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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Subsídios para a História de uma polémica

O semanário O Diabo publicou em 1990 uma entrevista a Luís de Albuquerque que gerou uma forte reacção de Mascarenhas Barreto e de outros devotos da causa, reacções essas que parecem ir muito mais além do que o razoável para fazer valer uma qualquer posição académica.
Veja-se o que diz Luís de Albuquerque ao jornal O Diabo em 24 de Julho de 1990:
(Clicar na imagem para ampliar)

E agora a reacção de Mascarenhas Barreto no mesmo jornal de 7 de Agosto de 1990:
(Clicar na imagem para ampliar)

Pelo meio houve, pelo menos, uma carta ao director sobre o assunto, de que não dou mais notícia pois vale o que valem a maior parte das cartas aos directores dos jornais, e ainda mais um artigo de opinião por um José Martins, oficial da Armada reformado, em que desanca fortemente nos espanhóis, na CNCDP e até nos seus camaradas de armas que, cépticos, não paparam a historieta de Barreto quando este último a contou na Academia de Marinha.
O artigo em causa com o antetítulo de A Tese sobre a Portugalidade de Colombo e com o título muito indicativo de Estamos a Ser Alvo de uma Conspiração? foi publicado pel'O Diabo de 28 de Agosto de 1990 nas páginas 8 e 9.
Entre as muitas banalidades que o autor escreve - na linha do que já se está habituado a ver neste blogue aos defensores da Portugalidade do Almirante das Índias - está a notícia, dada pelo próprio, da carta que escreveu ao Primeiro-Ministro com altos conselhos de estado - eufemismo meu para dizer exigências - de como se deveria lidar com tão grave questão nacional. Transcreve a carta e desta convém reter a genial ideia - exigência - de - e passo a citar - mandar contratar os melhores peritos internacionais na ciência da cabala para estes confirmarem a descodificação da sigla daquele navegador ou, no caso contrário, nos dizerem o significado da mesma.
Agora compreendo como chegou ao fim a hegemonia da Marinha Portuguesa...

sábado, 5 de abril de 2008

Cristóvão Colombo - Um gambito que nunca existiu

A Pseudo-História Colombina enfrenta severas dificuldades para tornar credível a sua fantasia dum Cristóvão Colombo português. Não tendo qualquer documento em que se possa sustentar, socorre-se de fontes secundárias que interpreta de forma muito generosa tentando encaixá-la à força na História. Ora, é aqui que se espalha ao comprido, pois vivendo Colombo numa época extremamente complexa, qualquer explicação que a Pseudo-História tente dar numa vertente entra logo em contradição com outros factos coevos, obrigando-a a contorcionismos vários – quando não mesmo a falsificar as temáticas próximas – criando um mundo virtual paralelo onde princípios como o da simplicidade e da plausibilidade estão completamente arredados.

Partindo a Pseudo-História do postulado de que Cristóvão Colombo é português tem de explicar porque razão não há na documentação portuguesa nenhum Colombo, Colom, Colomo, etc. Logo o nome de tem de ser um pseudónimo. Se é um pseudónimo é porque há algo a esconder. Logo, uma vez mais, postula-se ser um agente secreto. Mas um agente secreto tem de ter uma missão. Então inventa-se-lhe o encargo de enganar os Reis Católicos levando-os para longe da Rota da Índia perseguida pelos portugueses.

É precisamente neste quadro que tudo se desmorona.

Volta-se assim a uma pergunta anteriormente feita, porque carga de água é que D. João II havia de dar aos castelhanos aquilo que eles nunca procuraram? Porque razão haveriam os portugueses de querer afastar os castelhanos dum plano que estes não tinham? Porque razão quereria D. João II lembrar aos castelhanos aquilo de que nunca se haviam lembrado?

O facto de piratas, corsários ou mercadores castelhanos frequentarem o Golfo da Guiné nos anos 70 de Quatrocentos não demonstra que Castela também queria procurar um caminho para a Índia. A guerra de corso movida por Castela a Portugal no período em que D. Afonso V quis a coroa do reino vizinho não é o mesmo que a busca sistemática do caminho para a Índia. Essa guerra terminaria com a chegada da paz. Além do que, nesse tempo, também andavam pelo Golfo da Guiné navios franceses e não há indícios que isso fosse visto como o início da expansão francesa para a Índia – aliás, como também não os há demonstrando ser essa a intenção castelhana. Sendo, apesar de tudo, estes factos manifestações dum Plano Castelhano das Índias, a Rota do Cabo ficava salvaguardada para Portugal pelo tratado de Alcáçovas-Toledo.

Outra falta de raciocínio da Pseudo-História está na conclusão lógica que não retira do seu postulado de ser o tratado de Tordesilhas provocado por D. João II porque os espanhóis não cumpriam, ou poderiam deixar de cumprir, o de Alcáçovas-Toledo. Ora, não respeitando Castela a Rota do Cabo Portuguesa com o tratado de Alcáçovas-Toledo respeitaria um outro tratado com uma repartição diferente do mundo como aquele que foi assinado em Tordesilhas e que, tal como o primeiro, mantinha os castelhanos arredados da Índia? Ou seja, se os espanhóis não cumprissem Alcáçovas-Toledo os portugueses nunca teriam a certeza de que estes cumpririam um outro tratado.

As ideias do Colombo português obedecem ao princípio da simplicidade explicativa? São plausíveis?

Desde o século XII que toda a Europa está em expansão. Portugal não é excepção. Só que a portuguesa assume características próprias, levando-a mais cedo para fora do espaço continental em que se encontra inicialmente confinada. Esta dinâmica expansionista não é só portuguesa mas europeia e cedo ou tarde todos acabariam por seguir o mesmo caminho, como de facto aconteceu em vagas sucessivas até ao século XX.

No século XIV começa a expansão oceânica à escala global e nesta os castelhanos serão os últimos de todos os povos peninsulares, mas não porque D. João II se tenha lembrado de lhes oferecer um continente em troca duma Índia à qual ainda não sabia se algum dia chegaria.

E como muito bem observa Vitorino Magalhães Godinho

... desde o último quartel de Quatrocentos constroem-se os sistemas de circulação oceânica, a grandes distâncias, que entretecem pouco a pouco esses pequenos mundos no mundo atlântico, cuja génese e desenvolvimento se compreendem tão só em função duma rede de trocas à escala do Globo. Nestes níveis sobrepostos actuam actores – mareantes e mercadores, pequenos nobres e escudeiros –, depois a grande nobreza, as linhagens e institutos poderosos, intervindo as coroas desde cedo a tentar organizar o conjunto e subordiná-lo à formação do Estado moderno. É tal combinação do plano político e do fervilhar de iniciativas privadas que vemos em acção, ora firmada de cima ou pelo menos conjugada, ora desencontrada. Aragão desde os séculos XIII e XIV age segundo políticas definidas em relação ao Levante, à Sicília e Nápoles; Fernando o Católico e o Cardeal Cisneros definem, no quadro da política mediterrânea, as acções metódicas no Magreb. Ao invés, Castela intervém descozidamente nas Canárias, a conquista e aproveitamento partem de famílias com meios ou até de sociedades nobiliárquico-capitalistas. Só nos anos 70, com a ameaça portuguesa de unidade dinástica e o aliciante dos tratos dos rios de Guiné se abre um período em que, deixando como sempre a iniciativa a particulares, o Estado defende e concebe o arquipélago como peça numa de estratégica de expansão. Em Portugal parece dar-se o inverso...
Vitorino Magalhães Godinho, «As Ilhas Atlânticas. Da Geografia Mítica à Construção das Economias Oceânicas», Actas do I Colóquio de História da Madeira, vol. I, Funchal, 1989 (1986), p. 40.

domingo, 4 de março de 2007

As Armas e os Barões, trocados!?

