Ao abrigo de sobressaltos na intitulação, porém, o livro “
coloniano”, depois de cirurgicamente nos ser revelado o seu corpo de texto interior, evidencia misteriosamente nóveis conclusões onomásticas, e não só, sobre a personagem histórica de que se ocupa. Sobre as suas origens e percurso que pretende aclarar. Assim, e por isso mesmo em consonância rectificando cegamente, altera sem pudor o nome usado desde há quinhentos anos, em português, para o biografado. Um biografado tornado mito desde os idos de oitocentos nas nações castelhana, italiana, norte-americana, e reclamado para si desde há muito por alguns galegos, portugueses, corsos, e catalães.
Nele se escolhe como supostamente adequada a designação castelhana encurtada do nome do almirante das “Índias”, melhor dito almirante das Índias Ocidentais, Colon. Colon, por apócope documentadamente ocorrida em castelhano quando ele passou de Portugal a Castela, de Colombo>Colomo>Colón. Mesmo “Cristóbal Colón” permitirá decerto dar ao herói de que se ocupa uma aparência mais “ibérica”, ou seja, castelhana
latu senso, visto o seu autor se apresentar algures como “historiador da Ibéria nos EUA” (sic). O livro diz desenrolar uma nova tese que irá, citamos da capa, “arrasar a historiografia oficial” com “15 anos de investigação científica rigorosa” (sic). “Iberizada” a obra, procurará dessa forma quiçá alargar o futuro mercado interessado na venda do seu trabalho da “Anglo-Saxónico-Hispânico-Franco-América” do Norte até à Íbero-Anglo-Franco-Neerlandesa-América” do Sul. Esquece-se infelizmente apenas do mercado lusófono. Ignoramos se os autores, parceria de um português há muito residente nos EUA com um estadunidense, são iberistas à última moda, segundo recente revelação pública no estrangeiro de um dos nossos ministros mais distintos. Supomos no entanto que sejam entendidos os srs. Rosa e Steele na história das nações basca, galega e castelhana, e sobretudo na da nação catalã, sita à roda do rio Ebro, a única nação das Espanhas realmente ibérica com propriedade do termo utilizável, mais ainda no tempo de Colombo. Coisas que infelizmente também os Governos portugueses desconhecem, afectando gravemente a nossa identidade perante a Comunidade Internacional. Não sendo assim muito de se arguir quem se limite a seguir tão altos exemplos históricos e culturais, de patriotismo sem mácula.
Revertendo ao ponto: não acreditando os autores que Colombo fosse italiano de nascença, e querendo defende-lo contraproducentemente como português natural, talvez por visionarem demasiadamente os necessários e úteis painéis bilingues, em castelhano e português, da ainda portuguesa TV Cabo, alteram-lhe o nome para a versão castelhanizada do mesmo! Baseia-se esta surpreendente alteração à historiografia tradicional lusófona, segundo o autor Manuel Rosa, no facto de “ele assim ter sido tratado por D. João II”, o que não se comprova; pelo papa castelhano Alexandre VI, em bulas oficialmente enviadas de Roma à corte castelhana através da respectiva chancelaria, o que não releva ao caso, além de que o próprio Borja em Itália ficou Bórgia; e “pelo seu filho natural e biógrafo”, Fernando Colombo. Fernando Colombo, filho esse aliás um castelhano nascido já em Castela de mãe castelhana, ao contrário do outro filho, legítimo, Diogo Colombo, nascido português de Filipa Moniz, senhora portuguesa.
Mais surpreendente ainda é esta preferência inusitada para o nome em castelhano quando se entende que, contra todo o corpo documental de estudos coevos existente, os autores procuram recriar a tese de alguns outros pseudo-historiadores indicados neste blog, defendendo a atribuição de uma futuramente documentável naturalidade portuguesa a Colombo. Mas, embora sem nada disto evidentemente poderem provar depois dos 12 ou 15 anos de estudo que motivaram este livro, indicia-se nele segundo parece que poderia “Cristóbal Colon” ou seja, o Colombo de novo tentativamente retirado à Itália, descender, através da família Câmara, de uma senhora que sabemos criada, ou aceite, pelos genealogistas tardios, a partir do sc. XVI. Essa senhora virtual alegadamente teria concebido em Roma (7), de Rodrigo Anes de Sá, alcaide-mor de Gaia, ao famigerado Sá das Galés (8). Infelizmente para o sentido deste enunciado, “Cecilia, ou Giulia Colonna” é uma existência cuja impossibilidade se documentou há já suficiente tempo (4), embora ainda aceite e indevidamente reproduzida em alguns lugares genealógicos de divulgação generalista mais conhecidos do grande público, como Genea Portugal, que sabemos que por largo tempo tem frequentado o sr. Rosa.
