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quinta-feira, 8 de março de 2012

História, Pseudo-História e Romance Histórico


A popularidade relativa que goza actualmente na literatura o romance histórico só deverá encontrar paralelo na prolixidade de escritos pseudocientíficos. Tratam-se de constatações resultantes duma observação não sistemática e que se não correspondem à realidade devem andar por perto, quanto mais não seja pela exposição privilegiada que obtêm nos escaparates e nos media, enquanto a historiografia passa quase despercebida.
O romance histórico está na moda e a razão de tal acontecer deverá radicar tanto na apetência do público, como no retorno financeiro para as editoras e autores.
Presentemente não há grande disponibilidade para a leitura, limitando-se esta, dum modo geral e para além da leitura profissional, a obras cuja fórmula de base se conhece e agrada ou então ao que é anunciado como sucesso editorial pela crítica e comentadores, através da publicidade e comunicação social. Também dificilmente as pessoas têm hoje o tempo ou a predisposição para lerem descrições de algo parecido a viagens entre Lisboa e o Carregado ou histórias inanes como a da Joaninha. Numa época em que tudo é superficial e na qual tudo o que se faz tem de ter uma utilidade prática, incluindo o lazer, não se pode perder tempo com ficção pura e dura. Com este sentido utilitário e superficial do «dois em um», o grande público consumidor de romances históricos junta ao consumo de literatura de ficção a pretensão do saber histórico, apaziguando o sentimento de inutilidade do primeiro exercício com a satisfação do conhecimento do real, mesmo quando sabe que não se trata inteiramente duma coisa ou de outra.
Havendo da parte do público grande apetência para este subgénero literário, as editoras não hesitam em publicar, pois sabem que o investimento é seguro e de rápido retorno, parecendo que a condição mínima para a publicação é os autores terem esboçado um enredo relativamente novo e umas linhas mais ou menos bem redigidas (e quando assim não é os departamentos editoriais poderão encarregar-se de dar um jeito). Nesta conjuntura de mercado, os autores podem tirar os escritos das gavetas e até, com um pouco de sorte, deixar as suas anteriores actividades para passarem a viver exclusivamente da escrita.
De estranhar seria que o passado humano não fosse fonte inspiradora de inúmeros autores e de deleite de ainda mais leitores, pois na História encontram-se factos, situações e cenários que podem ultrapassar qualquer ficção. A ficção tradicional já quebrou todos os dogmas formais e todos os tabus políticos, sociais, religiosos e morais, tornando-se-lhe cada vez mais difícil encontrar temáticas novas que mexam com as emoções das pessoas. Por outro lado a História, por ser real, ainda vai conseguindo mexer com essas emoções; dramatizando situações históricas facilita-se a identificação do leitor com a narrativa, cativando-o com enredos que, muito provavelmente, não resultariam se se tratasse de ficção pura.
Independentemente das razões que levam ao sucesso do romance histórico este pode cumprir todas as funções úteis (e inúteis) da literatura tradicional. Aliás, as gradações existentes entre os dois tipos são tantas e tão subtis que se torna cada vez mais difícil proceder à classificação em géneros ou em subgéneros. Mas tal também é irrelevante, devendo bastar, sem preconceitos, a avaliação subjectiva de boa ou má literatura e a classificação objectiva entre História e ficção.
Não deve haver historiador que na sua juventude não tenha lido Walter Scott, Alexandre Dumas ou Emilio Salgari, assim como não deverá haver físico que não tenha lido Ray Bradbury, Robert A. Heinlein ou Arthur C. Clark. Provavelmente tanto o historiador como o físico leram-nos a todos e, dum qualquer modo, acabaram por ser marcados por essas leituras. Alexandre Herculano ou de Isaac Asimov, como muitos outros ficcionistas, até eram respeitáveis cientistas e, por ventura, atingiram mais público no exercício da primeira função do que no da segunda. Assim sendo, ao involuntariamente estimular jovens a tornarem-se cientistas, a ficção terá contribuído para o progresso da Ciência, da mesma maneira que poderá contribuir para que o grande público possa interessar-se por ela.
O romance histórico é muito mais popular que a historiografia porque enquanto ao primeiro género é legítimo o recurso a todos os artifícios literários, ao segundo esses são-lhe vedados por ser fortemente condicionado pela metodologia convencionada pela comunidade científica que o irá validar ou não (e não vale a pena entrar aqui na discussão de ser a História uma ciência ou uma arte). Enquanto o escritor tem toda a liberdade para preencher as lacunas que existam nos dados históricos fazendo uso da sua imaginação criadora, o historiador, perante o mesmo problema, fica limitado a conjecturas e hipóteses que têm de se enquadrar num quadro de possibilidades epocais, além de ter de as assinalar devidamente como tal. Assim, as peripécias colombinas secamente narradas por Garcia de Resende e Rui Pina – mesmo que contadas por outrem que os use como base conjuntamente com as outras fontes conhecidas – não têm qualquer possibilidade de competir no mercado editorial de massas com a pseudo-história do mesmo almirante escrita por Mascarenhas Barreto ou o romance de Rodrigues dos Santos e muito menos com as intrigas, de outra ordem, integralmente ficcionadas por John le Carré ou Michael Crichton.
Enquanto que o trabalho do historiador é o resultado de 90% de transpiração e 10% de inspiração, o trabalho do escritor deverá obedecer à relação inversa. Também o reconhecimento do mérito pelo grande público é repartido de forma desigual e em benefício do escritor, já que a necessidade de rigor que o texto historiográfico deve ter retira-lhe todo o brilho artístico, o que aliado ao facto de a maioria dos historiadores não ficar a dever muito às musas da escrita torna pouco apetecível e pouco comerciável os seus escritos.


A estas duas literaturas juntou-se uma outra, a pseudo-história. Esta é um género bastardo – misto de história e ficção – que se quer fazer passar por História e recusa terminantemente que se lhe chame ficção.
Não sendo um género novo, pois sempre existiu vindo a público em edições de autor ou dados à estampa em pequenas casas da especialidade marginais ao sistema editorial dominante, ganhou nos últimos anos grande pujança ao encontrar na Internet um meio de divulgação barato e de grande alcance. O sucesso no mundo virtual, medido pela quantidade e reacções das assistências, acabou por atrair a atenção das editoras tradicionais que viram nesse género mais uma possibilidade de fazer dinheiro desde que se disponibilizassem a investir na produção de campanhas de publicidade de boa envergadura – conferências, entrevistas em todos os media e, claro, anúncios.
Obviamente, como referido, quem produz pseudo-história não admite estar a fazer algo de pseudo, de falso. Quando muito admitirá estar a fazer história alternativa. Mas isso é o mesmo que dizer ser possível fazer ciência alternativa – como se a maçã que, neste Universo, cai da árvore pudesse em alternativa subir da árvore.
Quem produz este tipo de escrita invocará que em História os mesmos factos são passíveis de interpretações diversas dependendo de quem as faz e que isso, à luz dos métodos historiográficos, não retira mérito ao historiador nem desacredita as conclusões – outros poderão até ver nisso a impossibilidade de a História se constituir como uma ciência.
No entanto a pseudo-história – mais difícil de definir que a pseudociência já que o método da segunda é mais exigente do que o da primeira – é assim definida não porque perante os mesmos dados chega a conclusões diferentes, mas porque falsifica, deturpa e omite factos relevantes para servirem interesses, por vezes tenebrosos, de pessoas ou de grupos que nada têm a ver com a História enquanto tentativa honesta de conhecimento do passado humano.
A pseudo-história baseia-se em teorias da conspiração; parte de pressupostos falsos – a que nem se podem chamar de hipóteses – e estes pressupostos acabam por ser as conclusões; assenta em documentos únicos, descontextualizados, secundários, falsos; é dogmática; não é autocrítica nem se submete à crítica, tomando-a como detractora despeitada. A lista de características é longa e poderia continuar mas em tudo seria diferente daquilo que deve ser a História.
Aos indivíduos de hoje exige-se no dia-a-dia profissional uma racionalidade e competência técnica extremas. Os indivíduos especializam-se de tal maneira que muito pouca disponibilidade lhes fica para poderem dominar outras matérias para além da superfície e da banalidade. Vivem numa sociedade onde existem breves momentos ou curtos espaços informativos, nos quais confiam, entremeados entre grossas fatias de entretenimento mentalmente debilitante, quando não boçal. Quase como um contraponto às exigências profissionais, alguns desses mesmos indivíduos, tendem a afrouxar a racionalidade que possuem – como que se o baixar dessas guardas constituísse uma forma de descanso – e passam a confiar na informação que assim embrulhada lhes é fornecida.