Segue-se mais uma contribuição dos nossos leitores.



Como muito insistente e permanentemente tem sido divulgado, por mui conhecida personagem a “nossa” “estoriografia” contemporânea, com o acordo de alguma douta fiel e “acólita freguesia”, Cristóvão Colombo, perdão Colón, e os manos, Bartolomeu e Diogo, cumprindo com os reais desígnios, ter-se-ão passado a terras de Castela, para, em deliberada e premeditada espionagem, enviarem as castelhanas naus à Índia.

Para o dito efeito, parece dizer-nos aquela supra distinta individualidade, que os três Colombos, perdão Colóns, ter-se-ão vistos coagidos a trocarem os seus reais apelidos, por aqueles por que ficariam conhecidos para a posteridade, pois o “decoro moral”, e a espionagem assim o teria exigido e imposto.


Com esta “metamórfica” operação, os três reais senhores, não só terão mudado de apelido, mas, ao que parece, também, de aspecto, pois no “pátrio solo” terão deixado de poder ser reconhecidos como membros da real família, para o serem da “estirpe” Colombo, perdão Colón, com que a divina “Pomba” terá obrado prodigioso milagre.

Neste maravilhoso milagre, todavia, a famosa “ave” terá manchado a escrita, pois, o nosso distinto “estoriador”, não obstante os seus quinze anos de árdua “inquirição”, se vê confrontado, no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2007, em inusitada e circunstancial descoberta do que diz ser as verdadeiras armas de Cristóvão Colombo, perdão, Colón, que em exuberante júbilo propalou.


Assim, não obstante a miraculosa mudança, terão permanecido, como indelével marca, as verdadeiras armas do famoso descobridor, o que tudo inculca e converge, segundo a “sábia” opinião, para a dita descoberta da verdade.

Ora, não deixa de ser curioso senão estranho, que tendo sido ocultas as suas reais origens, se tenha dado a conhecer à posteridade as suas verdadeiras armas, o nome das esposas, dos cunhados...!

Ou terão estes, de igual modo, sido trocados por virtude da consequente espionagem?

E, nestes termos, os nomes, que hoje temos, terão sido todos forjados?


Eduardo Albuquerque


________________

Primeira imagem representando a Luxúria.
Lust, The Morgan Library, Robinet Testard, Book of Hours, France, Poitiers, ca. 1475, MS M.1001, fol. 98r.
As restantes são as bem conhecidas armas do Almirante das Índias de Castela.



sábado, 24 de fevereiro de 2007

Cristóvão Colombo – de volta ao positivismo

Chegou a altura de se pôr de lado as picardias e começar a analisar seriamente a ideia de ser Cristóvão Colombo português. Por isso tem de se começar pelo princípio e ver o que dizem as fontes.

1.º Qual é o documento que diz ser Cristóvão Colombo natural de Colos?
2.º Qual é o documento que diz ser Cristóvão Colombo natural de Cuba?
3.º Qual é o documento que diz ter Cristóvão Colombo a naturalidade portuguesa?
4.º Qual é o documento que diz o nome dos pais de Cristóvão Colombo?
5.º Qual é o documento que diz ter Cristóvão Colombo casado com Filipa Moniz?
6.º Qual é o documento que diz ser Cristóvão Colombo parente da família real portuguesa?
7.º Qual é o documento que diz que Cristóvão Colombo não é Cristóvão Colombo?
8.º Qual é o documento que dá a chave de decifração da putativa assinatura críptica de Cristóvão Colombo?
9.º Qual é o documento que diz ter estado Cristóvão Colombo ao serviço do Rei de Portugal?
10.º Qual é o documento que diz ser Cristóvão Colombo um agente secreto?

Auguste Comte (1798-1857)

Mais perguntas ficam para já por fazer e outras far-se-ão posteriormente na sequência e decorrentes das presentes.
Faz-se notar que a ausência de resposta a estas perguntas deitam por terra qualquer possibilidade de se afirmar ser Cristóvão Colombo português, parente da família real e agente secreto.
Chama-se, também, a atenção que por documento se quer designar o que os historiadores denominam de fonte primária.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Cristóvão Colombo - uma história (in)verosímil

Com a devida vénia e por tornar evidente a incoerência de teses apregoadas, reproduz-se excerto do comentário crítico de Eduardo Albuquerque no forum Genea Portugal.

(...) Parece que o Infante D. Henrique, em idade mais adequada para pôr em ordem a “alma” pegando no terço, se deu a outras inclinações... de que teria resultado alguém que, passados cerca de trinta anos, viria a adoptar o apelido Colombo, e digo Colombo, pois foi este, segundo alguns pretendem, o mandado registar pelo nosso monarca D. Manuel I, a Rui de Pina.

Do que resulta a natural perplexidade e paradoxo de o Rei mandar registar Colombo e este adoptar Colón. Que grande ingrato...!

Mas o Infante, ter-se-á revelado muito prolífero, pois, antes do “Cristóvão” já tinha dado ao mundo um “Bartolomeu” e, depois do Cristóvão, ainda houve lugar para um “Diogo”.

Ah! grande Infante, que melhor demonstração poderia haver de um dos mais genuínos produtos da rija “cepa” portuguesa.

E, tudo consertado com os Reais Senhores, todos optaram por uma segunda profissão, a da espionagem, e todos eles se passaram a chamar Colombos, perdão, Colóns!

Dos tenros anos, da nobre prole, o nosso clero, com muito medo da terrível fogueira, nada registara... pois diziam as profecias que estavam votados à ignóbil arte da espionagem...

Mas valendo-se de científica metodologia, logo se prova que eram de sangue Real e muito possivelmente filhos do notável Infante, pois, por um lado as feições não o desmentiriam, e por outro, tal como o Infante não se interessaram pelas coisas do mar?
Logo, a conclusão surge cristalina, e a prova concludente!

Assim, depois de ter casado, como muito bem referiu o estimado confrade, com senhora de diferente “status”, como filho de príncipe que se orgulhava de ser, vai o “nosso” “Cristóvão”, depois de andar a “chatear” a família toda com o “eu quero ir à Índia”, para Castela em tríplice missão, a saber: de missionário da “Pomba”, de navegador desempregado e de régio espião. Grande “Cristóvão”! E aí, renasce como Colombo, perdão, Colón, obviamente ocultando as suas Reais origens que muito o prejudicariam.