Assim, “Colon” seria abreviatura do nome da ilustríssima família principesca italiana Colonna, cujo sobrenome é oriundo do latim Columna (2), como mostram à evidência as armas parlantes desta linhagem, muito simples e com uma única coluna ao alto; enquanto que Colon nos é dito surgir do grego kolon, significando membro (1). E sabe-se que colombo vem do latim, significando pombo. Usando entre outros argumentos estes três radicais distintos de palavras, duas etimologias do latim e uma do grego, mal embrulhadas, se defende a naturalidade portuguesa de Colombo, “ocultado” sob “nome de guerra” que o próprio teria escolhido para se tornar anónimo como “agente secreto português em Castela”, ou seja (sic) o tal “Colon” inspirado no grego significando membro, devido à ascendência ilusória na linhagística senhora Colonna, ou seja, coluna.
Não se atentou também como seria estranho alguém querendo passar-se por italiano ou português, em Castela, dizer-se chamar Colón, nome grego ou de ressonância castelhana pura... mas a documentação aí está, e até à sua primeira viagem, sempre Colombo está designado como Colomo nas fontes castelhanas. E não Colon... A explicação para esta incongruência do enredo estaria em que muita gente, aquém e além Caia, incluindo as famílias reais portuguesa e castelhana, saberiam da “verdadeira identidade” de Colombo. Só que assim já se não entende porque precisaria ele mudar de nome ao ir trabalhar como agente secreto na corte dos Católicos, mas sigamos...
Voltámos então a nossa atenção para o filho natural biógrafo, que o sr. Manuel Rosa nos diz ter revelado que o nome do pai fora sempre Colon, ou Colón, ou Kolon, enfim, membro. Achavámos de facto extraordinário que uma obra tão conhecida, e traduzida em tantas línguas, não tivesse já levado os autores colombinos, em todas as outras línguas ocidentais, a ter abandonado nesse caso o uso do nome tradicional que nelas se faz, Colombus, Colomb, e até Colón, por Colon, que tanto prefere o sr. Rosa, apesar de que Colonna, em apócope portuguesa, daria Colom (Colõ), ou Colo (Cólu), jamais Colon... mas adiante.

Tendo este Fernando Colombo morrido em 1537 (6), terá deixado inédito um manuscrito em língua castelhana, de que se conhece uma primeira edição traduzida para italiano e publicada em Veneza em 1571. O original castelhano é-nos hoje desconhecido, tendo sido esta obra retraduzida do italiano para castelhano posteriormente, razão pela qual preferimos ir saber na versão italiana primeiramente impressa o que nos diz esta biografia, tão importante e sempre usada pelos biógrafos de Colombo, quanto aos vários nomes por que ficou conhecido o achador oficial das Antilhas nas diferentes nações. Tentando entender, enfim, a razão para esta de facto misteriosa, embora pouco revelada, nacionalização castelhana da designação portuguesa Colombo, opção que preferimos entender como não tendo subjacente motivos de política cultural ou comercial da actualidade, ou seja, como não motivada pelo “mercado ibérico da História” que me tenho apercebido nos últimos anos que se tem infelizmente vindo a pretender criar...
Utilizámos para o efeito o 1º capítulo, e fizemos fé na edição electrónica da obra “Historie del S. D. Fernando Colombo&...”, que se encontra integralmente em linha no sítio www.libromania.it (3).
Nela Fernando Colombo literata ao explicar floridamente o nome do pai, e suas diversas versões utilizadas, jogando habilmente entre os significados das raízes etimológicas de Colombo (pombo), Colonus (Colono) e Colon (membro) a fim de ornar estilística e simbolicamente a sua obra que quer apologética. Mas para que não nos reste dúvida, neste jogo literário encadernado livremente a misticismo ao sabor do tempo, sobre qual é o real nome da família da sua varonia, o filho biógrafo inclui a palavra “verdadeiramente” antes do sobrenome correcto da dita em Itália, antes de começar a divagar esotericamente, à moda dos humanistas, sobre ele. Atrevamo-nos corajosamente a tentar traduzir do italiano, submetendo-nos às críticas de quem melhor o dominar:

“...se abbiamo riguardo al cognome comune dei suoi maggiori, diremo che veramente fu colombo, in quanto portò la grazia dello Spirito Santo a quel nuovo mondo che egli scoprì, mostrando, secondo che nel battesimo di San Giovanni Battista lo Spirito Santo in figura di colomba mostrò, qual era il figliuolo diletto di Dio...”...
