juan Bautista – mas sem se recordar, talvez, de que «sobre simples homonimias, no se puede cimentar nada solido en la historia» – como tão criteriosamente diz Garcia de la Riega ([2]) – acrescenta o Sr. Turull a pág. 77 do seu curiosíssimo livro:
«De todo lo expuesto deducimos, que ni una sola vez se le ocurre a Colon iniponer a sus descubrimientos un nombre italiano o portugués, o que por lo menos recuerde cosa alguna de estos paises».
Ora não se pode ser menos exacto! Colombo impôs, de facto, alguns nomes portugueses às novas terras descobertas; e tão portugueses são esses nomes que nem a própria Pontevedra – com os seus famosos documentos! – poderá contestar.
A um porto e a um rio, recém-descobertos, deu o grande navegador estes dois nomes inconfundíveis: – Puerto de Santa Maria de Belen e Rio de Belen.
Onde encontra o Sr. D. Enrique Turull nomes idênticos em Espanha? Não os pode encontrar lá porque são bem portugueses, pois Rio de Belen designa o Tejo em frente de Santa Maria de Belém, povoação ao ocidente, de Lisboa. Mas há mais ainda.
Colombo baptizou duas ilhas novas com o nome de S. Tiago e Santa Maria, respectivamente. S. Tiago é uma das ilhas do arquipélago de Cabo Verde, e Santa Maria aquela ilha dos Açores a que ele intencionalmente arribou no dia 18 de Fevereiro de 1493, regressando já da sua primeira viagem ao ocidente.
Se no século XV havia em Pontevedra uma praça chamada La Galea e uma baía com o nome de Porto Santo, também na ilha da Madeira – onde Colombo viveu – havia a ponta da Galé, e Afonso Baldaia, em 1436, tinha dado nome idêntico a um cabo que descobrira na costa da África; e Porto Santo sugere logo o nome daquela ilha de que seu sogro foi donatário e onde o ousado navegador residiu algum tempo com os seus parentes portugueses, sendo fácil, portanto, determinar porque motivo assim denominou uma enseada de Cuba e um cabo da ilha Trinidad.
Para demonstrar ao Sr. Dr. Turull que é menos verdadeira a sua desconforme afirmativa de «que ni una sola vez se le ocurre a Colon imponer a sus descubrimientos un nombre italiano o portugués, o que por lo menos recuerde cosa alguna de estos paises», indicarei alguns, a seguir, onde a homonímia é flagrante.
Vejamos pois:
A Um cabo da ilha Fernandina chamou Cabo Verde, – o cabo Verde, em Africa, fôra descoberto, em 1444, pelo português Dinis Fernandes.
Puerto de Santa Catalina, em Cuba, – o cabo de Santa Catarina fôra o limite das descobertas portuguesas no reinado de D. Afonso V e havia uma ponta de terra, na Madeira, com nome igual.
Puerto de Santa Maria, na Espaniola, – porto com nome idêntico na ilha do Sal do arquipélago de Cabo Verde.
Isleu Cabra, – ilha das Cabras na costa da ilha de S. Tomé.
Isla Santa Cruz, – portos de Santa Cruz nas ilhas da Madeira, Graciosa e Flores.
Vale del Paraizo – foi em Vale de Paraíso que Colombo foi recebido por D. João II, de Portugal, e onde esteve hospedado três dias, em Março de 1493, quando, vindo de regresso da descoberta do Novo Mundo, arribou a Lisboa, intencionalmente.
Rio del Oro, – o rio do Ouro, no continente africano e na ilha de S. Tomé.
Isla Guadalupe, – costa de Guadalupe, na ilha de S. Tomé.
Islas San Christovam, San Miguel e San Thomas, – ilhas dos Açores assim denominadas; a ilha de S. Tomé também fôra, primitivamente, denominada S. Tomás.
Isla de Nuestra Senhora de las Nieves, – Santa Maria das Neves, baía a que chegou Álvaro Fernandes no tempo do infante D. Henrique, e nome dum monte que se avista do mar, na costa ocidental de Portugal, entre o cabo da Roca e Peniche.
Islas San Vicente e Santa Luzia, – ilhas do arquipélago de Cabo Verde.
Cabo Cabrão, – ponta do Bode, na ilha da Madeira.
Rio del Sol, – ribeira da ponta do Sol, na ilha da Madeira.
E, não cito mais, para me não alongar demasiadamente. Mas se bem que não creia – como o crê o Sr. Turull que o descobridor da América fosse impondo nomes de igrejas e confrarias às ilhas que via pela primeira vez – pois denominava-as, certamente, conforme as analogias topográficas de outras terras conhecidas e evocadas nas reminiscências das suas viagens anteriores, – no entanto, a mero titulo de curiosidade, pois «sobre simples homonímias no se puede cimentar nada solido en la historia», apontarei algumas interessantes coincidências de denominação, que topei no decurso dos meus trabalhos, entre localidades alentejanas e as novas regiões por ele baptizadas, convindo advertir nesta altura que D. Filipa Moniz – com quem casou – era duma família originária do Alentejo e que um tal Diogo Gil Moniz – talvez ainda parente de D. Filipa – fôra reposteiro-mor do infante D. Fernando, senhor de Beja onde tinha casa, e que o filho que nasceu desse casamento se chamava também Diogo.
