quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
quarta-feira, 16 de julho de 2008
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
Bibliografia da controvérsia
- José Rodrigues dos Santos, O Codex 632, 1ª ed., Lisboa, Gradiva, 2005.

Alguém nos comentários deste blogue referiu um programa na RTP2 sobre Colombo. Vendo-o, constatei que o jornalista José Rodrigues dos Santos, para além de escritor, também é pseudo-historiador nas horas vagas.
Li há algum tempo O Codex 632 como obra literária. Pensei que se tratava de mais um livro na literatura em voga: o romance histórico - afinal enganei-me.
Agora, vendo o programa na RTP2 constatei para meu espanto que o autor é mais um dos acérrimos defensores dum Colon português - não, não é aquela parte com acento.
Colon era um apelido aparentemente muito comum entre alentejanos de Cuba (coitados, nem imaginam!), mas hoje só existe um único exemplar: a estátua Cristóvão Colon.
Gostei especialmente no programa da referência ao vinho. Demonstra imparcialidade de intenções.
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Há erros que arrasam uma tese
«A 4 de Março de 1493 dá-se um acontecimento que obriga de imediato à redefinição da correlação de forças que se fora conseguindo instalar. Nesse dia arribou ao Restelo Cristóvão Colombo...»F. Contente Domingues, «A disputa pela posse do Atlântico e a política de D. João II. O tratado de Tordesilhas», Portugal no Mundo, dir. Luís de Albuquerque, vol. 1, Lisboa, Selecções do Reader’s Digest/Alfa, © 1989, imp. 1993, p. 375.
Manuel Rosa (19-01-2007) sobre o problema irrelevante se Cristóvão Colombo chegou ao Restelo a 4 ou a 6 de Março.«...a seis dias de Março arribou arrestello em Lixboa Christovam Colombo Italiano...
Mas Rui de Pina errou em metade desta frase.
E perguntamos: “Então se ele errou em metade porque devemos de acreditar nele sobre a outra metade?”
Sim Rui de Pina errou. Mas nenhum historiador antes de nós apontou o erro porque NÃO sabem que Rui de Pina errou.»
Adenda:
sábado, 12 de maio de 2007
A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (3)
Texto integral
CONSIDERAÇÕES GERAIS ACERCA DOS ESTRANGEIROS EM PORTUGAL.
O PRIMEIRO ASCENDENTE CONHECIDO DOS PERESTRELOS.
NOTÍCIA HISTÓRICO-GENEALÓGICA DESTA FAMÍLIA NO NOSSO PAÍS.
BARTOLOMEU PERESTRELO.
SOGRO DE CRISTÓVÃO COLOMBO; AS SUAS TRADIÇÕES DE NAVEGADOR E DESCOBRIDOR DA ILHA DO PORTO SANTO.

A história da imigração estrangeira na península há dois movimentos de certa forma característicos: um, vindo de França e transpondo os Pirinéus, predominou durante a laboriosa gestação dos modernos estados ibéricos, o outro, com o foco em Itália e transmitido pelo Mediterrâneo, acompanhou-os na sua idade viril, bracejando pelos mares e desdobrando a sua área territorial até às regiões mais afastadas do globo.
A França tem larga representação na história peninsular por uma das camaradagens mais valiosas na guerra contra o domínio mauritano, como a Itália nas grandes explorações transatlânticas dos séculos XV e XVI. Nas lutas, de que nasceu, Portugal abriu à primeira um campo de triunfos e o caminho dos melhores interesses individuas; arvorado depois em primeiro empório marítimo e comercial da Europa, ofereceu à segunda um novo atractivo, que lhe permitiu retomar parte das suas velhas tradições de rainha do oceano e também franquiar um campo de produtiva actividade as suas mais variadas ambições pessoais.
Especificamos a França e a Itália nestes dois movimentos imigratórios, por terem neles figurado respectivamente em primeiro lugar; porque as suas relações revestiram uma forma quase sempre amigável e por vezes sincera, o que é para admirar em épocas de lutas menos escrupulosas pela glória e pela fortuna; e porque, finalmente, além da sua acentuada influência moral, o seu sangue cruzou-se com o nosso, encontrando-se ainda hoje vestígios límpidos por quase todo o País.
Aquém dos Pirinéus, apesar da divisória política e de diversas embrulhadas dinásticas, foi sempre tão constante a permuta de gente, e é tão conhecido o auxílio recíproco, em diferentes colisões, entre o povo espanhol e o português, que realmente não podemos considerar, para o caso sujeito, a Espanha como uma nação estrangeira.
Notando a rara sinceridade das nossas relações internacionais, colectiva ou individualmente consideradas, deixámos subentendidas excepções numerosíssimas, de cuja particularização nos guardamos o mais possível, embora nos fosse coisa fácil de fazer.
Desde a sua primitiva, Portugal não foi a maior parte das vezes correspondido na confiança generosa e fraternal, com que abriu os seus braços aos estrangeiros, sem nunca lhes exigir passaporte, ou cartas de crença.
Hospedou-os sempre com carinho, proporcionou-lhes as mais invejáveis alianças matrimoniais, forneceu-lhes a matéria-prima do trabalho, abriu-lhes a porta das grandes fortunas e nobilitou-os, por fim, como fecho da sua rasgada hospitalidade.
Entre os que lutavam fraternalmente ao nosso lado, em terra e no mar, e os que exploravam tão-somente as fontes de riqueza do país em diversos ramos de negócio, desde os senhorios e comendas aos casamentos nas grandes casas, nunca se estabeleceram diferenças odiosas. O herói e o homem de negócio foram sempre bem vindos; desbravavam-se-lhes indistintamente o caminho das suas aspirações, sem inquirir da sua procedência, nem perscrutar-lhes os intuitos.
Diziam que eram nobres da mais fina extracção? Lavrava-se-lhes logo, sem maior processo de habilitação, um instrumento oficial, espécie de salvo-conduto ou de talismã, que lhes franquiava os solares, onde havia grandes dotes, e os guindava ao úbere inesgotável da Amaltéa pública.
Não eram nobres, nem tinham quem os afiançasse como tal? A munificência régia lá descobria um serviço, ou invocava genericamente serviços para diplomá-los com pergaminhos e emparveça-los num brasão de armas.
Muitos vinham pera estes reynos cobertos de oução (lêndeas) e se iam ao despois todos agalanados e muy paraltas; como lemos algures.
Que se fossem só agalanados e paraltas; bom proveito. Felizes daqueles a que a fortuna sorriu na terra alheia, sua pátria adoptiva; mas o pior é que essa pátria adoptiva, tema das mais requintadas declamações, recebeu não poucas vezes a ingratidão e o descrédito, como paga da sua confiança e hospitalidade.
A índole, ou feitio, em extremo dócil, sociável e confiante, acarreta aos povos as mesmas consequências funestas, que aos indivíduos. O homem, que abre de par em par a sua porta a um desconhecido e o admite na familiaridade do seu lar, não difere duma nação, que deixa entrar no seu mecanismo orgânico um elemento estranho, sem afinidade de sentimentos, nem comunidade de interesses.