Já em Castela, volta à sua teimosa petição “eu quero ir à Índia”, eu sou o missionário da “Pomba”, pois eu quero lá construir um pombal, para enviar mensagens secretas ao meu amo e senhor...

Tanto “chateou”, tanto “chateou”, pois a técnica comercial tinha-a aprendido no “The Sagres’s College”, muito necessária às futuras trocas comerciais, que os Reais Senhores Castelhanos, para se verem livre dele, não o mandaram dar uma “volta ao bilhar”, mas para o “ultramar”. Vai com Deus... e o Senhor te acompanhe...!

Regressou tão ufano à original pátria, publicitando tão gloriosa empresa, que com o deslumbramento, ninguém reconheceu tão ilustre e Real senhor, mas apenas viu o novo Cristóvão Colombo, perdão Colón!

E os Reais manos, em mui nobre aprendizagem, lá foram desenhando uns portulanos, pois o futuro é incerto, e o ser de condição Real, não é garantia que baste. Não houve já um Imperador que acabou em jardineiro...?

Estes manos, um pouco ingénuos, renegaram a sua Real condição, em benefício da sua nova actividade, quer de espiões de Sua Majestade, quer de criados do mano mais “furão”, o Cristóvão das Pombinhas, e mudaram de nome para Colombo, perdão, Colón, o que tudo inculca o ingresso na Ordem dos Espiões... Ordem que se tornaria famosa pela continuação deste apelido em terras de Castela “ad saecula saeculorum”...

E lá partiram para Castela, França, Inglaterra, no propósito de desviar as atenções dos Castelhanos da nossa empresa, pois os ingleses e os franceses eram muito ladinos... e convinha desviá-los para a Índia...

Infelizmente, um dos filhos do notável espião Cristóvão, dito Fernando, “o Nandinho das Escrituras”, era atrasado mental, enfim, coisas da natureza, e por isso não ingressou na Ordem, pelo que nunca soube que o pai tinha sido espião.

Vai daí, quando este morre, aquele que de suas origens nada sabia, procura testemunhos vivos, rebusca sofregamente toda a documentação deixada, lê num apêndice a um Codicilo os nomes de alguns herdeiros de certo genovês, e parte para Itália em busca de suas naturais e mui nobres origens.

E o infeliz incapaz não é que só lhe dá para procurar Colombos, nem Colóns pesquisou!

E, como incapaz que era, nada encontra de seus avós, pelo que concluiu:

Pois, se o meu pai era enviado da “Pomba”, os meus avós e todos os meus ascendentes voaram...
(...)

Eduardo Albuquerque

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

"O Mistério Colombo Revelado" e os nomes conferidos a Cristóvão Colombo por seu filho Fernando Colom, à luz da etimologia

O Mistério Colombo Revelado”, obra recentemente editada em Lisboa pela Ésquilo, tem o seu título em português correcto. Existe uma razão para isso. Na realidade, quem comprará nas livrarias da Lusofonia um livro sobre um desconhecido “Colon” ou “Colón”, palavra ignorada entre nós e sugerindo imediatamente o cólon, algo que o diccionario ainda define como a “parte do intestino grosso situada entre o cego e o recto”? “O Mistério Colon Revelado” é título que imediatamente nos sugere maçadora propaganda médica, ou incompreensível tratado patológico, perigo que se conseguiu evitar à partida.

Ao abrigo de sobressaltos na intitulação, porém, o livro “coloniano”, depois de cirurgicamente nos ser revelado o seu corpo de texto interior, evidencia misteriosamente nóveis conclusões onomásticas, e não só, sobre a personagem histórica de que se ocupa. Sobre as suas origens e percurso que pretende aclarar. Assim, e por isso mesmo em consonância rectificando cegamente, altera sem pudor o nome usado desde há quinhentos anos, em português, para o biografado. Um biografado tornado mito desde os idos de oitocentos nas nações castelhana, italiana, norte-americana, e reclamado para si desde há muito por alguns galegos, portugueses, corsos, e catalães.

Nele se escolhe como supostamente adequada a designação castelhana encurtada do nome do almirante das “Índias”, melhor dito almirante das Índias Ocidentais, Colon. Colon, por apócope documentadamente ocorrida em castelhano quando ele passou de Portugal a Castela, de Colombo>Colomo>Colón. Mesmo “Cristóbal Colón” permitirá decerto dar ao herói de que se ocupa uma aparência mais “ibérica”, ou seja, castelhana latu senso, visto o seu autor se apresentar algures como “historiador da Ibéria nos EUA” (sic). O livro diz desenrolar uma nova tese que irá, citamos da capa, “arrasar a historiografia oficial” com “15 anos de investigação científica rigorosa” (sic). “Iberizada” a obra, procurará dessa forma quiçá alargar o futuro mercado interessado na venda do seu trabalho da “Anglo-Saxónico-Hispânico-Franco-América” do Norte até à Íbero-Anglo-Franco-Neerlandesa-América” do Sul. Esquece-se infelizmente apenas do mercado lusófono. Ignoramos se os autores, parceria de um português há muito residente nos EUA com um estadunidense, são iberistas à última moda, segundo recente revelação pública no estrangeiro de um dos nossos ministros mais distintos. Supomos no entanto que sejam entendidos os srs. Rosa e Steele na história das nações basca, galega e castelhana, e sobretudo na da nação catalã, sita à roda do rio Ebro, a única nação das Espanhas realmente ibérica com propriedade do termo utilizável, mais ainda no tempo de Colombo. Coisas que infelizmente também os Governos portugueses desconhecem, afectando gravemente a nossa identidade perante a Comunidade Internacional. Não sendo assim muito de se arguir quem se limite a seguir tão altos exemplos históricos e culturais, de patriotismo sem mácula.

Revertendo ao ponto: não acreditando os autores que Colombo fosse italiano de nascença, e querendo defende-lo contraproducentemente como português natural, talvez por visionarem demasiadamente os necessários e úteis painéis bilingues, em castelhano e português, da ainda portuguesa TV Cabo, alteram-lhe o nome para a versão castelhanizada do mesmo! Baseia-se esta surpreendente alteração à historiografia tradicional lusófona, segundo o autor Manuel Rosa, no facto de “ele assim ter sido tratado por D. João II”, o que não se comprova; pelo papa castelhano Alexandre VI, em bulas oficialmente enviadas de Roma à corte castelhana através da respectiva chancelaria, o que não releva ao caso, além de que o próprio Borja em Itália ficou Bórgia; e “pelo seu filho natural e biógrafo”, Fernando Colombo. Fernando Colombo, filho esse aliás um castelhano nascido já em Castela de mãe castelhana, ao contrário do outro filho, legítimo, Diogo Colombo, nascido português de Filipa Moniz, senhora portuguesa.