À primeira ilha descoberta no Novo Mundo pôs-lhe Colombo o nome San Salvador, – «la comemoracion de Su Alta Magestad al cual maravillosamente todo esto ha dado» – (S. Salvador, paróquia de Beja desde 1306); à segunda ilha encontrada chamou Concepcion, (convento da Conceição, fundado em Beja pelo infante D. Fernando, em 1467); isla Santa Maria la antigua (Santa Maria da Feira, a mais antiga paróquia de Beja que foi mesquita de mouros e cujas memórias mais remotas datam de 1282); isla San Juan Bautista (S. Joao Baptista, paróquia de Beja desde 1320); isla San Thiago (S. Tiago Maior, paróquia de Beja desde 1329); islas San Bartholomeu, San Martinho, Santa Cruz, San Miguel, Santissima Trinidad, Santa Luzia, Santa Margarida, Espirito Santo, Nuestra Señora de las Nieves (S. Bartolomeu da Serra, S. Martinho das Amoreiras, Santa Cruz, S. Miguel do Pinheiro, Santíssima Trindade, Santa Luzia, Santa Margarida da Serra, Espírito Santo e Nossa Senhora das Neves, povoações ao sul de Beja); isla Guadalupe (serra de Guadalupe que se, avista do castelo de Beja, para o lado de Serpa); isla Juana, Cubanancan, Colba ou Cuba (vila da Cuba, ao norte de Beja); Castelo Verde foi a primeira fortaleza fundada por Colombo (vila de Castro Verde, ao sul de Beja); tinha o apelido de Esquível o primeiro governador da ilha de S. Tiago e, presentemente, há ainda a rua do Esquível, em Beja. Com respeito à analogia de denominação, a cidade portuguesa Beja leva a palma à de Pontevedra, como se vê! Se a cidade galaica apresenta, apenas, sete nomes idênticos, a cidade alentejana fica-lhe superior neste ponto, sem ser necessário incluir as, confrarias...
Diz, também, o ilustre autor do «Cristobal Colon, natural de Pontevedra», que Colombo «no supo el idioma italiano ni el portugués». É arriscado, porém, fazer uma afirmação deste quilate sabendo-se, perfeitamente, que, viajou e conviveu com portugueses, que casou com uma portuguesa, que residiu em Lisboa, na Madeira, em Porto Santo e, talvez, nos Açores, etc., etc. Mas o Sr. D. Enrique Turull baseia-se para afirmar tal em o famoso nauta ter escrito, no seu «Diario de Navegacion», esta passagem:
«... en el Catay domina un principe que se llama Gran Kan, que en nuestro romance significa rei de los reis...»
e conclui por isto que o grande Almirante «dice que el castellano és su romance». Ora o «Diário» da primeira viagem de Colombo, que hoje conhecemos, não é o autêntico, o primitivo, o original; foi coordenado por Las Casas, que alterna a sua linguagem com a do navegador.
O trecho citado e transcrito pelo Sr. Turull, como argumento, vem precisamente no preâmbulo, e esse preâmbulo, acrescentado depois, parece mais do coordenador, pelo estilo do que do próprio punho de Colombo ([3]).
Mas suponhamos que foi, de facto, o descobridor da América autor dessas linhas; elas nada significam de peso para se poder deduzir e afirmar a sua nacionalidade espanhola porque o grande navegador, mesmo como estrangeiro, ao traduzir a frase duma língua desconhecida para os reis de Castela – aos quais se dirige no preâmbulo – podia, muito belamente, empregar a expressão «nuestro romance» tal qual como o alemão Valentim Fernandes que escrevendo em português, aí por 1506, as suas «Chronicas das ilhas do Atlântico», – que fazem parte do célebre manuscrito de Munique, de que existe uma cópia na Biblioteca Nacional de Lisboa, – empregava períodos como estes:
«Arvores nascem nesta ilha da Madeira de muitas sortes e differenciadas das nossas delas e delas não».
«A sua feição é fora das nossas arvores».
«E esta arvore não tem nenhuma feição das nossas arvores porem se quer parecer acerca como a Cerejeira».
«Toda esta ilha é cheia de arvores e differenciadas das nossas salvo figueiras e parreiras que os portuguezes la levarão».
«Das outras aves já todas são da arte das nossas terras».
«Ovelhas ha nesta ilha tão grandes como de Portugal, e não teem lan se não no papo, e todo outro é cabelinho curto como cão de nossa terra».