O erro de quem confia acriticamente na informação que lhe é dada reside no facto de pressupor que quem a produz está a agir com a competência técnica e a racionalidade que é exigida a quem a recebe quando está no exercício da sua actividade profissional. Mas nem sempre é assim. Quem fornece informação pode errar, de boa ou de má-fé, pelas razões mais diversas, sendo uma delas o interesse económico, se outro ainda mais obscuro não houver. Ora, é precisamente por não se querer cair neste tipo de erro de credulidade que se cai no oposto, que se cai na pseudociência, na pseudo-história. A popularidade da pseudociência e da pseudo-história passa então a dever-se ao inconformismo, à recusa da normalização e da massificação ou, mais grave ainda, da vontade de negação da realidade tal como ela é entendida ou explicada.
Quando produtores de informação ou entidades respeitáveis, e como tais tidos por credíveis, por lapso ou não, veiculam, acabando por publicitar, teses pseudo-históricas sem as devidas ressalvas, estão a contribuir para a sua difusão, legitimação e perpetuação das mesmas. Não se trata de censura nem de cercear a liberdade de expressão. Trata-se tão só de advertir os menos informados de que se trata de matéria contestada ou contestável pela comunidade científica por ir ao arrepio da prática estabelecida e tida como boa. Afinal, sem limitar a liberdade de expressão, já existem mecanismos de advertência prévia do eventual público de espectáculos e actividades que podem ferir susceptibilidades.
Ao abrigo da liberdade de expressão a pseudo-história tem todo o direito de existir mesmo apresentando os maiores dislates como o da negação do Shoah, que Colombo era agente secreto ou que os chineses descobriram os Açores. Contudo, também ao abrigo da liberdade de expressão, tem que estar disponível para a crítica, o que pode ser um exercício quase inútil já que os seus produtores, dogmáticos, nunca a reconhecem e os incautos que tomaram esses disparates como certos ou não têm acesso à crítica – porque nunca recebe a mesma atenção dos media – ou então tornam-se eles mesmos coniventes com a fraude.
À referida quase inutilidade da crítica juntam-se as dificuldades em fazê-la bem feita. É que nem sempre há tempo, paciência ou o incentivo para a fazer. O primeiro obstáculo a passar é a verborreia pseudo-histórica destinada a cobrir com uma cortina de fumo o pequeno conjunto de ideias em que consiste a tese. Depois há que procurar na enxurrada de factos que sempre se apresentam os que realmente contribuem (ou poderiam contribuir) para a tese, separando-os daqueles que são meramente decorativos e que pretendem demonstrar a profundidade e vastidão do trabalho. Neste processo pode-se logo ir assinalando os falsos, os deturpados e os descontextualizados para no fim acrescentar os que aí faltam e não deveriam faltar. Estando-se perante pseudo-história o processo poderia acabar aqui, pois as falhas já encontradas seriam suficientes para o parar, no entanto, se o crítico for persistente ou se estiver a cumprir alguma penitência poderá continuar e ver se os factos que sobram (e os que faltam) permitem sustentar a tese. Por ventura, os factos apresentados são tão díspares entre si ou as conclusões parcelares tão (pseudo)técnicas que o crítico tem de recorrer a especialistas dessas áreas (se os houver) para obter um parecer competente, quando não é a totalidade dos factos e conclusões apresentados no trabalho a precisar críticas especializadas. Ao contrário da pseudo-história que é vendida ao grande público, o trabalho dos críticos não é remunerado, pelo que não pode ser feito como poderia ser, mas também – muitos dirão – não deverá valer a pena fazê-la.

A História, é por definição séria. Trata-se dum inquérito metódico e sujeito a crítica constante que pode prolongar-se por séculos. Nela o erro é sempre passível de correcção. O erro é admissível e até mesmo aceitável se for resultado de boa-fé ou de limitações intelectuais (há historiadores mais inteligentes que outros) ou materiais (impossibilidade de aceder a uma fonte determinante). A História é um conhecimento que se vai construindo geração após geração, sem pretensões à verdade absoluta e com disponibilidade para aceitar a novidade fundamentada que eventualmente vá aparecendo. Todo o historiador sonha em dar um contributo notável para o avanço significativo da História. A maior parte deles ficará sem satisfazer esse desejo, não porque tema o ridículo de expor uma nova teoria que vá contra a norma existente e que lhe garantiria um lugar na História da Historiografia, mas porque é honesto e as hipóteses revolucionárias ou situacionistas que vai formulando acabam por não ter fundamentação, não saindo por isso donde nunca deveriam sair – da gaveta.
Dan Brown (O Código Da Vinci), Miguel Sousa Tavares (Equador) ou José Rodrigues dos Santos (Codex 632) escrevem literatura (romances históricos) e, aparentemente, não a pretendem vender como História – não querem vender gato por lebre – se bem que para muitos dos seus leitores as realidades que romanceiam passem a ser a realidade histórica. Como tudo e como todos, alguns destes autores ou as suas obras poder-se-ão tornar históricos, algo que só a própria História poderá vir a determinar e não a vontade presente de algum publicitário ou bajulador. As polémicas em que se possam ver envolvidos ou em que voluntariamente se envolvam poder-se-ão, ou não, tornar históricas ou objectos da História. Seja como for, o valor histórico será determinado pelos historiadores futuros.
Gavin Menzies (1421: o ano em que a China descobriu o mundo), Mascarenhas Barreto (O Português Cristóvão Colombo Agente Secreto do Rei D. João II) ou Luciano da Silva – não confundir com Luciano Pereira da Silva, 1864-1926 – [Cristóvão Colon (Colombo) era Português], fazem pseudo-história, pois pretendem vender as suas ideias (e as alheias, no que não ficam sozinhos) como sendo História; fazem maus romances históricos já que lhes falta a dinâmica narrativa que os anteriores têm. No entanto têm o desplante de querem passar um atestado de incompetência a toda a comunidade científica, passada e presente. E nisto as editoras são cúmplices, senão mesmo co-responsáveis por um logro – tal como o talhante que vende gato em vez de lebre.



Este texto foi escrito no Verão de 2006 e publicado em Setembro do mesmo ano na página da Internet da APH. Foi redigido a pedido de um dos responsáveis da associação, numa altura em que desconhecia a polémica que já existia há muito tempo no fórum do Geneall e antes de tomar conhecimento das adulterações que ocorriam na Wikipédia que originaram o aparecimento desta página. Por a página da APH ter sido reformada e os artigos de opinião estarem agora indisponíveis e por este artigo manter toda a actualidade, republica-se aqui o texto acima.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O logro continua...


Elsa Pestana Magalhães (texto); Fernando Aznar (ilust.), Navegadores Portugueses, s.l., Girassol, 2010.

O discurso pseudo-histórico encontra eco neste livro dirigido ao público jovem ao colocar-se em dúvida a naturalidade genovesa de Cristóvão Colombo e ao admitir-se o seu nascimento na vila alentejana de Cuba.

Por isso, decididamente está fora da lista das minhas ofertas de Natal!...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A nacionalidade de Colombo é irrelevante

A palestra Em Torno da Mistificação de Colombo realizada na Academia de Marinha no passado dia 2 de Fevereiro saldou-se por uma completa desilusão. A comunicação foi dividida por três oradores e arrastou-se durante uma penosa hora e meia ouvindo-se dos comunicantes aquilo que já todos sabem das suas ideias. Esta estratégia revelou-se bem sucedida pois assim, tomando todo o tempo, não deixaram ao público a possibilidade de ver esclarecidas as suas dúvidas ou de poder contraditá-los na fase que neste tipo de encontros se reserva às perguntas e respostas.
Embora muitos ouvintes presentes pedissem a palavra no final, só três a obtiveram – dada a hora tardia – e estes limitaram-se ao discurso de circunstância na mesma linha de pensamento dos comunicantes. Salvou-se a promessa do presidente da Academia de Marinha de fazer futuramente uma mesa redonda sobre o tema.
O Presidente da Academia de Marinha, Almirante Vieira Matias, ladeado pelos vice-presidentes Prof.ª Doutora Raquel Soeiro de Brito e Prof. Doutor Francisco Contente Domingues dirigiram a sessão.

