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domingo, 21 de junho de 2009

Como D. João III compra Leão Pancaldo

El Rey D. João 3.º/

Carta de Gaspar Palha p(ar)a El Rey/
em que lhe dava conta de alguns contratos/
que se ajustarão e de huma carta de El /
que alli tinha chegado p(ar)a fazer pazes João/
da Silveira com Leom Pancado/

de Paris a 1 de mayo de 1531/

[Torre do Tombo, Corpo Cronológico,] Parte 1.ª/
Mac 46 Doc 84 N. Suc 5926 //

(D. João III)

// s(enh) or /

depois de duarte coelho partydo daquy p(er) que(m) escrivy a Vosa .A. ho/
que a nese tempo de suas cousas sabya sobreveyo nesta corte hu(m)/
neguoçyo e(m) q(ue) de todo me no(m) soube dar o co(n)selho se do q(ue) nyso/
fyz Vosa A. se ouver por deservydo, e ho caso he este que hu(m) lleom/
pamcado pylloto naturall de saona co(m) que(m) joam da syllveyra ha/
semtou aguora a dous anos partydo como Vosa .A. sabera veyo a esta/
corte que foy chamado segu(n)do tenho e(n)tendydo p(er) p(esso)as que nella m(ui)to/
podem eu soube sua vymda amtes tres ou quatro dyas que elle/
vyese e foy desta maneyra q(ue) este mjçer p(edr)o portador da prese(n)te/
cheguou aquy co(m) hu(m)a carta de Jaquome Requermo hu(m) mercador outro/
sy saones emdereçada a jo(am) da syllveyra eu fuy avjsado de como/
elle aquy era co(m) esta carta e me vy lloguo co(m) elle e me deu co(n)ta/
como este lleom pamcado era chamado desta corte e partydo de saona/
e que Jaquome Requermo p(e)la vo(n)tade q(ue) tynha de servyr Vosa .A. /
mamdava aq(ue)la carta a jo(am) da syllveyra cuydando q(ue) estava ajnda aquy/
e(m) que lhe dava co(n)ta de como este p(er)a qua era partydo q(ue) traba/
lhase de saber co(m) elle e saber de que(m) era chamado e ho p(er)a q(ue) era vy(n)do/
eu abry a carta e vy que dezya ho mesmo e asy como elle ho detevera/
com pallavras e co(m) lhe dar allgu(m)a cousa de seu ate guora q(ue) era p(ar)a/
saber depois do t(em)po que elle prometeo esperar mays de oyto me/
ses que aguora no(m) no podera mais ter como Vosa A. vera p(e)la mesma/
carta lhe dara(m) co(m) esta e co(m) outra q(ue) ho Jaquome Requermo aquy ma(n)dou/
q(ue) vynha de Roma p(er)a se chamar e(m) Saona este leom pamcado e foy/
ter a sua maão e a no(m) quys dar e ma(n)dava a jo(am) da sylv(ey)ra p(er)a q(ue) p(e)lo/
nome conheçese que(m) era aq(u)ele que aquyllo tratava o quall segu(n)do dyz/
a carta he ao momseor de momte-bru(m) q(ue) e vlasallo del Rey de framça e /
naturall da provynçya da gasconha segu(n)do achey por mynhas e(n)/
formações;//


(Francisco I)

// eu s(enh)or quando Isto asy vy emformey me d’onorato de caes q(ue) foy ho prmeyro/
co(m) q(u)em este myçer p(edr)o foy ter e ho endreçou amy(m) de que(m) era este jaqoume/
Requermo e se era p(esso)a a que se podya dar credyto elle me dyse q(ue) ho co/
nhecya por muy grande s(er)vydor de Vosa.A. e home(m) he(m) q(u)em lyvrem(en)te podya crer/
emtam hofereçy a este a pousada domde todollos dyas vynha comer e lhe/
roguey q(ue) porqua(n)to eu no(m) conheçya a este lleom pamcado que elle trabalha/
se tamto q(ue) elle aquy fose p(e)lo topar e mo fazer saber elle ho fez/
co(m) tam boõa vomtade q(ue) ao segu(n)do dya q(ue) ho pamcado aquy cheguou ho/
topou e me fez saber eu s(enh)or como neste caso no(m) sabya muy bem a vo(n)ta /
de de Vosa .A. e nom na sabendo estava e(m) ta(n)ta duvyda de saber ho que fa/
rya como aguora estou de saber ho q(ue) tenho feyto detremyney emtam de me/
aco(n)selhar nyso co(m) h’onorato asy por eu co(n)fyar delle ser e(m) tudo s(er)vydor/
de Vosa.A. como tambem por ver q(ue) elle me fallava neste neguoçyo/
como home(m) q(ue) ho sabya e co(m) Vosa.A. nyso pratycara pratycamdo nos ha/
maneyra co(m) que se Isto mylhor podya obrar elle me dyse q(ue) elle /
lhe no(m) ousarya fallar por q(ue) era cousa p(er) honde corerya m(ui)to rysquo/
mas q(ue) todavya elle lhe fallarya a maneyra de co(n)selho e verya ho q(ue)/
nelle achava e asy ho fez e achou ho tam ryjo q(ue) a n(e)hu(m)a cousa de/
co(n)creto co(m) Vosa .A. ho pode dobrar dyzendo lhe q(ue) elle fora e(n)ganado/
e q(ue) ho no(m) querya ser outravez q(ue) ja de portugall ho no(m) e(n)ganaryam/
mais e q(ue) lhe no(m) fallase e(m) partydo co(m) Vosa .A. porq(ue) elle era che/
gado a t(em)po q(ue) tynha dyso pouca neçesydade, qua(n)do h’onorato Isto/
vyo me dyse q(ue) elle esperava q(ue) este fyzese pouqua v(ir)tude mas/
q(ue) elle tynha hu(m) grande seu amyguo e p(esso)a q(ue) desejava servyr Vosa .A./
q(ue) ha hu(m) gynoes per nome Jo(am) marya q(ue) ja em portugall esteve hua/
vez ou duas e q(ue) este conheçya ao pamcado e era seu amyguo q(ue)/
serya boo(m) bom llamçarlho e ver se por co(n)selho ho pody(a) chegar/
allgu(m)a cousa eu me no(m) pareçeo bem saber se Isto de tamtos e po /
ren elle me aprovou este por tam bom homem he servydor de/
Vosa .A. que co(n)senty e(m) q(ue) ho fyzese e elhe fallou e amdou/
apos elle çertos djas cometendo lhe q(ue) se fose co(m) ele a portugall/
e q(ue) elle lhe farya a despesa e se hobrygarya a q(ue) Vosa .A. lhe/
co(m)p(ri)se ho co(n)trato q(ue) co(m) Jo(am) da syllveyra tynha feyto e em çyma/
lhe fyzese mais m(er)çe e q(ue) no(m) lho querendo co(m)prir lhe dava/
nesta vylla fyança de duzentos escudos os quaes se obrygava lhe/
pagar jndo elle lla e torna(n)dose se(m) Vosa .A. lhe fazer m(er)çe fynall/
me(n)te q(ue) nu(n)ca ho pode hu(m) ne(m) ho out(r)o mover e co(m) derradeyro co(n)/
çerto e(m) que se pos foy q(ue) se lhe desem lloguo dous myll cruzados/
q(ue) elle se tormarya e estarya p(e)lo co(n)çerto q(ue) co(m) Joam da syllveyra/
fyzera ou lhe desem lloguo duzentos e q(ue) p(e)los mais espara/
rya daquy a dous meses no mais e q(ue) no lhes dando q(ue) os duze(n)/
tos fyquasem p(er)a elle//. //


(Assinatura de Leão Pancaldo)

// eu pr(e)guntey neste caso a’onorato q(ue) lhe parecya elle me dyse q(ue)/
a cousa lhe parecya tam mall q(ue) p(e)lo q(ue) elle conhecya deste e da jente/
desta t(e)rra q(ue) se elle tyvera dous myll escudos q(ue) elle lhos dera sem/
mais comysam de Vosa allteza por q(ue) sabya q(ue) nyso lhe fazya m(ui)to /
s(er)vyço e q(ue) elle me aco(n)selhava q(ue) trabalhase nyso ho q(ue) eu podese por/
ver se podya nyso acabar allgu(m)a cousa eu s(enh)or me começey e(n)tam de/
Jmqueryr de como este homem aquy vyera ho caso q(ue) delle se fazya he ha/
chey q(ue) elle foy chamado no(m) dell Rey mas doutos homens deste Reyno os/
quais queryam co(m) elle fazer vyajem a Indja dos quais era hu(m) delles este/
monseor de mo(n)tebrya(m) e ho outro ho monseor de moy q(ue) aquy foy fery/
do nas justas de quem ja escreby a Vosa allteza e na co(n)panhya des/
tes e doutros emtrava tambem ho duque dallbanya q(ue) he s(enh)or auso/
lluto e grande servydor dell Rey de fra(n)ça ho pr(e)meyro home(m) co(m) quem/
este fallou vyndo a esta corte foy co(m) este mo(n)seor de moy ho quall/


(Paris)

dyz q(ue) se mostrou muy llado co(m) sua vynda e soube de myçer p(edr)o portador/
desta que este mo(n)seor de moy dera hu(m) escrito a este pancado p(er)a /
ho gram mestre lhe ma(n)dar dar çem escudos Isto me no(n) pareçeo bem/
nesta llyga sospeytey eu p(er) allgu(m)as cousas q(ue) senty q(ue) emtrava/
tambem ho allmyrante e emtraha ssy bem ho bysconde de dyepa/
sobyo este caso amays por q(ue) tanto q(ue) elle nesta corte foy ho fyzera(m)/
lloguo saber ell Rey e no(n) se fallou he(m) jamtar a sua mesa em out(r)a/
cousa sena(m) neste pylloto e ate dyzer ell Rey q(ue) elle fallara ja co (...?)/
e(m) outro tempo e q(ue) nu(n)ca vyra home(m) tam esperto nem sabedor nas /
cousas da Jndya andam aquy duzentos s(enho)res e fydallguos ytallyan[os]/
e outros q(ue) no(m) andam sena(m) bastando maneyra de se co(n)graçar co(m)/
ell Rey amtre os quais he hu(m) ho marques de salduçia q(ue) he p(esso)a aque(m) el Rey/
tem ma vomtade e elle deseja de lha ter mylhor como este vyo q(ue) el Rey/


(Francisco I)

estava tam cheyo deste home(m) como na de trabalhar de saber co(m) elle /
e se vyo e lho hofereçeo q(ue) el Rey lhe farya grandes partydos e q(ue)/
elle lhe farya dar trezentos cruzados de partydo cada ano afora/
ho co(n)trato q(ue) elle asemtarya co(m) el Rey açerqua de suas vyages/
fynallm(en)te q(ue) afora este out(r)os muytos amdavam aqui no pr(i)meyro/
apresemtarya a el Rey cuydando llevar nyso ho mayor allvytre q(ue) /
podya ser/
quando Isto asy vy vendo q(ue) h’onorrato de caes en çerte fycava tam /
bem este mycer pedro ser home(m) de bem detremyney por meyo/
deste ver se podya acabar allgu(m)a cousa por que era naturall/
de sua terra e tynha co(m) elle conhesyme(n)to e amyzade e emtam pra/
tyquey co(m) elle ho caso no(m) lhe descobryndo de todo nyso grande de/
sejo e lhe pedy q(ue) fallase co(m) este pamcado e vyse ho q(ue) sentya/
delle e que no(m) lhe dysese q(ue) eu aquy estava este mycer pedro/
ho fez asy e [a]chou sempre nelle m(ui)ta dureza depois lhe dyse por//