Mas pelo facto deste estrangeiro escrever, em português, «nossa terra» poder-se-á deduzir que ele nasceu em Portugal? Não, evidentemente. Logo Colombo podia muito bem escrever «nuestro romance» – traduzindo essa passagem da carta em latim, de Toscanelli, – sem que por isso designasse a sua nacionalidade espanhola.
Alegam, ainda, os partidários da naturalidade galaica do imortal descobridor, como argumento poderoso, que ele, numa das suas muitas cartas dirigidas aos reis católicos, escreveu isto:

«Llego a un mundo nuevo y bajo un nuevo cielo, yés cosa maravillosa ver las arboledas e frescuras y el agua clarissima y las aves y amenidad que invitan a permanecer contemplando tanta hermosura. Hermosura de la tierra, tan solo comparable con la de la campina en Cordoba, aire embalsamado, puro como el de Abril en Castilla, canto del ruisenor como en Espana, montanas en la isla Juana (Cuba) que parecen llegar al cielo, copiosos e saludables rios, immensa variedad de arboles de gran elevacion con hojas tan reverdecidas y brillantes, cual suelen estar en España en el mes de Mayo y siete u ocho variedades de palmas, superiores a las mestras en su belleza y altura...» ([4]).

Ora estas comparações não servem de argumentos, porque não comprovam – como pretende o Sr. Dr. Turull – que o ousado navegador nascera em Pontevedra; não palpita nelas o espírito nativo – como tenta insinuar o distinto advogado – mas sim a necessidade lógica dos confrontos, simplesmente, pois é bem natural que o estrangeiro Colombo evocasse regiões conhecidas dos monarcas de Castela para lhes pintar a beleza das novas terras descobertos.
Ilógico seria ele referir-se, nos seus descritivos, às regiões portuguesas por onde tinha andado que a rainha Isabel e o rei Fernando não conheciam, decerto. .
O alemão Valentim Fernandes, que já citei, faz comparações idênticas, estabelece os mesmos confrontos, não com o calor exuberante e meridional do célebre nauta, concordo, mas, sucintamente, laconicamente, com o ar frio e rápido dum verdadeiro germânico.
Referindo-se à ilha da Madeira diz ele:

«E tem todas as frutas que ha em Portugal afora cerejas».
«Dos peixes a metade são differenciados dos de Portugal».