Ou seja “...tendo em conta
o sobrenome habitual dos seus (do pai do autor)
maiores (antepassados), diremos que
VERDADEIRAMENTE foi COLOMBO, porquanto levou (ou transportou) a graça do Espírito Santo àquele Novo Mundo que ele descobriu, mostrando, tal como no baptismo de S. João Baptista o Espirito Santo, em figura de pomba, mostrou quem era o Filho dileto de Deus...”...
... “e perché sopra le acque dell’Oceano medesimamente portò, come la colomba di Noè, l’olivo e l’olio del battesimo per l’unione e pace che quelle genti con la chiesa dovevano avere...”...
Isto é, “e porque sobre as águas do Oceano, medeando-as, levou, como a pomba de Noé, o ramo de oliveira e o óleo do baptismo para a união e a paz que aquela gente com a igreja deveria ter...”...
E sobre a apócope do nome Colombo ocorrida na pronúncia e nos documentos grafando o nome Colombo em Castela, reino onde pela primeira vez o pai se tornara conhecido, informa romantizando, e sugerindo leitura esotérica sincrónica e embelezada para factos simples:
“...poiché erano rinchiuse nell’arca delle tenebre e confusione. E per conseguenza gli venne a proposito il cognome di Colón, che ritornò a rinnovare, poiché in greco vuol dire membro, acciò che, essendo il suo proprio nome Cristoforo, si sapesse di chi era membro, cioè di Cristo, per cui a salute di quelle genti egli aveva ad esser mandato. Ed appresso, se cotal suo nome noi vogliamo ridurre alla pronuncia latina, ch’è Christophorus Colonus, diremo che, siccome si dice che San Cristoforo ebbe quel nome perché passava Cristo per le profondità delle acque con tanto pericolo, onde fu detto Cristoforo, e siccome portava e conduceva le genti, le quali alcun altro non sarebbe bastato a passare, così l’Ammiraglio, che fu Christophorus Colonus, chiedendo a Cristo il suo aiuto, e che l’aiutasse in quel pericolo del suo passaggio, passò lui e i suoi ministri acciò che facessero quelle genti indiane coloni, e abitatori della chiesa trionfante dei cieli, poiché egli è da credere che molte anime, le quali Satanasso sperava di godere, non essendovi chi le passasse per quell’acqua del battesimo, da lui siano state fatte coloni e abitatrici della eterna gloria del Paradiso.”
O que dá isto “...pois que estavam (os ameríndios) ainda prisioneiros na arca (no seio) das trevas e da confusão (religiosa). E por conseguinte veio-lhe (a Cristóvão Colombo, e não aos castelhanos, diz o filho, ignorando que a História registaria a forma intermédia Colomo...) como apropriado o sobrenome Colom, que foi o primeiro a voltar a por em uso, pois que em grego quer dizer membro (kolon), até que, sendo o seu nome próprio Cristóvão, se soubesse de quem era membro, isto é, de Cristo, por quem à salvação daquela gente ele teria de ser mandado. E se aproximadamente tal nome quisermos reduzir à pronúncia latina, que é Christoforus Colonus (sic, latiniza uma palavra que diz grega e significa membro... alcançando a palavra latina não para Colu(m)na, coluna, mas para Colonos, calembour aludindo aos colonos em que a seguir dirá que seu pai transformou os ameríndios - desvio de que devia estar consciente o autor, que o precede da palavra “aproximadamente” por isso mesmo, querendo talvez salvaguardar perante o leitor a sua imagem de latinista) diremos que, assim como se diz que São Cristóvão teve esse nome porque transportava Cristo por sobre a profundeza das águas com tanto perigo, pelo que lhe chamaram Cristóvão, e assim como levava e conduzia a gente, a qual nenhum outro seria bastante para transportar, assim o Almirante, que foi Cristophorus Colonus, pedindo a Cristo a sua ajuda, e que o ajudasse naquele perigo da sua passagem (viagem), passou (viajou) ele e os seus ministros até que fizessem daquela gente indiana (sic) colonos, e habitantes da Igreja triunfal dos Céus... pois que ele teria crido que muitas almas, que Satanás esperava colher, se acontecesse que as não passasse por aquela água do baptismo, por ele foram transformadas em colonos e moradores da eterna glória do Paraíso.”