// mynha llycença como eu aquy estava aco(n)selhando lhe q(ue) se co(n)tratase/
por my(m) co(m) Vosa .A. e dyzendo lhe qua(m) jnçertas cousas saao as dytas de/
pois tratou co(n)çerto de my(m) a elle nu(n)ca ho pode mover contra cousa sena(m)/
q(ue) no(m) querya co(n)çerto e que quere(n)do eu allgu(m) co(n)çerto co(m) elle q(ue) lhe dese /
lloguo duzentos escudos e q(ue) me hobrygase a dar lhe Vosa .A. daquy/
dous meses tres myll e q(ue) lloguo se obrygarya a co(n)p(ri)r tudo aquyllo q(ue)/
co(m) Jo(am) da syllv(ei)ra e(m) seu co(n)trato fysera he este foy ho menos e(m) q(ue) ho pode/
der(?) ta(m) duro estava qua(n)do eu Isto vy e q(ue) elle fallava ja e(m) partydo/
dyse ao myçer p(edr)o q(ue) trabalhase co(m) elle q(ue) quysese fallar comyguo por/
q(ue) porvemtura ajnda q(ue) elle estyvese ta(m) desarezoado nos co(n)çertarya/
mos aly andou ho myçer pedro bem tres ou quatro dyas prymeyro q(ue) ho/
podese chegar a Isto fynallme(n)te me quys fallar e nos vyemos em hu(m)/
moysteyra honde a my(m) ne(m) a elle conheçya ny(n)gem e elle me dyse q(ue) elle no(m)/
vynha ally mays por eu no(m) dyzer q(ue) elle era mall Insynado q(ue) por/
fazer co(n)çerto comyguo e tam duro veyo q(ue) nu(n)ca pode co(m) todas mynhas/
pallavras chegallo desta st prmeyra vez a menos de lhe dar lloguo duze(n)/
tos escudos e me hobrygar q(ue) Vosa alteza lhe darya dally a dous meses dous/
myll cruzados e davamos e(m) rezam q(ue) qua(n)do elle fyzera ho co(n)çerto co(n)/
Jo(am) da syllveyra q(ue) estava despedydo del Rey e q(ue) lhe davam some(n)te/
çem escudos p(er)a comer e q(ue) el Rey o chamarya qua(n)do ho ouvese myster/
e q(ue) aguora q(ue) era rogado e q(ue) lhe fazyam partydos tamanhos q(ue)/
seno(m) fose por respeytar ho pouquo a sua comçyemçya q(ue) ajnda q(ue)/
lhe (...)Vosa .A. mandara dar dez myll cruzados no(m) fyzera co(m) elle/
nenhu(m) patydo e tam duro veyo esta prymeyra vez q(ue) eu no(m) quys asentar/
co(m) elle dyzendo lhe q(ue) averya meu co(n)selho e q(ue) elle se esco(n)dese antre/
tanto q(ue) ho no(m) topasem e q(ue) nos nos co(n)çertaryamos e fyz eu(?) Isto/
asim q(ue) ho myçer p(edr)o depois delle ydo dally tyvese t(em)po p(er)a a maneyra/
de co(n)selho lhe aprovar mynha rezam e aquyllo q(ue) lhe prrometya ser bom/
ho ome(n)zynho andava ta(m) ryspado q(ue) co(m) toda mynha ma(n)sydam se foy/
daly dyzendo q(ue) eu ho no(m) ma(n)dase mays chamar porq(ue) lhe farya da/
no a elle e amy(m) q(ue) se lhe allgu(m)a cousa quysese lha ma(n)dase dyzer p(e)lo/
myçer p(edr)o || depois delle pa(r)tydo este myçer p(edr)o ho amoller(?) fyquou ta(m)/
to co(m) rezoes q(ue) a meu roguo ho fyz tornar a me fallar out(r)a vez/
honde me no(m) soube fugir a rezam e lhe provey quanto mais çerto/
tynha nysto q(ue) detremynava a perda q(ue) ho ganho mostrylhe qua(n)tos/
e(n)co(n)venye(n)tes eu sabya q(ue) elle tynha p(er)a no(m) vyr a esyto sua te(m)/
çam dyzya q(ue) elle llevava por capytam da sua armada a hu(m) gra(m)/
s(enh)or q(ue) no(m) lleva co(n)syguo home(m) q(ue) no(m) fose seu vasallo e q(ue) nam/
morrese por elle e q(ue) elle no(m) avya d’yr p(e)lo camynho p(er)a honde/
vam as naos de Vosa .A. e q(ue) elle tomarya terra e farya fortalle/
za em parte honde todo ho ma(n)do no(m) fose bastante a co(n)trastalla//

// sem embarguo de tudo eu ho chegey q(ue) cuydo q(ue) foy ho mayor/
myllagre do mu(n)do segu(n)do estava duro a que elle he co(n)tente e q(ue)r/
estar p(e)lo co(n)trato q(ue) co(m) Jo(am) da syllveyra fez q(ue) saão myll e /
seisçentos ducados d’ouro e se torna a saona a esperar a reposta/
de Vosa .A. daquy ate ho derradeyro dya do mes de setembro prymey/
ro q(ue) vem e p(er)a esperar aqueste tempo me pedya duzentos cru(za)/
dos eu lhe dey çem escudos ho solles q(ue) vallem aguora a quaremta/
e dous sollidos a peça os quaes çem escudos lhe dey e(m) começo de/
paguo dos myll e seysçentos ducados e ho q(ue) resta lhe a Vosa/
allteza se for servydo de ma(n)dar dar por todo ho mes de setembro/
como açyma dyguo como Vosa .A. mylhor vera vera p(e)lo co(n)trato q(ue)/
co(m) elle fyz q(ue) co(m) esta lhe daram E ho q(ua)ll co(n)trato foy feyto p(e)los /
de q(ue) Jo(am) da syllveyra co(m) elle fez ne(m) maes ne(m) menos por q(ue) elle ho tra/
zya asynado p(e)lo mesmo Jo(am) da syllveyra o quall lhe dava muyto/
credyto ao q(ue) elle de sy dezya elle me deu por fyador destes çem/
escudos q(ue) de my(m) reçebeo a este myçer p(edr)o do quall tenho segura(n)ça/
feyta de sua maão na mylhor forma q(ue) eu pude e(n)tender e tambem/
elle presentara a Vosa .A. co(m) ho co(n)trato e que me fyqua(m) ajnda dous/
co(n)tratos do mesmo teor e outras duas fyanças de myçer p(edr)o e e(n) trou/
s(enh)or aquy mays e(m) partydo q(ue) ho lleom pancado reçeava porq(ue) eu lhe/
dava aguora estes çem escudos p(e)lo botar daquy e entam q(ue)/
no(m) serverya a Vosa allteza ne(m) farya nada e(m) ha sua(?) causa meteo e(m)/
partydo q(ue) eu ma(n)dase a este myçer p(edr)o a portugall co(m) este requa/
do a mynha carta e ho myçer p(edr)o desejava tambem d’yr lla porq(ue)/
dyz ter çertas cousas suas e de jaquome Requermo açerqua do trato/
de saona q(ue) fallar co(m) Vosa allteza e(m) q(ue) lhe fara m(ui)to s(er)vyço e asy/
proveyto e me detremyney pois q(ue) asy como asy a vy de ma(n)dar/
outrem ma(n)dar a elle porq(ue) tambem elle co(m) Isto q(ue) lhe eu fyz/
çerto trabalhou nysto co(m) mylhor vomtade e çerto co(m) tanta q(ue) çer[ti]/
fyquo a Vosa .A. q(ue) sem elle fora e(m)posyvell acabarse nada e/
lhe dyra a Vosa .A. ho q(ue) se requerer e fara ho q(ue) for seu s(er)vyço/

este pamcado quysera que eu lhe dera outro co(n)trato como ese q(ue) fyze/
mos asynado de mynha maão e a rezam de ter delle neçasydade deya por/
q(ue) os gynoeses como estam devysos co(m) framça q(ue) qua(n)do de qua ho/
ma(n)dava(m) chamar e fora(m) ter allgu(m)as cartas por desastre a sua maão e /
q(ue) qua(n)do vyra(m) q(ue) este era chamado de framça e co(m) dyzere(m) q(ue) fa/
ryam jornada q(ue) fose soada duzentos anos q(ue) ho prendera(m) e q(ue) co(m)/
aq(ue)le asynado de jo(am) da syllveyra se solltara e co(m) dar duzentos/
cruzados de fyamça de nu(n)ca s(er)vyr fra(n)ça co(n)tra genoa e q(ue) aguora/
sabyam q(ue) elle qua era e q(ue) no(m) llevamdo çartydam q(ue) ho tornaryam//

// a meter e(m) prisam co(n)tudo vendo q(ue) era cousa q(ue) a Vosa .A. no(m) servya de/
nada co(m) todas suas prefyas lho no(m) quyz dar some(n)te lhe dey p(ar)a se/
sallvar deste peryguo q(ue) elle dezya hu(m) asynado de mynha maão e/
q(ue) some(n)te dezya q(ue) fosem çertos os q(ue) ho vysem como este vyera a esta/
corte de framça a fallar comyguo sobre hu(m) çerto neguoçyo e no(m) a out(r)a /
cousa no(m) dyzendo de que(?) ne(m) a que(?) e co(m) Isto se partyo e creya Vosa Vosa/
.A. q(ue) era tam bastado p(er) esta çydade de homes q(ue) ho queryam presemtar/
ell Rey q(ue) depois q(ue) emtrou e(m) co(n)trato comyguo lhe foy neçesaryo/
mudar quatro vezes a pousada e della no(m) ousava de sayr e eu lhe ma(n)dava/
q(ue) asy ho fyzese porq(ue) se este chegara acabar d’asentar co(m) allg(u)e(m)/
no(m) fyzera partydo co(m) Vosa .A. por m(ui)ta mais soma q(ue) lhe dera(m) e esta/
foy a causa porq(ue) me eu dey a tamta presa neste caso ajnda q(ue) me/
pareçese q(ue) aquy podya vyr p(esso)a q(ue) muy çedo q(ue) ho fyzese mylhor /

Isto s(enh)or esta desta maneyra e posto q(ue) meu atrevyme(n)to foe muy/
grande e(m) cousas tamanhas me e(n)trometer sem comysom de Vosa .A./
move me a yso as causas q(ue) atras dyguo e v(er) tudo tam baralhado/
q(ue) me pareçeo q(ue) este home(m) podya ser causa ajnda q(ue) elle pouco posa/
de ao menos dar hocasyam de dyscordya amtre Vosa .A. e el Rey de fra(n)ça/
de que depois ambos podya naçer descomtemtame(n)tos e p(e)la vomtade/
q(ue) eu sey q(ue) Vosa .A. tem de co(n)servar esta amysade de llomguos tempos/
gardala me pareçeo q(ue) podya aver por mais seu servyço gastarse amtes/
tam pequena soma de dynheyro q(ue) lleyxar chegar este a meter hem/
cabeça ho q(ue) elle no(m) pode nem fara e podendo day naçer est’outro q(ue)/
açima dyguo se eu for tam dysdytoso q(ue) Vosa .A. se aja d(e) s’opor de/
servydo co(m)dane (?) meu erro como de Jnhoramte cobyçoso de ho servyr/
porq(ue) creya Vosa .A. q(ue) mynha temça(m) foy fazer lhe s(er)vyço e(m) todas as cousas/
e(m) q(ue) cuydar q(ue) lho faço sempre farey ajnda q(ue) p(ar)a yso no(m) tenha comy/
sam sallvo se Vosa .A. me ma(n)dar q(ue) e(m) nhu(m)a lho no(m) faça/

a este myçer p(edr)o portador da presente dey ese cavallo e(m) q(ue) vay q(ue)/
asy emtrou no partydo q(ue) custou oyto escudos e mais lhe dey p(er)a ho ca/
mynho quy(n)ze escudos e se Vosa .A. se ouver por servydo do q(ue) he feyto/
neste caso eu no(m) ey tudo Isto por mall e(m)pregado nelle porq(ue)/
como dyguo p(e)lo q(ue) elle esperava lla d’acabar co(m) Vosa .A. açerqua /
de seu neguoçyo e hasy p(e)lo gasalhado q(ue) lhe eu sempre fyz tra/
balhou nyso tudo ho q(ue) nyso se podya desejar eu lhe ho ferey a/
m(ui)tas pallavras porq(ue) me rellevava q(ue) Vosa .A. lhe farya m(er)çe ysto/
no(m) obryga Vosa .A. a mais q(ue) ao de q(ue) for servydo e porem se Vosa/
.A. no(m) prover tam asynha co(m) ho leom pamcado deve de ter e se co(m)/
boõas pallavras porq(ue) se tornar a saona se(m) q(ue) est’outro tenha ja//


(Cambista)