Em tal casa há apenas um jogo de azar; as probabilidades de ganho são inferiores às de perda, tanto, quanto é diminuta a percentagem dos exemplares aproveitados na aclimatação de seres exóticos.
Portugal experimenta há muitos séculos, e continua a experimentar, os resultados demonstrativos desta profunda verdade. Recebeu muitos serviços de estrangeiros, e pode orgulhar-se de lhos ter pago por seu justo valor; salvando-se, esta clara, as excepções que haveria pela força das circunstâncias, das quais começou por ser vitima um grande número dos nossos mais eminentes concidadãos. Poucos, porém, agradeceram a este país hospitaleiro os serviços e acolhimento que lhes prestou; e, se dele se lembraram depois, foi só para a depreciação e para o descrédito.
Se estudarmos a fundo as nossas diversas crises morais e económicas, bem como algumas complicações internacionais que nos custaram caríssimas, não as podemos carregar em exclusivo à conta do elemento propriamente nacional; algumas há até, onde este figura simplesmente pela sua tolerância, umas vezes passiva. Outras vezes inconsciente.
Se, por outro lado, procurarmos as vítimas dessas derrocadas, encontraremos apenas o país com aqueles que lhe estavam indissoluvelmente presos por uma choupana, por uma jeira de terra, por um pedaço da sua alma.
Estas considerações escaparam-nos instintivamente ao dobrar a papelada e ao fechar os alfarrábios, por onde andámos a procura dos Perestrelos. Não foram eles que no-las inspiraram: pelo contrário, avultam como excepções honrosas, que se consubstanciaram no sangue português. Foi todo esse caleidoscópio assombroso, que nos suspendeu frequentemente a investigação, mergulhando-nos numa meditação profunda.
Para reunirmos uma família tresmalhada, como a dos Perestrelos, tropeçámos com muitos outros mortos e estacámos diante de verdadeiras surpresas. Aqui, tolices que nos fazem rir; ali, torpezas que nos revoltam; acolá, desgraças que nos provocam lágrimas; mais além, rasgos de valor e de civismo, que nos arrancam bênçãos.
Os Perestrelos, como toda a gente, pagaram o seu tributo de fragilidade humana; mas tão pequeno em relação aos méritos pessoais e brilhantes serviços de alguns deles, que mal se torna reparável.
O que se tem escrito até hoje a seu respeito vai, todavia, ser modificado, porque assim o exige a história, sem lhes prejudicar no conjunto as suas belas tradições de família.
* *
Filippone, ou Filippe Palestrello é o primeiro ascendente dos Perestrelos, que encontramos em Portugal, por fins do século XIV, entre outros muitos compatriotas seus, que vieram a este reino em busca de fortuna.
Filippone era filho de misser Gabriele Palestrello, natural da cidade de Placência (Lombardia) e de sua mulher madame Bartholine Biforti ([1]), que faleceram na mesma terra da sua residência e naturalidade. Tudo isto se depreende duma justificação, que ele apresentou para se eximir a uma derrama tributaria lançada por D. João I para custear a expedição naval a Ceuta.
(Placência - Palácio Medieval)
Este processo justificativo, apenso ao respectivo alvará, tem a data de 8 de Janeiro de 1399, e ambas as peças constituem o primeiro e mais seguro vestígio cronológico, até agora encontrado, da existência de Filippone em Portugal. ([2])
Achava-se ele então na cidade do Porto, mas em 1415 encontramo-lo com residência em Lisboa e já casado com uma senhora portuguesa, D. Catarina de Melo, de quem teve os quatro filhos seguintes, por ordem do nascimento: Richarte ([3]), D. Isabel, D. Branca e Bartolomeu.
Antes, porém, de entrarmos no estudo biográfico do último, faremos algumas referências a seu irmão mais velho e à progénie distinta; de que foi tronco, bem como daremos notícia circunstanciada de suas irmãs, cujos destinos, além de oferecerem uma certa novidade histórica, proporcionaram a Richarte e a Bartolomeu uma das relações pessoais mais valiosas da época.
Richarte Palestrello seguiu a carreira eclesiástica, obtendo o lugar de prior da freguesia de Santa Marinha de Lisboa, então a mais rendosa talvez do arcebispado. Houve em Beatriz Anes dois filhos — João Lopes Perestrello e Sebastião Perestrello ([4]) — legitimados por carta datada de Sintra a 11 de Julho de 1423.
Do filho mais novo não alcançámos informações de maior interesse e fidelidade. O mais velho e herdeiro da casa de seu pai, João Lopes Perestrelo, já acreditado por um largo tirocínio nas lutas do mar, teve a capitania da Fradeza, uma das naus da expedição às Índias em 1502, comandada por Vasco da Gama, e distinguiu-se por essa ocasião nas lutas com o gentio de Cochim. Voltando da Índia com um avultado pecúlio, João Lopes instituiu no termo de Alenquer um grande morgado, que denominou — do Espanhol.

(Vasco da Gama)
Omitimos muitos outros membros da família de Richarte Palestrello, e os quais mereciam menção honrosa, para não avolumarmos estas notas, com desvio do nosso caminho directo. Os filhos de João Lopes, mercê da fortuna de seu pai, parece que ficaram todos nas melhores condições económicas; pois que entre outros documentos, que examinámos no Corpo Cronológico da Torre do Tombo, relativos a eles neste ponto, deparou-se-nos uma provisão real, datada de 21 de Agosto de 1514 para se pagar a sua filha D. Mécia Lopes Perestrelo a importância de 310$760 réis, que se lhe deviam por empréstimo.
As duas irmãs de Bartolomeu Perestrelo, D. Isabel e D. Branca, viveram sucessivamente com o célebre arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha, personagem notabilíssima pela opulência com que viveu e pelo seu elevado nascimento, pois que lhe circulava nas veias sangue de Henrique IV de Castela e de D. Fernando I de Portugal. ([6])
Estas relações, que podem atrair os reparos da nossa época, um tanto exagerada nos seus preconceitos sociais e numa aparente intransigência para com as infracções das leis civis e canónicas, naquele tempo eram viáveis à face da tolerância consuetudinária e dos exemplos promanados do seio das mais elevadas hierarquias. ([7]) Escusamos de aduzir provas individuais onde apoiar o que adiantamos. Basta atender à descendência bastarda da alta nobreza e dos reis, sancionada pelo acolhimento, que se lhe fazia no próprio lar conjugal, pela sua representação desassombrada nos negócios públicos, e, finalmente, pela legitimação que co-honestava os actos, relevando as culpas dos progenitores e removendo as máculas suspensas sobre a cabeça da progénie. A brilhante dinastia, que por aquele tempo presidia aos destinos do país, começara por um bastardo, um dos maiores reis, que empunharam o ceptro português.
D. Branca Dias Perestrelo e sua irmã D. Isabel, a quem por morte desta ela sucedera nas relações amorosas com o arcebispo, se não gozaram dos foros legais da esposa, pelo carácter sacerdotal do homem, a quem se prenderam nos impulsos irrefreáveis do coração, tiveram todavia, a par da grande consideração social, as comodidades e honras duma casa verdadeiramente fidalga, e os frutos dessas uniões foram perfilhados perpetuando-se numa descendência pouco vulgar a todos os respeitos.