Vemos portanto que de tudo isto, basta atenção e bom senso para concluir, por entre o rebuscado quase barroco do texto, aonde está a verdade: Cristóvão Colombo era verdadeiramente Colombo, pombo, como os seus antepassados; era dito alegadamente Colom, membro, a fim de se lhe dar falsamente a glória de ter escolhido ele próprio a forma Colon com que o acolitaram em Castela; e ainda metaforicamente Colonna, coluna, radical que poderia também ser usado como alusão espiritual enaltecedora, na medida em que igualmente muito ligado a Cristo e à sua tortura. Acontece que a imensa importância dos Príncipes Colonna, seja no tempo do manuscrito, seja em 1571, altura da primeira impressão traduzida italiana, terá impedido maiores alusões ou identificações com estes, rejeitadas logo ab initio no texto (que julgamos irrelevante traduzir mais) como falsas e pretensiosas, mas ditas como possíveis para alguns na época, em que eram escritas as palavras do livro - a simples menção dessa crença, que alguém pudesse julgar os Colombo oriundos dos Colonna (2) italianos, já em si mesma era por demais gratificante ao escritor.

Termine-se com este excerto:
“...e ancora quelli che più salgono sopra il vento, lo fanno di Piacenza, nella qual città sono alcune onorate persone della sua famiglia, e sepolture con armi, e lettere di Colombo, perché in effetto questo era già l’usato cognome dei suoi maggiori ancorché egli, conforme alla patria dove andò ad abitare e a cominciar nuovo stato, limò il vocabolo acciò che avesse conformità con l’antico, e distinse quelli che da esso discendessero da tutti gli altri che erano collaterali, e così si chiamò Colón.”

“...(depois de referir outras alegadas terras, ou “pátrias” de Colombo, junto a Génova, revela a mais corrente e acreditada naturalidade dele) e ainda aqueles que mais saiam sobre o vento, o fazem de Placência, na qual cidade há algumas honradas pessoas da sua família, e sepulturas armoriadas, e cartas de
Colombo, pois que com efeito este era já o sobrenome (apelido) usado dos seus antepassados ainda que, em conformidade com a pátria (terra, país) para aonde foi morar e a começar novo estado, limou o vocábulo até que ficasse conforme à Antiguidade (Greco-Latina), e distinguisse aqueles que dele descendessem de todos os outros (da família Colombo) que (lhes) eram colaterais, e assim se chamou (ou aceitou chamar-se...) Colón”.
Colon, em italiano, só o vemos usado com acento: Colón. Pois se sabe em Itália decerto que é a castelhanização de Colombo. Por muito doirada e disfarçada em membro (1) que se tenha querido apresentar a apócope ocorrida em Castela, apócope que fica provada não ter nascido, de maneira nenhuma, de um gesto isolado decidido pelo Almirante Colombo, como gostaria de nos iludir o seu filho Fernando Colom.
Sugerimos portanto e em definitivo que numa eventual segunda edição deste estranho livro, ou noutras obras que venham a escrever-se sobre o mesmo personagem, se lhe guarde o uso consuetidinário, na Língua Portuguesa, do seu nome original italiano COLOMBO, tal como é descrito pelos estudos de todos os coevos em Portugal, ou quando muito, COLOM, que um ou dois deles parece também terem utilizado, e é possível que tenha sido conhecido como tal aqui, antes de passar a Castela para a sua aventura.
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1) Kolon aliás, em grego, como já vimos, significa também intestino, ou seja, algo direito e soltamente independente. É outro nome ainda hoje para intestino grosso na língua portuguesa.
2) O
DIZIONARIO ETIMOLOGICO ONLINE, diccionario etimológico italiano em linha, informa, clareando-nos esta alegada suposição honrosa que queria tornar os Colombo em alegados descendentes dos Colonna, segundo Fernando, que o radical de Colombo (pombo) teria sido transmitido pelos antigos italianos através da forma intermédia Cólum-en, chaminé (em forma de coluna, supõe-se) por os pombos em cima delas nidificarem, tomando-lhes o nome.
3) Cf.
Colombo.
4) Cf. Monteiro, Fernando M. Moreira de Sá, 2000,
Sás - as origens e a ascensão de uma linhagem,
Genealogia & Heráldica, n.º 3, p. 73, (vd. p. 102
et al.), Janeiro/Junho, Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica, e História da Família da Universidade Moderna do Porto.
5)
Nascimento da linhagem Câmara: houve genealogias tardias que indicavam como mulher do achador oficial da Madeira, o 1º capitão-donatário João Gonçalves Zarco (depois João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos, mas apenas sete anos antes de morrer, com cerca de 72 anos) a "Constança Rodrigues de Sá", ou até "Constança Rodrigues de Almeida".