Escrevendo em português, e para portugueses, não seria risível que este navegador e cronista se pusesse a evocar a sua pátria alemã? Colombo seguiu a mesma orientação, muito naturalmente.
Mas o descobridor da América ao referir-se às belezas do mês de Maio e ao canto do rouxinol designa a Espanha, em absoluto, e nesta comparação pode abranger Portugal, também, onde canta o rouxinol e Maio reverdece deslumbrantemente. É muito possível que fosse esse até o seu fim, por motivos particulares, visto não ter determinado nesse ponto qualquer região de além-fronteiras, e tanto assim parece que a uma das ilhas descobertas baptizou Espaniola.
Os escritores portugueses, antigos, usavam então muito essa denominação exclusiva para indicar toda a Península Ibérica.
O cronista-mor Damião de Góis, aludindo à fauna de Sintra, deixou escrito:

«... ha nela muita caça de veados, e outras alimarias, e sobretudo muitos, e muito boas frutas de todo o genero das que em toda Hispanha, podem achar...».

E, referindo-se à chegada de Vasco da Gama a Calecut, esclarece melhor:

«... até que forão dar com dous mercadores de Tunez dos quaes hum per nome Monçaide fallava castelhano, que em o degradado entrando pola porta da casa, conhecendo no trajo que era Hispanhol, the perguntou, de que nação da Hispanha era, e sabendo que portuguez lhe mandou dar de comer...» ([5]).

Por argumento supremo, por prova irrefutável, – segundo a opinião do ilustre advogado – há, ainda, os documentas de 1413 a 1528, escritos em galego, onde o apelido de Colon aparece frequentes vezes, e que o feliz investigador desfralda como uma bandeira vitoriosa, em fac-similes, nas páginas do seu livro... mas tão reduzidos que é impossível ler-se alguma cousa!
Ora se na escritura de 14 de Outubro de 1495, que cita, se fala em «la heredad de Cristobal de Colon – el proprio Almirante, como afirma, – e se tal Cristobal de Colon era, de facto, o descobridor com propriedades em Pontevedra, como poderia ele declarar-se estrangeiro, em Castela, e escrever em 1498, num documento oficial:

«La dicha ciudade de Genova, de donde yo sali y donde yo naci...»

quando havia muito já que a fama do seu nome enchia todo mundo e... até mesmo a Galiza?!
Mas nos documentos de Pontevedra aparece, também, o apelido Fonterosa – que o Sr. Dr. Turull afirma ser o da mãe de Colombo. Ora foram os modernos genealogistas italianos que, descobrindo uma Suzana Fontanarossa casada tom um tal Domenico Colombo, supuseram que devia ser a mãe do denodado marinheiro...
E assim, o distinto advogado galaico, pretendendo refutar a nacionalidade italiana do descobridor da América, contradizendo-se, vai insensivelmente... seguindo os italianos!

[1] V. «Cristobal Colon, natural de Pontevedra», por D. Enrique Maria de Arribas y Turull. Madrid, Imprenta de «La Ensenanza». Ruiz, 23, bajo, 1913.
[2] V. Cristobal Cólon y Fonterosa, artigo de D. Celso Garcia de la Riega, publicado em «La Ilustracion Espanola y Americana», de 8 de Janeiro de 1902.
[3] V. «Coleccion de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los españoles desde fines del siglo XV», por D. Martim Fernandez de Navarrete, vol. 2.°
[4] Citação de D. Enrique Turull, V. «Cristobal Colon, natural de Pontevedra», pág. 159.
[5] V. «Chronica de el-rey Dom Emanuel», primeira parte, cap. XXII e XXXIX, respectivamente.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Patrocínio Ribeiro - Palavras de Abertura

Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica (...), Lisboa, Liv. Renascença, [1927], pp. 5-12.