A apresentação de factos históricos foi algo em que os comunicantes foram avaros, selectivos, simplistas e manipulativos.
Carlos Calado iniciou a sessão ocupando grande parte do tempo a publicitar a associação de que faz parte, distribuindo referências aos seus membros e no meio disso ficou uma frase em que as duas orações que a compõem constituem afirmações contraditórias entre si. Parafraseando, a dita associação tem por objectivo (e segue-se uma citação livre) «Defender a portugalidade do navegador [Colombo] e divulgar os respectivos factos históricos».
Além disto ainda constata que os descendentes de Colombo não casam com gente de Génova deixando no ar a suspeita de não haver por isso qualquer relação com a república, não se lembrando de que os interesses desta família se localizavam em Castela e que essa é a razão para o estabelecimento de alianças matrimoniais. Alude também às romãs, S. Cristóvão e ao convento de Mafra; Bobadilla, capitulações de Santa Fé e à rota do regresso da sua primeira viagem ao Novo Mundo. Nessa altura alguns oficiais de Marinha presentes na sala começaram a mexer-se na cadeira com o mesmo desconforto que deveriam sentir os velhos pilotos do século XVI quando ouviam as teorias que vinham da Aula da Esfera.
Brandão Ferreira (Duby não é um filósofo francês!) apresentou uma explicação monocausal para a expansão ultramarina portuguesa que é nada menos a da espiritualidade especial dos portugueses – a devoção ao Divino Espírito Santo –, pois até chegarem à Mina estes só tiveram prejuízo. Já na Mina conseguiam atrair a cobiça dos castelhanos que começam a frequentar essas paragens (assim, sem mais). É neste quadro que aparece um agente secreto com o pseudónimo de Colón (ou será Colom?), mas sobre quem seria realmente e qual era o objectivo da sua missão nada foi dito a não ser a há muito conhecida teoria do desvio das atenções castelhanas para um novo continente (pairava no ar o factício Salvador Gonçalves/Fernandes/Henriques Zarco, mas não se materializou, do mesmo modo também esteve sempre omnipresente a figura de Mascarenhas Barreto, pelo menos na maior parte das ideias que aí foram apresentadas).
Paiva Neves começou por evocar a «versão oficial» [da História] sem dúvida inspirado no seu colega primeiro orador que também se referiu à «tese oficial» da naturalidade de Colombo. Um mau princípio porque usando essas expressões negam a possibilidade da própria História, é que história oficial não é História.
Continuando, duvida que a naturalidade genovesa e origem humilde possibilitasse ao navegador chegar onde chegou: casar, navegar, ser culto, etc. Cita alguns historiadores, descontextualizando-os o suficiente para parecer que partilham das mesmas ideias, o mesmo fazendo com Rui de Pina quando alerta para as referências a Colombo e a ausência das mesmas para Bartolomeu Dias.
Entrou depois no tema forte da sua comunicação: a mística franciscana em Colombo, o que sempre é uma alternativa à, há muito, insustentável mística templária.
Também insustentável é a interpretação da recepção de Colombo por D. João II no regresso da primeira viagem e é completamente absurda a leitura do «especial amigo» na carta de 1488 deste monarca ao futuro almirante. Nestes casos revela-se desconhecimento das formas protocolares de tratamento, seja na Corte, seja na correspondência.
Já o presidente da Academia apelava para o fim da conferência quando, na linha de José Martins, Brandão Ferreira remata lançando o repto à Academia de Marinha para criar um grupo interdisciplinar de estudo – inclusivamente com especialistas na cabala – para provar a nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo.
Para quem afirma haver uma história oficial propõe que, em vez dessa, se faça história oficial, a sua.

sábado, 28 de março de 2009

Pseudo-História: alerta à navegação!

Não quero ser D. Quixote, apenas quero recordar que hoje, como ontem, se podem negar factos com base nas coisas mais ridículas como por exemplo gralhas tipográficas, dificuldade em reconstituir o que foi totalmente destruído e do qual apenas ficaram indícios, ou ainda rumores e contra-informação.
Quero, por isso, aconselhar a leitura desta página e a audição desta sobre um acontecimento que trouxe sofrimento a milhões de pessoas no século XX e que hoje, passadas décadas, já se tenta passar como não tendo acontecido. Trata-se do Holocausto ou Shoah.
Considerando isto, mais facilmente se compreenderá porque há pessoas perdendo o seu tempo demonstrando as asneiras aparentemente insignificantes em torno das ideias dum Cristóvão Colombo português.
É que a lógica que, nas matérias colombinas, diz serem os historiadores incompetentes, vendidos, burros e outros desqualificativos é a mesma lógica que permite dizer que os nazis afinal foram bons-rapazes e prestaram um serviço à humanidade. A mesma irresponsabilidade com que se alega a falsidade dos testemunhos que demonstram a naturalidade italiana de Cristóvão Colombo é a mesma que leva à atitude criminosa dos negacionistas do Shoah.
A naturalidade de Cristóvão Colombo é irrelevante, o assassínio de milhões de pessoas é algo que nunca poderá ser esquecido. Há uma diferença de grau na gravidade das duas pseudo-histórias, mas o princípio é o mesmo.
A pseudo-história vive dos interesses obscuros de uns e prospera com a ignorância (compreensível) da maioria dos que têm mais que fazer e que, por isso, deixam aos profissionais as áreas que lhes cabem, esperando que esses mesmos especialistas lhes dêem as respostas possíveis quando solicitadas ou necessárias.
Quando levianamente amadores ou interesseiros põem em causa trabalho sério, rigoroso e de reconhecido valor pelos pares dos especialistas envolvidos - como deve ser todo o trabalho científico - estão a pôr em causa todos os bons princípios em que assenta o conhecimento e a abrir o caminho para a instalação da irracionalidade.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Subsídios para a História de uma polémica

O semanário O Diabo publicou em 1990 uma entrevista a Luís de Albuquerque que gerou uma forte reacção de Mascarenhas Barreto e de outros devotos da causa, reacções essas que parecem ir muito mais além do que o razoável para fazer valer uma qualquer posição académica.
Veja-se o que diz Luís de Albuquerque ao jornal O Diabo em 24 de Julho de 1990:
(Clicar na imagem para ampliar)

E agora a reacção de Mascarenhas Barreto no mesmo jornal de 7 de Agosto de 1990:
(Clicar na imagem para ampliar)

Pelo meio houve, pelo menos, uma carta ao director sobre o assunto, de que não dou mais notícia pois vale o que valem a maior parte das cartas aos directores dos jornais, e ainda mais um artigo de opinião por um José Martins, oficial da Armada reformado, em que desanca fortemente nos espanhóis, na CNCDP e até nos seus camaradas de armas que, cépticos, não paparam a historieta de Barreto quando este último a contou na Academia de Marinha.
O artigo em causa com o antetítulo de A Tese sobre a Portugalidade de Colombo e com o título muito indicativo de Estamos a Ser Alvo de uma Conspiração? foi publicado pel'O Diabo de 28 de Agosto de 1990 nas páginas 8 e 9.
Entre as muitas banalidades que o autor escreve - na linha do que já se está habituado a ver neste blogue aos defensores da Portugalidade do Almirante das Índias - está a notícia, dada pelo próprio, da carta que escreveu ao Primeiro-Ministro com altos conselhos de estado - eufemismo meu para dizer exigências - de como se deveria lidar com tão grave questão nacional. Transcreve a carta e desta convém reter a genial ideia - exigência - de - e passo a citar - mandar contratar os melhores peritos internacionais na ciência da cabala para estes confirmarem a descodificação da sigla daquele navegador ou, no caso contrário, nos dizerem o significado da mesma.
Agora compreendo como chegou ao fim a hegemonia da Marinha Portuguesa...