Mais surpreendente ainda é esta preferência inusitada para o nome em castelhano quando se entende que, contra todo o corpo documental de estudos coevos existente, os autores procuram recriar a tese de alguns outros pseudo-historiadores indicados neste blog, defendendo a atribuição de uma futuramente documentável naturalidade portuguesa a Colombo. Mas, embora sem nada disto evidentemente poderem provar depois dos 12 ou 15 anos de estudo que motivaram este livro, indicia-se nele segundo parece que poderia “Cristóbal Colon” ou seja, o Colombo de novo tentativamente retirado à Itália, descender, através da família Câmara, de uma senhora que sabemos criada, ou aceite, pelos genealogistas tardios, a partir do sc. XVI. Essa senhora virtual alegadamente teria concebido em Roma (7), de Rodrigo Anes de Sá, alcaide-mor de Gaia, ao famigerado Sá das Galés (8). Infelizmente para o sentido deste enunciado, “Cecilia, ou Giulia Colonna” é uma existência cuja impossibilidade se documentou há já suficiente tempo (4), embora ainda aceite e indevidamente reproduzida em alguns lugares genealógicos de divulgação generalista mais conhecidos do grande público, como Genea Portugal, que sabemos que por largo tempo tem frequentado o sr. Rosa.

Assim, “Colon” seria abreviatura do nome da ilustríssima família principesca italiana Colonna, cujo sobrenome é oriundo do latim Columna (2), como mostram à evidência as armas parlantes desta linhagem, muito simples e com uma única coluna ao alto; enquanto que Colon nos é dito surgir do grego kolon, significando membro (1). E sabe-se que colombo vem do latim, significando pombo. Usando entre outros argumentos estes três radicais distintos de palavras, duas etimologias do latim e uma do grego, mal embrulhadas, se defende a naturalidade portuguesa de Colombo, “ocultado” sob “nome de guerra” que o próprio teria escolhido para se tornar anónimo como “agente secreto português em Castela”, ou seja (sic) o tal “Colon” inspirado no grego significando membro, devido à ascendência ilusória na linhagística senhora Colonna, ou seja, coluna.

Não se atentou também como seria estranho alguém querendo passar-se por italiano ou português, em Castela, dizer-se chamar Colón, nome grego ou de ressonância castelhana pura... mas a documentação aí está, e até à sua primeira viagem, sempre Colombo está designado como Colomo nas fontes castelhanas. E não Colon... A explicação para esta incongruência do enredo estaria em que muita gente, aquém e além Caia, incluindo as famílias reais portuguesa e castelhana, saberiam da “verdadeira identidade” de Colombo. Só que assim já se não entende porque precisaria ele mudar de nome ao ir trabalhar como agente secreto na corte dos Católicos, mas sigamos...

Voltámos então a nossa atenção para o filho natural biógrafo, que o sr. Manuel Rosa nos diz ter revelado que o nome do pai fora sempre Colon, ou Colón, ou Kolon, enfim, membro. Achavámos de facto extraordinário que uma obra tão conhecida, e traduzida em tantas línguas, não tivesse já levado os autores colombinos, em todas as outras línguas ocidentais, a ter abandonado nesse caso o uso do nome tradicional que nelas se faz, Colombus, Colomb, e até Colón, por Colon, que tanto prefere o sr. Rosa, apesar de que Colonna, em apócope portuguesa, daria Colom (Colõ), ou Colo (Cólu), jamais Colon... mas adiante.

Tendo este Fernando Colombo morrido em 1537 (6), terá deixado inédito um manuscrito em língua castelhana, de que se conhece uma primeira edição traduzida para italiano e publicada em Veneza em 1571. O original castelhano é-nos hoje desconhecido, tendo sido esta obra retraduzida do italiano para castelhano posteriormente, razão pela qual preferimos ir saber na versão italiana primeiramente impressa o que nos diz esta biografia, tão importante e sempre usada pelos biógrafos de Colombo, quanto aos vários nomes por que ficou conhecido o achador oficial das Antilhas nas diferentes nações. Tentando entender, enfim, a razão para esta de facto misteriosa, embora pouco revelada, nacionalização castelhana da designação portuguesa Colombo, opção que preferimos entender como não tendo subjacente motivos de política cultural ou comercial da actualidade, ou seja, como não motivada pelo “mercado ibérico da História” que me tenho apercebido nos últimos anos que se tem infelizmente vindo a pretender criar...

Utilizámos para o efeito o 1º capítulo, e fizemos fé na edição electrónica da obra “Historie del S. D. Fernando Colombo&...”, que se encontra integralmente em linha no sítio www.libromania.it (3).

Nela Fernando Colombo literata ao explicar floridamente o nome do pai, e suas diversas versões utilizadas, jogando habilmente entre os significados das raízes etimológicas de Colombo (pombo), Colonus (Colono) e Colon (membro) a fim de ornar estilística e simbolicamente a sua obra que quer apologética. Mas para que não nos reste dúvida, neste jogo literário encadernado livremente a misticismo ao sabor do tempo, sobre qual é o real nome da família da sua varonia, o filho biógrafo inclui a palavra “verdadeiramente” antes do sobrenome correcto da dita em Itália, antes de começar a divagar esotericamente, à moda dos humanistas, sobre ele. Atrevamo-nos corajosamente a tentar traduzir do italiano, submetendo-nos às críticas de quem melhor o dominar:
“...se abbiamo riguardo al cognome comune dei suoi maggiori, diremo che veramente fu colombo, in quanto portò la grazia dello Spirito Santo a quel nuovo mondo che egli scoprì, mostrando, secondo che nel battesimo di San Giovanni Battista lo Spirito Santo in figura di colomba mostrò, qual era il figliuolo diletto di Dio...”...

Ou seja “...tendo em conta o sobrenome habitual dos seus (do pai do autor) maiores (antepassados), diremos que VERDADEIRAMENTE foi COLOMBO, porquanto levou (ou transportou) a graça do Espírito Santo àquele Novo Mundo que ele descobriu, mostrando, tal como no baptismo de S. João Baptista o Espirito Santo, em figura de pomba, mostrou quem era o Filho dileto de Deus...”...

... “e perché sopra le acque dell’Oceano medesimamente portò, come la colomba di Noè, l’olivo e l’olio del battesimo per l’unione e pace che quelle genti con la chiesa dovevano avere...”...

Isto é, “e porque sobre as águas do Oceano, medeando-as, levou, como a pomba de Noé, o ramo de oliveira e o óleo do baptismo para a união e a paz que aquela gente com a igreja deveria ter...”...