A
NACIONALIDADE PORTUGUESA
DE
CRISTOVAM COLOMBO

Texto Integral

PALAVRAS DE ABERTURA


A importancia que de longe vem tomando o problema da nacionalidade de Christovam Colombo, disputada por genoveses e espanhoes, levou-nos com certo fundamento, baseados nos conhecimentos que os portuguezes sempre revelaram desde o inicio das descobertas realisadas atravez do mar mysterioso, e da primazia no encontro das terras mais remotas a lançar á publicidade esta obra, por todos os motivos notavel.
Não ha dúvida sobre a reputação creada na Europa pelos navegadores portuguezes desde os meados do seculo XV e o estabelecimento scientifico creado pelo genio do Infante D. Henrique, no Promontorio da costa do Algarve; como tambem é certa a estada cm Portugal, — centro e origem dos mais arrojados empreendimentos, de navegadores estrangeiros como Americo Vespucio, vindo aqui adquirir conhecimentos, sem os quaes, dificilmente poderiam exercer a profissão a que se destinavam.
Com a publicação do trabalho de Patrocinio Ribeiro, em portuguez e inglez, para mais largo conhecimento das suas deduções, cuidamos prestar um alto serviço á sciencia e verdade historica nem sempre respeitada e talvez, tendenciosamente deturpada.
O publico e o juizo critico dos historiadores, poderão avaliar melhor do que nós o fazemos, do criterio e razão scientifica contidos nos factos, mais que simples coincidencias, para levarem o malogrado e erudito escriptor a sustentar a nacionalidade portugueza de Christovam Colombo. Já em 1915 fôra apresentada à Academia de Sciencias de Portugal pelo mesmo auctor, uma memoria intitulada o Caracter mysterioso de Colombo e o problema da sua nacionalidade, estudo sensacional, mais tarde ampliado e admiravelmenie refundido, estudo que o notabilissimo publicista sr. Julio de Lemos, ilustre secretario perpetuo do Instituto Historico do Minho, considerou explendido titulo de imortalidade do seu modestissimo auctor. Por sua vez, aquele Instituto, dirigia a Patrocinio Ribeiro e á Academia, a par de agradecimentos as mais calorosas felicitações por tão brilhante como notavel escrito.
O trabalho presente, aumentado com outros estudos e novamente refundido, deverá constituir um glorioso padrão do patriotismo e profundo saber do eminente escritor.
Os espanhoes, provaram já, não ser Christovam Colombo, genovez; mas não provaram que fosse espanhol.
Consideram segura a afirmativa de ter nascido entre a Galiza e o Algarve, no extremo ocidental da Peninsula, documenta que publicamos em apendice, assim como alguns historiadores italianos reconhecem como oriundo de Portugal o irmão do famoso navegador, Bartholomeu Colombo, tambem não se provou até hoje, apezar das persistentes investigações dos mais notaveis historiadores espanhoes, que fosse Colombo natural da Galiza.
Restava então averiguar se era portuguez, o que ainda não haviam tentado os investigadores. Patrocinío Ribeiro, arguto e meticuloso, espirito dotado d’uma inteligente e bem formada competencia, provada em muitos trabalhos anteriores de incontestavel valor, executados pela paciente vontade d’um benedictino, estava designado a bem da verdade, para desvendar o mysterío.
Ou fosse pelas perseguições movidas em torno do seu genio audaz; ou pela pouca importancia que poderia representar para o desenvolvimento comercial da Europa, a descoberta de um imaginario caminho para as Indias pelo Ocidente, idealisado com interesse e fantasia por Colombo; o que é certo, é que os portuguezes, emprehendendo a execução de um largo plano estabelecido em Sagres, desde o conhecimento da forma esferica da terra, procuravam chegar á India pela costa da Africa, tendo descoberto o Cabo da Bôa Esperança 6 anos antes da expedição de Palos, com o fim de fazerem derivar para Portugal, o comercio riquissimo do lendario Oriente.