// seu recado pareçer lhe a q(ue) e bullra e he tam doudynho q(ue)/
quebrara as redeas co v(er)guonha e o medo e porem se Vosa .A./
detremynar de co(m)pryr co(m) elle muy(to) me pareçe q(ue) serya/
boo(m) ho mais çedo q(ue) podese ser porq(ue) na(m) no fose e(m)tre/
ta(n)to allgu(e)m tyrar de seu syso porq(ue) segu(n)do os proveytos/
elle promete e muj(?) pouquo pagarem por elle çem escudos Vosa/
allteza aremata(n)do e(m) myll e seysçentos e tamanho bocado q(ue)/
avera poucos q(ue) por cousas jmçertas os queyra(m) avemturar/
faça ho q(ue) nyso mais seu s(er)vyço lhe pareçer e dese caso no(m) ha/
mais q(ue) escrever a Vosa .A. e dou lhe tam miudame(n)te semp com[o](?)/
delle e dos out(r)os porq(ue) amtes quero a culpa de prollyxo no(m)/
me fycando nada de que relleva q(ue) ho llouvor de breve lleyxan/
do hu(m) soo pomto do q(ue) a seu servyço pode servyr deste foy per my(m) pry/
meyro prometydo m(ui)to mayor partydo se quysese jr a portugall e elle no(m) quis/
nhu(m) dyzendo q(ue) e(m) portugall q(ue) sempre lhe serya neçesayo navegar e/
q(ue) elle ho no(m) querya mais fazer e q(ue) por esta causa tambem no(m) de/
tremynava asemtar partydo co(m) ell Rey de framça porq(ue) sempre ho obry/
garya a fezello some(n)te q(ue) sua temçam era fazer co(m) estes s(enh)res q(ue)/
eram poderosos esta sua vyajem e co(m) ho q(ue) trouxese se retyrar a/
sua casa a descamsar sem nu(n)ca mais meter pes e(m) mar e porem q(ue)/
elle leyxarya ho camynho tam aberto a framça q(ue) ell Rey allem do/
proveyto co(m) q(ue) elle verya lhe farya m(er)çe ha mym me pareçeo q(ue) so(?)/
me(n)te por tyrar a ocasyam aos out(r)os pyllotos de portugall/
de saberem Isto e sob esta esperança fazerem cada dya movyme(n)to/
q(ue) era mais servyço de Vosa .A. estar elle e(m) saona como esta/

da carta de marqua no(m) a novas sena(m) que ho bysconde no(m) tem ha /
Jnda botado nhu(m) navyo ho mar e me dyseram q(ue) ne(m) tynha co(m) que/
e q(ue) de dezoyto navyos q(ue) se lhe tynham hofereçydo no(m) acha ha/
guora nhu(m) q(ue) ho queyra ajudar estava ho tempo desposto/
p(er)a ho chegarem a boo(m) partydo no(m) tem tomado out(r)a cousa de/
pois daquella caravella q(ue) tomou e(m) Ruam caregada de lla/
ramja/
i(tem) a urqua q(ue) esta e(m) bertamha que foy tomada nese mar cary/
gada de mercadorya q(ue) dyziam ser de Vosa .A. ho bysconde a ma(n)dou/
e(m)bargar e no(m) lhe valleo porq(ue) eu tamto q(ue) Isto vy como se/
elles no(m) detremynavam e(m) ser a mercadorya de Vosa Allteza/
ou dos frame(n)guos me fuy ao momseor de gynagata e lhe /
dyse q(ue) aquy se dezya q(ue) naquella urqua vynha m(ui)ta/
carga q(ue) ho feytor de frandes ma(n)dava a Vosa .A. e q(ue) se//



//na(m) no sabya çerto q(ue) lhe pedya por m(er)çe pois dezya desejar servyr/
Vosa q(ue) ma(n)dase deposytar aquella fazenda e tomalla p(er) ha/
vemtayro ate se saber cuja era e se fora bem tomada a fym /
q(ue) Joam namguo a no(m) podese p(e)la carta da marqua tomar/
e q(ue) emtretamto verya aquy allgu(m)a p(esso)a por parte de Vosa .A./
e q(ue) porvemtura asemtarya todas estas cousas e se ay tynha/
allgu(m)a fazenda lhe fycarya segura elle me dyse q(ue) ho farrya/
co(m) muito boõa vomtade e asy ho fez e me dyse depois q(ue) a faz(en)da/
estava toda tomada por avemtayro e emtrege a p(esso)a fyell e(m) /
parte donde Joam nanguo a no(m) averya aos prmeyros grollpes e /
porem q(ue) no(m) estava ajnda llequydada cuja era Isto he ho q(ue) este/
fys e dyz q(ue) por servyr Vosa .A. eu de malleçyoso cuydo q(ue) foy ha/
prynçepall causa ter penhor ally do q(ue) elle espera aver de Vosa/
allteza e q(ue) asy seja mylhor remedyo he q(ue) tella ho Jan namguo/

na(m) co(n)tente eu co(m) Isto pedy a’onorato q(ue) pois elle dezya q(ue) ho gra(m)/
mestre desejava amtreter a esta amyzade amtre Vosa .A. e ell Rey/
seu s(enh)or e ho q(ue)rya ma(n)dar a portugall a dar conçerto nestas/
cousas q(ue) atalhase a mais escamdallos e q(ue) bem era de ser q(ue)/
hu(m)[a] urqua carregada de mercadorya no(m) avya de cometer navyos/
d’armada e q(ue) ally dezyam vyr allgu(m)as cousas de Vosa .A. q(ue) escreve/
se a seu cunhado ho mo(n)seor da navall q(ue) a ma(n)dase sobre estar/
e se no(m) emtregase a Joam namguo ate ell Rey no(m) ma(n)dar nyso ho/
q(ue) fose seu s(er)viço e q(ue) bastava p(era)a elle no(m) aver ser tomada esta faz(en)da/
antes q(ue) elle tyvese a carta da marqua e q(ue) se os frame(n)guos ta(m)/
bem fyzeram ho q(ue) no(m) devyam q(ue) a faz(en)da de Vosa .A. no(m) tynha/
nyso cullpa h’onorato lhe dyse tudo Isto e tudo ho mais q(ue) a este/
preposyto lhe bem pareçeo o gram mestre dyz q(ue) lhe dyse q(ue)/
elle escreverya lloguo ao momseor da navall e q(ue) ouvese ele/
entretanto hu(m)a çertydam de q(ue) Fazenda e aquy e ally vam/
de Vosa .A. e q(ue) elle a ma(n)darya lloguo emtregar ho mo(n)seor/
da gynagata me dyse q(ue) ell Rey estava p(er)a ma(n)dar e(n)tregar/
a fazenda aos frame(n)guos asy por se mostrar ser mall to/
mada como tambem por aver ay novas q(ue) os frame(n)gos ty/
nham feyto e(m)bargar em framdes çertos navyos de fra(n)çeses/
e me dyse q(ue) ajnda no(m) estava bem lliquydado se ally vynha allgu(m)a /
cousa de Vosa .A./
quando s(enh)or vy a cousa desta maneyra escrevy daquy hu(m)a carta ao/
feytor de framdes e(m) q(ue) lhe ma(n)dey dyzer de como Isto estava e q(ue)/
se a fazenda fora carregada e(m) nome dos mercadores q(ue) ouvese hu(m)a//


(Porto de Antuérpia)

// carta do emperador p(er)a os seus enbayxadores q(ue) aquy estam/
q(ue) a pedysem ell Rey e se lhe pareçya q(ue) se no(m) podya lleyxar/
de saber q(ue) era de Vosa .A. q(ue) ma(n)dase hu(m)a çertydam de que/
fazenda era e q(ue) pois ho gra(m) mestre se punha a dyzer q(ue) a ma(n)/
darya e(n)tregar q(ue) porvemtura ho farya ateguora me no(m) tem/
o feytor respondydo qua(n)do ho fyzer far çe a ho q(ue) for s(er)vyço de Vosa/
.A./
myçer Joam FFr(ancis)co venezeano q(ue) armava p(er)a Indya tenho por nova/
q(ue) arma aguora tres carraquas na marqua d’amcona e a mayor par/
te da gemte saão venezeanos banydos de veneza dyseram me q(ue)/
os norma(m)ces o fazyam seu capytam mor e q(ue) yam co(m) elle hu(m)a bo(?)/
armada e q(ue) elle no(m) quysera e lhe respondera q(ue) no(m) querya jr e(m) /
vyagem tam peryguosa co(m) jente co(m) q(ue) se no(m) e(n)tendya mas q(ue)/
elle querya jr esta prymeyra vyagem some(n)te co(m) jemte da sua te/
rra e q(ue) co(m) toda ha espeçiarya q(ue) trouxese verya desembarqu/
a Ruam e q(ue) da vollta q(ue) tornase tomarya day co(m)panhya/
porq(ue) saberya ja ho camynho eu sey q(ue) elle foy a saona ha/
buscar este leom pancado e q(ue) ao tempo q(ue) elle lla foy ho pa(n)/
cado era ydo e(m) romarya a nosa s(enho)ra de mo(n)sarrate e por yso/
ho no(m) topou esta nova de elle armar as tres carraquas me dyse /
p(esso)a q(ue) ho ouvyra a mesa do e(m)bayxador de genoa/

os tres navyos q(ue) partyram de norma(n)dya p(er)a mallageta ho/
hu(m) se perdeo no mar ho out(r)o no(m) sabem ajnda delle nova ho outro/
esta e(m) bertanha/

(D. Leonor de Áustria)

e partydo daquy ho momseor de llame(n)ta somyleyro da R(ainh)a de/
que ja lla escrevy a Vosa .A. p(er)a bertanha p(er)a ir por capytam/
de quatro naos a mallageta as quais arma ho mo(n)seor de /
navall e ho mo(n)seor de xatrobryam q(ue) he ho prmeyro bara(m)/
da bertanha out(r)os dyzem q(ue) no(m) vam a mallageta mas q(ue)/
sob collor de jrem descobrir se vam por ese mar a quall/
quer roupa de portugeses q(ue) acharem e q(ue) tem feyto/
partydo co(m) Jo(am) amguo p(er)a q(ue) p(er) v(er)tude da sua letra de mar/
qua posam tomar/
no(m) ha ao presente out(r)a cousa q(ue) escrivar a Vosa .A. h’o/
norato de caes me dyse q(ue) escrevese a Vosa .A. como/
ho gram mestre lle tornara de novo affyrmar q(ue) ell Rey/
ho q(ue)rya ma(n)dar a Vosa .A. p(er)a tomar co(n)çerto e(m) todos estes/
neguoçyos Vosa .A. no(m) lleyxe de fazer ho q(ue) lhe pareçer ser//


// servyço porq(ue) todos Vos ffallamos mylhor do q(ue) vos/
s(er)vymos no(m) dyguo Isto p(e)l’onorato porq(ue) çerto he home(m) de bem/
mas Vosa .A. me e(n)temdera ell Rey se foy aguora p(er)a fora desta/
cydade de parys hu(m)as çymquo lleguoas honde dyzem q(ue) estara p(er)/
allgu(n)s dyas a R(ainh)a anda co(n)tente de sy qua(n)to ao q(ue) mostrava yr/
na vollta segu(n)do e(n)temdo de no(m) sayr nu(n)ca daquyllo de que ell/
Rey follgua novas no(m) a que escrever a Vosa .A. sena(m) q(ue) se ha/
por nova çerta nesta corte toda a ygreyja d’ymgraterra no(m) querer/
mais daquy avante pagar as premyçeas ao papa sena(m) a seu/


(Clemente VII)

Rey e a Rezam dyzem ser q(ue) no(m) lhes pareçe rezam darem seu/
suor a hu(m) papa p(er)a fazer gerra a crystans e out(r)os casos semelhamtes/
e q(ue) mylhor e darem no a seu Rey p(er)a co(m) elle lhes defender suas casas/
qua(n)do for neçesaryo out(r)os dyzem q(ue) ho mesmo Rey os enduzyo ha/
Isto e q(ue) o povo no(m) querya tem ma(n)dado embayxador a Roma sobre/
este caso dyzem q(ue) estrovoo aquy ell Rey de framça ho q(ue) lhe pareçya/
dysto porq(ue) elle era d’openyam q(ue) elle devya de fazer o outro ta(n)to/
e(m) seu Reyno aquy se no(m) falla ajnda nada se d(eo)s no(m) prove tudo se apa/
relha e(m) servyço do turquo esta este Reyno muy apresado p(er) carestya/
e tam maos prymyços nas novydades q(ue) vem q(ue) de dya ne(m) de noute /
no(m) lleyxam de fazer preçysoes e no(m) a p(esso)a nesta çydade q(ue) se acorde/
vella nu(n)ca tam cara como aguora esta no(m) ha ao presemte out(r)os/
novas/


(Henrique VIII)

depois de ser esta escryta fuy topar co(m) hu(m) home(m) da Rochella q(ue)/
chegava e(m)tam della e me começey e(n)formar delle se(m) q(ue) me elle/
conheçese das novas q(ue) lla avya amtre outras lhe pregu(n)tey q(ue)/
era feyto de Jom a(fons)o aq(ue)le pylloto portuges q(ue) ay estava dy/
se me q(ue) andava homezyado por q(ue) qua(n)do se perdera co(m) trome(n)ta/
na costa de bretanha q(ue) ouvara rezoes co(m) hu(m) fylho q(ue) tynha/
ja home(m) e q(ue) ho matara e q(ue) por este caso amdava a /
guora homezyado q(ue) no(m) ousava pareçer ey esta nova por çer/
ta porq(ue) a soube desta maneyra/
foy me dyto q(ue) se fazya muy çedo hu(m)a armada de dezaseys/
naos p(er)a yrem sobre a ylha da madeyra e q(ue) e cousa e(m) q(ue)/
estes mays traze(m) ho pomto provara Vosa .A. nyso como lhe pa/
reçer seu s(er)vyço noso s(enh)or acresçente seu Reall estado co(m)/
allegres e llarguos anos de vyda de parys ho prymeyro de mayo/
era 1531 anos/


gaspar palha//


// de gaspar palha /

de parys/

p(ar)a Ell [Rey] //


(Paris)

Transcrição Paleográfica de Eduardo Albuqerque

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Leão Pancaldo e D. João III

Sr. Rey D. João 3.º /
Carta de Leon Pancaldo a ElRey /
de como Gaspar Palha lhe mostrara huma Carta de Seguro /
firmada por S. A. pella qual lhe mandava fose a Portu /
gal e que lhe daria com que vivese, e sua molher; e porque /
elle era muito velho e não tinha filhos e queria Repouzar /
pedia a S. A. lhe perdoase; e Se S. A. quizese que elle /
o serviçe naquella Cidade de Saona o faria de /
boa vontade /
De Saona a 3 de outubro de 1531 /