Parece que D. Isabel pouco tempo sobreviveu ao nascimento de seu filho D. João, alcaide-mor da vila de Óbidos, legitimado por carta de 13 de Agosto de 1444. Falecida esta senhora, na companhia da qual vivia a irmã D. Branca, cuja formosura, segundo o que lemos, não em inferior a de D. Isabel, a amizade fraternal, que o arcebispo lhe dedicava, transformou-se logo noutra ordem de afectos, visto o temperamento bem conhecido de D. Pedro de Noronha e a necessidade de substituir a sua defunta companheira, com a possível conciliação da estética e da conveniência administrativa.
Desta ultima união conhecem-se três filhos, também legitimados em 13 de Agosto, de 1444 ([8]) Foram os seguintes: D. Isabel, a quem nos vamos já referir; D. Diogo de Noronha, frade de S. Francisco e depois bispo de Lamego; D. Pedro de Noronha, um dos heróis de Alcácer-Ceguer e comendador-mor da ordem de Santiago que foi encarregado por D. João II de diversas comissões de confiança, que sempre desempenhou com muito critério e proficiência. Teve a honra de representar por procuração o príncipe D. Afonso no seu casamento com D. Isabel, filha dos Reis Católicos; e escolhido por delegado de Portugal nas cerimónias da elevação de Inocêncio VIII ao pontificado, resolveu por essa ocasião varias questões que trazíamos pendentes da Sé Apostólica, devendo especializar-se a bula da cruzada para prosseguirmos nas guerras de Africa.
D. Pedro de Noronha, como lhe permitiam as suas rendas e alta influência na Côrte, encaminhou com manifesta solicitude até invejáveis proeminências eclesiásticas e civis os filhos havidos das duas irmãs Perestrelo, que, sempre que precisaram, dispuseram do valioso patrocínio do afamado prelado.
Chegou, porém, um momento em que o prestígio deste começou a declinar rapidamente, e uma profunda reviravolta se operou no seu regime doméstico. D. Branca Dias Perestrelo, em vésperas de ser mãe, foi de súbito enclausurada num mosteiro de Coimbra, por ordem despótica do arcebispo, e ali deu a luz D. Isabel que em 1462 casou com o marquês de Montemor, filho do segundo duque de Bragança e um dos caudilhos da nobreza sublevada contra a política absorvente e centralizadora do Príncipe Perfeito.
D. Pedro de Noronha, que até então não postergara de todo uns restos do decoro devido à sua pessoa e dignidade arquipiscopal, precipitou-se depois numa vida desregrada com outras mulheres, de que houve mais filhos, e D. Branca despeitada pelo seu abandono e vendo-se preterida não tardou em sair do convento para casar com Aires Anes de Beja, morador em Coimbra. Deste casamento houve larga descendência, conhecida pelos Perestrelos de Beja. ([9])
* *
A natureza dos serviços mais ou menos públicos, por ele prestados numa época de trabalhos tão variados e complexos, não é fácil, porém, de precisar por enquanto. Da mesma forma que os cronistas do tempo passaram rapidamente por diversas personagens, cujos nomes nos transmitiram pelo simples motivo de relações com outros mais salientes, ou com um facto histórico, não consagraram a Bartolomeu Perestrelo, senão referências vagas, como povoador e donatário da ilha de Porto Santo.
Nestas duas mercês, principais vestígios da passagem de Bartolomeu pela história, e que lhe foram feitas pelo infante D Henrique, admitiram-lhe alguns escritores implicitamente a dupla qualidade de homem de mar e de descobridor, a despeito da palavra séria de Azurara e de Barros.
Não duvidamos de que ele houvesse bem merecido da generosa amizade e confiança de D. Henrique pelos seus méritos pessoais e por alguns dos vários serviços, que tanto distinguiram outros homens do seu tempo sem ser nas lides do mar; não nos encostamos tão-pouco confiada e exclusivamente à crítica, que atribui à influência de D. Pedro de Noronha as graças que lhe foram dispensadas. O que, porém, não podemos em consciência concluir, pela que se lê em diversos escritos, pelo teor dos documentos relativos a Bartolomeu, e ainda por palpáveis contradições cronológicas, é que Bartolomeu Perestrelo fosse descobridor da ilha de Porto Santo, ou colaborador importante de Gonçalves Zarco e de Tristão Vaz nesse empreendimento marítimo.
Para o reconhecer como tal, invocam alguns escritores, avultando entre eles D. Francisco de S. Luís, a prática geral daqueles tempos, isto é, serem dadas as capitanias das terras descobertas aos que tinham a prioridade do descobrimento. Assim aconteceu muitas vezes, mas não com a generalidade que possa formar uma regra para abranger Bartolomeu Perestrelo.
Jácome de Bruges, primeiro povoador e donatário da ilha Terceira, e igualmente Joz de Utra da ilha do Faial, não tomaram a mínima parte no descobrimento das duas ilhas. E além destes outros exemplos, mais levam-nos a pôr de parte a ideia de uma prática geral, na concessão das capitanias. Lembraremos, contudo, ainda outro caso sintético que imprime um novo carácter à questão das doações.
É a que D. Afonso V fez a Fernão Teles da ilha das Flores, cuja jurisdição e senhorio se consideram geralmente dados em primeiro lugar a D. Maria de Vilhena, o que é um absurdo; ou, apesar das prescrições da lei mental então vigente, por ela obtidos de Gomes Dias Rodovalho, quando a referida D. Maria era mulher de Fernão Teles e por morte deste ficou administrando as Flores, como tutora de seu filho menor Rui Teles. ([10])
Os descobridores da ilha foram Diogo de Teive e seu filho João de Teive, e foi este último que transaccionou com Fernão Teles a trespasse de todos os seus direitos segundo uma carta régia de confirmação, datada de 28 de Janeiro de 1475. Que nos conste Fernão Teles nunca ali esteve depois de ser donatário, quanto mais andar às apalpadelas por aquela região caprichosa do Atlântico em procura da formosa ilha.
Por outro lado, a carta de doação de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo, bem como a de confirmação da venda, que sua viúva e um irmão desta Diogo Gil Moniz, tutores de seu filho menor Bartolomeu fizeram a Pedro Correia da Cunha, não aludem a quaisquer serviços que hajam imperado para tal mercê, e menos ainda a primazia de Bartolomeu, como descobridor. Pelo contrário, no segundo desses documentos até se diz: que ele me pediu por mercê, que porquanto seu desejo e vontade era povoar a minha ilha de Porto Santo, o que realmente não se compadece nem ainda com qualquer pressuposição de direitos imediatos, que ele tivesse à referida capitania.