Os portuguezes não ambicionavam terras incultas e selvagens, que absorvessem gente e dinheiro; por esta razão repeliam os oferecimentos feitos mediante exigentes propostas, para a descoberta de terras que eles conheciam havia 29 anos, (desde 1463) antes, da primeira viagem de Colombo. Lá tinham estado os Côrte-Reaes, Alvaro Martins Homem, Afonso Sanches e muitos outros.
O objectivo era o caminho seguido em 1498 por Vasco da Gama; e certos disto, estavam os Portuguezes, prestando toda a atenção e louvor a esse extraordinario acontecimento, sobre o qual, Camões concebeu e realisou, a maravilhosa epopeia que permaneceu eterna; e Portugal, dedicou-lhe um esforço, que não lograram merecer outras descobertas — nem mesmo o Brasil.
No Seculo de 28 de Dezembro de 1926, publicou. o ilustre historiografo sr. Antonio Ferreira de Serpa um magnifico e bem documentado artigo, provando a descoberta da America dezenas de anos antes de Colomho, por navegadores portaguezes; e em 15 de Fevereiro do corrente ano o mesmo auctor; publica ainda sob o titulo A prioridade do descobrimento da America pelos portuguezes, um notabilissimo artigo em que o proprio Colombo, confessa ter sabido das expedições dos filhos do verdadeiro descobrídor, João Vaz Corte-Real, cujas indicações seguiu na sua viagem.
Em muitos pontos se confirma o criterio de Patrocnio Ribeiro, com eloquente demonstração e perfeito raciocinio que já não é possivel permanecer em dúvida.
Sendo como é caso largamente demonstrado e bem esclarecido quanta á questão da prioridade, toma maior destaque e mais se confirma n’esses artigos a provada nacionalidade tal como é apresentada pelo auctor d’esta obra.
Quando, porém, os italianos asseguram que o irmão de Colombo é Portuguez e os espanhoes teem como certo, ter este nascido na parte que vae da Galiza ao Algarve, o trabalho firmado por Patrocinio Ribeiro è uma obra altamente notavel e verdadeiramente sensacional. Todos os documentos que possam vir à luz da publicidade, e que a morte não consentiu a Patrocinio Ribeiro — infelizmente — o seu estudo, na casa da India em Espanha como na Torre do Tombo em Portugal, temos a convicção, que não darão senão maior relêvo a esta valiosa e interessantissima monografia.
Critico e historiador, contista e inspirado poeta, dispondo d’um estilo leve e limpido como a agua fresca dos regatos, corre nas paginas admiraveis dos trabalhos que Patrocinio Ribeiro nos legou, ora graciosos e alegres, ora de critica e de analise, tocados sempre pela luz brilhante do seu espirito e do seu talento.
Theofilo Braga, tinha pelo auctor da Nacionalidade Portugueza de Colombo, uma particular estima; admitindo-o em 14 de Maio de 1912 como socio da Academia de Sciencias de Portugal, por unanimidade de votos, depois d’esta ter apreciado a sua memoria, A verdadeira «Célia» de Sá de Miranda, como prova de talento, profundo saber e meticuloso estudo. Nessa comunicação, Patrocinio Ribeiro concluia, que Célia era a celebre poetisa Victoria Colonna, (Marqueza de Pescara) e não como afirmava Theofilo, Isabel Freire.
Délia, era uma personagem diferente e d’ela provinha, sem duvida, uma errada interpretação.