E sobre a apócope do nome Colombo ocorrida na pronúncia e nos documentos grafando o nome Colombo em Castela, reino onde pela primeira vez o pai se tornara conhecido, informa romantizando, e sugerindo leitura esotérica sincrónica e embelezada para factos simples:

“...poiché erano rinchiuse nell’arca delle tenebre e confusione. E per conseguenza gli venne a proposito il cognome di Colón, che ritornò a rinnovare, poiché in greco vuol dire membro, acciò che, essendo il suo proprio nome Cristoforo, si sapesse di chi era membro, cioè di Cristo, per cui a salute di quelle genti egli aveva ad esser mandato. Ed appresso, se cotal suo nome noi vogliamo ridurre alla pronuncia latina, ch’è Christophorus Colonus, diremo che, siccome si dice che San Cristoforo ebbe quel nome perché passava Cristo per le profondità delle acque con tanto pericolo, onde fu detto Cristoforo, e siccome portava e conduceva le genti, le quali alcun altro non sarebbe bastato a passare, così l’Ammiraglio, che fu Christophorus Colonus, chiedendo a Cristo il suo aiuto, e che l’aiutasse in quel pericolo del suo passaggio, passò lui e i suoi ministri acciò che facessero quelle genti indiane coloni, e abitatori della chiesa trionfante dei cieli, poiché egli è da credere che molte anime, le quali Satanasso sperava di godere, non essendovi chi le passasse per quell’acqua del battesimo, da lui siano state fatte coloni e abitatrici della eterna gloria del Paradiso.”

O que dá isto “...pois que estavam (os ameríndios) ainda prisioneiros na arca (no seio) das trevas e da confusão (religiosa). E por conseguinte veio-lhe (a Cristóvão Colombo, e não aos castelhanos, diz o filho, ignorando que a História registaria a forma intermédia Colomo...) como apropriado o sobrenome Colom, que foi o primeiro a voltar a por em uso, pois que em grego quer dizer membro (kolon), até que, sendo o seu nome próprio Cristóvão, se soubesse de quem era membro, isto é, de Cristo, por quem à salvação daquela gente ele teria de ser mandado. E se aproximadamente tal nome quisermos reduzir à pronúncia latina, que é Christoforus Colonus (sic, latiniza uma palavra que diz grega e significa membro... alcançando a palavra latina não para Colu(m)na, coluna, mas para Colonos, calembour aludindo aos colonos em que a seguir dirá que seu pai transformou os ameríndios - desvio de que devia estar consciente o autor, que o precede da palavra “aproximadamente” por isso mesmo, querendo talvez salvaguardar perante o leitor a sua imagem de latinista) diremos que, assim como se diz que São Cristóvão teve esse nome porque transportava Cristo por sobre a profundeza das águas com tanto perigo, pelo que lhe chamaram Cristóvão, e assim como levava e conduzia a gente, a qual nenhum outro seria bastante para transportar, assim o Almirante, que foi Cristophorus Colonus, pedindo a Cristo a sua ajuda, e que o ajudasse naquele perigo da sua passagem (viagem), passou (viajou) ele e os seus ministros até que fizessem daquela gente indiana (sic) colonos, e habitantes da Igreja triunfal dos Céus... pois que ele teria crido que muitas almas, que Satanás esperava colher, se acontecesse que as não passasse por aquela água do baptismo, por ele foram transformadas em colonos e moradores da eterna glória do Paraíso.”

Vemos portanto que de tudo isto, basta atenção e bom senso para concluir, por entre o rebuscado quase barroco do texto, aonde está a verdade: Cristóvão Colombo era verdadeiramente Colombo, pombo, como os seus antepassados; era dito alegadamente Colom, membro, a fim de se lhe dar falsamente a glória de ter escolhido ele próprio a forma Colon com que o acolitaram em Castela; e ainda metaforicamente Colonna, coluna, radical que poderia também ser usado como alusão espiritual enaltecedora, na medida em que igualmente muito ligado a Cristo e à sua tortura. Acontece que a imensa importância dos Príncipes Colonna, seja no tempo do manuscrito, seja em 1571, altura da primeira impressão traduzida italiana, terá impedido maiores alusões ou identificações com estes, rejeitadas logo ab initio no texto (que julgamos irrelevante traduzir mais) como falsas e pretensiosas, mas ditas como possíveis para alguns na época, em que eram escritas as palavras do livro - a simples menção dessa crença, que alguém pudesse julgar os Colombo oriundos dos Colonna (2) italianos, já em si mesma era por demais gratificante ao escritor.

Termine-se com este excerto:

“...e ancora quelli che più salgono sopra il vento, lo fanno di Piacenza, nella qual città sono alcune onorate persone della sua famiglia, e sepolture con armi, e lettere di Colombo, perché in effetto questo era già l’usato cognome dei suoi maggiori ancorché egli, conforme alla patria dove andò ad abitare e a cominciar nuovo stato, limò il vocabolo acciò che avesse conformità con l’antico, e distinse quelli che da esso discendessero da tutti gli altri che erano collaterali, e così si chiamò Colón.”“...(depois de referir outras alegadas terras, ou “pátrias” de Colombo, junto a Génova, revela a mais corrente e acreditada naturalidade dele) e ainda aqueles que mais saiam sobre o vento, o fazem de Placência, na qual cidade há algumas honradas pessoas da sua família, e sepulturas armoriadas, e cartas de Colombo, pois que com efeito este era já o sobrenome (apelido) usado dos seus antepassados ainda que, em conformidade com a pátria (terra, país) para aonde foi morar e a começar novo estado, limou o vocábulo até que ficasse conforme à Antiguidade (Greco-Latina), e distinguisse aqueles que dele descendessem de todos os outros (da família Colombo) que (lhes) eram colaterais, e assim se chamou (ou aceitou chamar-se...) Colón”.

Colon, em italiano, só o vemos usado com acento: Colón. Pois se sabe em Itália decerto que é a castelhanização de Colombo. Por muito doirada e disfarçada em membro (1) que se tenha querido apresentar a apócope ocorrida em Castela, apócope que fica provada não ter nascido, de maneira nenhuma, de um gesto isolado decidido pelo Almirante Colombo, como gostaria de nos iludir o seu filho Fernando Colom.
Sugerimos portanto e em definitivo que numa eventual segunda edição deste estranho livro, ou noutras obras que venham a escrever-se sobre o mesmo personagem, se lhe guarde o uso consuetidinário, na Língua Portuguesa, do seu nome original italiano COLOMBO, tal como é descrito pelos estudos de todos os coevos em Portugal, ou quando muito, COLOM, que um ou dois deles parece também terem utilizado, e é possível que tenha sido conhecido como tal aqui, antes de passar a Castela para a sua aventura.