[Torre do Tombo, Corpo Cronológico,] Parte 1.ª /
Maço 47.Doc. 65 N.º suc. 6035 / /


/ /

Pa(ra) el Rey no(sso) S(enhor) /
de Leon Pa(n)cado /
que trouxe /
gaspar palha /
a alvito a biij di(as) /
de d(e)z(emb)ro 1531 /



/ /
+ /
Señor /

despues de bezar las manos de V(uest)ra Real alteza le fago a saber com (...) /
nesta çibda* de Saona a comprir todo el partido q(ue) yo te (...) /
da Silvera de parte de V(uest)ra alteza y por q(ue) señor yo soi muy conten (...) /
gaspar palha a fecho en sercisio de v(uest)ra alteza e sido cont (...) /
abonados por la soma de tres mil y dozientos ducados doro (...) /
muy bien enformado de jacobo riquermo e de joam do don los (...) /
servidores de V(uest)ra Real alteza asi q(ue) señor yo me tengo por m(...) /
de todo lo q(ue) gaspar palha a fecho otro si fago saber a V(uest)ra Real alt (...) /
mo el dicho gaspar palha me a amostrado una carta de seguro firmada de (...) /
no de V(uest)ra alteza en q(ue) me ma(n)da dezir q(ue) yo vaya a portogal y q(ue) V(uest)ra alteza me /
dara co(m) q(ue) yo biva yo y mi muger señor de llo yo doy muchas grasias a dios y /
a V(uest)ra Real alteza por elho y por q(ue) señor yo soi masya viejo y no tengo hijos /
ni hijas y queria ya repozar y estar en tiera repozando estos pocos de dias /
q(ue) tengo de bevir ruego y pido por merçed a V(uest)ra Real alteza q(ue) por amor de /
dios me quiera perdonar se yo no vengo a portugal porende señor si fuere ser /
visio de V(uest)ra alteza venir yo a portogal no(n) podiendo yo venir por servisio de /
V(uest)ra alteza me fare traer a cuestas assi q(ue) señor mi postrera voluntad /
es de no(n) poner mas el pie en la mar señor pido por m(erce)d a V(uest)ra Real alteza q(ue) /
se yo puedo servir en nesta çibdad de Saona a V(uest)ra Real alteza me mande q(ue) /
le sirva q(ue) yo no(n) servire da criado antes quiero servir da esclavo y faze /
lho de buen grado señor yo queria dar un avizo a V(uest)ra Real alteza uno q(ue) /
yo q(ue)ria yr con las naos q(ue) me armava(n) en fransia señor q(ue)ria pasar por el es /
trecho de magalhanes e yrme a las yslas de banda y ally cargar las / /
/ / + /
naos de nues moscadas y masis y clavo y de alli pasara por la ysla de timor /
adonde tomara un poco de sandalo y de alli me fuera a demandar el cabo /
de buena esperansa sin q(ue) nao ninguna de V(uest)ra alteza me topara por la mar /
porq(ue) señor yo me allara en fin de novenbre al cabo de buena espera(n)sa las /
naos de V(uest)ra alteza no(n) parten de la india sino(n) in janeiro y por eso no(n) nos /
podiamos topar señor porq(ue) V(uest)ra Real alteza sea seguro q(ue) yo no(n) vaya mas /
aquellas partes ni otras personas mande V(uest)ra alteza fazer una tore /
en las yslas de banda en un puerto que se lhama luitata(n) en la qual /
tore mandara V(uest)ra alteza poner media dozena de buenos tiros con /
quinze o veinte buenos ombres la qual tore se puede muy bien fazer /
en la mar por ser mas segura de toda gente y este señor es mi pareser /
señor queria pedir de m(erce)d a V(uest)ra Real alteza me quiera otorgar una /
carta de cavaleiro por q(ue) señor por elha me sera fecha mucha honrra /
(...) nesto resebire grande merçed no me alargo mas salvo q(ue) q(uan)do Rogan /
(...) n[uestro] señor jesu cristo q(ue) acresiente la vida y estado de V(uest)ra /
(...) fecha en Saona a los tres dias del mes dotubre /
(...) y trenta y uno anos. / /

de V(uest)ra al(te)za Leo(n) pa(n)cado //








Transcrição paleográfica: Eduardo Albuquerque


* Nota da Ed. do Blogue: A palavra que se segue é precedida por um espaço maior que o normal nesta carta, aliás o espaço que a antecede já é ligeiramente alargado, pelo que se pode especular ter sido deixado em branco para preenchimento posterior.


terça-feira, 2 de junho de 2009

Contrato entre Leão Pancaldo e D. João III

Co(n)tracto a(n)tre ho feitor Gu /
aspar Palha, e Leom /
Pacaldo Saones, feito /
ho deradeiro de Sete(n)bro /
deste Anno 1531 /

El Rey D. João 3.º /

Da Negociação /
Instrum(en)to q(ue) fez Leom Pacaldo /
filho de Manfino Cidadão da Cid(ad)e de /
Saona Com el Rey de Portugal por /
Seu Procurador escrito em 30 o ulti /
mo de Setembro de 1531 /

[Torre do Tombo, Corpo Cronológico,] Parte 1.ª /

Maço 47. Doc. 62 N.º Suc 6032 /

A 30 de Setembro de 1531 / /


/ / In nomine d(omi)ni. Anno do naçime(n)to do mesmo s(enh)or de mil quinhentos e trinta /
e huu(m), Indiçam quarta, ao deradeiro dia do mes de Setembro. Leom Pacaldo /
filho de Manfino cidadaão da çidade de Saona, de sua propria vo(n)tade /
e de certa sçie(n)tia per si e por seus herdeiros nom movido por erro algu(m) de /
feito nem de direito, nem induzido por outro modo algu(m), e em milhor modo /
via e direito, causa e forma que milhor pode e podese co(n)tratou e solenn /
eme(n)te prometeo ao Serenissimo Rei de Portugal posto que absente e ao /
Mag(nifi)co s(e)n(ho)r Guaspar Palha Nuncio e Fector de sua serenissima Maie /
stade, deputado ellecto, e ordenado pera este negoçio e bem asi prometeo /
a mim Publico notairo como publica pesoa e auctentica em offiçio publi /
co que prese(n)tes estamos stipulando e acceptando en nome e vez do dito /
serenissimo Rei de Portugal e asi de todos e cada hu(m) aos quaes toca ou /
tocara, ou espera de tocar em qualquer maneira que Seia, que nom tom /
ara soldo de Rei ou Prinçipe algu(m), ou pesoa comuu(m), Corpo, Collegio, Un /
niversidade, nem menos se obligara em qualq(ue)r maneira, p(e)lo qual soldo, /
ou obligaçam elle dito Leo Pancaldo possa ser constrangido navegar, /
ou armar navegaçam algu(m)a pera algu(m)as Partes, ou Ilhas em maneira /
algu(m)a asi por via de carta, como de outra maneira, E em qualquer /
modo que Seia, nom tirando cousa algu(m)a, e isto em preiuzo e contra vo(n)ta /
de do dito Serenissimo Rei, nem sem seu expreso consintime(n)to, nem /
por mar nem por terra, e asi nom instruira avisara, nem secrevera, ne(m) /
fara escrever, por onde possa vir, ou gerarse algu(m) preiuizo, ao dito Se /
renissimo Rei, ou seu Reino, S(e)n(h)orio, Jurisdiçam, e nom chegara, ne(m) /
navegara em navio algu(m) a partes ou Ilhas algu(m)as em t(em)po algu(m) direct /
ame(n)te, ou por indirecto, per maneira algu(m)a que verdadeira seia, ou q(ue) /
se possa imaginar, ainda que seia por urgente necessidade, nem asi mes /
mo instruira outra pesoa desta navegaçam pera as ditas partes, ne(m) /
fara cartas de navegar pera ellas em preiuzo e co(n)tra vo(n)tade do dito /
Serenissimo Rei como tenho dito. E doutra Parte ho dito Mag(nifi)co s(e)n(ho)r /
Guaspar em nome do sobredito, e p(e)la dita causa; e some(n)te attentando / /
/ / a ella, deu, e pagou realme(n)te e com effecto em d(inhei)rro contado em presença /
de mi notario, e das Testemunhas abaixo nomeadas ao dito Leom q(ue) /
prese(n)te estava accepta(n)te e que tirou pera si mil e seisce(n)tos ducados de /
ouro largos, e(m) tantos scudos de ouro de sol, e moedas em qua(n)tidade /
de çem scudos de ouro de sol, que elle dito Leom reçebeo do dito Mag(nifi)co /
Guaspar em paris de França, e ho dito Leom renunciou a dicta excep /
çam do prometime(n)to non feito asi como em çima se co(n)tem, e aos sobre /
dictos mil e seisçe(n)tos ducados de ouro largos que nom fossem avidos, e /
reçebidos p(e)la dita causa, e a esperança da futura numeraçam que /
lhe aviam de fazer, e ao Concerto se nom fezera asi como he dito, e se di- /
ra, ou se se fezera doutra maneira. E asi mesmo renunciou a Excepça(m) /
de dolo malo, e Auçam de força e medo, e ha Condicam in factu(m), e con /
diçam in debiti, e sine causa, ou in iusta causa, e a toda outra avida /
e benefiçio das leis e favor que lhe competia em qualq(ue)r maneira ou /
podia competir. E elles ditos Guaspar e Leom fezeram antre si /
pacto expreso confirmado por solenne stipulaçam que se em algu(m) te(m) /
po elle dito Leom viesse contra esta convençam em qualquer man- /
eira que seia, ainda que em pouca cousa, ou contra este estrome(n)to, ou /
contra as Cousas que nelle se co(n)tem, que em tal Caso elle seia a todo /
a todo obrigado, e asi ho prometeo e promete ho dicto Leom ao dito /
mag(nifi)co s(e)n(ho)r Guaspar no nome sobredito, e a mim publico notario pre /
se(n)te e slipula(n)tes, e que restituira ao dito Ser(enissi)mo Rei, ou em seu nome /
a outra pesoa legitima os ditos mil e seisce(n)tos ducados de ouro largos /
que elle reçebeo, e asi pagara mais ho dobro da dita qualidade. E /
todavia se entenda que este estrome(n)to fique e fique em seu stado /
grao e firmeza. E sempre e cada vez que se achar que elle dito Leo(m) /
vem contra este cont(ra)cto como em çima disse, que ta(n)tas vezes caia /
na dita pena quantas elle vier ainda que seia em pouca Cousa / /

/ / contra este estrome(n)to, e Contra ho que se nelle contem. E esta pena sera /
p(e)lo iusto damno e interese do dito Serenissimo Rei que se taxou por Co(n) /
sintime(n)to de ambas partes. E quiseram q(ue) esta pena se podesse deman- /
dar como que fose verdadeira sorte. As quaes cousas todas e cada hua /
delas per si açima e abaixo scp(ri)tas, e como se co(n)tem neste estromento /
elle dito Leom de sua propria vo(n)tade, e de sua certa scie(n)tia se conveo /
e prometeo solennente per si e seus herdeiros ao Serenissimo Rei de Port /
ugal absente, e ao dicto mag(nifi)co s(e)n(ho)r Guaspar seu feitor e nunçio ellecto /
pera este negoçio, e asi a mim pruvico notairo abaixo nomeado pre /
sentes e stipulantes como dise. E alem diso iurou corporalme(n)te aos san- /
ctos avangelhos tocando os com suas proprias maãos de ter por rato gr- /
ato firme valioso stavell, comprir, e guardar inteirame(n)te, e nom /
fazer ho contrairo em cousa algu(m)a, nem dizer, oppoer, nem allegar, /
nem vir por algu(m)a rezam occasiam ou causa, que se possa dizer, ou /
cuidar de feito, ou de d(i)r(ei)to, ainda que elle podesse vir defeito, ou de /
d(i)r(ei)to so pena do dobro da dita qua(n)tidade, se elle vier contra as cous /
as açima ditas, ou co(n)tra algu(m)a dellas, ou nom guardar, ha qual pe /
nna promette por solenne stipulaçam, e levada ou nom levada, ou /
ainda que seia graciosame(n)te remetida toda via fiquem firmes to- /
das estas cousas e durem, e asi cada hu(m)a delas, que em cima ou aba- /
ixo sam expresas, e se contem em todo este estrome(n)to, e com Refazi /
me(n)to plenario, e restituiçam inteira que se faça por seus bee(n)s todos e /
cada hu(m) deles movees e immovees avidos e por aver, E asi mesmo se /
Co(n)trataram por pacto Expreso como dito he, que se possa proceder c(on)t(ra) /
ho dito Leom como fe periuro dia(n)te de qualq(ue)r magistrado E eclesias /
tico, ou secular çivel ou delegado, subdelegado, ou criminal comp- /
ulsor Corector, a cuia Iurisdiçam elle dito Leom daqui se someteo /
e somete sem embargo de qualq(ue)r Cap(itul)o decreto Lei Civel ou Canonica / /