Quanto a companheiro de Zarco e de Tristão no descobrimento, e principalmente a havê-los precedido na empresa, além das considerações anteriores, que nos parecem conclusivas, opõe-se a cronologia a verosimilhança deste traço histórico de Bartolomeu Perestrelo. Tristão Vaz era já homem feito em 1418, época em que se fixa o encontro da primeira ilha do arquipélago da Madeira. Tinha ele então de 33 para 34 anos, e Zarco andava pela mesma idade, ou por mais avançada ainda, a concluir do que diz João de Barros com respeito aos herdeiros de Zarco disputarem as glórias de Tristão por este não ser homem de tanta idade e qualidade como João Gonçalves. Se uma diferença de idade, que não podia ser grande, constituía base para esse pleito moral entre os representantes dos dois heróis, que faria se se pusessem dum lado os de Bartolomeu a litigar com os de ambos eles reunidos do outro.
Pois que, por diversos cálculos e, sobre tudo, pela época de que se pode aproximar o casamento de Filippone, segundo os nobiliários, notando que Bartolomeu foi o quarto fruto desse matrimónio, ele não teria mais de metade dessa idade, acrescendo ainda a circunstância considerável de D. Isabel Moniz, terceira mulher de Bartolomeu Perestrelo ser bisneta materna de Tristão Vaz.
Bartolomeu Perestrelo estava, portanto, numa idade pouco própria a atribuir-se-lhe, na falta absoluta de dados históricos que provem o seu talento precocíssimo para a vida do mar, o comando de qualquer expedição ou a sua escolha para representar nela um papel igual ao de Zarco e de Tristão, já celebres nas lides de África, e com o seu nome de marinheiros feito nas travessias de Portugal a Ceuta e a outros pontos nas costas norte e oeste do continente negro. Foi, sim, em companhia dos dois, na corrente entusiástica e sonhadora dos que se ofereceram para ir povoar Porto Santo, um novo paraíso pela mais jocosa das antifrases.
Em conclusão, a fama arranjada a Bartolomeu Perestrelo, como navegador não se estriba sequer em considerações de maior procedência. Que ele se tivesse distinguido em qualquer outro ramo de actividade da época, não está fora de razão e de justiça admiti-lo em face da mercê, que lhe fez o infante, e do bom acolhimento que lhe dispensaram famílias, ciosas do seu sangue e pergaminhos, com as quais ele contraiu alianças matrimoniais.
Liquidado, pois, este ponto de velho debate histórico, entremos noutras mais intimamente relacionados com a existência do capitão donatário da ilha de Porto Santo.
[1] Bartholomine Biforti, segundo outros. O apelido Biforti aparece pelo decurso do tempo, e na mesma família dos Perestrelos, escrito de diferentes modos: Biforte e Bisforti; e até uma terceira neta de Gabriel e de Bartholine se apelidou Brachiforti. Foi esta D. Leonor Perestrelo Brachiforti, filha de João Lopes Perestrelo e casada com Gil Vicente da Maia, falecido em 16 de Janeiro de 1451. Ambos jazem no cruzeiro dos Capuchos da Carnota e no epitáfio ainda se lê claramente assim escrito o nome daquela senhora.
[2] Jacinto de Pina Loureiro, talvez o genealogista mais consciencioso e minucioso e que fundamenta quase sempre a sua extensa obra em provas irrefutáveis e documentos arquivados na Torre do Tombo, diz-nos que o documento acima existia ainda no começo do século XVII em mão de D. Leonor Lobo Perestrelo, que era então casada com Diogo Saldanha, sendo por esse meio que se veio a saber quais eram os seus ascendentes e as armas que esta família usara em Itália.
As armas dos Perestrelos são: Escudo partido em pala; na primeira, em campo de oiro, um leão de púrpura armado de vermelho; na segunda, em campo de prata, com banda azul, carregada de três estrelas de oito pontas entre seis rosas de vermelho de três em três em pala. Timbre o leão do escudo Com uma estrela na espádua.
[3] Seguimos exactamente o nome que lhe dá a carta de legitimação dos filhos, desprezando as variantes ortográficas, que se encontram nos genealogistas.
[4] Acompanhamos as modificações sucessivas que o apelido sofreu em Portugal, segundo o texto de diferentes escritores.
[5] Este Bartolomeu Perestrelo teve em galardão de seus serviços a provedoria da Fazenda Real de Malaca, sendo capitão-mor Jorge de Albuquerque, ou, como quiserem, Jorge de Mello Pereira de Albuquerque.
[6] Tanto D. Pedro de Noronha, como seus irmãos, foram personagens importantes. D. Fernando, segundo conde de Vila Real, D. Sancho de Noronha, conde de Odemira e D. Constança de Noronha, 2.ª mulher de D. Afonso, primeiro duque de Bragança, constituíram com seu irmão, o 3.º arcebispo de Lisboa, um núcleo de força social de primeira ordem.
[7] A mancebia não era coisa corrente, tolerada pelas leis e pelos usos, só na época a que nos referimos, e exclusiva do nosso país. Não incorreremos, porém, na indelicadeza desnecessária de entrar na casa alheia. De muitas provas, que temos, do que a tal respeito se passava entre nós desde os primeiros tempos da monarquia e das tristes condições sociais da mulher nos séculos passados, apenas indicámos ao leitor um documento, que se encontra no Livro 4.° de Além-Douro, a folhas 274. É a transacção efectuada entre D. Diniz e Branca Lourença. O rei dava-lhe a vila de Mirandela, motivando essa mercê da seguinte forma: E esta vos faço por compra do vosso corpo, e se Deus tiver por bem que eu haja de vos filho ou filhos, que a elles fique a dita villa.
Caso verdadeiramente assombroso para a época de hoje; mas o dr. Francisco Brandão, que aproveitou o documento na sua Monarchia Lusitana, diz-nos que essas coisas não eram estranhadas naquele tempo. E tanto o não eram, que D. Afonso, filho de D. Dinis, assina com seu pai aquele curiosíssimo papel! O mesmo cronista pondera, que a rainha Santa Isabel não o assinou, pelo decoro que se lhe devia guardar, visto que a mercê era feita a uma mulher, com quem o rei ofendia sua esposa. E faltava apenas para cúmulo que esta assinasse a transacção, em que figuram como testemunhas nada menos do que sete bispos, um mordomo-mor e um chanceler!
A compra do corpo de Branca Lourença estava perfeitamente válida com a assinatura de tantos maiorais da igreja romana e mais do que garantida pela rubrica dum infante em vésperas de ser rei.
De passagem: D. Diniz foi o fundador do convento de Odivelas, e com tanta solicitude velava pela recato das freiras, que nem estas podiam tomar banhos do mar senão sob a sua real presença.
[8] O facto dos eclesiásticos legitimarem filhos era antigamente vulgaríssimo. Para que disso se faça uma ideia apontamos alguns de muitos exemplos: Os bispos da Guarda, D. Gonçalo, D. João e D. Álvaro, legitimaram um grande número deles; alguns, homens insignes. O bispo de Évora, D. Afonso, primo del-rei D. Manuel, reconheceu por seu filho a D. Francisco de Portugal, em 1515; o bispo do Porto D. João de Azevedo, a D. Manuel da Silva, em 1516 além de outros; e o de Viseu, D. João de Abreu a Diogo Gomes de Abreu em 1508.
