terça-feira, 30 de outubro de 2007

Por que Margarida Vasques importa

Cem anos separam o caso de Margarida Vasques do de Filipa Moniz. Dada a diferença temporal, entre eles, a permanência de Margarida Vasques no mosteiro de Santos de Lisboa só é importante na medida em que nessa instituição se admitiu, pelo menos uma vez (como é demonstrado por este documento), no seu seio alguém não-nobre. Não é pois uma instituição dedicada exclusivamente à nobreza e muito menos à alta-nobreza.
O documento é claro. Não indica que Vasco Eanes seja cavaleiro, nem sequer o refere como cavaleiro vilão (o que poderia ser, já que é mercador). Poderia Vasco Eanes ser mercador e cavaleiro? É evidente que sim. A estrutura social é muito mais flexível do que alguns pretendem que seja. Pode, pois, tratar-se dum erro ou lapso de algum dos tabeliães envolvidos. Mas então tem-se mais um lapso; mais um a acrescentar a toda uma série de erros, falsificações e ocultações que a toda esta história se atribuem, ficando-se, deste modo, com uma tese em tudo contrária ao que a documentação expressamente indica.
Também é evidente que com maior pesquisa poder-se-á descobrir mais alguma coisa sobre Margarida Vasques, seu pai e restante família e, até, acabar por se demonstrar que afinal há mesmo um qualquer lapso no documento. Mas também nessa pesquisa se poderão encontrar outras Margaridas Vasques; outros casos em que plebeus acedem a este pretenso clube exclusivo.
Por outro lado, demonstrando-se ser Vasco Eanes mercador e cavaleiro de Santiago tal facto só virá ajudar a demonstrar que a própria ordem não é tão exclusiva como se quer fazer crer.
Aparentemente Margarida Vasques nada tem a ver com Filipa Moniz, esposa de Cristóvão Colombo, contudo, não estando Margarida Vasques ligada à ordem de Santiago e sendo residente em Santos também Filipa Moniz poderá não ter qualquer ligação com esta ordem; vivendo em Santos alguém de baixa condição como Margarida Vasques, também Filipa Moniz poderá, afinal, não ter tão grande estatuto que a impeça de casar com Cristóvão Colombo, não sendo este a figura grada que se quer fazer crer.
A tudo isto vem a somar-se ao facto do próprio Bartolomeu Perestrelo, pai de Filipa Moniz, não ser de muita elevada extracção, afinal era só cavaleiro da Casa do Infante D. Henrique – não o era da Casa Real – tal como só era capitão do donatário da ilha mais pobre (se exceptuarmos a do Corvo) de todas quantas o Navegador era senhor.
Afinal o balão está a esvaziar-se e tudo se encaminha para que a História volte a ser o que sempre tem sido.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Só para lembrar...



Como já se esqueceu quais os reais motivos da elaboração desta página, publica-se de novo a mensagem de 20 de Novembro de 2006 intitulada a Intolerância e a Pacatez.
No que diz respeito às teorias de Colombo ser português não tenho nada a opor, contudo as teorias têm de ser provadas e devem ainda ser sujeitas à crítica. Se não há provas ou indícios e se estes não sobrevivem à crítica quem propõe tais teorias tem de ter a humildade de dizer que não sabe.
Chocam-me as pessoas que acusam a comunidade científica de intolerância, corporativismo e de elitismo e logo a seguir sejam os primeiros a ter tais comportamentos. Senão veja-se:
Recentemente consultei a Wikipédia e resolvi ver edições do mesmo artigo em línguas diferentes. Qual não foi o meu espanto ao ver dois excelentes artigos sobre a biografia e percurso de Cristóvão Colombo em inglês e espanhol e por contraponto em português estava um pequeno e mal amanhado conjunto de confusões. Resolvi então perguntar pelo rigor científico e fazer várias propostas. Resultado: apagaram as minhas críticas sistematicamente, mesmo depois de eu voltar a colocá-las em discussão.
Ou seja, quem acusa de intolerância é o primeiro a apagar os contributos dos outros, quando são vários a fazê-lo há corporativismo e revela ainda um elitismo e mania de superioridade que enoja. Quem detém a Verdade são os iluminados defensores do Colombo português, os outros são todos tão estúpidos que não percebem nada, nem nunca perceberam.
Também me choca que as pessoas que podem dar um contributo e que sabem do assunto fiquem caladas permitindo que vinguem as ideias e as propagandas construídas à volta do Colombo português.
A resposta é que não vale a pena e que é muito cansativo. Bom, e assim fica o artigo da Wikipédia escrito por maus escritores de ficção por demissão dos que percebem do assunto.
Quem fizer como eu e verificar as versões em diferentes línguas pode concluir que os portugueses estão a dormir na forma ou que não são bons profissionais. A ideia que fica é de que os portugueses inventam histórias e não sabem fazer um trabalho científico. Por causa disso é que a maior parte da historiografia estrangeira tem credibilidade e a portuguesa nem sequer é mencionada!
A pacatez paga-se e se não forem os estudiosos a defenderem o seu trabalho concerteza que não são os ficcionistas a fazê-lo!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Uma burguesa no mosteiro de Santos