Depois que el-Rei D. Afonso V atribuiu o sobrenome Câmara de Lobos à família, ao conceder ao velho cavaleiro da Casa de seu tio, João Gonçalves, uma cota de armas novas, os então recentes fidalgos abandonaram o uso do sobrenome ou apelido Zarco, assinando-se apenas Gonçalves da Câmara, e depois ainda mais simplesmente, apenas da Câmara. Foi só no sc. XVIII que retomaram o Zarco, instituindo a dupla Zarco da Câmara, e até a tripla onomástica Gonçalves Zarco da Câmara, pelo menos, na linha dos condes e marqueses da Ribeira Grande, oriunda da dos condes de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel.
A importante "capitoa Constança Rodrigues", sempre documentada nas fontes sem título de dona, não se crê nem se prova que pudesse pertencer à linhagem dos Sá, ou dos Almeida, bem antes pelo contrário; da mesma forma que como atrás se disse não se documenta qualquer terceiro casamento entre Rodrigo Anes de Sá e a alegada Cecília, ou Júlia, ou Maria Ana Colonna, de quem a Capitoa, caso tivesse sido mesmo uma Sá, pudesse ser oriunda.
Muito haveria a dizer ainda a este respeito, mas firmemo-nos no ponto, aqui crucial, de que Constança Rodrigues, genearca dos Câmara , era decerto de origens bem mais modestas. Como aliás seu marido João Gonçalves (* Leça da Palmeira, em 1394, + Funchal, em 1467) de quem não se sabe se foi Zarco de apelido, ou alcunha, como querem alguns, ou se pertenceu a uns seus contemporâneos do sobrenome Zarco, documentados em Lisboa. Zarco nasceu com efeito aparentemente em família ligada ao mar, tendo tido um percurso nobiliárquico muito lento, através do serviço na Casa do infante D. Henrique, com quem fez a guerra; sendo marinheiro além de guerreiro, só ascende à nobreza passada a meia idade, com todos os filhos já crescidos (cavaleiro em 1437, no cerco de Tânger; pai legítimo com Constança Rodrigues a partir de c. de 1420; finalmente elevado a fidalgo de cota de armas, porta de entrada inferior no estatuto de nobreza ou fidalguia de linhagem, apenas em 1460).
É completamente impossível crer, além de contrário às fontes existentes, que pudesse ter casado, tantos anos antes sequer de ser armado cavaleiro, com uma Sá, e menos, se esta fosse Colonna de sangue...
As pretensões dos Sás a descenderem dos
Colonna afiguram aliás enquadrar-se na plétora nobiliárquica de ascensões da corte de D. Manuel I, como paralelas a outras mistificações de genealogias ilustres adoptadas ao subir bruscamente na hierarquia de corte uma família, e já estudadas documentalmente por investigadores como Braamcamp Freire, Manuel Lamas de Mendonça, e Manuel Abranches de Soveral: caso da dos Furtados minhotos, que acrescentam o Mendoça dos srs. de Mendoza; caso dos Manoéis, que se dizem descender del-Rei D. Duarte. No sc. XVI os Sás, com poucos costados de primeira plana aristocrática, ocupavam já cargos dos mais altos na corte, como o de camareiro-mor, e é justamente de quinhentos que datam as primeiras genealogias dizendo-os descendentes da indocumentada senhora Colonna, que aliás não é referida nas genealogias italianas de tempo algum, nem nas portuguesas antes da Renascença, o que se afigura indício bastante conclusivo para senhora de tão alta linhagem como ela teria que ser, uma Colonna feudal, sobrinha de Cardeal, da corte dos Papas em Roma e Avinhão. Nem se compreende aliás que, tendo tido descendência em Portugal, ninguém se reclamasse dela, nem lhe usasse o sobrenome, mormente descendência feminina, como era o hábito, matrilinear, por longas gerações sempre transmitindo o sobrenome mais prestigioso disponível inicial, quando indicava origem real bastarda, ou alta hierarquia da primeira senhora da linha.
6) Ou em 1539, consoante.
7) Ou em Lisboa, que no final do sc. XIV teve um arcebispo da família Colonna, pelo breve espaço de um ano, quando nomeado cardeal voltou a Itália; cronologia porém incompatível com o nascimento de João Rodrigues de Sá; ou em Avinhão, aonde teria ido em embaixada Rodrigo Anes de Sá, e havia um cardeal Colonna, mas se documenta que Rodrigo Anes era casado com outrém.
8) Mãe entretanto identificada, segundo a melhor documentação, como tendo sido Mécia Pires (de Avelar?) primeira mulher do pai do "Sá das Galés" (apud. op. cit. nota 4).