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Bibliografia da controvérsia

  • José Rodrigues dos Santos, O Codex 632, 1ª ed., Lisboa, Gradiva, 2005.



Alguém nos comentários deste blogue referiu um programa na RTP2 sobre Colombo. Vendo-o, constatei que o jornalista José Rodrigues dos Santos, para além de escritor, também é pseudo-historiador nas horas vagas.

Li há algum tempo O Codex 632 como obra literária. Pensei que se tratava de mais um livro na literatura em voga: o romance histórico - afinal enganei-me.

Agora, vendo o programa na RTP2 constatei para meu espanto que o autor é mais um dos acérrimos defensores dum Colon português - não, não é aquela parte com acento.

Colon era um apelido aparentemente muito comum entre alentejanos de Cuba (coitados, nem imaginam!), mas hoje só existe um único exemplar: a estátua Cristóvão Colon.

Gostei especialmente no programa da referência ao vinho. Demonstra imparcialidade de intenções.


Adenda:
Ver críticas ao livro aqui e aqui.
JCSJ

sábado, 10 de novembro de 2007

O código Colombo - O Método da Sopa de Letras

Mascarenhas Barreto, depois de Patrocínio Ribeiro, Pestana Júnior, et al. e uns anos antes de Doron Witztum, Eliyahu Rips, e Yoav Rosenberg inventarem o Código do Génesis, aplicou à assinatura de Cristóvão Colombo aquilo a que chamou o método cabalístico, mas que (nesta variante) com melhor propriedade se pode chamar de Método da Sopa de Letras.
Munido desse poderoso instrumento analítico gerou várias séries de caracteres donde sem grande esforço, mas não menor arrebatamento, extraiu das letras que figuram na assinatura de Cristóvão Colombo o nome Salvador Fernandes Zarco (e não importa que já antes outros, com menor esforço e menos palavreado, lhe tivessem chamado Salvador Gonçalves Zarco, entre outros epítetos).


Um dos muitos quadros de seriação de caracteres resultado da aplicação do Método da Sopa de Letras. Repare-se nos originais pormenores dos itálicos ou de como até existem reais palavras portuguesas pelo meio e que foram totalmente desprezadas na construção do personagem SFZ.
Mascarenhas Barreto, Cristóvão Colombo..., 2.ª ed., Lisboa, imp. 1988, p. 351.


Salvador Fernandes Zarco (SFZ, para os íntimos e para os amigos da vinhaça) é caso único em toda a História Universal. A Sopa de Letras que o gerou não mais foi usada para a revelação dos mistérios históricos. Será um daqueles moldes perdidos depois do uso? É que para além do alienado navegador – que demorando mais um pouco a compor a assinatura nunca seria almirante e ainda hoje pastariam bisontes nas Grandes Planícies – ninguém mais usou, que se saiba, esta ou semelhante chave de encriptação. Será que, em alternativa, deixou de haver historiadores capazes de identificarem a utilização da Chave Sopa de Letras e por isso mesmo ninguém mais foi descoberto como não sendo quem se pensava ser?

Genealogia de Cristóvão Colombo, na versão Salvador Fernandes Zarco, resultante da aplicação por Mascarenhas Barreto do método cabalístico à assinatura do Almirante.
(Clicar na imagem para ampliar)

(Última actualização: 25-02-2010)

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Cristóvão Colombo: O Enigma – Manoel de Oliveira

O realizador de cinema Manoel de Oliveira vai estrear o seu novo filme no festival de Veneza.
A última obra do decano do cinema mundial chama-se Cristóvão Colombo – O Enigma e baseia-se no livro de Luciano da Silva e de Sílvia Jorge, Cristóvão Cólon era Português; a sua exibição será extraconcurso.
Normalmente um romance ou um filme histórico não me merece qualquer comentário público, já que ninguém minimamente bem formado toma isso por História tal como noutras obras de ficção ninguém no seu perfeito juízo questiona a existência de fadas, elfos ou orcs.
O próprio realizador diz que «Não se trata de um filme científico ou histórico, nem de carácter propriamente biográfico, mas sim de uma ficção de teor romanesco, evocativa da grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos».
Assim vejo-me forçado a concordar com a primeira parte do que Manoel de Oliveira diz, mas sinto-me triste pela escolha da figura para invocar a «grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos». Cristóvão Colombo só é grande porque se enganou redondamente e pelo caminho encontrou um continente onde por um acaso da História se localiza hoje a maior potência económica do mundo e como tal é um bom mercado para o seu filme, mesmo que ele não venha a ser um blockbuster.
Querendo evocar a épica dos descobrimentos poderia escolher inúmeros outros navegadores desde o mais famoso Vasco da Gama até aos menos vistosos Gil Eanes, Bartolomeu Dias ou até uma ficção em torno de Duarte Pacheco Pereira (ou uma figura inventada) e a exploração das correntes e ventos do Atlântico Sul, um feito de génio como nunca até aí levado a cabo pela humanidade.
Mas se quisesse ser politicamente incorrecto – o que também é uma boa fórmula para o sucesso de bilheteira – poderia pegar em figuras como D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque ou até, de novo, Duarte Pacheco Pereira a sustentar o cerco de Cochim.
Agora uma coisa garanto, não sou eu que vou gastar do meu bolso para ver um filme baseado numa tese fraudulenta sobre uma figura menor inventada para satisfazer egos mal alinhavados.

sexta-feira, 2 de março de 2007

O Mistério das Conferências Revelado

Ao longo das últimas semanas têm-nos chegado aos olhos sucessivos textos, intervenções, respostas e citações sobre a problemática da naturalidade e filiação exactas do italiano Cristóvão Colombo.
Variadíssimas vezes o nome do Pseudo-História Colombina neles é referido, posto em foco. Vários comentários a nosso respeito, uns elogiosos e tomando-nos como referência, outros criticamente destrutivos do nosso trabalho, por essa Rede fora nos vão sendo feitos.
Essas discussões não as vimos mencionando, ou temos mesmo recusado tomá-las em conta por duas razões fortíssimas: a primeira, consiste na nossa política firme de apenas responder, aqui, a quem para aqui ou fora daqui se nos dirija desde que directamente. A segunda, custa-nos dizê-lo, deve-se a que muitas elucubrações "colon'ialistas" com interesse, e que lemos, virem geralmente submersas no meio de incivilidades grosseiras, havendo inclusivè escritas reveladoras de paixões primárias turvadoras da Razão, que poluem todo o debate existente fora deste espaço e nos obrigam a considerá-las como não existentes: non licet.

Entre as últimas comunicações que recebemos esta semana visionámos alguns relatos das recentes conferências proferidas na secção de História da Sociedade de Geografia de Lisboa, na passada segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007, às 17 horas e 30 minutos, pelo sr. Manuel Rosa e pelo Doutor Contente Domingues. Relatos que, e não o escondemos, nos deixaram atónitos, perplexos, senão mesmo estupefactos. Passados três dias, pensamos que serenados os ânimos podemos revelar que por interposta pessoa da nossa confiança, como preferirem, ou por obra da Santíssima Trindade, três Pessoas numa só Pessoa, três romãs num só pé de romã florescendo no fecundo, múltiplo e unitário reino do Símbolo Alegórico, o misterioso olho triangulado do Pseudo-História Colombina também ali esteve presente, e atento. Roma est Amor: ou ainda que por obra e graça do Divino Espírito Santo, manifestando no âmbito da Divina Providência os seus insondáveis desígnios, também nós podemos registar jornalisticamente o evento, com toda a isenção, frieza, e objectividade que nos foram possíveis. Esse mesmo relato, que muito agradecemos a quem de Direito, passamos agora a transcrever a fim de o fornecer aos leitores interessados pelo caminho que tem vindo a levar a afirmação comercial, política, social e cultural da Pseudo-História em Portugal:

Musa da História


"1ª Conferência, “A Portugalidade de Colombo”, pelo sr. Manuel Rosa (1)

(...) Iniciou-se com a exposição (...) dos factos em que assenta a sua teoria do Colombo português (...) isto acompanhado de imagens, projectadas num écrã em que se via, por exemplo, uma moçoila americana alta, loira e de olhos azuis (como deviam ser as portuguesas da época, no século seguinte é que começaram a apanhar muito sol e crestaram, qual "bolo mulato") e um robusto tecelão americano-genovês, de avental para não se sujar, em pleno namoro.