Os seculares que houveram filhos de freiras, legitimando-os depois, também foram em quantidade considerável; e a própria circunstância das mães estarem no convento ao tempo da concepção e do parto, não obstava a legitimação. Como exemplos, apenas dois: o de D. António, filho de Rui de Sá e de Catarina de Lemos, freira da ordem de S. Bernardo, e o de Gonçalo de Barros, filho dum fidalgo do mesmo nome e de Isabel Dias, também freira professa.
Os próprios bastardos, havidos nas condições mais ofensivas de moralidade conjugal, gozaram sem estorvos do benefício de legitimação. João de Noronha, casado com D. Isabel de Sousa legitimou por filho em 1510 a Diogo de Noronha, nascido de uma escrava por nome Catarina, ao serviço doméstico de sua mulher. E como ele muitos outros, em casos idênticos, e as vezes ainda coloridos de circunstâncias mais aviltantes.
[9] Chegaram a tal ponto os actos imorais de D. Pedro de Noronha, que o povo o perseguia e injuriava pelas ruas, sendo-lhe tirado o governo do arcebispado e fugindo ele em seguida para Castela, donde regressou com certeza antes de Agosto de 1444, a concluir pelos actos da legitimação de seus filhos.
A época da saída pode determinar-se em 1439 por um documento desse ano, que encontramos nos Elementos para a História do Município de Lisboa, do nosso distinto amigo Freire de Oliveira, um dos mais valiosos trabalhos de investigação moderna, a que a restrição do título encolhe aparentemente o valor de verdadeiro subsídio para a história geral do país. Esse documento é um alvará em que se ordena «que metade das rendas do arcebispado de Lisboa fosse aplicada no pagamento das dívidas, que o arcebispo D. Pedro deixara e a outra metade nas coisas pertencentes ao mesmo arcebispo» — 8 de Dezembro de 1439.
Não deixam de ser curiosos os seguintes traços biográficos que nos dá Pina Loureiro:
D. Pedro de Noronha filho do l.º conde D. Afonso Henriques de Castela e de sua mulher a sr.ª D. Isabel. Vendo-se privado de seus estados pelas inquietações de seu pai, se fez eclesiástico e foi o 3.º arcebispo de Lisboa e prelado de grande autoridade e respeito, e assim por morte del-rei D. Duarte foi um dos adjuntos ao governo do infante D. Pedro; porém, seguiu nas dissenções, que teve a rainha D. Leonor com o dito infante, o partido da rainha, instigado por seu cunhado o duque de Bragança; cometeu depois acções indecentes a sua dignidade, e assim o senado de Lisboa lhe suspendeu as rendas e dignidades, e, vendo que em muitas terras se lhe perdia o respeito, se retirou a Castela donde depois voltou a este reino e retomou a inimizade antiga do infante de cuja morte e desgraça foi ele grande parte.
«Está sepultado na sua sé de Lisboa na capela do Sacramento e tem em sua sepultura o letreiro seguinte: Aqui jaz o Reverendíssimo em Cristo padre o Sr. D. Pedro Arcebispo desta cidade, neto do nobre rei D. Fernando de Portugal e neto de el-rei D. Henrique de Castela, cuja alma Deus haja; o qual se finou em 12 de Agosto de 1452.»
[10] D. Maria de Vilhena, à semelhança do que fez D. Isabel Moniz com a ilha do Porto Santo, também vendeu a ilha das Flores a João da Fonseca, com a diferença, porém, de que o acto de D. Maria foi reconhecido pelo filho como válido, enquanto que Bartolomeu Perestrelo n.º 2 propôs e conseguiu a anulação da venda feita por sua mãe a Pedro Correia da Cunha.
terça-feira, 8 de maio de 2007
A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (2)
I
A FAMÍLIA MONIZ. – SEU TRONCO, GLORIOSO PAPEL HISTÓRICO
E DEDUÇÃO GENEALÓGICA
ATÉ D. ISABEL MONIZ, 3.ª MULHER DE BARTOLOMEU PERESTRELO
E SOGRA DE CRISTÓVÃO COLOMBO
Com os Monizes coincide a nacionalização dos Guédon, também apelido francês, ([2]) em Guedes, porque D. Muninho era casado com D. Valida Trocosendes, filha de Trocosendo Guedas, apelido, em que já então degenerara Guédon, em virtude de diversas alianças, sendo D. Trocosendo a origem conhecida, onde vão entroncar-se os Guedes, de Portugal.
O sangue vigoroso d’O Gasco não se circunscreveu, porém, na sua propagação, aos pequenos limites territoriais do nosso país, então ainda embrionário numa parcela de Espanha.
Na vida baralhada dos povos da península, e que continuou sempre assim, mais ou menos caracteristicamente, apesar da raia política, delineada pelo conde D. Henrique, alargada e consolidada pelos seus sucessores, os Monizes, como muitos outros, espalharam-se até aos Pirinéus; e na permuta, através deles estabelecida pelo génio aventureiro da época, iríamos certamente, se necessário fosse, reencontrar na pátria de D. Muninho herdeiros consanguíneos das suas famosas tradições.
Tanto assim, que já no século XII se distinguia o apelido Moniz em Castela, com manifesta radicação genealógica; e o século seguinte fornece-nos, entre outros exemplos de quanto os Monizes sustentaram ali, como em Portugal, a herança moral do seu glorioso progenitor, os de D. Diogo Moniz, mestre da ordem de Santiago em 1306, e de D. Pedro Moniz ([3]) mestre da ordem de Calatrava e mais tarde da de Santiago, posto, em que morreu valorosamente a 5 de Outubro de 1385 na batalha de Valverde, travada entre o exercito castelhano, por ele comandado e pelo mestre de Alcântara, e o português, que tinha a sua frente o condestável D. Nuno Álvares Pereira.

Não é fácil, porém, reconstituir a sucessão rigorosa dos Monizes desde D. Muninho até fins do século XIV. Nos primeiros tempos da monarquia portuguesa, conservou-se ela sofrivelmente nítida, asseverando mesmo alguns escritores, que Mem Moniz, irmão de Egas Moniz, o Bem-Aventurado, usara já as armas da família desse apelido, que, embora admitido o facto, não perdeu de todo a sua feição patronímica. ([4])
Os Monizes, talvez um pouco apeados do seu antigo esplendor, desapareceram temporariamente absorvidos em diversas alianças com outras famílias – os Ataídes, os Alvarengas, os Coelhos, etc.; ([5]) e só na fulgurante alvorada do século XV, é que surgem os primeiros elos duma cadeia genealógica, que nunca mais se solveu, a despeito dos poderosos cruzamentos de sangue, em que entrou, pelo decorrer do tempo. ([6])
Aparecem-nos par essa época três irmãos do apelido Moniz: Vasco, Garcia e D. Leonor; o primeiro dos quais é o ponto de partida para a sucessão ininterrupta dos Monizes, a que pertence D. Isabel, mulher de Bartolomeu Perestrelo. Retomá-lo-emos na devida altura.