_______________

1) Kolon aliás, em grego, como já vimos, significa também intestino, ou seja, algo direito e soltamente independente. É outro nome ainda hoje para intestino grosso na língua portuguesa.
2) O DIZIONARIO ETIMOLOGICO ONLINE, diccionario etimológico italiano em linha, informa, clareando-nos esta alegada suposição honrosa que queria tornar os Colombo em alegados descendentes dos Colonna, segundo Fernando, que o radical de Colombo (pombo) teria sido transmitido pelos antigos italianos através da forma intermédia Cólum-en, chaminé (em forma de coluna, supõe-se) por os pombos em cima delas nidificarem, tomando-lhes o nome.
3) Cf. Colombo.
4) Cf. Monteiro, Fernando M. Moreira de Sá, 2000, Sás - as origens e a ascensão de uma linhagem, Genealogia & Heráldica, n.º 3, p. 73, (vd. p. 102 et al.), Janeiro/Junho, Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica, e História da Família da Universidade Moderna do Porto.
5) Nascimento da linhagem Câmara: houve genealogias tardias que indicavam como mulher do achador oficial da Madeira, o 1º capitão-donatário João Gonçalves Zarco (depois João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos, mas apenas sete anos antes de morrer, com cerca de 72 anos) a "Constança Rodrigues de Sá", ou até "Constança Rodrigues de Almeida".
Depois que el-Rei D. Afonso V atribuiu o sobrenome Câmara de Lobos à família, ao conceder ao velho cavaleiro da Casa de seu tio, João Gonçalves, uma cota de armas novas, os então recentes fidalgos abandonaram o uso do sobrenome ou apelido Zarco, assinando-se apenas Gonçalves da Câmara, e depois ainda mais simplesmente, apenas da Câmara. Foi só no sc. XVIII que retomaram o Zarco, instituindo a dupla Zarco da Câmara, e até a tripla onomástica Gonçalves Zarco da Câmara, pelo menos, na linha dos condes e marqueses da Ribeira Grande, oriunda da dos condes de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel.
A importante "capitoa Constança Rodrigues", sempre documentada nas fontes sem título de dona, não se crê nem se prova que pudesse pertencer à linhagem dos Sá, ou dos Almeida, bem antes pelo contrário; da mesma forma que como atrás se disse não se documenta qualquer terceiro casamento entre Rodrigo Anes de Sá e a alegada Cecília, ou Júlia, ou Maria Ana Colonna, de quem a Capitoa, caso tivesse sido mesmo uma Sá, pudesse ser oriunda.
Muito haveria a dizer ainda a este respeito, mas firmemo-nos no ponto, aqui crucial, de que Constança Rodrigues, genearca dos Câmara , era decerto de origens bem mais modestas. Como aliás seu marido João Gonçalves (* Leça da Palmeira, em 1394, + Funchal, em 1467) de quem não se sabe se foi Zarco de apelido, ou alcunha, como querem alguns, ou se pertenceu a uns seus contemporâneos do sobrenome Zarco, documentados em Lisboa. Zarco nasceu com efeito aparentemente em família ligada ao mar, tendo tido um percurso nobiliárquico muito lento, através do serviço na Casa do infante D. Henrique, com quem fez a guerra; sendo marinheiro além de guerreiro, só ascende à nobreza passada a meia idade, com todos os filhos já crescidos (cavaleiro em 1437, no cerco de Tânger; pai legítimo com Constança Rodrigues a partir de c. de 1420; finalmente elevado a fidalgo de cota de armas, porta de entrada inferior no estatuto de nobreza ou fidalguia de linhagem, apenas em 1460).
É completamente impossível crer, além de contrário às fontes existentes, que pudesse ter casado, tantos anos antes sequer de ser armado cavaleiro, com uma Sá, e menos, se esta fosse Colonna de sangue...
As pretensões dos Sás a descenderem dos Colonna afiguram aliás enquadrar-se na plétora nobiliárquica de ascensões da corte de D. Manuel I, como paralelas a outras mistificações de genealogias ilustres adoptadas ao subir bruscamente na hierarquia de corte uma família, e já estudadas documentalmente por investigadores como Braamcamp Freire, Manuel Lamas de Mendonça, e Manuel Abranches de Soveral: caso da dos Furtados minhotos, que acrescentam o Mendoça dos srs. de Mendoza; caso dos Manoéis, que se dizem descender del-Rei D. Duarte. No sc. XVI os Sás, com poucos costados de primeira plana aristocrática, ocupavam já cargos dos mais altos na corte, como o de camareiro-mor, e é justamente de quinhentos que datam as primeiras genealogias dizendo-os descendentes da indocumentada senhora Colonna, que aliás não é referida nas genealogias italianas de tempo algum, nem nas portuguesas antes da Renascença, o que se afigura indício bastante conclusivo para senhora de tão alta linhagem como ela teria que ser, uma Colonna feudal, sobrinha de Cardeal, da corte dos Papas em Roma e Avinhão. Nem se compreende aliás que, tendo tido descendência em Portugal, ninguém se reclamasse dela, nem lhe usasse o sobrenome, mormente descendência feminina, como era o hábito, matrilinear, por longas gerações sempre transmitindo o sobrenome mais prestigioso disponível inicial, quando indicava origem real bastarda, ou alta hierarquia da primeira senhora da linha.
6) Ou em 1539, consoante.
7) Ou em Lisboa, que no final do sc. XIV teve um arcebispo da família Colonna, pelo breve espaço de um ano, quando nomeado cardeal voltou a Itália; cronologia porém incompatível com o nascimento de João Rodrigues de Sá; ou em Avinhão, aonde teria ido em embaixada Rodrigo Anes de Sá, e havia um cardeal Colonna, mas se documenta que Rodrigo Anes era casado com outrém.
8) Mãe entretanto identificada, segundo a melhor documentação, como tendo sido Mécia Pires (de Avelar?) primeira mulher do pai do "Sá das Galés" (apud. op. cit. nota 4).

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Agentes secretos e conspiradores ao serviço de D. João II

Três podem guardar um segredo, se dois estiverem mortos
Benjamin Franklin

(1ª de cinco epígrafes ao Cap. VI de O Mistério Colombo Revelado)


Para a execução da sua missão enganadora Cristóvão Colombo conta com ajudas de imensos outros agentes secretos e conspiradores:
Pêro da Covilhã
Fr. António de Lisboa
Pedro de Montarroio
Afonso de Paiva
José de Lamego
Rabi Abrãao de Beja
Fr. António de Mascarenhas a.k.a Juan Perez (?)
Rui de Pina
Pedro de Alcáçova
D. Diogo Ortiz de Calçadilha
Mestre Rodrigo
Mestre Moisés = José Vizinho
Fr. Gaspar Gorrício
D. João II
D. Isabel, a Católica
D. Fernando Colombo
Fr. Jorge de Sousa
Martim da Boémia / Behaim
Maximiliano I
Jerónimo Munzer
Bernardo Boil / Bnyl / Buil / Bonil
Toscanelli (eventualmente)
Bartolomeu Dias
Garcia de Resende
Juanoto Berardi
Vespúcio
etc.


(Exemplos retirados unicamente do capítulo VI de O Mistério Colombo Revelado)

Adenda de 7-1-2007

Luís de Oria / Lodisio d’Oria
Lorenzo di Berardo e irmão(s)?
Bartolomé Marchioni
Francisco de Bardi
Simón Verde
Gerardo Verde
Andrés Colombo
Francesco Carduchi
Diego de Ocaña
Jerónimo Rufaldi
Violante ou Briolanja Moniz a.k.a.(?) Beatriz Hidalgo
D. Isabel da Silva, marquesa de Montemor
irmãos de Filipa Moniz
Diego Mendez de Segura
Cristobál Muñiz / Cristóvão Moniz
Juan de la Cosa

Há muitos mais nomes, mas no texto em género de rol torna-se difícil, ou mesmo impossível, compreender qual o papel atribuído a cada personagem enumerada.