/ / aos quaes elle renu(n)çia como que fossem expresos, E asi renunçia /
a quaesquer leis decretos asi çiveis como Canonicos, p(e)los quaes e /
por benefiçios dellas elle podesse pedir absoluça(m) deste iuramento /
e asi prometeo que nom pederia a dita absoluçam pera q(ue) ho pod /
esse defender co(n)tra este estrome(n)to e co(n)tra ho que nelle se co(n)tem /
porque elles expresame(n)te ho Co(n)traearam antre si, E bem asi iur /
ou e iura de guardar todo ho que se Contem em este Contrato. E /
asi se Conçertaram como em cima q(ue) o dito Leom por rezam des /
te presente Contrato possa e deva ser Citado convindo tomado, /
detido Constrangido preso. E Incarcerado pesoalmente e real /
me(n)te em todos os Lugares do mundo onde for achado convindo, /
tomado detido preso e incarcerado, e onde quaesqu(ue)r bee(n)s forem /
achados tomados arrestados detidos que seus forem, e prometeo e /
iurou como em çima estar a d(i)r(ei)to responder a d(i)rr(ei)to, e guardar todas /
e cada hu(m)a das Cousas que se contem em este estrome(n)to asi e daq(ue)la /
maneira como se este contracto fose asi feito e celebrado em esse m /
esmo lugar, E ha dita paga e restituiçam satisfaçam tambem desti /
nada. E Renunçiou ho dito Leom em todas estas cousas ao benefi /
cio de allegar que nom he seu foro, e que he inco(n)petente Iuiz da lei /
si convenerit digestis, de iurisditione omnium Ludicum, e asi ha /
todas immunidades exempcões franquias salvos conductos conve(n) /
ções graças privilegios indultos Apostolicos Reaes municipaes /
pazes ferias e dias feriados, e asi aquaesq(ue)r outras cousas por vir /
tude das quaaes elle podia vir co(n)tra ho que se contem em este /
estromento, E renunçia speçialme(n)te a lei que diz que nam valha /
Renunçiacam algu(m)a geral se primeiro nom preceder speçial e /
expresa renunçiaçam, das quaes elle prometeo que nam usaria ne(m) / /

/ / com ellas se defenderia. E sobre isto pera milhor Comprime(n)to de to /
das e cada hu(m)a das cousas sobre ditas referindo cada hu(m)a cousa ha sua /
e pera se guardarem com effecto p(e)lo dito Leom interçederam solennem /
ente e fiaram por ho dito Serenissimo Rei posto que absente estar seguro /
e asi ho dito mag(nifi)co Guaspar em nome do dito, e asi eu publico not /
airo abaixo nomeado, e os que fiaram a rogo e petição do dito Leom /
sam os abaixo nomeados stipula(n)tes e accepta(n)tes como em çima. E /
primeiro ho s(e)n(ho)r Gualeaço Paraxo em duzentos ducados.ho s(enh)or /
Iuliano de Castro delfim em CC. ducados. ho s(enh)or Vice(n)te Natarello, /
em CC. ducados. ho s(enh)or Andrea Regina em. CC. ducados. ho s(enh)or /
Vice(n)te Achario. em.C. ducados, ho s(enh)or Genesio Achario em.C. /
ducados.ho s(enh)or Lobam Baptista robia, em,C, ducados. ho s(enh)or /
Acelino Salvagio em.CC. ducados. ho s(enh)or Ioham Baptista Salo(m) /
em.CC. ducados. ho s(enh)or Iacobo de Coneo em. CC. ducados.ho s(enh)or /
Antonio Crasso em.CC. ducados.ho s(enh)or Bernardo Crasso. em /
CCC. ducados. ho s(enh)or Benedicto Achario em .C. ducados. ho s(enh)or /
Ioham Antonio Abbade em cem ducados. ho s(enh)or Ioham Iacobo mar- /
ucho em cem ducados. ho s(enh)or Iorge Baram em.C, ducados. ho s(enh)or /
Viçente Reinel em çem ducados. ho s(enh)or Augustinho Raçella /
em. CC. ducados. E todos asi prese(n)tes e cada hu(m) deles prinçipalme(n) /
te avendo respeito ao que fiavam se constituiram por prinçipaes /
devedores guardadores e que satisfariam a todas e cada hu(m)a das /
cousas açima ditas. e pera isso hyppothecavam e obrigavam tod- /
os e cada hu(m)a peça de seus bee(n)s de todos e cada hu(m) delles ditos fiad /
ores respectiv(ament)e, asi movees como de raiz e prese(n)tes e futuros, e q(u)aes /
quer outros, e renunçiaram ao d(i)r(ei)to que manda que se cite prim(ei)ro /
ho principal, e a todo houtro d(i)r(ei)to. E elles ditos fiadores são co(n)te(n)tes /
que possam ser convindos em tudo, daq(ue)lla propria maneira que elle / /

/ /dito Leom foi co(n)tente como çima se co(n)tem, e Renunciaram /
e iuraram em todas as Cousas e per todas como fez ho dito Leo(m) /
E elle dito Leom prometeo tirar a paz e a salvo os ditos fiadores /
e seus herdeiros, asi seus bees e fazenda e que nam reçebe /
riam damno algu(m) por as Cousas premisas nem por causa delas. /
E elle dito s(enh)or Guaspar no sobredito nome, e os ditos Leom /
e fiadores rogam e mandam que eu Pruvico notairo de /
todas estas Cousas faça huu(m) estrome(n)to a pareçer de algum le /
terado se neçesario foor. Feito em Saona no Banco de mi Not /
airo abaixo nomeado que esta na Rua dos Gua(n)tes, Tes /
temunhas que foram presentes e roguados Iorge de Alchino /
to, e Nicolao Guarnerio de Saona, /


Eu Simão Capello Cidadaão Saones publico notairio por auto /
ridade Imperial fui prese(n)te com as testemunhadas que /
acima estam nomeadas a todas e cada hu(m)a destas cousas E a /
si ho vi pasar e tomei em minha nota. e por iso fiz este /
publico estrome(n)to por maão de outro mui fielme(n)te e to /
mei em publica forma e sinei de meu acustumado e usado /
sinal e publicey y roguado e requirido pera test(emunh)o de todas /
estas Cousas e cada hu(m)a dellas. /

Eu Fr(ancis)co Rycharmo Çidadão Saones dou minha fee como ho /
sobredito Simão Capello he notairo publico da dita Cidade de /
Saona, e se da inteira fee a seus estrome(n)tos. e por verdade /
[ser em (?)] a presente sobscpricam de minha propria maão / /


/ / Fee . Eu Ieronymo saco dou a mesma fe que deu ho sobre /
dito francisco, e sobescrevi de minha propria mão. /

Fee. Eu Ieronymo Giro(n)tillo dou a mesma fee que dera(m) os /
sobreditos e de minha propria mão sobescrevi. /

Bartolomeu Zabrera doctor V. L, Archidiago e Conego da Igreia /
Aquense vigairo geral do R(everendissi)mo in christo padre s(enh)or ho s(eñ)or Au /
gustinho Spinola por divina miseraça(m) Cardeal Perusimo (titul)o /
de Sam Ciriaco nas Thermas Camaralengo da Sancta Igreja /
de Roma, e perpetuo comendatario do B(is)pado de Saona a to /
dos e a cada hu(m) aos quaes vierem as presentes testemunha- /
vees e patentes letras e forem presentadas fazemos sab(e)r /
E em verdadeiro test(emunh)o certificamos que ho dito Simão Cape /
llo notairo screveo e testemunhou como(?) notairo de sua pro /
p(ri)a mão, e asinou de seu acustuma(do) sinal de Tabalião ho /
sobre dito Instrume(n)to de prometime(n)to e obligaçam que fez /
Leom Pancallio de manfino çidadão de Saona ao Ser(enissi)mo R(ei) /
de Portugal, ou ao Mag(nifi)co S(enh)or Guaspar Palha em nome de /
sua Serenissima Maiestade (Nun)cio e Feitor do dito Sere(nissi)mo /
Rei, era publico notairo (...?) da di(ta) obligaça(m), e dep (...) /
f (...) fiel e fidedigno da Cidade da Saona, e do numero E /
Collegio dos S(enho)res notairos da dita Cidade, e que se v(...) /
a elle (...)hia como a notairo publico E Auctentico fiel / /

/ / fidedigno, e por tal he tido notoriame(n)te em seus docume(n)tos /
e Instrume(n)tos, e dam a elles inteira fee, e isto he manifesto /
asi a nos, como a noso offiçio por muitos e varios instrumen /
tos que elle dito Simam fez, e asi p(e)la matricola em q(ue) esta /
asse(n)tado, E pera fee e test(emunh)o de todas estas Cousas e cada hu(m)a /
dellas fezemos faber estas prese(n)tes per Ottobom Iurdão not /
airo Saones publico asinado do nosso acustumado sinal, Da- /
da em Saona terca feira tres dias de Outubro no Anno /
de M[D]XXX1. /

Ottoboo(m) Iurdão notairo /
pubriuico escriva(m) es(crevi). / /

Transcrição paleográfica: Eduardo Albuquerque

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Francisco C. Domingues – Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa (1)

COLOMBO E A POLÍTICA DE SIGILO NA HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA*

FRANCISCO CONTENTE DOMINGUES
Assistente do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (Lisboa).
Bolseiro do Instituto Nacional de Investigação Científica



1. Os descobrimentos portugueses e a política de sigilo: história breve de um conceito

Os descobrimentos dos séculos XV e XVI têm sido desde sempre um dos temas mais persistentemente dominantes na história da cultura portuguesa: historiadores, literatos, filósofos ou cientistas ocuparam-se directa ou indirectamente das viagens e das suas consequências, e disso se encontra número significativo de testemunhos logo no decorrer de Quinhentos.
O impulso e renovação da historiografia portuguesa a que se assistiu no decorrer do século XVIII traduziu-se igualmente pela atenção particular que mereceu então a época das grandes viagens. A questão tinha implicações de natureza vária explicáveis pela conjuntura cultural e política dos finais do século, entre outros factores, mas o que importa aqui notar é que se procedeu então pela primeira vez à publicação sistemática de fontes históricas, no que teve uma grande importância a acção da recém-criada Academia das Ciências de Lisboa (1779), graças à iniciativa de um dos seus sócios fundadores: o abade José Francisco Correia da Serra, regressado de Itália – onde fizera os seus estudos – havia poucos anos.
Botânico notável, com obra publicada em várias das principais revistas europeias e americanas da especialidade, o abade Correia da Serra promoveu a publicação da Colecção de livros inéditos de história portuguesa (5 volumes, 1790-1824), com material importante relativo à empresa Ultramarina, à qual se deve juntar a Colecção de notícias para a história e geografia das nações ultramarinas, que vivem nos domínios portugueses (7 volumes, 1812-1856); seguia assim percurso idêntico ao de outros intelectuais da época que a par dos estudos que os consagraram em diferentes áreas científicas se dedicaram, ainda que episodicamente, à história dos descobrimentos (1).
Um desses homens foi Francisco Justiniano Saraiva (frei Francisco de São Luís, 1766-1845), mais tarde cardeal, figura eminente da vida religiosa e política de Portugal na transição do século XVIII para o XIX. Em 1841 publicou um Índice cronológico das navegações onde procurou explicar, sendo o primeiro a tentar fazê-lo, um fenómeno que não parecia poder compreender-se facilmente: a espantosa escassez de testemunhos documentais conhecidos à altura sobre os descobrimentos e a expansão portuguesa.
O cardeal Saraiva procurou justificar este estado de coisas num longo passo do livro que citámos mas que vale a pena reproduzir porque se trata da primeira referência ao que mais tarde e com outro desenvolvimento ficou conhecido por política de sigilo ou de segredo:
«Dos Roteiros, Relações e Memórias, que necessariamente se haviam de escrever logo naquele tempo de nossas primeiras navegações e descobrimentos, muito pouco nos resta hoje (...). É natural que o prudente e cauteloso segredo, em que os nossos Príncipes, ao princípio, reservavam aquelas Memórias e Relações; a perda de muitas delas nas mãos dos cronistas, ou nos próprios gabinetes dos Príncipes por ocasião da sua morte; o descuido de recolher estes e outros documentos ao Arquivo geral do reino; a dificuldade de multiplicar as cópias, por não haver ainda a arte tipográfica, ou por não ter chegado a Portugal, logo nos primeiros anos da sua invenção; é natural, digo, que estas ou outras semelhantes causas produzissem a falta, que depois se experimentou, logo que se quis escrever em corpo de história a série de nossas empresas ultramarinas» (2).
Como se pode verificar, o cardeal Saraiva foi extremamente cauteloso ao enunciar a possibilidade de os relatos contemporâneos das viagens terem sido sonegados temporariamente por vontade expressa do poder político, e mesmo assim apenas «ao princípio». Paralelamente, porém, o autor enunciou toda uma série de circunstâncias que podiam explicar de forma igualmente plausível o desaparecimento de documentação relevante.
A questão tenderia a ganhar depois uma dimensão crescente e a ver perder-se a parcimónia com que foi enunciada.
Não é possível compreender o empolamento que a história dos descobrimentos conhece em Portugal no decorrer da segunda metade do século XIX sem atender às circunstâncias concretas com que o país se viu defrontado, e que neste caso se transformaram numa das molas reais que motivaram o discurso historiográfico.
A partir da década de 1870 começou a tornar-se patente o fracasso do modelo de desenvolvimento sócio-económico que funcionara com relativo sucesso desde o golpe de Estado de 1851 (a Regeneração), e do qual se pode dizer que subalternizou a exploração dos recursos ultramarinos do país. Aliás, desde que o Brasil declarou a independência em 1822, depois reconhecida em 1825, que se vê fechado um ciclo da experiência colonial portuguesa com frequência tratado em obras de síntese como um grande momento que se inicia em 1415 e vem a terminar justamente neste ano de 1825, apesar de no fundo se tratar de um conjunto de vários ciclos e eixos de orientação expansionista (que simultaneamente se sucedem e sobrepõem parcialmente): fê-lo, por exemplo, Charles Boxer (3)