A 2 de Julho, apresenta Patrocinio áquela douta Academia os interessantissimos quesitos: O que é o genio? e em 30 do mesmo mez, a notavel monogrofia A bem-amada de Bernardim Ribeiro e as personagens secundarias da «Menina e Moça»; comentando n’este trabalho todos os raciocinios e documentação, para estabelecer o principio de que foi a poetisa de Almada, D. Leonor Mascarenhas, a bem-amada (Aonia), inspiradora musa do poeta bucolista e não Joana Tavares, mostrando-nos pelo entrecho da celebre novela em criptónimos e anagramas, as personagens de Joana, a louca, a imperatriz Isabel de Portugal, Margarida de Valois, Francisco I, Carlos V, Filippe I e Jacopo Sanazaro. Em Agosto de 1912 e Setemblo de 1913, sob a epigrafe de A ecloga II de Bernardim Ribeiro, retificava no Diario de Noticias a interpretação, a que juntou outros novos elementos biograficos; publicando em Novembro de 1920 um artigo no Seculo, em que prova a permuta de versos, entre o reformador da poesia lyrica em Portugal e a fermosa e mal empregada Lianor.
No espolio literario legado á posteridade, podémos tomar nota de muitas obras de incalculavel valor, que é necessario não deixar permanecer ineditos ou sepultados no pó do esquecimento, e, a par d’estas obras ainda alguns preciosos escriptos que merecem ser publicados. D’essa relação damos conhecimento publico, em homenagem ao auctor e em beneficio das letras nacionaes:
«Chrisfal», Apontamentos diversos (Inedito); «O auctor oculto do Chrisfal» (publicado); «Menina e Moça», celebre novela portugueza do seculo XVI, interpretada por Patrocinio Ribeiro, (Inedito): «O amôr lésbio atravez dos seculos» (Inedito); «Onomotografia» assignaturas (impresso); I, Diversos artigos publicados na Ilustração Portugueza; II, Artigos publicados em diversos jornaes; III, Artigos de colaboração em varios jornaes de Lisbôa e provincias: «Favo de Amôr», contos com um prefacio de Julio Dantas (Inedito); «O Sol de Africa», contos (Inedito); «A conjura dos sargentos» (Inedito); «Antologia dos Poetas Brasileiros» (Inedito): «A bem-amada de Bernardim Ribeiro» (lmpresso); «Amorosidade elaborativa de Gustavo Flaubert» (Impresso); «A verdadeira Célia de Sá de Miranda» (Impresso); «Eduardo Metzner», estudo biografico (Inedito); «Dicionario dos termos obscenos», coligidos em linguagem popular do nosso tempo por * * * (Inedito); «Colombo» (apontamentos varios); A nacionalidade Portugueza de Colombo» (publicado no Jornal da Europa); «Rocal de Vidrilhos», versos (Inedito); «Musa Ironica», versos escolhidos.
Nasceu Patrocinio Ribeiro na Ericeira, a 9 de julho de 1882; de compleição fraca e mediana estatura, a côr morena o nariz aquilino, formando uma curva com o prolongamento da testa, os olhos pequenos e perscrutadores de miope, sob o largo supercilio negro e cerrado; na boca um permanente e leve sorriso de amarga ironia e o inseparavel cigarro.
Foi socio correspondente da Academia de Sciencias de Portugal e socio da Associação dos Arqueologos. Estudou na Casa Pia: mas a sua persistencia e ancia de saber, dominaram-o sempre atravez da curta existencia.
Serviu na Inspecção das Bibliothecas, foi bibliotecario archivista na Escola Pratica de Infanteria em Mafra e á data do seu falecimento, em 2 de Dezembro de 1923, era escriturario no Archivo da Camara Municipal de Lisbôa.
Colaborou no Ocidente, O Seculo, Diario de Noticias, Jornal da Europa, A Capital, Ilustração Portugueza, Victoria e muitos outros jornaes da provincia.
Foi um incansavel lutador, torturado pela pertinacia d’uma bronchite e atormentado pela dolorida concentração do seu espirito, na absorção da propria materia. Alegre e quasi ingenuo como as crianças, foi antes de tudo um sonhador e um poeta como foi um profundo observador.
«A nacionalidade portugueza de Colombo» revela nas suas paginas cheias de saber e de logica o grande exemplo do seu patriotico intuito.
Lisbôa, Abril de 1927

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