Nota: atenção que Calcutá é diferente de Calecute, p. 227.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Cristóvão Colombo, especial amigo de D. João II

Se havia uma conspiração e Cristóvão Colombo foi uma «toupeira» introduzida por D. João II em Castela para desviar as atenções de D. Isabel e D. Fernando da Índia para o Novo Mundo como se explica a carta de 20 de Março de 1488?
  • Porque razão D. João II escreve ao seu principal agente secreto, tratando-o por especial amigo?
  • Porque razão escreve D. João II a este espião oferecendo-lhe contentamento (que se pode entender por recompensas)?
  • Estava, por ventura, a querer queimá-lo?
  • Cristóvão Colombo recebe tão comprometedora carta e guarda-a. É suicida?
  • Se o agente estava em acção porquê chamá-lo a Portugal (como alguns querem entender)?
  • Chamá-lo-ia para forçar os Reis Católicos a agir e aceitar a proposta com receio de mais uma vez serem ultrapassados pelos portugueses?
  • Estaria Cristóvão Colombo a tentar o financiamento do seu projecto pelos Reis Católicos e ao mesmo tempo continuava a tentar que D. João II o financiasse?
  • O seu irmão não andou também a tentar que os reis de França e de Inglaterra financiassem o projecto?
  • Sabendo das expedições de Bartolomeu Dias e de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva, não terá achado oportuno inserir-se nessa busca da Índia e oferecer-se novamente para a procurar?
  • Ou, não tendo ainda regressado a expedição de Bartolomeu Dias – e temendo-se, eventualmente, a sua perda – não teria achado Cristóvão Colombo ser uma boa altura para voltar a propor o seu plano a D. João II?

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

A Carta de 1488 de D. João II a Cristóvão Colombo


1488 – 3 – 20, Avis
Carta de D. João II a Cristóvão Colombo em Sevilha agradecendo o que lhe foi escrito e a boa vontade e afeição mostrada ao seu serviço. Declara que terá prazer nos serviços propostos e que deles dará boa satisfação. Esta carta constituirá segurança contra a Justiça Real por algumas coisas por que seja procurado.
Assinatura autógrafa de D. João II.
Suporte em papel; caligrafia gótica semicursiva.
Contém na parte inferior tradução em língua castelhana escrita com caligrafia de tipo humanista do século XVI.
Archivo General de las Indias, Sevilha, (...)
(Transcrição e edição a partir de imagem do documento em O Mistério Colombo Revelado, p. 231, confrontada com a edição de Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo (...), pp. 35-36, e com a cópia da mesma transcrição em O Mistério (...), p. 230, onde se corrige uma gralha na versão anterior).

+
A Christovam Collon noso espicial amigo em Sevilha.//


Christoval Colon nos Dom Joham per graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daaquem e daallem mar em Africa Senhor de Guinee vos envyamos muyto saudar; Vymos a carta que nos scrivestes e a booa vontade e afeiçom que por ella mostraaes teerdes a nosso serviço vos agardeçemos muito / E quanto a vossa vynda ca certo assy pollo que apontaaes como por outros respeitos pera que vossa industria. e bõo engenho nos sera necessareo nos a desejamos e prazer-nos-ha muyto de virdes porque em o que a vos toca se dará tal forma de que vos devaaes seer contente ./ E porque por ventura teerees alguum reçeo de nossas justiças por razam dalguumas cousas a que sejaaes obligado, nos per esta nossa carta vos seguramos polla vynda stada e tornada que nom sejaaes preso reteudo acusado çitado nem demandado por nehuuma cousa ora seja civil ora crime de qualquer qualidade ./ E per ella meesma mandamos a todas nossas justiças que ho cumpram asy ./ E portanto vos rogamos e encomendamos que vossa vynda. seja loguo e pera ysso nom tenhãaes pejo alguum ./ e agardecer-vo-lo-emos e teeremos muyto em serviço scripta em Avis a xx dias de Março de 1488 ¶


El-Rey ·:· —


Notas:


O melhor copista engana-se pelo menos duas vezes por página, logo...


Por causa da pouca qualidade da imagem há partes cuja leitura ofereceu algumas dúvidas, pelo que é muito provável mudar-se de opinião perante o original ou melhor cópia.


Por qualquer razão Cristóvão Colombo escreve ao rei propondo-lhe qualquer coisa que o rei acha boa, convidando-o a deslocar-se a Portugal prometendo-lhe ao mesmo tempo uma satisfação, embora se não refira o tipo nem o porquê.
Por este documento não se deduz que Cristóvão Colombo servisse ou tivesse servido D. João II ou a Coroa. A carta revela a «boa vontade e a afeição» que Colombo tem por esse serviço – o que poderá querer dizer que quer começar a servir D. João II.
Não se pode deduzir que está ao serviço de D. João II porque o rei português, por esta carta, parece disposto a recebê-lo na sequência da missiva que Colombo lhe enviara. O rei admite que para o convite contribuiu o que Colombo lhe escrevera na carta cujo conteúdo presentemente se desconhece, além de outras razões também não especificadas e que no que a Colombo diz respeito sairá satisfeito. Esse serviço a acontecer terá um carácter temporário já que na carta se prevê o regresso do destinatário ao seu local de origem.
Cristóvão Colombo por ventura teme a Justiça e nessa eventualidade recebe um salvo conduto limitado, assinado pelo rei para poder entrar, deslocar-se e sair de Portugal sem incómodo. Não se trata duma carta de perdão, pois não cumpre as mais elementares regras diplomatísticas para o efeito, nem por aqui se pode inferir ser Colombo suspeito de qualquer crime grave ou menos grave, já que o rei, a saber do que se tratava, parece não querer dar-lhe grande relevância[1].
No geral, até parece haver um certo tom de condescendência em toda a carta.
Este documento revela alguma cautela, não se comprometendo com algo de concreto, para além de assegurar a Cristóvão Colombo que não será accionado pela justiça régia pelas razões que eventualmente existam contra ele – repare-se que não se refere haver causa contra Colombo, simplesmente que Colombo por ventura terá algum receio da Justiça. Não se firma nesta carta qualquer compromisso além do referido, o resto são promessas vagas e vazias de conteúdo.
A carta é cautelosa sem ser conspirativa; é espectante e nunca assertiva.