O certo é que Portugal vive alheado desses recursos ultramarinos durante o decorrer de praticamente todo o século XIX – em termos económicos o Brasil deixara de contar efectivamente havia alguns anos – e até ver consignado pela comunidade internacional a posse e domínio efectivo dos territórios que grosso modo correspondem hoje a Angola e Moçambique. Mas a «partilha de África» decidida à mesa das negociações pelas potências europeias (nomeadamente na Conferência de Berlim, em 1884-1885) foi contrária às pretensões portuguesas de controlo de uma vasta faixa territorial que se estendia da costa angolana até à costa moçambicana (4), consubstanciada no chamado mapa cor-de-rosa (5).
Este projecto, concebido por um ministro de tendências políticas germanófilos (Henrique de Barros Gomes), contrariava profundamente o sentido da expansão colonial inglesa em África traçado por Cecil Rhodes; e por isso soçobrou perante a oposição britânica.
O que de qualquer forma nos importa agora é a verificação de que o discurso histórico foi uma das pedras basilares de suporte da argumentação política, que reclamava por via daquele a prioridade da presença portuguesa em África, critério naturalmente contestado pelas potências europeias com pretensões africanistas, poder económico e militar para as sustentar, mas sem direito a invocar essa prioridade histórica.
Face a essas pretensões, nomeadamente francesas e alemãs, cujo sentido ideológico (e historicamente infundado) se percebe bem no quadro das relações internacionais de Oitocentos, verificou-se pela parte portuguesa uma reacção que, se de igual forma acusava o comprometimento com as questões do tempo, não deixou por isso de produzir frutos apreciáveis. O novo impulso conhecido pela história dos descobrimentos portugueses radicou em boa parte nessa necessidade de comprovar eruditamente a prioridade da presença portuguesa em África, face aos seus concorrentes europeus, e é nestas circunstâncias que entre outras se tem de destacar a obra do visconde de Santarém, iniciador do estudo histórico da cartografia, disciplina que aliás baptizou (6).
Algumas das figuras cimeiras que se lhe seguiram repisaram em boa parte idêntico caminho: os estudos eruditos e a multiplicação de edições de fontes mal conhecidas ou até ignoradas, se por um lado concorreram para um efectivo aprofundamento das temáticas em estudo, não deixaram, noutro sentido, de revelar, por vezes à evidência, o quanto o discurso historiográfico pendia a deixar-se dominar por circunstâncias temporais que explicavam a necessidade de enfatizar o papel dos Portugueses no processo na expansão europeia. Exemplarmente, foi o caso de um Joaquim Pedro de Oliveira Martins, não obstante autor de uma obra tão extensa quanto notável (7).

Na verdade dos factos a tese do sigilo não ganha contributos particularmente significativos, mas sem dúvida tende a gerar-se uma ambiência que favorecerá a teorização e desenvolvimentos mais radicais verificáveis nos períodos subsequentes, e em relação à qual os seus mentores não se mostrarão alheios, ainda que o não acusem directamente.

Francisco Contente Domingues
«Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa», Mare Liberum. Revista de História dos Mares, n.º 1, Dezembro de 1990, pp. 105-116.

Francisco C. Domingues – Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa (2)

2. Jaime Cortesão e o sigilo como teoria historiográfica

Jaime Cortesão foi um dos mais notáveis historiadores portugueses do século XX, no sentido em que contribuiu poderosamente para a renovação dos horizontes metodológicos que enquadravam o modus faciendi desta disciplina em Portugal. Uma perspectiva alargada a problemas e métodos de outras disciplinas (particularmente da geografia), uma concepção global e universalista da história que à revelia de um conhecimento prévio o aproximaram decisivamente da escola dos Annales, constituíram novidade de monta nos inícios da década de 1920, quando Cortesão publica os seus primeiros trabalhos históricos na História da Colonização Portuguesa no Brasil (8).

Pela mesma altura, mais exactamente em 1924, Cortesão publica também o primeiro artigo em que procura teorizar a política de sigilo enquanto sistema explicativo das extensas lacunas documentais então verificáveis na história dos descobrimentos (9). O tema continuou a ser uma das constantes dos seus trabalhos subsequentes, e dele se ocuparia não só na História dos Descobrimentos Portugueses que deixou inacabada (10), mas em livro dado à estampa no ano da sua morte e onde desenvolveu esta já então muito polémica tese até às últimas consequências (11).
O sigilo posto em prática pelos Portugueses não foi uma invenção ou uma prática nova, mas antes uma medida corrente na história de situações semelhantes. Como observámos em outro lugar (12) Jaime Cortesão considerava-o uma prática usual de todos os grandes impérios marítimos apostados na defesa da sua supremacia. Os Portugueses não teriam portanto senão prosseguido uma estratégia empregue desde a Antiguidade, e tanto mais necessária quanto menor o poder político-militar efectivo de quem a executava: Cartago utilizara o sigilo, enquanto o poderio romano o pudera dispensar.
Atentemos porém nas palavras do próprio Cortesão:
«Os grupos sociais, baseados no comércio marítimo, que iniciaram um novo sistema de expansão, tendem, para evitar a concorrência a transformá-lo em monopólio e a defendê-lo tanto mais, quanto menor seja o volume social e a continuidade do domínio económico próprios, e menor a longevidade dos instrumentos produtores, e o número e poder dos concorrentes» (13).
A política de sigilo a que se refere Cortesão não diz pois respeito aos descobrimentos «na sua expressão mais simples», mas sim «ao descobrimento económico de novas regiões produtoras ou das estradas marítimas que aí levavam» (14). Em causa estava o comércio africano, nomeadamente na zona da Guiné, por se querer defender da concorrência estrangeira o avultado provento do tráfico local.
Não nos é possível analisar aqui detalhadamente todas as vertentes da política de sigilo, porquanto isso implica na prática uma revisão de toda a história dos descobrimentos portugueses. Mas o princípio fundamental do raciocínio de Jaime Cortesão é claro: se é dubitativo que já houvesse sigilo de Estado durante o tempo em que o infante D. Henrique foi a figura principal de entre os promotores das viagens de exploração, o caso mudou decididamente de figura durante o reinado de D. João II (1481-1495) – enquanto se definiam concretamente as vias da expansão portuguesa, mormente pela procura sistemática de informações sobre o Oriente e sobre a ligação marítima com a Índia, o Estado, no quadro da orientação política traçada pelo Príncipe Perfeito, teria sonegado sistematicamente qualquer informação susceptível de fornecer à concorrência estrangeira acesso aos meios privilegiados de que os Portugueses dispunham então.
O sigilo consistiria portanto, numa vigilância estreita da produção historiográfica, da cartografia – segundo Cortesão existia uma cartografia oficial, para o grande público, e uma cartografia secreta que essa, sim, mostrava o avanço dos conhecimentos geográficos portugueses –, da construção dos navios, particularmente da caravela, de que se teria proibido a venda a estrangeiros, dos roteiros, dos instrumentos de navegar, de tudo, enfim, que revelasse a superioridade tecnológica portuguesa nas matérias que à navegação diziam respeito.
Jaime Cortesão estava obviamente a um passo de atribuir aos navegadores portugueses créditos para os quais não havia na altura comprovação documental segura: afirmou, por exemplo, o descobrimento pré-cabralino do Brasil – uma questão muito polémica desde sempre entre os historiadores que se ocuparam da matéria: basta constatar que os estudos do maior rigor de Max Guedes e Luís de Albuquerque levaram o primeiro a pronunciar-se pela afirmativa, e o segundo pela negativa (15). Da mesma forma Jaime Cortesão defendeu a tese de que o que é aparentemente um dos maiores enigmas no processo dos descobrimentos ser explicável pelo sigilo.
Referimo-nos desta feita ao facto de se verificar um hiato no processo expansionista português: depois de uma longa e prolongada busca do caminho marítimo para a Índia, medeia um longo espaço de quase dez anos entre o retorno de Bartolomeu Dias a Lisboa, em 1488, com a notícia de que efectivamente havia ligação marítima entre o Atlântico e o Pacífico (16), provando agora sim e definitivamente o desacerto das concepções ptolemaicas que marcavam os conhecimentos geográficos da época, e a saída em 1497 da armada que sob o comando de Vasco da Gama iria finalmente estabelecer a via marítima entre a Europa e a Índia.

É indubitável que a rota de Bartolomeu Dias, levando-o a descer penosamente ao longo da costa ocidental africana, mostra que os navegadores não conheciam ainda o regime de ventos e correntes do Atlântico Sul. Pelo contrário, Vasco da Gama viaja com o conhecimento perfeito de que para a navegação à vela se tornava muito mais fácil atingir o extremo sul do continente africano fazendo uma longa bordada para oeste no Atlântico Sul, depois de passadas as ilhas de Cabo Verde, evitando as condições físicas adversas, pois tanto se contornavam os ventos alisados, como as correntes marítimas contrárias à progressão para sul junto à costa de África.
A explicação lógica, segundo Cortesão, seria a admissão de que os Portugueses empreenderam viagens de exploração secretas no Atlântico Sul, precisamente com vista ao reconhecimento dos condicionalismos físicos da navegação, permitindo que Vasco da Gama dispusesse à partida de instruções claras quanto à melhor rota para chegar à Índia.
Acresce um outro facto: Bartolomeu Dias comandava uma pequena frota de duas caravelas latinas e uma naveta (navio de abastecimentos que foi abandonado quando já não era necessário), enquanto Vasco da Gama saiu à frente de uma armada de quatro naus.
A caravela latina portuguesa empregue nas viagens dos descobrimentos distinguiu-se das demais, como constatou, entre outros, o italiano Ca da Mosto, por uma particular aptidão para a navegação à bolina, manobra que consistia numa progressão em zigue-zague contra o sentido dominante do vento (e porque um navio à vela não pode em qualquer circunstância progredir «contra o vento», como por vezes se diz erroneamente). As investigações mais recentes no domínio da arqueologia naval mostram-nos que a razão para o facto deve residir na articulação entre um desenho de casco diferente do que era então vulgar em navios deste tipo e uma superfície de velame que devia atingir o dobro da de embarcações similares com a mesma arqueação (17).
Todavia a navegação à bolina não podia deixar de ser um recurso, uma vez que era sempre uma manobra penosa. Conhecendo os regimes de ventos era possível navegar com navios de pano redondo, as naus, pois estes só se tornam eficazes com vento pela popa. Basta saber-se que Bartolomeu Dias comandava caravelas, e Vasco da Gama naus, para se tornar evidente que entre uma viagem e outra se completou o reconhecimento do regime de ventos do Atlântico Sul, pois no Atlântico Norte o problema estava resolvido havia muito.
Toda a polémica se centrou em torno do como se efectuou esse reconhecimento. Jaime Cortesão juntou à tese das viagens secretas a convicção (mais uma vez sem base documental concreta) de que Vasco da Gama teria sido encarregue de pelo menos uma delas, pois não era crível, em seu entender, que o capitão-mor da armada enviada a estabelecer contacto com o Oriente fosse um homem até então de todo alheio às coisas do mar.
Em consequência, Cortesão chegou a levar estas supostas viagens até ao Índico, tendo encontrado num texto atribuído a Ibn Magid (que se acreditou ter sido o piloto árabe que conduziu Vasco da Gama a Calecute) referência ao naufrágio de navios portugueses em Sofala nos meados da década de 1490.
Este é aliás um dos casos em que a crítica documental veio a permitir a elaboração de hipóteses bem mais plausíveis. Em primeiro lugar sabe-se hoje que Ibn Magid deixou de navegar em 1465, e o seu Roteiro de Sofala tem referências a acontecimentos posteriores que não podem deixar de ser o resultado de acrescentos feitos mais tarde por mão desconhecida. Assim, a passagem que relata o suposto naufrágio de navios portugueses em 1495-1496, próximo de Sofala, reporta-se quase de certeza ao dos irmãos Brás e Vicente Sodré, naufragados junto às ilhas de Curia Muria em 1503. E Ibn Magid não pode obviamente ter sido o piloto árabe de Vasco da Gama, como durante tanto tempo se acreditou (18).
Este pequeno episódio contém em si o mais forte dos argumentos contrários à política de sigilo: a progressiva revelação e estudo de novos documentos vai mostrando que o volume e circulação de informações era bem maior na altura do que se podia supor anteriormente, e torna claro que o sigilo explicou aparentemente várias circunstâncias que vieram a ficar aclaradas com as revelações documentais feitas entretanto.
No fundo, e apesar desta breve explicação, cremos ficar à vista que a teoria do sigilo não é senão um encadear de hipóteses construída a partir de premissas que estão longe de se poder considerar verificadas. Por isso mesmo mereceu forte contradita, de que se encarregou primeiro Duarte Leite (19), e depois Damião Peres (20) – este último resolvendo praticamente a questão.
A formulação de Cortesão tinha como base um raciocínio a-histórico: quando não havia documentos, encontrava-se a «prova» do sigilo. Logo, todas as realizações imputáveis ao abrigo desta teoria não careciam de verificação documental – porque, por natureza, a não havia. Simplificando grosseiramente, é como se se partisse do princípio de que a falta de documentação provava por si a realização de viagens secretas de descobrimento.