A experiência continuada de investigação, trabalhando-se com documentação cronológica e tematicamente diversificada, dá a quem a faz uma sensibilidade especial para avaliar o que pela frente se lhe depara. O investigador novato, o estudante, mesmo que teoricamente bem formado, e ainda mais o amador facilmente se maravilha e sobrevaloriza coisas vulgares que mais tarde, já veterano, o levam a sorrir pela ingenuidade então demonstrada. Esta experiência dá-lhe também a humildade para reconhecer as diversas limitações a que está sujeito e lembra-lhe a necessidade constante de reflectir sobre o método e a teoria da sua arte.
Foi tudo isto que pesou no que aqui escreveu o nosso colega e amigo P. R. quando disse que não tinha lido nem leria uma determinada obra, baseado unicamente no que lera em diversos outros locais sobre as questões em causa; foi tudo isso que também pesou quando eu aqui comecei a escrever sem ainda ter lido um determinado livro. Não estou arrependido nem, assim o julgo, o meu amigo P. R. o está.
Reflexão teórico-metodológica feita, passe-se ao sumo deste texto.
Numa pausa do trabalho normal na TT procurei um dos documentos referidos por Manuel Rosa relativos a Filipa Moniz. Se a referência não está errada pelo menos está incompleta e a falta de tempo para estes assuntos secundários não me possibilita uma pesquisa mais aturada. Assim lancei a rede para ver o que nela cairia e o resultado, não sendo o procurado, acabou por ter o seu interesse pelo valor pedagógico que terá para os admiradores das ideias que postulam um Cristóvão Colombo português.


TT, Mosteiro de Santos-o-Novo, Doc. 521 (Antigo Mç. 22, n.º 521).

Edição Paleográfica - Excertos
(…)
Em nome de Deos Amen Saibão todos que na Era de mil e quatrosentos e seis anos comvem a saber vinte dias do mes de Janeiro em logo que chamão Palma da par da çidade de Lisboa em huma quinta que em outro tempo foi de Goncallo Gil Palha e depois de Vasqu’Eanes mercador vezinho e morador na dita çidade no Adro de São Nicullao a qual dezião que o dito Vasqu’Eanes hi ouvera e lograra a merce da ditta quinta que lhe della fora feito per el-Rei dom Afonço per rezon que o dito rei mandara filhar e vender a ditta quinta ao dito Goncallo Gil em prezensa de min Domingos Afonço tabalion del-Rei na dita çidade e testemunhas ao diante escriptas [espaço em branco] procurador-geral do mosteiro de Santos da par da dita sidade procurador espesial que ser mostrou de Margarida Vasques dona profesa do dito mosteiro filha lidima e erdeira do dito Vasqu’Eanes e de Sancha Rodriguez sa molher per poder de huma procurasão escripta he asinada per min o dito tabalion que contava que fora feita no dito mosteiro de santos por lisença e outorgasão de dona M[ai]or Pires comendadeira e doutras muitas boas donas e convento do dito mosteiro todas juntas e chamadas a conselho per campa tangida segundo he de seu costume espesialmente pera esto que se a diante segue doze dias do sobredito mes e era na qual era conteúdo amte outras cousas que a dita Margarida Vasque[s] per poder da ditta lisença fez e ha estaballeser per seu procurador (…) que per ella e em seu nome possa pedir demandar e reseber procurar e mostrar e pedir demarcasois (...) e sobre qualquer couza e posesois e novos e rendas de pão que delles naserão e desenderão [espaço em branco] remetir e pera dar per quites e livres (…)