O segundo, que enumeramos, e o último na ordem do nascimento, Garcia Martim Moniz, foi sujeito de grande fidelidade e valor militar. Planeada a expedição a Ceuta, Garcia Moniz distinguiu-se por sua actividade enérgica nos preparativos da empresa, e acompanhou a África o infante D. Henrique, cujos primeiros anos ele guiara com austera solicitude, nunca o abandonando um momento, nem como guarda as irreflexões da sua adolescência, nem como companheiro devotado nos perigos da sua afanosa virilidade.
Muitas e sucessivas provas de dedicação, aureoladas do prestígio duma espada de primeira força, deram a Garcia Moniz, sobre o infante, um ascendente moral que bem se revelou com o seu famoso pulso no seguinte episódio da tomada de Ceuta: D. Henrique, acompanhado de alguns homens de armas, irrompera pelas portas da cidade, achando-se envolvido na refrega, que se levantara entre os mouros e os primeiros portugueses, que haviam entrado. Chegou um momento em que a luta esteve seriamente comprometida para a nossa gente; porque o infante, embrenhando-se pelas ruas de Ceuta, deu de frente com um tropel de inimigos, cujo número muito superior ao dos nossos, o ia esmagando. Até se espalhou da parte de fora dos muros a notícia de que D. Henrique caíra mortalmente ferido no combate.
Garcia Moniz, que estava ao lado de D. João I, apenas ouviu a triste nova, soltou um rugido de vingança, precipitou-se louco de dor e desespero por uma das portas atulhadas de cadáveres, abriu caminho à espada, como um dos arcanjos lendários dos combates, até encontrar o infante, que, longe de haver caído, disputava quase sozinho uns lampejos mortiços de vitória. Desenvencilhou-o dos mouros, que o cingiam num círculo cada vez mais estreito, advertiu-o severamente daquela temeridade, conseguindo arrancá-lo ao perigo, que o embriagava e tornara surdo a todos os conselhos dos seus outros companheiros. Este acto heróico valeu a Garcia Moniz a amizade de D. João I e a admiração de quantos o presenciaram.

Do valente português, contudo, nada mais se sabe do que os seus prodigiosos feitos de armas e estreitas relações com o infante D. Henrique; nem mesmo se foi casado, ou se deixou sucessão.
D. Leonor Moniz foi segunda mulher de Gil Aires, secretário ou escrivão da Puridade do condestável D. Nuno Álvares Pereira, e seu alferes-mor, conciliando nós as diversas opiniões a tal respeito. Gil Aires teve sepultura no mosteiro do Carmo, de Lisboa, na capela de Nossa Senhora da Piedade. ([7]) Deste casamento nasceram quatro filhos, que tiveram larga e distinta representação nas empresas militares e marítimas de Portugal no século XV.
Especializaremos apenas Vasco Gil Moniz, casado segunda vez com D. Leonor de Lusignan, a qual veio de Castela na qualidade de dama da infanta D. Isabel, mulher do infante D. Pedro, duque de Coimbra, e era filha de Febo Lusignan, que os linhagistas deduzem da família dos reis de Chipre. Deste ramo lateral dos Monizes é que proveio o grande patriota Febo Moniz, que em 1580 tanto sobressaiu por sua indignação e desassombrado levantamento contra a vil entrega do Reino nas mãos despóticas dos Filipes. ([8])
Finda esta digressão, que entendemos não dever dispensar, voltemos a Vasco Martim Moniz, no qual, como dissemos, se reata o fio genealógico de D. Muninho Viegas, e que nunca mais se perde até D. Isabel Moniz.
Vasco Moniz foi um fidalgo de grande nomeada no tempo de D. João I e exerceu o cargo de vedor da casa do infante D. Henrique. Como seu irmão Garcia, também assistiu à tomada de Ceuta, tendo largo quinhão nas glórias ali ganhas pelos portugueses. Casou com D. Beatriz Pereira, filha de Paio Pereira, fidalgo da casa real, e de D. Leonor Formosa, da qual houve quatro filhos, continuando-se a sucessão no primogénito, Henrique Moniz. ([9])
Henrique Moniz, alcaide-mor de Silves, casou duas vezes, sendo a segunda com D. Inês Pereira, filha de D. Diogo Álvares Pereira. ([10])
Desta aliança nasceram 5 filhos, e o segundo na ordem do nascimento, Vasco Martins Moniz passou à ilha da Madeira, que então já se tornara um centro de bastante actividade industrial e uma espécie de acampamento para a exploração das costas africanas e sondagem dos caminhos, que nos levariam às suspiradas regiões do oriente.
Vasco Moniz, pai de D. Isabel Moniz, mulher de Bartolomeu Perestrelo, não era um dos aventureiros vulgares, que naquela época vagueavam terra marique em busca de fortuna. Por intervenção de seu pai entrou muito novo ainda no serviço da casa real, de que teve o foro de moço fidalgo, e foi sempre muito estimado de D. Afonso V, ao lado do qual combateu nas guerras de África, tão assinaladas nesse tempo pelas conquistas de Alcácer-Ceguer, Tânger e Arzila, interessando-se até à última pela sorte do infeliz monarca.
Instalou-se na vila do Machico, onde se distinguiu de quantos portugueses e estrangeiros ali viviam, por sua generosidade, pela fidalguia do seu trato e pelo fastigio principesco da sua casa, cujas comodidades e atractivos não o enervaram; pelo contrário, sempre que o rei e o país lhe reclamaram os serviços, ele deixou a família para acudir com o seu braço e muitas vezes com a sua bolsa.
Vasco Martins Moniz impôs-se por muitos títulos a veneração dos vindouros; mas há, sobre tudo, um tão raro e sublime, do superior a todas as conquistas da espada e da bússola, que o não seguiremos minuciosamente, como aos seus antepassados, no campo da luta, para admirá-lo como homem no amor consagrado a sua mãe. Debaixo da armadura de guerreiro pulsava-lhe um coração delicado de criança, na sua mais indizível impressionabilidade filial.
Nas distracções absorventes dos combates e da vida solarenga no meio da numerosa família que constituíra, Vasco Moniz conservara sempre viva a abençoada lembrança da mulher, que lhe deu o ser, e da qual a tempestuosa agitação dos tempos o separara ainda em bem tenra idade. Poucas tréguas lhe haviam deixado os seus trabalhos para acompanhá-la nas lágrimas da viuvez e da ausência ansiosa dos filhos, que as vicissitudes do mundo lhe desgarrara para um e outro lado.
Nos últimos anos, e os mais sossegados da sua afadigada existência, Vasco Moniz vinha amiúde visitar sua mãe, D. Inês de Menezes, à vila do Torrão, onde ela vivia numa idade avançadíssima. Sentindo-se próximo a repousar de vez, reuniu ainda um resto de forças e de alento para atravessar o mar, deixou a vida ruidosa do Machico e veio refugiar-se no lar materno, falecendo aqui, com testamento fechado em 5 de Setembro de 1489, e no qual instituiu morgado da terça para seu filho primogénito.