Francisco Contente Domingues
«Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa», Mare Liberum. Revista de História dos Mares, n.º 1, Dezembro de 1990, pp. 105-116.

Francisco C. Domingues – Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa (3)

3. A crítica da política de sigilo

O primeiro e mais contundente dos críticos da tese de Jaime Cortesão foi, como acabámos de dizer, o ilustre matemático, político e historiador Duarte Leite, cujos reparos consubstanciaram muito do que se disse subsequentemente em contrário da política de sigilo.
A nosso ver, e não obstante a justeza de boa parte do que afirmou Duarte Leite, a argumentação que este desenvolveu não está ela também isenta de percalços que se lhe podem apontar (21). Mais consistente se mostrou Damião Peres.
Paradoxalmente, foram as próprias concepções historiográficas deste último (aliadas a um notável bom senso, diga-se de passagem) que o levaram a rejeitar as hipóteses de Cortesão. Historiador de claro pendor historicista, autor de uma obra sólida mas que, valha a verdade, pouco trouxe de novo à renovação metodológica dos estudos da especialidade (bem ao contrario, repita-se, de Cortesão), Damião Peres deu mostra de um arreigado apego ao documento que lhe permitiu no caso vertente salientar a fraqueza argumentativa e a falta de consistência da tese que contraditou com base em cinco pontos:
1. Não fazia sentido ocultar o reconhecimento ou a ocupação de um território, sendo a questão da prioridade, como era, o primeiro critério a ter em linha de conta na reivindicação da respectiva soberania.
2. Não fazia igualmente sentido preservar o segredo das Índias depois das bulas de Nicolau V e Calisto III reconhecerem o monopólio material e espiritual sobre todas as regiões descobertas até às «Índias» a favor dos Portugueses.
3. Estrangeiros houve que colheram em Portugal os elementos que muito bem entenderam relativos às navegações, para depois os divulgarem na Europa, como foi o caso, por exemplo, de um Martin Behaim. Argumento este que Luís de Albuquerque reforçou em estudos posteriores com abundantes casos concretos.
4. Era o próprio espírito da época que, norteando a escrita dos cronistas ou de outros relatores coevos, obstava à evocação de certos factos. Relembremos aqui a propósito e ilustrativamente as inúmeras passagens da Crónica da Guiné de Gomes Eanes de Zurara onde a honra e proveito dos membros da casa do infante D. Henrique, ou a captura de escravos, sobrelevam sistematicamente o registo do alcance efectivo das explorações geográficas que concomitantemente se iam realizando.
Vitorino Magalhães Godinho viria mais tarde a realçar a importância deste argumento (22), que constitui sem dúvida uma das maiores brechas a apontar na construção de Jaime Cortesão, por vezes demasiadamente propenso a querer encontrar nas fontes o que muito dificilmente lá poderia estar por se encontrar completamente afastado da ordem de preocupações e da escala de valores dos testemunhos de então.
5. E finalmente, se houve o cuidado de não divulgar textos como o regimento do astrolábio e do quadrante, que tinha forçosamente de andar nas mãos dos pilotos e se aceita ser do tempo de D. João II, Damião Peres conclui que não existiu política de sigilo em sentido lato, mas apenas a preocupação de episodicamente resguardar a divulgação de factos considerados importantes em situações conjunturais distintas.
É evidente que os factos corroboraram mais de uma vez as observações de Damião Peres: sucedeu assim aquando do descobrimento do Brasil, que D. Manuel I se apressou a comunicar aos Reis Católicos, em documento que aliás desdramatiza o problema do reconhecimento deste território anteriormente à viagem de Pedro Álvares Cabral. A carta mostra claramente que na perspectiva do monarca português o Brasil interessava tão só e de momento como ponto de apoio para a Carreira da Índia, donde que, se é um facto que são fortes (como defende Max Guedes) os indícios de que os navegadores ao serviço de D. Manuel tinham já a suspeita da existência de terras naquelas paragens, ela não era também a primeira das preocupações da coroa.
Parece-nos que de tudo isto se pode tirar uma conclusão óbvia: se é certo que houve sigilo em determinadas matérias, não é menos verdade que Damião Peres opinou acertadamente quando referiu o interesse conjuntural deste silêncio; pois noutras circunstâncias impôs-se a política contrária, a da publicitação dos resultados das viagens.
Ou seja, e por outras palavras, o sigilo que o Estado português pôs em prática foi tão efectivo quanto em certas circunstâncias esta foi (e continua a ser) uma atitude normal da governação política. Atitude conjuntural, insistimos, que pode ser perfeitamente adequada quando as circunstâncias o exigem, ou um contra-senso em alturas diferentes. O que não podia era ter havido um silenciamento sistemático que no fórum da política internacional seria amiúde contrário aos interesses expansionistas da coroa lusitana.

Francisco Contente Domingues
«Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa», Mare Liberum. Revista de História dos Mares, n.º 1, Dezembro de 1990, pp. 105-116.

Francisco C. Domingues – Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa (4)