*
Este excerto foi transcrito dum documento que diz ser uma pública forma feita em 2 de Janeiro de 1636 duma procuração passada em 12 de Novembro de 1368 por uma residente no mosteiro de Santos. Na realidade trata-se duma cópia simples e incompleta, com valor meramente informativo, seja porque o escrivão teve dificuldade em ler o original do século XIV, seja ainda por o pergaminho se encontrar em mau estado, ou ainda porque o cliente acabou por se satisfazer em saber só o conteúdo do documento. Seja como for, o contexto arquivístico em que o documento se encontra parece, à primeira vista, conceder-lhe autenticidade quanto ao conteúdo.

Este documento ajuda a desmistificar duas afirmações da pseudo-história colombina.
Postulado pseudo-histórico: O mosteiro de Santos albergava senhoras da mais alta-nobreza.
Realidade histórica: Como se pode ler, Margarida Vasques, «dona professa» do mosteiro de Santos, é filha do mercador Vasco Eanes e de sua mulher Sancha Rodrigues.
É verdade! A filha do mercador é «dona professa» do mosteiro de Santos. Nenhum deles (pai, mãe, filha) é dom. E a filha dum mercador não é da mais alta nobreza, nem tampouco nobre, é… plebeia.
Conclusão: Dona Maior Pires, comendadeira do mosteiro de Santos, dá licença e outorga a procuração que Margarida Vasques passa. Repare-se que só a superiora tem o título de dona antes do nome, um título que, se mais não for, é inerente ao cargo que ocupa. Também no documento anteriormente transcrito há a distinção entre donas e não donas de direito pelo uso que se faz do título antecedendo os respectivos nomes.
Postulado pseudo-histórico: É invulgar a existência de espaços em branco na documentação e estes ocultam factos que se querem esconder.
Realidade histórica: Só neste documento ocorre duas vezes o espaço em branco. A primeira onde deveria figurar, pelo menos, o nome do procurador-geral do convento de santos e a segunda deveria enumerar um, ou mais, dos muitos poderes delegados no procurador. São situações que resultam, muito provavelmente, do facto do escrivão do século XVII não conseguir ler o que foi escrito no século XIV, fosse por dano no documento fosse por limitação própria a nível da paleografia. O espaço ficou em branco para preenchimento posterior se alguém conseguir ler o que lá está ou souber que lá deve figurar.
Conclusão: Porque a existência de espaços deixados em branco no meio dum texto ocorrem com alguma frequência, o historiador não sente grande estranheza quando estas se lhe deparam. Contudo, perante elas não se sente autorizado a enveredar por especulações delirantes, como aconteceu ao romancista José Rodrigues dos Santos seguindo outros amadores da investigação histórica que antes dele pasmaram diante da palavra «italiano» num espaço previamente deixado em branco na crónica de Rui de Pina.


Adenda: Um exercício útil seria fazer neste manuscrito o levantamento de todos os espaços deixados em branco e preenchidos posteriormente.

sábado, 20 de outubro de 2007

História da Náutica e Arqueologia Naval

Universidade Autónoma de Lisboa
Centro de Estudos do Mar


Curso de Pós-graduação
História da Náutica e Arqueologia Naval

Início: 19-11-2007


Coordenação:
Doutor Adolfo Silveira Martins
Mestre José Malhão Pereira


Informação e Inscrição
CEM da UAL
R. de Santa Marta, 56, 5.º
Lisboa
Telef. 213177619 / 962759036
http://cemar.ual.pt/



A mesma Universidade e Centro também disponibilizarão vários cursos livres na área da História de Marinha:

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Cristóvão Colombo – falsas premissas

Muito da (falsa) polémica colombina parte de falsas premissas. Um exemplo tem sido dado por um dos comentadores deste sítio que, como outros, por vezes é demasiado insistente querendo-nos obrigar a dizer o que honestamente não podemos dizer.