Casou na ilha da Madeira três vezes. Do primeiro matrimónio não teve filhos, e do segundo houve três, que não destoaram por seu valor do sangue e tradições de seus antepassados. Foi sua terceira mulher D. Joana Teixeira, filha legitima do celebre Lançarote Teixeira, o Velho, ([11]) e de D. Beatriz de Góis e neta paterna do esforçado navegador Tristão Vaz, ([12]) materna de D. João do Rego e de D. Brites de Góis, da família do bem conhecido cronista português Damião de Góis.

O terceiro matrimónio de Vasco Martins Moniz foi fecundíssimo em filhos, alguns dos quais como, por exemplo, o bispo titular de Anel D. Cristóvão Moniz, sustentaram e ampliaram os pergaminhos desta antiquíssima família, com o mais levantado capricho cívico, inspirado nos deveres para com a pátria e na obrigação que nos impõe a lembrança de nossos maiores, como herdeiros do seu nome e dos seus haveres.
Também teve um bastardo com o nome de Vasco Moniz Barreto, que foi graduado em leis e letrado muito apreciado no seu tempo.
Um dos frutos do terceiro casamento foi uma filha – D. Isabel Moniz, terceira mulher de Bartolomeu Perestrelo, e da qual nos ocuparemos com mais particularidade, quando tratarmos de seu marido.
[2] Armorial Universel, por M. Gouffroy d’Eschavanes - Paris, 1844, vol. 1.º, pág. 205.
[3] A Pedro Moniz de Godoy chamam alguns escritores Pedro Nunes, por terem pela antiga preferência usual seguido o patronímico Nunes, tirado de Nuno Fernandes, pai do valente mestre de Santiago.
[4] Egas Moniz era também filho dum Muninho = Muninho Hermigues.
As armas dos Monizes são em campo azul, cinco estrelas de oiro postas em aspa, e por timbre um leopardo de azul com uma estrela das armas, na testa.
[5] Lê-se nos nobiliários mais autorizados, que dos descendentes conhecidos de D. Muninho Viegas, o Gasco, se passou aos Ataídes por Martinho Viegas de Ataíde, que se presume ser neto de Egas Moniz, e que, fora de toda a dúvida, é o sexto avô do 1.º conde de Atouguia.
[6] Todavia, entre outros vestígios históricos, que provam não haver sido completa uma tal absorção, apontaremos o seguinte: Frei Marcos da Silva, cronista de S. Francisco e diversos autores escrevem que no primeiro claustro do convento de S. Francisco de Lisboa, descendo pela escada que ia da portaria, à esquerda e pegado com o arco da capela, lia-se em latim a inscrição seguinte, que acomodamos a linguagem portuguesa:
À honra e louvor do sumo rei e da mui Bem-aventurada Virgem Madre e do Bem-aventurado Paraninfo Gabriel arc., João Moniz, clérigo e tesoureiro do ilustríssimo rei de Portugal, fez este claustro, capela e capítulo, e sua alma descansa em paz MCCCX.
Ou seja no ano 1272 do nascimento de Cristo.
[7] Esta capela foi fundada por Gil Aires; e, como ele não teve filhos da primeira mulher, passou em propriedade aos seus descendentes e de D. Leonor Moniz.
[8] Febo Moniz foi sepultado na capela fundada pelo seu ascendente Gil Aires. Actualmente são os condes de Sampaio os representantes directos do insigne português, por uma bisneta dele, D. Luísa Moniz de Torres e Lusignan, que herdou a casa do último Febo Moniz em linha recta.
[9] Um destes quatro filhos, por nome Vasco Moniz, casou com D. Aldonça Cabral e houve deste matrimónio D. Joana Pereira, mulher do 1.º vice-rei da Índia D. Francisco de Almeida. De Vasco Moniz descendem os marqueses de Angeja.
D. Beatriz ou Brites Pereira não era filha legítima, mas encontramos a sua legitimação no respectivo livro (3.°) a fl. 105.
[10] Diogo Álvares Pereira, primo do condestável, comendador-mor de Santiago e governador da casa do infante D. João filho del-Rei D. João I, foi casado com D. Mécia de Resende, dama da rainha D. Filipa e filha de Fernão Vasques de Resende. Deste casamento nasceram 2 filhas e 1 filho: 1.ª D. Isabel, mulher de D. Álvaro de Castro, alcaide-mor do Sabugal, conhecido pelo cognome de o do Torrão; 2.ª D. Inês, mulher de Gonçalo Nunes Barreto, alcaide-mor de Faro; 3.º Afonso Pereira, caçador-mor del-Rei, e que herdou em dote de sua 1.ª mulher a alcaidaria-mor de Santarém.
[11] Lançarote Teixeira, tronco duma numerosíssima e distinta família, era filho de Tristão Vaz, um dos heróis de Tânger e Ceuta, e companheiro de Zarco no descobrimento do arquipélago da Madeira.
Lançarote Teixeira foi uma reprodução típica admirável dos grandes cavaleiros medievais e gozava duma fama universal na arte de cavalaria. Altas personagens afluíam a Machico, vila da sua residência, para com ele aprenderem, e admirarem-no nos brilhantes torneios, que se faziam entre Machico e Santa Cruz, permitindo a avultada fortuna de Lançarote imprimir o maior fausto e lustre a estas festas varonis.
[12] Tristão Vaz, cavaleiro da casa do infante D. Henrique e donatário da jurisdição do Machico, foi homem célebre como guerreiro e navegador. Acompanhou o infante nas diversas jornadas de África, praticando actos de subido valor na tomada de Ceuta e no cerco de Tânger, onde foi armado cavaleiro pelo próprio D. Henrique. Voltando este as suas atenções e prodigiosa actividade para os empreendimentos, que desvendaram a Portugal os preciosos segredos do oceano, encontrou em Tristão Vaz um dos mais esforçados colaboradores da sua obra imortal.
Em 1418, indo em companhia de Gonçalves Zarco descobriu a ilha de Porto Santo, e no ano seguinte a da Madeira.
Uma das suas sete filhas, D. Ana Teixeira, deu causa a que Tristão Vaz cometesse um acto cruel, que lhe acarretou graves dissabores. D. Ana e um rapaz fidalgo, chamado Simão Barradas amavam-se com ardente afecto; mas o pai opôs-se terminantemente a essas relações, que continuaram às ocultas até que um dia, Tristão surpreendendo-os, fez desaparecer o Barradas, sem que se lhe soubesse o destino nem a causa do desaparecimento. Passados anos, descobriu-se que o amante de D. Ana fôra metido num subterrâneo, onde durante todo esse tempo esteve submetido à dura e degradante penitência de andar moendo em uma atafona. O caso foi participado a el-Rei, que mandou acto continuo a Tristão Vaz que comparecesse na côrte acompanhado de sua filha.