Comentou o sr. Rosa a impossibilidade de um tecelão genovês casar com uma senhora da alta nobreza portuguesa, tendo o Prof. Contente Domingues dito de imediato que não era obrigatório tal genovês (referido pelas fontes coevas) ser tecelão. Continuou depois o sr. Rosa a sua dissertação classificando como alto o estrato da nobreza portuguesa a que se unira Colombo ao casar com a tia do Marquês de Montemor (aliás, meia-tia da Marquesa sua mulher), do Conde de Penamacor (aliás, meia-tia da Condessa mulher deste), e doutros Noronhas (os tais rebentos do coito danado do Arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha com a "nobilíssima" Branca Dias meia-irmã de Filipa Moniz) isto perante o atónito olhar e elevar de sobrancelhas do Prof. Contente Domingues ao ouvir assim referir as duas irmãs Perestrelo.

(...) Perante as restantes efabulações do sr. Manuel Rosa , o Prof. Contente Domingues ia encolhendo os ombros e mais ainda os encolheu quando foi referido o assunto das romãs anteriormente divulgado pelo sr. Carlos Calado (...).

2ª Conferência, “A Nacionalidade de Colombo: um Problema Relevante?” pelo sr. Professor Doutor Francisco Contente Domingues

(...) O conferencista começou por dizer que o livro de Manuel Rosa revelava um meritório esforço de trabalho de documentação, ao contrário dos de outros anteriores defensores da teoria portuguesa para a naturalidade de Colombo. Aí mudou imediatamente de assunto, e desenterrando o machado de guerra, fulminou o livro de Mascarenhas Barreto, a quem chamou de plagiador absolutamente ignorante, ao ponto de ele, conferencista, não ter sequer conseguido acabar de o ler ao topar com um erro gravíssimo a páginas tantas. (...) Explicou, seguidamente, que existem muitas teorias sobre a nacionalidade de Colombo, até uma grega, mas que Colombo é considerado (historiograficamente) como (italiano e) genovês face aos documentos existentes. Que o desconhecimento documental da naturalidade e filiação exactas de Colombo (em Itália) abre as portas ao desenvolvimento de quaisquer teorias a respeito, da da Catalunha à das Baleares e á portuguesa, entre outras.

Referiu depois a pouca importância da nacionalidade de Colombo, a pouca importância da descoberta (oficial) da América e a enorme importância que tem sim o facto de metade do continente americano falar espanhol.

Falou depois dos Descobrimentos, inelutavelmente nossos, pertença dos nossos navegadores e da gesta lusitana. Comprazeu-se com o renovar do interesse pelos Descobrimentos, e salientou que tendo nós Portugueses os descobridores oceânicos que temos não precisamos que Colombo seja português natural. Que tanto italianos como espanhóis o disputavam historiograficamente, há muito tempo, apenas porque não dispõem de qualquer outro nome célebre de navegador na Era das Descobertas, razão por que a questão da naturalidade de Colombo tem pouca importância para Portugal.


3ª parte, Debate com o público:

(...) Seguiu-se um curto debate, pois que o Doutor Contente Domingues tinha começado por falar da sua pouca disponibilidade de tempo, tinha um jantar. Interveio acaloradamente uma senhora açoriana, que defendeu a obrigatoriedade de casamentos na nobreza dos capitães-donatários quatrocentistas das ilhas portuguesas e respectivas famílias. Foi de imediato contrariada pelo Professor, que referiu nada disso ser assim, e que bem pelo contrário se estava numa época de ascensão social da burguesia, havendo mistura desta com a nobreza desde os começos da Dinastia de Aviz, paralela ao súbito enobrecimento dos descobridores daquele tempo. Esta senhora quiz continuar a debater o assunto, mas foi interrompida pelo moderador e anfitrião Rui da Costa Pinto, alegando haver mais gente para falar e o tempo ser escasso.

Seguiu-se uma intervenção de um militar (tenente-coronel) que questionou a investigação no domínio da História, tendo o Prof. Contente Domingues informado dos custos da mesma, agora vista nos nossos tempos como encontro/conflito de civilizações e não já como "descoberta".

Depois outro interveniente, creio que de sua graça Augusto, aludindo aos enigmas vários da nossa História, e depois ao recente "Mistério das Romãs", da autoria do Eng. Carlos Calado; na assistência falou-se de imediato da Maçonaria, mas... acabara-se o tempo e acabara-se a conferência. (...) Dê a este relato que assumo inteiramente o uso que entender (...) vejo a intervenção do Doutor Contente Domingues como um encolher de ombros perante teorias tontas e um ignorá-las completamente, preferindo puxar por outro tema de muito maior relevância! (3)".

A interpretação a que nos é possível chegar sobre o que realmente ocorreu durante a sessão na Secção de História da Sociedade de Geografia de Lisboa é que, ao referir o mérito do esforço do trabalho de investigação de documentação do sr. Rosa, sem proferir de seguida qualquer aprovação sua às interpretações e teorias elaboradas por este sobre o material recolhido por esse mesmo esforço, deixou o Doutor Contente Domingues à assistência um branco significativo... a bom entendedor... tanto mais que imediatamente parece ter criticado subliminarmente o livro objecto da conferência anterior estabelecendo subtil paralelismo com a dura crítica que imediatamente encadeou à obra de Mascarenhas Barreto (2), mantendo assim a educação para com os presentes, e crente de ser entendido como se entre pares académicos estivesse, sem levantar problemas de controvérsia ao anfitrião e à assistência, impossíveis aliás face ao pouco tempo disponível.

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1) "De Colombo", tal como oficialmente anunciada pela SGL, e não de "Colon", conferência essa que não despertaria o interesse de ninguém de língua portuguesa, mas assim é referida hoje no "mui verdadeiro blogue" Colombo-o-Novo, que não entendemos porque continua persistindo em não alterar coerentemente a sua denominação pública para Colon-el-Nuevo. Cf. http://colombo-o-novo.blogspot.com/2007/03/prova-final-2-em-1.html, e
http://seccaodehistoriadasgl.blogspot.com/.
Aproveitamos esta referência que nos fazem para indagar do novo mistério ainda por revelar: o que é um pseudo-blogue? Iremos perguntar ao blogspot.com se existem blogues tipo buraco negro, tipo anti-matéria de romã cubana pairando ciberneticamente no espaço virtual... Porque nós, ao contrário de Salvador Fernandes Henriques Palha de Colos Zarco e Coluna etc., somos reais, temos IP... Somos visíveis e documentados! Cuidado, senhores leitores, que daqui em breve irá sair nova obra, "O Mistério do Pseudo-Blogue Pseudo-História Colombina". Basta especular e confundir.
2) No discurso académico, cremos, não existem quasi coincidências que não sejam significativas. A linguagem académica leva tempo a ser aprendida, razão pela qual é ensinada paulatinamente desde os primeiros tempos de faculdade aos alunos, futuros estudiosos de uma dada área de saber, que devem aprender a dominar uma terminologia própria a essa ciência, distinta da utilizada nos restantes ramos científicos. Este antiquíssimo costume ter-se-á iniciado entre a comunidade científica, ao que tudo indica, pela necessidade de confrontação e refutação interna dos discursos empíricos em presença na Universidade, oralmente e por escrito, sem ferir susceptibilidades, e deixando registo das discordâncias coloquiais o menor que for possível.
3) As palavras entre parêntesis foram subentendidas do discurso proferido cursivamente.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Colombo porque genovês NÃO tem que ser o Colombo tecelão

Continuamos a verificar no mundo da Pseudo-História em Portugal uma deliberada tendência para identificar a informação coeva, portuguesa e internacional, da naturalidade de Colombo como sendo italiana, e dos Estados de Génova, com aquela mais tarde produzida pela historiografia do sc. XIX, no tempo da história nacionalista, a que chamam do "Colombo tecelão". Esta última vem procurando documentá-lo desde então como tendo vivido na própria cidade de Génova. É a tese clássica oitocentista ainda ensinada em Itália, e nos EUA, a que os italianos hodiernos começam a chamar de tese purista, como referimos em artigo anterior neste blogue.