No endereço da carta aparece a menção de «especial amigo», o que é tido por muito relevante pelos autores que querem ver nela algo mais do que lá há. Considerando todas as interpretações abusivas, descontextualizadas e estapafúrdias que aparecem neste tipo de escritos, o relevo dado a este caso parece-me à partida suspeito.
Já alguém procurou outras cartas cujo endereço contenha igual fórmula?
Já alguém estudou as fórmulas de endereçamento na parte que se destina ao correio ou carteiro?
A referência a «especial amigo» no destinatário é, sem dúvida, interessante. No entanto, e incompreensivelmente, a mesma expressão não é repetida no conteúdo da carta. É, pois, bem mais significativo o facto de não constar qualquer menção de familiaridade no interior dessa carta, limitando-se a um seco «Cristóvão Colombo, nós D. João...», não havendo, tampouco, a expressão muito frequente para com funcionários, oficiais ou dignitários que é «Fulano amigo, nós D. João/El-Rei vos enviamos muito saudar», preferindo-se a fórmula mais distante onde entra o título régio e sem qualquer outra expressão de afecto.
Outro facto que talvez possa ter alguma relevância, é as cartas serem endereçadas depois de assinadas e fechadas, ou seja depois do rei as ter assinado e muito pouco provavelmente na sua presença. Também relevante para as hipóteses que se formulem em torno desta carta, e que as obras que a apresentam não indicam, é a indicação do nome do remetente para além do do destinatário.
Pelas imagens apresentadas não dá para determinar se a pena e tinta usadas, ou mesmo a mão, são as mesmas. Mas do endereço para a carta ressalta claramente a diferença na grafia do nome de Cristóvão Colombo: Cristovam Collon no endereço e Cristoval Colon no texto principal. Também é notável o facto de no endereço aparecer noso e no texto da carta aparecer uma vez nosso e três vezes nossa(s) e em nenhum caso aparecer este pronome possessivo com um só S.


Só isto não basta para declarar a oração «noso espicial amigo» apócrifa, já que é muito frequente a oscilação ortográfica, mas estes factos tornam-na bastante suspeita. Para já vai dar-se crédito a Patrocínio Ribeiro[2] quando diz que o documento foi declarado verdadeiro por José Pessanha, conservador da Torre do Tombo, se bem que me pareça possível que para isso não tenha sido dada atenção a este detalhe.


Tomando o documento por aquilo que se tem dito que é algumas perguntas se podem fazer. Mas essas ficarão para outra vez.


[1] Patrocínio Ribeiro, A Nacionalidade Portuguesa de Cristovam Colombo, 1927, p. 36, transcrevendo a carta não a analisa com grande detalhe; comedido como outros depois dele o não foram, cita a interpretação de Teixeira de Aragão, via Luciano Cordeiro, de não se tratar esta carta dum convite [na medida em que não decorre duma iniciativa do rei] mas sim da aceitação dum pedido condicionado feito por Cristóvão Colombo.
[2] Id., Ib., p. 36.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Cristóvão Colombo: agente (pouco) secreto

Afinal Cristóvão Colombo era ou não um agente secreto?
O Mistério Colombo Revelado, pp. 153-154, confunde na resposta que dá à pergunta. Assim refere-se que a vida de Colombo é uma fraude intencional já que ele não é quem se diz ser. E é uma fraude com vários cúmplices, entre os quais os reis de Castela e de Portugal.

Castela sabendo da fraude queria fazer de Colombo um homem sem pátria para que as descobertas por ele feitas permanecessem nas mãos de Castela e não caíssem nas de Portugal. Por essas descobertas serem feitas por um nobre português, «um cidadão da realeza portuguesa» - um conceito historiográfico novo que urge desenvolver – colocaria em perigo a soberania castelhana sobre as Índias servindo nelas como vice-rei e governador. Este perigo é razão para tirar a Colombo e a seus herdeiros todo o poder que inicialmente lhes tinha sido dado.
Portugal, por seu lado, usa secretamente Colombo para entreter Castela e desviar a atenção dos castelhanos do Atlântico Sul, da África e da Índia – uma afirmação que não é nova mas que aqui não encontra o devido reconhecimento – e por isso Portugal fingia não dar atenção ao Almirante, escondendo o seu elevado estatuto social.
Além dos portugueses o infiltrarem como agente secreto em Castela e de ser conhecido como português de alta nobreza, parente do rei, tinha muitos cúmplices.

Todas estas ideias estão apresentadas de forma muito confusa, sendo contraditórias e implausíveis. Além de que para nada disto se apresentar qualquer prova documental que sugira o mais leve indício.
Não há prova documental da origem nobre, de qualquer forma de espionagem praticada por Colombo ou de os monarcas ibéricos terem jogado Colombo como espião da sua política internacional. Pelo Tratado de Alcáçovas-Toledo as novas terras descobertas estavam no território de Portugal e a sua posse seria obviamente disputada pelos reinos ibéricos, não faz qualquer sentido que o rei português enviasse um seu familiar com a proposta de descoberta de terras que lhe caberiam por direito e depois assentir na sua dádiva a Castela como que num gesto de boa vontade.
A «fraude intencional bem planeada contra o mundo» defendida no livro assenta na ideia de Colombo ser um espião duplo ao serviço de Castela e Portugal. Contudo não é plausível um plano secreto ser do conhecimento de muita gente e ainda assim ser bem sucedido.

Como é que pode haver muitos cúmplices e conseguir-se manter os muitos segredos que tal plano e sua execução pressupõem?
Como é que o segredo foi mantido então e como é que nada transpirou para fora depois?
Então os Reis Católicos sabem quem Cristóvão Colombo é e deixam-no fazer o que se propõe?
Sabendo os Reis Católicos quem ele é e deixando-o fazer o que se propõe de que modo é que Castela ficaria debilitada por ele ser português?
Não casavam monarcas ibéricos entre si?
Não casavam as suas filhas com os reis vizinhos?
E por via destes casamentos não se debilitariam interesses bem mais importantes que os ultramarinos?
Não houve verdadeiros portugueses a servirem a coroa Castelhana sem que o facto da sua nacionalidade constituísse óbice ou perigo para os interesses castelhanos?
Não houve estrangeiros a servirem a Coroa Portuguesa sem que isso fosse motivo de preocupação ou de perigo para Portugal?
Porque razão haveriam os portugueses de querer afastar os castelhanos dum plano que estes não tinham?
Porque razão quereria D. João II lembrar aos castelhanos aquilo de que nunca se haviam lembrado?

Afirmações peremptórias precisam de fundamentação sólida e para estas nada é apresentado.
Interpretações complexas necessitam de fundamentação sólida e boa argumentação lógica, o que não é o caso apresentado.
Não faz qualquer sentido a afirmação sobre as preocupações castelhanas sabedoras da nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo, ainda mais quando isso é contraditado pela afirmação que imediatamente se segue.

Adenda
5-12-2006 13:30

Você não entendeu o jogo. Os cumplices estavam a esconder "a linhagem" de Colombo não que ele era um agente secreto. Os cumplices trabalhavam em comum para esconder os pais de Colombo. Entendi que foi esse o "fraude internacional" em que eles todos estavam envolvidos.
(Comentário de theman_ny)



Que linhagem havia para esconder?
Não tiveram os reis portugueses ao longo de toda a História bastardos que toda a gente conhecia e recebiam as maiores honras eclesiásticas e civis?
Não quis D. João II coroar o seu próprio bastardo, D. Jorge?
Porque razão, se Colombo fosse bastardo real, de alta linhagem ou mesmo de baixa, haveria de se esconder de forma tão pífia?
Sendo a linhagem de Colombo um segredo de algibeira, conhecida em Portugal e Castela, para quê tanto trabalho a baralhar as provas?
Já agora, se Colombo não era espião para quê esta capa?


As duas ideias expressas nas páginas 153-154 são nucleares para tese defendida, no entanto faltam-lhes coerência e são contraditórias.