Vieram os dois. Sua alteza deu D. Ana em casamento a um fidalgo seu protegido, e ordenou que o pai fosse posto a ferros. Julgado pouco tempo depois, a sentença importou-lhe na perda da capitania e num degredo para a ilha do Príncipe. Expiada a culpa, voltou Tristão a Portugal; e a sua idade avançada bem como a recordação dos seus antigos serviços demoveram o rei a perdoar-lhe e a reentregá-lo na posse do Machico, que ainda governou por algum tempo, até que, indo em 1470 ao Algarve tratar de negócios da sua casa, morreu em Silves com 85 anos de idade, tendo nascido, por conseguinte, em 1385.
terça-feira, 1 de maio de 2007
A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino


Este tema, hoje palpitante do maior interesse e oportunidade, seduziu-nos mais pelo desejo de formar um juízo seguro acerca dos debates sobre ele levantados, do que pela mira pretensiosa de vir um dia a decidir de qual dos lados contendores está a razão e a verdade.
Ainda, quando o fruto das nossas pesquisas e reflexões chegasse a ser tão completo, que justificasse uma tal presunção, faltava o convencer-nos de que ele lograria melhor sorte, que os estudos até hoje elaborados por penas de autoridade muito superior.
Alguns desses estudos, apreciáveis por sua larga crítica e investigação, embora não determinem o perfil rigoroso de Colombo, levam-nos, todavia, desde já a conclusões importantes, constituindo o alicerce indispensável a um futuro edifício, o norte consciencioso duma nova ordem de trabalhos interessantes e proveitosos.
Mas o que lhes aconteceu? O mesmo que a todas as tentativas de rectificação de um ponto ou determinando vulto da história de qualquer país; o mesmo que acontecerá, quando a investigação der por concluída a tarefa encetada acerca do famigerado genovês, rematando os seus esforços de hoje com as triunfais descobertas de amanhã, sem todavia lhe regatear o que tem de justo a sua fama de cosmógrafo e de navegador.
Na presente época, o verdadeiro historiador trabalha pela simples questão de consciência pessoal e de gosto artístico. Quer dizer, trabalha como toda a gente, cujos horizontes de actividade e de vistas morais não vão além das paredes de uma oficina, onde recebe a salário e passa umas horas de distracção íntima, ou de um gabinete de curioso, onde cria um mundo seu, povoado de alegrias e de visões de glória.
Mais nada. O alcance cívico da sua obra, a propriedade fecundante do seu espírito dizimado às parcelas, a justa avaliação da sua luta intelectual, em que para produzir duas linhas de verdade tem de folhear muitas vezes dezenas de páginas de mentira, revolver e joeirar contos e contos da tradicional lareira, tudo isso, que lhe constituiria a ambicionada palma da sua missão humanitária, é coisa vã que apenas se encontra em fórmulas amáveis e nas exterioridades convenientes, sob que a sociedade disfarça a sua indiferença por quem trabalha e a sua triste noção do bem e da justiça.
Para que o historiador se enganasse era necessário desconhecer o meio, em que vive e trabalha. E o conhecimento deste é-lhe tão indispensável, como o daquele que vai fazer reviver, se preferir pôr-se em contacto directo com o espírito popular a ocupar somente um lugar de honra nas bibliotecas dos sábios.
Assim, o trabalho de coleccionação e assimilação tão reconhecidamente improbo e difícil torna-se às vezes pouco diante da forma de apresentação, querendo-se conciliar a verdade com o sabor literário e as ideias da época.
Daqui a diferença na esfera de acção entre a obra do que se internou nos claustros e arquivos para viver na mais estreita identificação com o passado, ressurgido por ele numa admirável fidelidade de forma e palpitação de vida, e a do que não saiu do seu tempo para burilá-lo segundo o gosto, as crenças, e até o idealismo do meio social que o há-de ler.
O que escreveu, isolado do mundo, entre trincheiras de cantaria tumular, fez uma reprodução artística que poucos estão no caso de admirar e muitos menos ainda no de compreender; o que esboçou tão-somente a história sem perder de vista o revolutear caprichoso da sua época conseguiu sem dúvida alguma uma área de simpatias e de influência educativa incomparavelmente superior.
Porque o facto é este. Nenhuma, ou poucas fases moralmente doentias têm atravessado a nossa sociedade, como a dos últimos anos, devido ao excesso de desenvolvimento do sistema nervoso sobre o muscular. Até na morte voluntária se procura com aplauso geral o romance que não encontrámos na dura positividade da vida, senão filtrado através das páginas fantasiosas, que se converteram num artigo indispensável de passadio moral.
Nestas condições, a que resultado pode visar um trabalho de rectificação histórica, esfriado por documentos, traçado a esquadro, imposto com a voz austera e catedrática, que resulta da convicção da verdade e da indignação pela mentira?
Quando o espírito popular, pela sua morbidez crescente, se torna cada vez mais sequioso e insaciável de lendas e ficções, quem ousará com esperanças de vitória destruir-lhe, ainda por cima, parte do seu minguado repasto?
Aquele, que o pretenda, tem de contar ao certo com duas coisas: a suspeita ofensiva das intenções que o animaram e a necessidade de corroborar oficialmente até a mínima circunstância destrutiva da lenda, que se abraçou e parafraseou sem uma prova, um documento, um testemunho, sequer!
E, quando o consiga, a sociedade responder-lhe-á: «muito bem, parece que não mentiste; mas guarda para ti a verdade que ninguém te pediu, que eu prefiro a falsa tradição, que me legaram os bons velhos.»
Com efeito, temos visto quase sempre a lenda substituída pela lenda, no domínio da tradição registada nos escritos antigos e modernos: mas raras vezes a lenda substituída pela história, e nunca esta com a voga corrente e entusiástica da primeira.
Há páginas de conscienciosa reivindicação e de justiça póstuma, mas que representam apenas uma declaração de voto, com mero valor pessoal, cativo à cotação discricionária do optimismo ou do pessimismo.
As próprias correcções de efemérides, que pela mudança de um algarismo não alterariam a essência do facto, como acontece em diversos casos, raríssimas vezes têm conseguido vingar contra a intransigência apaixonada, com que se abraça por completo a transmissão oral ou escrita dos velhos fazedores de historietas.
* *
Sacrificamos, porém, a ocasião momentosa, que se nos oferecia agora para publicar essas notas, a obrigação de não terminá-las precipitadamente, e vamos apenas destacar a parte, que se refere aos Monizes e Perestrelos, de cuja aliança proveio D. Filipa Moniz de Melo, mulher do ilustre navegador.
Anima-nos a isso um sentimento patriótico e o aproveitar o ensejo de nos associarmos às alegrias do povo espanhol de ambos os hemisférios, ao qual nos prendem, como irmãos, tantos laços étnicos e consanguíneos.
Se não podemos orgulhar-nos, como a Espanha, de nos haver associado a Cristóvão Colombo na sua cruzada ao novo mundo; Portugal, embora lhe ponham ainda dúvidas no seu glorioso desbravamento de todos os caminhos marítimos, acha-se intimamente ligado no melhor do seu sangue ao homem que vai ter, ao cabo de quatro séculos de largo registo histórico, a mais ruidosa e estimulante apoteose dos tempos modernos.
A festa em honra de Colombo, marido de D. Filipa Moniz de Melo, além de revestir um carácter verdadeiramente universal, deve também causar aos portugueses o santo e íntimo regozijo de uma festa de família.
Lisboa, Julho de 1892.