Eu penso que você, enquanto muito bom historiador que proclama ser, tem neste caso, e graças a este espaço, a inteira responsabilidade do ónus da prova.
Por favor, não complique com falsos propostos algo de simples, não fuja mais a perguntas tão simples com subterfúgios tão escolásticos:
Quantas autorizações foram dadas por D. João II para membros da sua Ordem [de Santiago] casarem com estrangeiros plebeus?
Mais alguma vez no século XV um plebeu estrangeiro casou com uma comendadeira da Ordem de Santiago?
Será que o próprio irmão de Cristóvão Colombo podia ter um "negócio de cartografia" naquela época de mare clausum e de conspirações contra o rei de Portugal?
PS: Faço-lhe até o favor de poder escolher uma das três perguntas como testemunho da minha boa fé.
Ramon de Mello - Historiador especializado no Quattrocento italiano.
Terça-feira, Outubro 16, 2007 9:18:00 AM
[Comentário deixado num texto anterior, para aqui copiado e corrigido.]

1. Em lado algum (aqui ou noutro sítio) alguém me viu a alardear as minhas qualidades de historiador.
2. Enquanto arguente não tenho de provar a veracidade duma tese (Colombo Português, etc.), antes pelo contrário, tenho de procurar tudo o que nela há de frágil para demonstrar a sua inconsistência, cabendo ao(s) autor(es) demonstrar com provas e sólidos argumentos lógicos a veracidade do que diz(em).
3. O referido em 2. é evidente para qualquer cientista, mas já não o é para o pseudocientista.
4. A Lógica é a maior contribuição da Escolástica para o pensamento universal, não se menospreze.
5. Ninguém sabe quantas autorizações foram dadas para as meninas de Santos casarem, se é que por sistema eram dadas licenças, e ainda menos se sabe quantas dessas putativas licenças foram concedidas para matrimónio com estrangeiros.
6. Não foi encontrada fonte primária que demonstre Filipa Moniz, residente em Santos, ser a filha de Bartolomeu Perestrelo e ter casado com Cristóvão Colombo. O facto de não se conhecer fonte primária demonstrando o referido casamento, mais do que permitir a conclusão de elevado estatuto de Colombo, autoriza a dedução condicionada de que outros matrimónios envolvendo gente do mesmo nível do futuro Almirante também não deixaram registo. Por aqui se vê que a pergunta formulada não tem resposta viável e resulta duma falha de Lógica.
7. Juntar irmão de Cristóvão Colombo, cartografia, Mare Clausum e conspirações contra D. João II numa frase tão curta e desta forma é também uma bela falácia a que, para ser perfeita, só falta a inclusão da Política de Segredo. Esta é uma técnica muito querida da pseudociência e do seu subproduto, a pseudo-história: fazem-se várias afirmações, agarrando em coisas distintas, cada uma delas merecedora de análise particular, e apresentam-se como premissas, evidências claras e inquestionáveis, que forçam a dedução no sentido desejado.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

O Processo dos Templários

O Vaticano vai publicar no dia 25 de Outubro o fac-simile do processo dos Templários acompanhado dum estudo académico do mesmo. A edição composta unicamente por 799 exemplares numerados é acompanhada por reproduções de selos dos inquisidores custará 5.900 euros por exemplar, o que colocará a obra fora do alcance da maioria dos interessados pela matéria e até mesmo a maior parte das bibliotecas especializadas terão dificuldade em adquiri-la.
O processo dos templários foi encontrado mal catalogado no Arquivo Secreto do Vaticano no ano de 2001, julgando-se até então perdido.
Sendo uma fonte muito importante para o estudo do final desta importante ordem religiosa militar, não se espera, contudo, que venha a introduzir dados revolucionários nas polémicas templárias veiculadas pela pseudo-história. Aliás, não se espera que daí venha muito mais informação do que aquela que sempre se encontrou disponível nos processos movidos contra a ordem em França por Filipe, o Belo.
No entanto, a publicação desta fonte permitirá, duma vez por todas, pôr fim aos inúmeros disparates que por aí pululam. (E daí talvez não, já que a pseudo-história vive, precisamente, das fontes que não existem).
Quando se quiser constatar que a Ordem do Templo, sendo poderosa, era unicamente isso, poderosa, e que tudo o mais não passa de invenção para a destruir ou para a elevar aos olhos dos ignorantes, então ter-se-á dado um passo importante para ver que a Ordem de Cristo, sua herdeira material em Portugal, era unicamente uma instituição rica em propriedades fundiárias cujas receitas se destinavam ao pagamento de rendas à nobreza e fidalguia nacional. Então, mais uma camada de poeira terá sido removida da pseudo-história columbina.


