sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A nacionalidade de Colombo é irrelevante

A palestra Em Torno da Mistificação de Colombo realizada na Academia de Marinha no passado dia 2 de Fevereiro saldou-se por uma completa desilusão. A comunicação foi dividida por três oradores e arrastou-se durante uma penosa hora e meia ouvindo-se dos comunicantes aquilo que já todos sabem das suas ideias. Esta estratégia revelou-se bem sucedida pois assim, tomando todo o tempo, não deixaram ao público a possibilidade de ver esclarecidas as suas dúvidas ou de poder contraditá-los na fase que neste tipo de encontros se reserva às perguntas e respostas.
Embora muitos ouvintes presentes pedissem a palavra no final, só três a obtiveram – dada a hora tardia – e estes limitaram-se ao discurso de circunstância na mesma linha de pensamento dos comunicantes. Salvou-se a promessa do presidente da Academia de Marinha de fazer futuramente uma mesa redonda sobre o tema.
O Presidente da Academia de Marinha, Almirante Vieira Matias, ladeado pelos vice-presidentes Prof.ª Doutora Raquel Soeiro de Brito e Prof. Doutor Francisco Contente Domingues dirigiram a sessão.

A apresentação de factos históricos foi algo em que os comunicantes foram avaros, selectivos, simplistas e manipulativos.
Carlos Calado iniciou a sessão ocupando grande parte do tempo a publicitar a associação de que faz parte, distribuindo referências aos seus membros e no meio disso ficou uma frase em que as duas orações que a compõem constituem afirmações contraditórias entre si. Parafraseando, a dita associação tem por objectivo (e segue-se uma citação livre) «Defender a portugalidade do navegador [Colombo] e divulgar os respectivos factos históricos».
Além disto ainda constata que os descendentes de Colombo não casam com gente de Génova deixando no ar a suspeita de não haver por isso qualquer relação com a república, não se lembrando de que os interesses desta família se localizavam em Castela e que essa é a razão para o estabelecimento de alianças matrimoniais. Alude também às romãs, S. Cristóvão e ao convento de Mafra; Bobadilla, capitulações de Santa Fé e à rota do regresso da sua primeira viagem ao Novo Mundo. Nessa altura alguns oficiais de Marinha presentes na sala começaram a mexer-se na cadeira com o mesmo desconforto que deveriam sentir os velhos pilotos do século XVI quando ouviam as teorias que vinham da Aula da Esfera.
Brandão Ferreira (Duby não é um filósofo francês!) apresentou uma explicação monocausal para a expansão ultramarina portuguesa que é nada menos a da espiritualidade especial dos portugueses – a devoção ao Divino Espírito Santo –, pois até chegarem à Mina estes só tiveram prejuízo. Já na Mina conseguiam atrair a cobiça dos castelhanos que começam a frequentar essas paragens (assim, sem mais). É neste quadro que aparece um agente secreto com o pseudónimo de Colón (ou será Colom?), mas sobre quem seria realmente e qual era o objectivo da sua missão nada foi dito a não ser a há muito conhecida teoria do desvio das atenções castelhanas para um novo continente (pairava no ar o factício Salvador Gonçalves/Fernandes/Henriques Zarco, mas não se materializou, do mesmo modo também esteve sempre omnipresente a figura de Mascarenhas Barreto, pelo menos na maior parte das ideias que aí foram apresentadas).
Paiva Neves começou por evocar a «versão oficial» [da História] sem dúvida inspirado no seu colega primeiro orador que também se referiu à «tese oficial» da naturalidade de Colombo. Um mau princípio porque usando essas expressões negam a possibilidade da própria História, é que história oficial não é História.
Continuando, duvida que a naturalidade genovesa e origem humilde possibilitasse ao navegador chegar onde chegou: casar, navegar, ser culto, etc. Cita alguns historiadores, descontextualizando-os o suficiente para parecer que partilham das mesmas ideias, o mesmo fazendo com Rui de Pina quando alerta para as referências a Colombo e a ausência das mesmas para Bartolomeu Dias.
Entrou depois no tema forte da sua comunicação: a mística franciscana em Colombo, o que sempre é uma alternativa à, há muito, insustentável mística templária.
Também insustentável é a interpretação da recepção de Colombo por D. João II no regresso da primeira viagem e é completamente absurda a leitura do «especial amigo» na carta de 1488 deste monarca ao futuro almirante. Nestes casos revela-se desconhecimento das formas protocolares de tratamento, seja na Corte, seja na correspondência.
Já o presidente da Academia apelava para o fim da conferência quando, na linha de José Martins, Brandão Ferreira remata lançando o repto à Academia de Marinha para criar um grupo interdisciplinar de estudo – inclusivamente com especialistas na cabala – para provar a nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo.
Para quem afirma haver uma história oficial propõe que, em vez dessa, se faça história oficial, a sua.

2 comentários:

Colon-o-Novo disse...

"A nacionalidade de Colombo é irrelevante" e eu estou de acordo. É a IDENTIDADE que é relevante. Achando-se a Identidade achar-se-á a nacionalidade.

Agora faço uma pergunta já muito feita aqui mas nunca respondida porque para vós também deve de ser uma pergunta irrelevante.
Para vós quem foi o homem que fez a viagem através do Oceano baixo o estandarte Castelhano em 1492?
Foi o simples plebeu cardador de lãs Cristoforo Colombo descrito por Gallo?
É uma pergunta muito simples e neste caso muito relevante para ver-se o critério contextualizado dos autores deste blog.
Manuel Rosa

Anónimo disse...

pOR FAVOR, PODERIAM INDICAR-ME:
-POR QUE MOTIVO COLON ASSINOU SEMPRE COM UMA SIGLA E NÃO COM QUALQUER NOME;
-O QUE QUER DIZER A SIGLA (SIGLAS) QUE ELE USOU?
AC