4. Colombo em Portugal e a política de sigilo

Um dos mais radicais dos desenvolvimentos da política de sigilo (que teve, de qualquer forma, um longo curso na historiografia portuguesa) disse precisamente respeito à figura de Cristóvão Colombo. Em artigo publicado em 1935, Armando Cortesão defendeu a tese de que Colombo não passava, afinal, de um agente secreto ao serviço de D. João II, enviado por este aos Reis Católicos (23). Com que objectivo? Estando D. João seguro de que o caminho marítimo para a Índia era mais curto fazendo o contorno do continente africano, Colombo teria sido incumbido de convencer Fernando e Isabel a seguirem a rota ocidental. Os conhecimentos geográficos dos Portugueses garantir-lhes-iam que por esse lado o acesso à Índia era muito mais moroso, e o rei português ficaria com as mãos livres para prosseguir o seu plano.
A ideia não era completamente nova, e aparentemente só a notoriedade de Armando Cortesão, que acabava de publicar uma obra imensa que o impôs de imediato como um dos grandes historiadores da cartografia do seu tempo, a relançava com créditos reais (24).
Pode todavia argumentar-se que seria este um escrito de juventude, relativamente falando, aliás retomado num outro artigo publicado em inglês dois anos depois, com um título sugestivo: «The mystery of Columbus» (25). Sucede porém que A. Cortesão o incluiu na colectânea de Esparsos que deu à estampa em Coimbra em 1974 (26). Quer dizer que quase quarenta anos depois, e não obstante tudo o que fora entretanto dito em contrário, continuava convencido da justeza de uma tese que praticamente era então defendida apenas por seu irmão, se considerarmos somente os historiadores dos descobrimentos de maior renome.
A talhe de foice, convém acrescentar que não nos interessa aqui retomar um assunto que muito recentemente voltou à baila: o da nacionalidade portuguesa (de entre as várias que são reclamadas...) de Cristóvão Colombo. Surpreendentemente, a suposta cidadania portuguesa de Colombo e a sua qualidade de agente secreto de D. João II têm sido por vezes consideradas como uma espécie de relação de causa e efeito. E surpreendentemente porque, como é óbvio, nada tem a ver uma coisa com a outra: não é a nacionalidade que traça o destino da fidelidade dos espiões, sejam estes verdadeiros ou falsos. Colombo poderia perfeitamente ser italiano, maiorquino ou outra coisa qualquer, e, se fosse esse o caso, estar ao serviço do Príncipe Perfeito.
O problema em causa tem a ver com um aparente paradoxo: a convivência de Colombo com os meios náuticos portugueses durante largos anos, e as convicções geográficas do genovês, que indubitavelmente estavam aquém do que se pensava naqueles meios.
Não é novidade alguma que Colombo laborou no que é amiúde chamado o erro mais fecundo da história. Supondo que o valor do grau de meridiano terrestre era de cerca de 14 léguas e da mesma forma que o cartógrafo Paolo Toscanelli acertava ao propor a distância de 130º entre a Europa e a Ásia, o que em Portugal se sabia no seguimento de uma consulta que lhe fora feita a pedido de D. Afonso V, o genovês foi por força levado a pensar que esse era o caminho mais curto para o Oriente (erro a que acrescentou um outro, o do valor que tomou para a milha marítima). Ora o certo é que a marinharia portuguesa atribuía ao grau do meridiano valores mais próximos da realidade: 16 2/3 léguas, normalmente, 17,5 léguas nos finais do século XV, e Duarte Pacheco Pereira aproximou-se ainda mais com as 18 léguas que avança no Esmeraldo de Situ Orbis (27), obra que redigiu entre 1505 e 1508 segundo Joaquim Barradas de Carvalho.
O valor de 17,5 léguas vulgarizou-se rapidamente, mas convém aqui deixar claro que o proposto por Duarte Pacheco não encontrou eco em Portugal senão na Arte de Navegar de Manuel Pimentel (1712) (28). Apesar de tudo compreendem-se as diferenças em causa em relação aos c. de 111 kms. do grau de meridiano, correspondentes a 18,75 léguas marítimas portuguesas.
A presença de Jaime de Maiorca em Portugal e o início da cartografia portuguesa c. 1445, de acordo com Charles Verlinden, não podiam por outro lado deixar de fazer crer aos mareantes portugueses que a distância de 130º a que aludimos atrás estava muito aquém dos 220º que efectivamente separam a Europa e a Ásia pelo ocidente. Tudo junto, portanto, só pode ter uma explicação ainda de acordo com os defensores do sigilo: Colombo foi deliberadamente induzido em erro quanto àquilo que a coroa portuguesa efectivamente pensava em relação ao caminho marítimo para o Oriente (enunciado que é contraditório com a ideia de que seria um espião português; nesse caso, não faria sentido pensar-se que tivesse sido enganado).
Não cremos que se possa aceitar que Colombo pudesse ter deixado de saber o que pensavam os marinheiros portugueses a este respeito. Quer porque viajou com eles para a costa de África, quer por via do acesso aos papéis de um dos homens que navegou no tempo do infante D. Henrique: Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatário da ilha de Porto Santo, cuja filha Filipa veio a ser mulher do genovês e mãe de seu filho Diogo. Quer ainda porque um homem interessado nas coisas do mar teve de certeza muitas oportunidades de reforçar esses contactos durante o tempo em que esteve estabelecido em Lisboa como cartógrafo, juntamente com seu irmão Bartolomeu.
Seria possível apesar de tudo que Colombo não se tivesse apercebido do erro em que laborava, ao tomar conhecimento das concepções geográficas então em curso nos meios náuticos ligados às navegações portuguesas? Esta questão crucial é em certo sentido uma falsa questão. E isto por várias razões.
Em primeiro lugar dificilmente se pode pôr o problema de existirem concomitantemente concepções geográficas «certas» e «erradas». É claro que essa classificação é hoje, para nós, um exercício de estilo fácil, face aos nossos próprios conhecimentos actuais. Mas nos finais do século XV corriam paralelamente e com créditos não necessariamente muito diferentes concepções que misturavam ou separavam a geografia herdada da Antiguidade (ou as geografias, para sermos exactos), a geografia imaginária da Idade Média, como a expendida Livros de Maravilhas, ou a geografia (ainda de resultados muito parcelares) emergente do contacto dos Portugueses com os territórios com que iam tomando conhecimento, na costa africana ou nas ilhas atlânticas.
O facto de Colombo dar crédito ao italiano Toscanelli – que por seu turno creditava a Marco Polo, como o fazia também o genovês – nada tinha de extraordinário, e constituía uma opção pacífica, no sentido em que era perfeitamente legítima, no quadro do saber geográfico da época. A construção da visão do mundo que tornaria evidente o erro de Colombo era ainda uma tarefa que ensaiava os primeiros passos.
E esses passos tão pouco foram imediatos. Vejamos apenas dois exemplos, tirados da náutica portuguesa, que ilustram os embaraços e dificuldades bem próprios desta matéria.
O primeiro caso que podemos invocar é o da questão das Molucas. Afirmada a necessidade de prolongar o semi-meridiano de Tordesilhas para resolver o problema da soberania deste rico centro produtor de cravo, que tanto interessava a qualquer das coroas ibéricas, os diplomatas de D. João III conduziram as negociações com extremo tacto, porquanto era convicção dominante entre os peritos ao serviço do rei português que as Molucas pertenciam de facto a Carlos V. Como não havia processo de determinar a longitude no mar com o rigor necessário para resolver a pendência sem margem para dúvidas (o método adequado só viria a ser testado com sucesso na segunda metade do século XVIII), D. João III acabou por pagar uma soma fabulosa pela soberania de um território que na realidade lhe pertencia de facto, segundo o critério de Tordesilhas alargado para o Oriente. Convencido, quase seguramente, de que estava a fazer um bom negócio (29).
O segundo exemplo é o do padre Fernando Oliveira: este teórico da marinharia (que foi também piloto de galés, teórico de construção naval e cartógrafo) propôs 20 léguas para o grau de meridiano numa obra que redigiu na primeira versão em 1570, e que se conserva manuscrita. E fê-lo, deve acrescentar-se, com uma notável virulência contra os pilotos ou matemáticos que usavam ou defendiam que se usasse um valor inferior, quando as 20 léguas marítimas portuguesas acusavam em relação ao valor real exactamente a mesma margem de erro que as 17,5 léguas então em curso, só que desta vez por excesso (30).
Quer dizer: nenhuma destas questões era propriamente um dado que se pudesse dar por adquirido urbi et orbi. A opção de Colombo estava bem aquém daquilo que lhe seria possível pensar se acreditasse na prática de navegação dos pilotos portugueses (que aliás estava longe de ser unânime: muitos continuaram a empregar o módulo de 16 2/3 léguas enquanto outros se serviam do de 17,5). Simplesmente não o fez. Preferiu insistir no resultado que lhe aparecia em consequência dos estudos profundos a que se dedicou, mas não cremos, de modo algum, que pudesse estar completamente alheado do que se passava a bordo dos navios de D. João II. Mesmo que disso tivesse um conhecimento imperfeito, é duvidoso que abandonasse as conclusões que foi construindo com o correr dos anos, para mais alimentadas como eram por um carácter marcado por uma notável pertinácia; como é inquestionável, e o demonstra todo o processo negocial que culminou com as capitulações assinadas em Espanha.
A permanência de Colombo em Portugal é concomitante com o desenvolvimento dos preliminares do projecto de alcançar a Índia que D. João II perseguia com uma tenacidade não menos notável. E desde o retorno de Bartolomeu Dias, em finais de 1488, a única questão que se punha ao monarca português era a reunião das condições necessárias para garantir o sucesso do seu plano. Reside aqui, de resto, a explicação para o hiato que referimos atrás: seria um contra-senso enviar uma armada para a Índia logo depois da viagem de Dias, sem estarem devidamente precatadas essas condições técnicas (o tipo de navios empregues, como vimos, foi diferente, e as naus de Vasco da Gama foram construídas expressamente para a viagem, como no-lo diz o cronista da Índia Gaspar Correia (31)), políticas e diplomáticas.
Por outro lado a viagem de Bartolomeu Dias não era em si suficiente. Enquanto planeava as viagens marítimas D. João II enviava emissários por terra a saber notícias do Oriente. Os dois primeiros, frei António de Lisboa e Pêro de Montarroio, fracassaram na missão que lhes fora confiada por não dominarem a língua árabe. Esse estranho erro não foi cometido com Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, que saíram de Lisboa em 1487, por terra, portanto no mesmo ano em que Dias zarpava em busca do extremo sul do continente africano.
Foi só em 1492, ou talvez no ano seguinte, que D. João II recebeu pela mão de mestre José, um seu enviado que encontrara Pêro da Covilhã no Cairo (Afonso de Paiva faleceu entretanto), o circunstanciado relato que aquele enviou ao rei, segundo se supõe com boas razões, dando conta das viagens que fizera entretanto pelo Oriente (32).
Só nessa altura o Príncipe Perfeito tinha então as notícias de que carecia para poder enviar uma armada à Índia. É porém sabido que o rumo dos acontecimentos impediu, por vários motivos diferentes, que esse desiderato fosse cumprido desde logo. Um deles precipitou-se quase de imediato.
A 4 de Março de 1493 a frota de Cristóvão Colombo, vinda da viagem de descobrimento da América, entrava no rio Tejo. D. João II encontrava-se perto de Santarém, onde o mandou ir ter, para afirmar ao genovês que as terras por si descobertas se encontravam no senhorio da Guiné, pertença do rei de Portugal pela letra do tratado das Alcáçovas firmado em 1479.
Rui de Pina ocupou-se do episódio no capítulo LXVI da Crónica de D. João II (33). Estamos em crer que as parcas linhas que dedicou ao assunto são muito mais eloquentes do que parecem a uma primeira leitura.
Tanto quanto Colombo estava convencido que chegara ao Cataio, estava D. João ciente de que o navegador nem chegara lá perto. Isso parece-nos evidente, sobretudo porque é de calcular que as recentes novidades de Pêro da Covilhã comprovassem a crença do monarca português na justeza de que o caminho que procurava era aquele pelo qual mandava os seus navegadores. Não obstante, segundo Rui de Pina, o rei teria lamentado não ter dado ouvidos a Colombo quando ele se propusera, havia anos, fazer esta mesma viagem ao seu serviço. O que é muito pouco provável.
Efectivamente o cronista dá-nos uma ideia do que pode ter sido a audiência que o rei concedeu ao involuntário descobridor da América. Seguro do seu êxito «o dito Almirante, por ser de sua condição um pouco alevantado, e no recontamento de suas coisas, excedia sempre os termos da verdade, fez esta coisa, em ouro, prata, e riquezas muito maior do que era» (34).
Se em relação às miríficas riquezas que Colombo esperava encontrar no seu Cataio a viagem fora de facto um fracasso completo, o almirante não podia deixar de afirmar o contrário, que sem dúvida esperava confirmar posteriormente. Certo da razão que afirmara contra todos com espantosa pertinácia, terá usado mesmo de alguma insolência para com o rei de Portugal (numa atitude que tinha o seu quê de político, sem dúvida, pois não lhe era permitida, nas circunstâncias em que se encontrava, a mínima hesitação); e este foi instado por alguns dos seus cortesãos a pura e simplesmente eliminar o genovês (35).
D. João II, que dirigiu os negócios internos e externos do país com mão de ferro, não teria evidentemente qualquer pejo em o fazer se isso fosse a medida mais aconselhável. Pelo contrário, não só não deu ouvidos aos seus conselheiros como deixou Colombo ir em paz. Nunca o faria se visse posto em causa o plano que arquitectava madura e longamente, para mais numa altura em que estava à beira do sucesso.
Voltemos um pouco atrás no curso dos acontecimentos, e não nos esqueçamos que Colombo estava em Lisboa quando Bartolomeu Dias voltou em 1488 da viagem em que dobrou o cabo da Boa Esperança. Nesse mesmo ano voltara a insistir com D. João II para que este apoiasse o empreendimento que planeava. O rei garantiu-lhe nessa ocasião, como lhe fora pedido, que podia voltar a Lisboa sem ser molestado (Colombo temia ser preso caso entrasse na capital portuguesa, por razões que desconhecemos), negando-lhe porém e novamente o seu apoio.
Dois factos são indesmentíveis. Por um lado a D. João II não moveu qualquer animosidade contra o genovês, nem antes nem depois da primeira viagem deste. Por outro, também não se desinteressou das viagens a ocidente, que estavam longe de lhe ser propostas pela primeira vez. O monarca não teve qualquer pejo em avalizar o pedido feito nesse sentido pelo flamengo Fernão de Ulmo (nome porque ficou conhecido em Portugal), que se associou depois a João Afonso do Estreito, simplesmente porque neste caso não estava envolvido o financiamento da expedição pela coroa – bem ao contrário de Colombo, cujas exigências eram tidas por exorbitantes.
Tudo isto reflecte o interesse, ou, mais precisamente, o desinteresse de D. João II pelo caminho marítimo do ocidente. No fundo, e numa só palavra, Colombo era inofensivo para os seus propósitos. Por isso lhe garantiu o acesso a Lisboa em 1488, por isso não obstaculizou a sua saída em 1493.
Não há neste processo sombra de sigilo de Estado: repare-se, facto que por vezes é convenientemente esquecido, que o rei não teve problemas em autorizar um estrangeiro a navegar para ocidente (em relação ao qual ninguém se lembrou até agora de dizer que fosse um espião). Porque já que não havia lugar a qualquer investimento só podia ganhar com o negócio caso a viagem do flamengo resultasse em algo de concreto.
Confrontavam-se portanto duas concepções geográficas bem distintas: a do navegador genovês ao serviço da Espanha e a do monarca português, baseado este nos conhecimentos acumulados pelos anos de experiência das navegações efectuadas e das informações que ia recolhendo (e que permitiram aos seus conselheiros Diogo Ortiz, mestre José e mestre Rodrigo concluir pela não viabilidade do plano colombino quando o ouviram pela boca do próprio e sobre ele se pronunciaram a pedido do rei), e aquele numa reflexão profunda sobre as autoridades que creditou. No quadro dos conhecimentos geográficos do século XV, como dissemos atrás, nada mais natural que a verificação de duas concepções tão opostas, que um e outro perseguiram com idêntica convicção. E a cada um couberam os méritos devidos por isso mesmo.
A primeira viagem de Colombo teve pelo menos o efeito de obrigar a uma redefinição de zonas de influência, desactualizada que estava doravante o tratado das Alcáçovas em face da descoberta da América. Em 1494, ao assinarem o tratado de Tordesilhas, tanto D. João II com Fernando e Isabel obtinham exactamente aquilo que queriam: o primeiro a soberania sobre os mares que haviam de levar as naus portuguesas à Índia, como já sabia de ciência segura; os segundos, a soberania de um novo continente cujas potencialidades se iriam revelar mais tarde (36).
É indubitável que D. João II soube anular a interferência da arbitragem parcial de Alexandre VI (e foi o próprio Jerónimo Zurita, o insuspeito cronista de Fernando o Católico, que a classificou assim no tomo V dos Anales de la Corona de Aragon (37)), ao propor que a linha divisória de Tordesilhas passasse 370 léguas a ocidente do arquipélago de Cabo Verde, e não a 100, como queria o Papa. Esta vitória diplomática encontrou eco do outro lado: a Fernando e Isabel interessava por igual que o diferendo se resolvesse, e daí que concordassem com a ultrapassagem de uma intervenção papal que lhes era favorável, e uma vez que as 370 léguas pedidas por seu primo não afectavam a soberania das novas conquistas.
Foi porém menos afortunado em relação ao termo do grande objectivo que norteou o seu reinado e teria depois consequências tão profundas para a história da Europa, a partir de então voltada definitivamente em direcção a um Oriente longínquo e ignorado: tolhido pelas inúmeras dificuldades que a política interna do reino lhe foi levantando, como a oposição da grande nobreza ou o falhanço da união ibérica, desvanecida em fumo com a morte do herdeiro da coroa D. Afonso, vitimado por um acidente ocorrido pouco depois do casamento com D. Isabel, filha dos Reis Católicos, a par dos problemas que a gestão do nascente império lhe iam levantando, esperando ainda pelas notícias dos seus viajantes e vendo-se logo depois obrigado a batalhar pelas vantagens diplomáticas sem as quais pouco tinha de seguro, D. João nunca viu partir as naus da Índia. Morreu em 1495, minado por uma doença implacável que o vergou antes de ver cumprida a viagem cuja realização perseguiu tão tenazmente e que preparou quase até ao último momento.
Onze anos depois, em 1506, na miséria e desacreditado, morria dolorosamente, tal como D. João, um homem tão visionário como ele – e foram talvez únicos no seu tempo. Sem nunca ter alcançado as riquezas do Cataio, afirmando até ao último momento que no fundo estava certo (porventura menos convencido que obrigado a manter-se coerente consigo próprio, contra toda a evidência), Colombo abriu as portas do Ocidente mas não viu também cumprido o sonho que foi a mola vital de toda uma vida.
Numa daquelas ironias em que é tão fértil, o destino não permitiu que qualquer dos dois lograsse o sucesso que perseguiram obstinadamente. Mas deixou que, cada um à sua maneira, o príncipe de Portugal e o almirante de Génova forjassem uma realidade que doravante era em tudo diferente daquilo que a Europa podia suspeitar quando anos antes dois jovens de vontade férrea se lançaram à conquista de um mundo que transformaram completamente.

Francisco Contente Domingues
«Colombo e a Política de Sigilo na Historiografia Portuguesa», Mare Liberum. Revista de História dos Mares, n.º 1, Dezembro de 1990, pp. 105-116.