Fotos: REUTERS/Alessandro Bianchi

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Dia de Colombo

A aproximação do Dia de Colombo nos Estados Unidos (12 de Outubro) traz com ela o aumento da circulação das asneiras a propósito deste navegador. Um chorrilho a que nem os mais circunspectos conseguem escapar como é caso do New York Times que não deixa de noticiar – sobriamente diga-se – os disparates que por aí circulam.

BARCELONA, Spain - When schoolchildren turn to the chapter on Christopher Columbus’s humble origins as the son of a weaver in Genoa, they are not generally told that he might instead have been born out of wedlock to a Portuguese prince. Or that he might have been a Jew whose parents converted to escape the Spanish Inquisition. Or a rebel in the medieval kingdom of Catalonia.
Yet with little evidence to support them, multiple theories of Columbus’s early years have long found devoted proponents among those who would claim alternative bragging rights to the explorer. And now, five centuries after he opened the door to the New World, Columbus’s revisionist biographers have found a new hope for vindication.
The Age of Discovery has discovered DNA.
In 2004, a Spanish geneticist, Dr. Jose A. Lorente, extracted genetic material from a cache of Columbus’s bones in Seville to settle a dispute about where he was buried. Ever since, he has been beset by amateur historians, government officials and self-styled Columbus relatives of multiple nationalities clamoring for a genetic retelling of the standard textbook tale.
Even adherents of the Italian orthodoxy concede that little is known about the provenance of the Great Navigator, who seems to have purposely obscured his past. But contenders for his legacy have no compunction about prospecting for his secrets in the cells he took to his grave. And the arrival on Oct. 8 of another anniversary of Columbus’s first landfall in the Bahamas has only sharpened their appetite for a genetic verdict, preferably in their own favor.
A Genoese Cristoforo Colombo almost certainly did exist. Archives record his birth and early life. But there is little to tie that man to the one who crossed the Atlantic in 1492. Snippets from Columbus’s life point all around the southern European coast. He kept books in Catalan and his handwriting has, according to some, a Catalonian flair. He married a Portuguese noblewoman. He wrote in Castilian. He decorated his letters with a Hebrew cartouche.
Since it seems now that the best bet for deducing Columbus’s true hometown is to look for a genetic match in places where he might have lived, hundreds of Spaniards, Italians, and even a few Frenchmen have happily swabbed their cheeks to supply cells for comparison.
“You would be proud to know that the man that goes to America the first time was Catalan,” said Jordi Colom, 51, an executive at a local television station whose saliva sample will help test the contention that Columbus was born in Catalonia, the once-independent eastern region of modern Spain that still fosters its own language, culture and designs on independence.
No chance, said Renato Colombo, 62, a retired Italian engineer who proffered his DNA to reassert his nation’s hold on the status quo. “It has never been in doubt that he was from Liguria,” the region in northwest Italy of which Genoa is the capital, he insisted. “In his personality, there are the characteristics of the Genoese, mostly represented by his project and his visceral attachment to money and his determination.”
Mr. Colom and Mr. Colombo are both “Columbus” in their native tongues. And along with their names, each inherited from his father a Y chromosome - a sliver of DNA passed exclusively from father to son - which would have been virtually unchanged since the 15th century. A Columbus match to either man’s Y chromosome would tie him to that paternal line’s Italian or Catalonian home.
“What I want to write is the final book on Columbus, and I will not be able to do it without science to settle this,” said Francesc Albardaner, who was seduced by the possibility that DNA - a tool whose answers are treated as indisputable fact in courtrooms and on TV shows - would endorse his deeply held belief in the Catalonian Columbus.