Sendo o nome Colombo comum em Itália, e existindo documentadas homonímias entre vários Colombos quatrocentistas, chamam os da Pseudo-História a este Colombo da cidade de Génova de Colombo tecelão, aferrando-se a que é a este que a historiografia portuguesa se refere...

No entanto, como já aqui tínhamos dito desde o início, são duas coisas, dois pontos inteiramente distintos. Podemos documentar que D. Afonso Henriques nasceu português, mas não temos ainda a certeza absoluta, documentada, em qual das localidades nasceu o Conquistador. Guimarães, como dizia a historiografia tradicional? Viseu (2), como tem vindo a procurar documentar o Dr. Almeida Fernandes?

A História faz-se através da análise serena dos pontos em causa, e misturá-los deliberadamente é pura demagogia, ao serviço de interesses mais de advogado hábil, embora talvez não escrupuloso, do que de historiador digno desse nome. E dado vermos persistir esta deliberada confusão em quanto vamos vendo publicar por essa Rede fora, resolvemos como adequado postar estas palavras, apesar de repetidas, a fim de pelo seu título lhes conseguir dar a necessária indexação nos motores de busca. A táctica da Pseudo-História, também nisso semelhante à dos bons advogados de barra, passa por tentar desacreditar as fontes e estudos coevos, atacando especialmente, ao que parece, Rui de Pina. E esquecendo deliberadamente que Rui de Pina conheceu pessoalmente Cristóvão Colombo, e que independentemente das circunstâncias que tenha vivido no seu tempo, como cronista-mor, o seu testemunho é ratificado por todos os outros, internacionais e contemporâneos.

Túmulo do Doutor João Afonso das Regras

Alguns exemplos de falácias passadas a sofismas deste tipo perduraram na História até hoje. Na História de Portugal, um dos mais importantes aparenta ter sido do grande Doutor João das Regras (1), que precisando apresentar às Cortes reunidas em Coimbra o trono português como vago, a fim de fazer eleger o Mestre, discorreu largamente negando a validade dos casamentos de D. Pedro I com D. Inês de Castro, e do Rei Formoso com D. Leonor Teles. Por esse facto singelo, e que na altura conveio ao interesse político do País, continua a não ser devidamente colocado na cronologia dos reinados em Portugal o de D. Beatriz, rainha legítima e efectiva entre 1383 e 1385, sob a regência de sua mãe D. Leonor Teles de Meneses.

Citamos este caso, um entre muitíssimos, tentando demonstrar até que ponto um sofisma se pode assim enraizar, e até que ponto se pode vir a tornar História Oficial. E por isso, tanto os sofismas e falácias do passado consignados ainda hoje nos compêndios escolares, como as novas propostas demagógicas que prentendam estabelecer novas teorias sem pés para andar, como a do Colombo português, devem ser firmememte combatidas.

A persistência desta confusão afigura-se-nos agora já deliberada, e como tal, um sofisma.

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1) Doutor em Leis por Bolonha, enteado do chanceler Álvaro Pais, com quem colaborou na revolução de 1383-85, Protector da Universidade de Lisboa, D. Prior da Colegiada de Guimarães, chanceler-mor do Reino, ficou famoso por ter elaborado a teoria jurídica tendente a demonstrar que a Coroa se encontrava vaga, permitindo a eleição do Mestre de Aviz, nas Cortes de Coimbra. Cf. http://atelier.hannover2000.mct.pt/~pr511/drjoaoreg.html
2) Cf. Fernandes, A. de Almeida (1994) – Viseu, Agosto de 1109 - Nasce D. Afonso Henriques, Viseu, 1993, e http://www.triplov.com/biblos/fernan.htm

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

O Mistério e o Real: Ditados e Axiomas

O Real centra o Mistério

Emil Cioran - "Se méfier des penseurs dont l'esprit ne fonctionne qu'à partir d'une citation - Desconfiemos dos pensadores cujo espírito apenas funciona a partir de uma citação".

Alain - "Rien n'est plus dangereux qu'une idée, quand on n'a qu'une idée - Nada é mais perigoso que uma ideia, quando apenas se tem uma ideia".

Yvon Belaval - "L'intelligence est un effort pour savoir de quoi l'on parle - A inteligência é um esforço para saber do que falamos".

Honoré de Balzac - "L'espoir est une mémoire qui désire - A esperança é uma memória que deseja".

Arthur Schopenhauer - "Toute évaluation est le produit de la valeur de l'estimé par la sphère d'appréciation de l'estimateur - Toda a avaliação é fruto do valor do avaliado pela esfera de valorização do avaliador".

Rudyard Kipling - "Les mots, c'est évident, sont la plus puissante drogue utilisée par l'humanité - As palavras, é evidente, são a mais potente droga utilizada pela Humanidade".

Alfred Sauvy - " Dans toute statistique, l’inexactitude du nombre est compensée par la précision des décimales - Em qualquer estatística, a inexactidão do número é compensado pela exactidão dos decimais".

Aaron Levenstein - "Les statistiques, c'est comme le bikini. Ce qu'elles révèlent est suggestif. Ce qu'elles dissimulent est essentiel - As estatísticas, é como o biquíni. O que revelam é sugestivo. O que elas dissimulam é essencial".

Jean-Paul Sartre - "Il est toujours facile d'obéir, si l'on rêve de commander - É sempre fácil obedecer, quando se sonha vir a mandar".

São Francisco de Sales - "Le bruit fait peu de bien, le bien fait peu de bruit - O barulho não faz muito bem, o bem faz pouco barulho".

Voltaire - "Aime la vérité, mais pardonne l'erreur - Ama a verdade, mas perdoa o erro".

Renan - "Toujours, le contraste de l'idéal avec la triste réalité produira dans l'humanité ces révoltes contre la froide raison, que les esprits médiocres taxent de folie - Sempre o contraste do ideal com a triste realidade produzirá, na Humanidade, essas revoltas contra a fria razão que os espíritos medíocres apelidam de loucura".

Pascal - "Dire la vérité est utile à celui à qui on la dit, mais désavantageux à ceux qui la disent - Dizer a verdade é útil a quem a dizemos, mas desvantajoso para àqueles que a dizem".

Friedrich Nietzsche - "Les convictions sont des ennemies de la vérité plus dangereuses que les mensonges - As convicções são inimigas da verdade, mais perigosas que as mentiras".

Bergson - "Toute vérité est une route tracée à travers la réalité - Toda a verdade é um caminho traçado através da realidade".

Julien Benda - "Les bons esprits ont à la fois l'esprit de finesse et l'esprit de système - Os bons espíritos têm ao mesmo tempo espírito de subtileza e espírito de sistematização".

André Gide - "Il est aussi naturel à celui qui emprunte à autrui sa pensée d'en cacher la source, qu'à celui qui retrouve en autrui sa pensée, de proclamer cette rencontre - É tão natural àquele que toma de empréstimo a outros o seu pensamento esconder as suas fontes, como àquele que descobre em outrém o seu pensamento, proclamar esse encontro".

Axioma

Francis Bacon - "Les livres doivent suivre les sciences et non le contraire - Os livros devem seguir as ciências, e não o contrário".

Edgar Allan Poe - "Peut-être le mystère est-il un peu trop clair, dit Dupin - Talvez que o mistério seja um pouco claro (evidente) demais, disse Dupin".

André Siegfried - "En politique (en histoire), il faut déjà beaucoup de culture pour se contenter d'explications simples - Em Política (na História), é já precisa muita cultura para nos contentarmos com explicações simples".

Boileau - "Avant donc que d'écrire, apprenez à penser - Portanto antes de escrever, aprendei a pensar".

