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terça-feira, 24 de junho de 2008

Não é a lápide de João Gonçalves Zarco


Segundo a página de Luciano da Silva, a pedra tumular de João Gonçalves Zarco foi descoberta por Raquel Oliveira Costa na «entrada da Igreja de Nossa Senhora da Visitação ou de Nossa Senhora do Outeiro na aldeia Albergaria dos Fusos», da qual dá a imagem que aqui se reproduz.
Ora, como se pode ver esta pedra tumular não é a do célebre João Gonçalves Zarco porque não é epigrafia do século XV. A escrita desta lápide é bastante posterior ao seu falecimento.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

João Gonçalves Zarco, o tabelião

(...) encontrámos o selo de Zarco em cruz. (...) Pode ver-se (...) o nome de Zarco, «Zarqo», com o seu selo à direita.
O Mistério Colombo Revelado, p. 179.
Esta imagem é apresentada como sendo o selo de João Gonçalves Zarco (que como já se mostrou não é Zarqo, mas sim Zargo) e obedeceria a uns quaisquer princípios cruciformes de carácter cabalístico-esotérico-maçónico-iniciático, enfim o normal blá-blá pseudo-histórico, visando patentear conhecimento onde ele de facto não existe.
O que consta nesta imagem é algo de bem mais prosaico. Está aqui a assinatura de João Gonçalves Zarco e o sinal – e não o selo! (diplomatisticamente são coisas completamente diferentes) – do tabelião que fez o documento.

Ninguém nasce ensinado. Não se sabendo que desenho é o que figura no documento pode-se lê-lo e ele diz tudo o que há para saber:


(...) Eu Joham Anes tabeliam em a dita Ylha por ho Yfante dom Anrique meu senhor que esta carta de fyrmidam per mandado e outoridade do dito cavalero esprivi e aqui meu synal fiz que tal he {sinal de tabelião} Zargo (...)

A credibilidade duma obra que aborde um tema novo que vá muito além do que é conhecido ou admitido como possível estabelece-se pela ponderação crítica de todos os elementos prévia e indubitavelmente conhecidos que andam à volta da nova ideia que se pretende fazer aceitar.
Quando dados positivamente e de há muito estabelecidos são ignorados ou, pior ainda, são erradamente apresentados ou interpretados e nessa forma servem de sustentáculo às novas ideias que se querem fazer vingar, então legitimamente pode-se pôr em causa a validade dessas novas ideias.
Um erro factual ou de interpretação, uma omissão ou uma deturpação de dados marginais pode não inviabilizar uma nova tese, tudo depende da gravidade. Mas a soma de muitas destas situações desacredita por completo qualquer trabalho.

Nota: Pese embora o facto de na pág. 179 do referido livro se apresentar a imagem que é legendada pelo texto que abre esta nota, as imagens aqui exibidas foram obtidas na p. 399 onde o mesmo documento é reproduzido na íntegra.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Zarco, Zargo e Zarga

Talvez nada signifique, mas para que conste aqui fica.

Zarco, adj. (do ár. zarka, fem. de azrak, azul, de olhos azuis). Que tem os olhos azul-claros. Que tem malha branca em volta de um ou de ambos os olhos (falando-se dos cavalos, dos touros, etc.). vol. XII.
Zarga, s. f. prov. beir. Mulher má; bruxa.
Zargo, s. m. Zol. Género de insectos coleópteros da subordem dos adéfagos, família dos Coraliídeos, a que pertencem espécies da fauna da Madeira.

in José Pedro Machado (coord.), Grande Dicionário da Língua Portuguesa, vol. XII, s. l., Sociedade da Língua Portuguesa / Amigos do Livro, 1981, pp. 650-651.


Zarco, adj. Do ár. zarqã’, «(a) que tem olhos azuis», f. de azraq, «azul; de olhos azuis; brilhante». Este adj. aparece com frequência do séc. XV, em documentos que mencionam o célebre navegador João Gonçalves Zarco, voc. por vezes também escrito Zargo. Descobriu como se sabe a ilha de Porto Santo em 1418. O apelido é, porém, mais ant., pois que já corria na época de D. Dinis; assim: «Joã zarco jurado e preguntado sobre los sanctos Auangelhos se quando El Rey don Sancho fazia frota...», em Desc., I, p. 47. Zargo em 1447: «Eu Johã Gonçallvez zargo caualejro da casa do Jfante dom anrique...», Desc., I, p. 453.

in José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 7ª ed., vol. V, Lisboa, Livros Horizonte, 1995, pp. 416-417.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Zargo e zarqa

(...) Eu Joha[m] Gonçallvez Zargo cavalero da cassa do Ifante dom Anrique e regedor por ho dito senhor em a sua ilha da Madeyra em o Fonchal e seus termos (...)


(Excerto da leitura, transcrição e edição feitas a partir do documento apresentado em O Mistério Colombo Revelado, p. 399)

Os autores do referido livro lêem Zarqo e não Zargo e já se mostrará porquê.

Como se pode ver na segunda imagem, João Gonçalves Zarco é referido pelo tabelião que faz este documento como sendo Zargo e não Zarqo. O próprio João Gonçalves assina Zargo, como se pode ver nesta primeira imagem.


É Zargo e não Zarqo como facilmente se comprova comparando o g de Zargo com o g de Gonçalves ou o g de regedor – são praticamente iguais.




Se dúvida persistir continue-se a comparar e veja-se como o tabelião, ou o seu escrivão, desenha o q em Henrique (grafado anriq, tendo o q um traço sobreposto indicando tratar-se de abreviatura) ou ainda como desenha o q (que isolado com um traço sobreposto é abreviatura de pronome, conjunção, advérbio ou locução), que .




Lendo-se Zarqo e não Zargo permite aos autores darem um salto para zarqa, que dizem ser uma letra hebraica, e mergulharem em divagações hebraico-cabalistas sobre as quais nesta nota crítica não se entrará, ficando a crítica para a via hebraica para pessoa mais competente. Quanto à Cabala, não é um método historiográfico.

Uma última nota de ironia para referir que, e baseado unicamente no que se vê neste documento, o indivíduo conhecido por João Gonçalves Zarco não é João Gonçalves Zarco, pois não assinava assim, assinava João Gonçalves Zargo. Entenda-se deste modo: Cristóvão Colombo nunca terá assinado Colombo, por isso...

(Texto revisto em 6-12-2006 23:05 para tornar mais clara a ideia por detrás do discurso.)