Voltaire - "Il y a donc de très bons préjugés: ce sont ceux que le jugement ratifie quand on raisonne - Há portanto muito bons preconceitos: são aqueles que o julgamento ratifica quando se raciocina".

Voltaire - "On dit que je me répète, eh bien, je me répèterai jusqu'à ce qu'on se corrige - Dizem que me repito, pois bem, hei-de repetir-me até que se corrijam".

Aldous Huxley - "Les généralités sont, au point de vue intellectuel, des maux inévitables - As generalidades são, do ponto de vista intelectual, males inevitáveis".

Aristóteles - "Platon (le Portugal) m'est cher, mais la vérité me l'est encore davantage - Platão (Portugal) é-me querido, mas a verdade é-me muito mais querida ainda".

H. G. Wells - "Les pinces de notre esprit sont des pinces grossières, en saisissant la vérité, elles la déforment toujours - As pinças do nosso espírito são pinças grosseiras, ao pegarem na verdade, deformam-na sempre".

Kant - "Nous ne connaissons a priori des choses que ce que nous y mettons nous-mêmes - Nós não conhecemos a priori das coisas senão o que nelas nós próprios colocamos".

Paul-Jean Toulet - "Les arrivistes sont des gens qui arrivent. Ils ne sont jamais arrivés - Os arrivistas são pessoas que estão chegando. Nunca conseguiram chegar".

Albert Camus - "L'absurde, c'est la raison lucide qui constate ses limites - O absurdo, é a razão lúcida constatando os seus limites".

Paul Claudel - "L'ordre est le plaisir de la raison : mais le désordre est le délice de l'imagination - A ordem é o prazer da Razão: mas a desordem é a delícia da Imaginação".

Henri Poincaré - "Une accumulation de faits n'est pas plus une science qu'un tas de pierres n'est une maison - Uma acumulação de dados é tão científica como um monte de pedras é uma casa".

Ernest Renan - "Les vrais hommes de progrès sont ceux qui ont pour point de départ un respect profond du passé - Os verdadeiros homens do progresso são aqueles que têm como ponto de partida um respeito profundo do passado".

Charles Alexis Clérel de Tocqueville - "L'histoire est une galerie de tableaux où il y a peu d'originaux et beaucoup de copies - A História é uma galeria de quadros aonde há poucos originais, e muitas cópias".

Aristóteles - "les sciences, c'est l'étonnement de ce que les choses sont ce qu'elles sont - As ciências, são a surpresa das coisas serem aquilo que são".

Joseph de Maistre - "Les fausses opinions ressemblent à la fausse monnaie qui est frappée d'abord par de grands coupables, et dépensée ensuite par d'honnêtes gens qui perpétuent le crime sans savoir ce qu'ils font - As falsas opiniões parecem-se à moeda falsa que é cunhada inicialmente por grandes culpados, e gasta em seguida por gente honesta que perpetua o crime sem saber o que faz".

Francis Blanche - "La preuve que la lune est habitée, c'est qu'il y a de la lumière - A prova de que a Lua é habitada, é que tem luz".

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

A Falácia, o Sofisma, e o Discurso Invertido na Pseudo-História

Baseando-se como sabemos a Pseudo-História, ramo da Pseudo-Ciência (5), em grande parte na falácia (1), encontrámos ser interessante e exercício muito curioso o poder definir com propriedade os seus diferentes tipos, sistematizados, de que geralmente nem nos damos conta ao percorrer textos prenhes deles. É evidente que nem só a Pseudo-História utiliza a falácia, e ademais o sofisma (4), também os discursos políticos, os enunciados jurídicos, as propagandas comerciais, e até as conversas informais deles podem abusar largamente.
O que distingue a falácia do sofisma? A intenção deliberada de enganar, presente no segundo, e que se presume estar ausente da primeira. E neste mais recente formular do conceito definindo um sofisma, pode não estar envolvida a Pseudo-História, quando apresentada de boa fé. Mas está-o sem dúvida se considerarmos apenas o mais antigo significado de sofisma (4).


Alegoria ao Sofisma, por Vanko Vukeljic

Mais curiosa ainda será uma eventual associação, que deixamos ao critério dos leitores, da falácia com a teoria do discurso invertido que recentemente veio propor o australiano David John Oates. É evidente que se se considerar apenas o discurso invertido horizontalmente, ou seja, como uma segunda comunicação real veiculada subjectiva e ocultamente do emissor ao receptor da comunicação, podemos esquecer-nos que para qualquer comunicado existe sempre a sua recepção verticalizada ad adversum, ou seja, apreendida contra o sentido do informado, aceitando-se o seu oposto.
Passamos então a transcrever a sistematização proposta da falácia (2):

"FALÁCIAS INFORMAIS - são argumentos em que as premissas não sustentam a conclusão em virtude de deficiências no conteúdo, o erro provém da matéria ou conteúdo do raciocínio.

1 . Falácias da irrelevância - As premissas não são relevantes para sustentar as conclusões.

2 . Falácias da insuficiência de dados - As premissas não fornecem dados suficientes par garantir a verdade das conclusões.

3 . Falácias da ambiguidade - As premissas estão formuladas numa linguagem ambígua.

1 . Falácias da irrelevância

- Falácia ad baculum ou recurso à força - Argumento que recorrem a formas de ameaças como meio de fazer aceitar uma afirmação.

- Falácia ad hominem ou contra a pessoa - Argumento que pretende mostrar que uma afirmação é falsa, atacando e desacreditando a pessoa que a emite.

- Falácia da ignorância - Argumento que consiste em refutar um enunciado, só porque ninguém provou que é verdadeiro, ou em defendê-lo, só porque ninguém conseguiu provar que é falso.

- Falácia da Misericórdia - Argumento que consiste em pressionar psicologicamente o auditório, desencadeando sentimentos de piedade ou compaixão.

- Falácia ad populum ou falácia populista - Criação de um ambiente de entusiasmo e encantamento que propicie a adesão a uma determinada tese ou produto, cuja origem ou apresentação se devem a uma pessoa credora de popularidade.

- Falácia ex populum ou falácia demagógica - Argumento que pretende impor determinada tese, invocando que ela é aceite pela generalidade das pessoas.

- Falácia ad verecundiam ou falácia da autoridade - Argumento que pretende sustentar uma tese unicamente apelando a uma personalidade de reconhecido mérito.

2 . Falácias da insuficiência de dados

Trata-se de proceder a generalizações, partindo de observações insuficientes ou não representativas.

- Falácia da generalização precipitada - Enunciar uma lei ou regra geral a partir de dados não representativos ou insuficientes. Este tipo de falácia pode assumir duas formas: enumeração incompleta e acidente convertido.

Enumeração incompleta - Argumento que consiste em induzir ou generalizar a partir de observações insuficientes

Acidente convertido - Argumento que consiste em tomar por essencial o que é apenas acidental, por regular ou frequente o que é excepcional.

- Falácia da falsa causa - pode interpretar-se de duas maneiras: Non causa pro causa (não causa pela causa) e Post hoc, ergo propter hoc (depois de, logo por causa de)

Non causa pro causa (não causa pela causa) - falácia que consiste em atribuir a causa de um fenómeno a outro fenómeno, não existindo entre ambos qualquer relação casual.

Post hoc, ergo propter hoc (depois de, logo por causa de) - falácia que consiste em atribuir a causa de um fenómeno a outro fenómeno, pela simples razão de o preceder. Exemplo: Se um desportista tomou certa bebida antes da competição e se saiu vencedor, pode inferir que essa bebida funciona como "poção mágica" e passar a tomá-la antes de todos os jogos.

- Falácia da falsa analogia - Forma de inferência que consiste em tirar conclusões de um objecto ou de uma situação para outra semelhante, sem reparar nas diferenças significativas.

- Falácia da petição de princípio - Forma de inferência que consiste em adoptar, para premissa de um raciocínio, a própria conclusão que se quer demonstrar.

- Falácia da pergunta complexa - Consiste em adicionar duas perguntas ou fazer uma pergunta que pressupõe uma resposta previamente dada, de modo a que o interlocutor fique numa situação embaraçosa, quer responda afirmativa ou negativamente.

3 . Falácias da ambiguidade

- Falácia da equivocidade - Consiste em introduzir num argumento um termo com duplo sentido, o que conduz a conclusões erradas.

- Falácia da divisão - Argumento que atribui aos elementos isolados uma propriedade que é pertença colectiva da classe em que esses elementos se integram.

- Falácia da falsa dicotomia - Apresentação de duas alternativas como sendo as únicas existentes em dado universo, ignorando ou omitindo outras possíveis.

- Falácia do espantalho - Consiste em atribuir a outrem uma opinião fictícia ou em deturpar as suas afirmações de modo a terem outro significado.

- Falácia da derrapagem - Argumento que, introduzindo pequenas diferenças entre cada uma das premissas condicionais ou equivalentes, leva a uma conclusão despropositada.

- Falácia de anfibologia - é uma ambiguidade sintáctica. Há anfibologia quando uma frase permite duas ou mais interpretações. Há falácia por não haver estabilidade de sentido. Muitos slogans entram nesta categoria de falácias...".

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1) Segundo o dicionário em linha Priberam, falácia vem de falar; trata-se de um s. f., expressando a qualidade do que é falaz; falatório; palração; gritaria. Palavra oriunda do latim falacia significando engano, ardil, burla.
2) Um interessante artigo contendo a sistematização das várias formas usitadas de falácia, deixou infelizmente de estar acessivel na Internet. Este facto nos levou a utilizá-lo aqui como valiosa ferramenta que convem ficar disponível para análise das várias deficiências dos textos de investigação pseudo-histórica.
3) Sobre a teoria do Discurso Invertido de David John Oates, cf. http://brazil.skepdic.com/discursoinvertido.html,
http://www.reversespeech.com/home.htm, e http://en.wikipedia.org/wiki/David_John_Oates.
4) Vidé
http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx?pal=sofisma, e http://pt.wikipedia.org/wiki/Sofisma.
Na Wiki lusófona definem actualmente sofisma como sendo um "... um raciocínio aparentemente válido, mas inconclusivo, pois é contrário às suas próprias leis. Também são considerados sofismas os raciocínios que partem de premissas verdadeiras ou verosímeis, mas que são concluídos de uma forma inadmissível ou absurda. Por definição, o sofisma tem o objetivo de dissimular uma ilusão de verdade, apresentado-a sob esquemas que parecem seguir as regras da lógica. Historicamente o termo sofisma, no seu primeiro e mais comum significado, é equivalente ao paralogismo matemático, que é uma demonstração aparentemente rigorosa que, todavia, conduz a um resultado nitidamente absurdo...".
5)
Um dos principais argumentos usitados pelos pseudo-historiadores é o de não atribuir à História a sua categoria de ciência; confundindo a inexactidão passível de existir na interpretação das fontes com o rigor empírico exigido na sua definição e manuseio. Isto deve-se também em grande parte à sua ignorância ou desprezo da metodologia exigida para os trabalhos dignos da qualificação historicista poderem ser validados pela Comunidade Científica. Confundem pois a liberdade de interpretação dos factos já documentados com o trabalho empírico da sua colheita documental e exegese crítica das fontes assim organizadas, únicas passíveis de serem utilizadas pelo historiador. A utilização indevida da palavra historiador pelos leigos tem obrigado os verdadeiros historiadores a preferirem a designação de investigadores... da mesma forma que os Doutores foram obrigados a refugiar-se no eufemismo Professor Doutor. Ao considerarem impossivel atingir-se em História conclusões seguras, exactas, ficam-se os pseudo-historiadores naquilo a que no artigo anterior chamámos de filosofia da História, ou seja, tentando alcançar a História como os filósofos procuravam alcançar a Sabedoria.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

História Colombina, ou Filosofia Colombina?

A diferença entre a História, uma ciência reconhecida como tal desde o século XIX, e a Filosofia, o núcleo restante de todo o conhecimento residual depois de dela emergidas e tornadas independentes as diferentes ciências, é consabida. Uma ocupa-se do estudo do passado da Humanidade, baseando-se não só em documentos credíveis, conjugados, depois de crivados pela sua necessária exegese crítica; a outra, dispensando as fontes, procura alcançar novos caminhos cognitivos através de especulação mental diversa, apoiando-se em novas ideias que se procuram sistematizar em diferentes modelos.

Na Filosofia, ao contrário da História, não contam primacialmente os resultados do filosofar, conta acima de tudo o próprio acto de filosofar... valoriza-se o caminho, o estar indo, o ir descobrindo, sem nunca alcançar senão parcialmente conclusões, que necessariamente hão-de ser sempre meras etapas da manifestação do conhecimento abstracto em si próprio, que se deseja ir materializando em estruturas mentais compreensíveis ao Homem. Em História, muito pelo contrário, valorizam-se acima de tudo os resultados, apresentados sempre de forma provisória, sim, mas factual e organizadamente em sistema lógico e coerente.

Se nova documentação poderá surgir posteriormente sobre um dado assunto histórico, que obrigue à sua revisão, ou interpretação, esse novo ou novos conjuntos documentais terão que formar sentido com os restantes documentos anteriormente aceites como válidos, ou de maior número ou importância. Excepto se se provar que toda essa documentação anterior era falsa ou mal interpretada, claro. Ora uma coisa é a História, ou seja, a cronologia sistematizada no tempo e no espaço dos acontecimentos conformes à melhor documentação, outra a Filosofia da História, em que nos é permitido divagar com estruturas e sistemas cognitivos que nos permitam abordar de novas formas a sistematização desses mesmos conhecimentos factuais.

Muito outro é portanto o escopo da História, a quem cabe a árdua e ingrata tarefa de explicar o passado à luz das suas fontes, permitindo-nos recolher dados com valor para a explicação do presente.

É nossa convicção profunda, diante de verborreias indiscriminadas que não têm em conta a documentação validada coerente e coesa, mas apenas o amor a "estar no caminho, cada vez mais disperso e vago, caótico, mesmo, da verdade a alcançar apenas hipoteticamente num futuro mais do que entrevisto, desejado", que a Pseudo-História Colombina do presente apenas pretende baralhar os dados, confundir os espíritos, com propósitos filosóficos de permitir sempre novas e melhores especulações baseadas sobre factos já dados como irrelevantes, mal enquadrados ou compreendidos... ou pior, agir em mera propaganda, que se queira fazer passar por historicista... junto dos leigos, e daqueles que se deixem vencer pelo cansaço dos seus argumentos contumazes que não aceitam terem ficado destruidos, depois de bastamente desmontados...

Assim, a relação da Pseudo-História para com a História tem que ver, no campo restrito do estudo da realidade passada que permite explicar-nos o nosso presente, com a mesma dissonância que desde o primeiro tempo do som uno universal (2) emergindo do silêncio cósmico mostrou ter o Caos (ou Desordem) para com o Universo (ou Ordem) (1). Uns estudam e divulgam desordenamente enquanto estudam o que ainda não sabem... e desejam seja contrário ao já dado como provado; outros aguardam e publicam apenas serenamente as conclusões factualmente irrefutáveis, ou que se crêem como tais, logicamente explicáveis e compreensíveis.

Sendo assim, e como tudo na vida, à Pseudo-História deve ser reconhecida alguma utilidade, mais que não seja porque obriga a reavaliar conhecimentos, a ordená-los, e a publicá-los de forma mais sintética e útil para proveito do esclarecimento do leigo confundido nas matérias por ela abordadas. Infelizmente, com muito raras excepções, apenas profissionais do campo da História, e talvez mesmo não todos, são disso capazes e têm tempo para tal.

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1) Universo = Versus Uno > até à unidade, i. é, à unanimidade. Em termos parúsicos, a unidade tomará forma através de uma ordem dada ao caos (ou desordem). Isto coincide com o que actualmente nos ensina a Física Quântica: que no caos (ou "sopa quântica") algo se manifesta ordenadamente apenas quando nós próprios ali concentramos a nossa atenção.
2) Aceitando-se que existe uma vibração energética cósmica produzindo um som uno durante a manifestação expansiva da matéria, no processo de dilatação cíclica dos Universos com suas Galáxias.