Mr. Albardaner, a Barcelona architect, took more than three months off work, called 2,000 Coloms and persuaded 225 of them to scrape their cheeks at his Center for Columbus Studies in Barcelona. The swabs along with 100 Colombos collected in Italy are being analyzed by Dr. Lorente at the University of Granada and scientists in Rome.
A Colom match could overturn conventional wisdom about the nationality, class, religion, and motives of the man who began the age of American colonization. On the other hand, an association with Colombo DNA would cement Italy’s national pride in a man who remains a hero to many, complaints from American Indians he slaughtered, Africans he enslaved and Vikings who got there first notwithstanding.
But some petitioners think it is a waste of time to scour the phone book for Columbus’s long-lost kin. Insisting that they know who Columbus’s father really was, they are asking Dr. Lorente to perform a 500-year postdated paternity test. The government council president of Majorca, for instance, has paid him to examine the exhumed remains of Prince Carlos of Viana, the one-time heir to the Catalonian crown who reportedly fathered a son with a woman on the island whose last name was Colom.
The vials of royal DNA in Dr. Lorente’s freezer also include contributions from two living members of the now deposed Portuguese royal line: those of the Duke of Bragança and the Count of Ribeira Grande who argue that Columbus was a member of their family - the product of an extramarital affair involving a Portuguese prince.
“This is the true story, forget the Italians, forget the Spanish,” said Count Jose Ribeira, 47, a real estate developer in Lisbon who attended the dedication of a new Columbus monument last year in the Portuguese town of Cuba that claims to be Columbus’s birthplace. If it is, all three samples should contain the same Portuguese genetic imprint. But this year, anyway, the Columbus Day parade in New York will feature Maserati sports cars, flag throwers from Siena and Lidia Bastianich, the Italian cooking show host, as grand marshal.
Those who had hoped DNA would crash the Italian party expected a genetic pronouncement from the scientists on the 500th anniversary of Columbus’s death last May. Or last Columbus Day. Surely by this one. After all those centuries in a crypt, however, a mere trace of DNA was all that could be extracted from Columbus’s bones, and Dr. Lorente has said he is loath to use it indiscriminately.
To make things even tougher, he has found that Catalonian Coloms and Genoese Colombos are so closely related it is hard to distinguish them with the standard Y-chromosome tests. So he is searching for more subtle differences that would allow him to link Columbus to a single lineage.
“My heart,” Mr. Albardaner said, “will not endure so many delays.”
Others have accused Dr. Lorente of nationalist bias, of covering up results that suggest Columbus was a Jew and of withholding a historical treasure from the Western world.
“Will Lorente continue to hide what the scientists know concerning Columbus’s DNA?” asked Peter Dickson, a retired C.I.A. analyst whose self-published book on Columbus argues that he was part French, part Italian, part Spanish and part Jewish, in an e-mail message to fellow Columbus buffs. “Will he remain silent on Columbus Day once again?”
Dr. Lorente says he will. And in the absence of data, rumors are flying.
Olga Rickards, a Lorente collaborator at Tor Vergata University in Rome, has been quoted as saying that she “wouldn’t bet on Columbus being Spanish.” A graduate student of Dr. Lorente’s who had studied the Colombo DNA led Italian newspapers to believe Columbus was from Lombardy, north of Genoa, although she had apparently never seen Columbus’s DNA. And Nito Verdera, a journalist from the Balearic island of Ibiza, who says the explorer was a Catalan-speaking Ibizan crypto-Jew, cited leaks from Dr. Lorente’s team that link Columbus to North Africa.
“I’m very sorry about the great expectation among some historians that they all want the DNA to confirm their hypothesis,” Dr. Lorente said. “But science needs its time and has its pace.”
If Columbus was an adopted name, as some scholars believe, tests of Coloms and Colombos will have been in vain. Moreover, with dozens of generations separating all those Coloms, Colombos, princes and counts from Columbus’s time, a long-hidden adulterous liaison could have severed the Y-chromosome-and-surname link.
Even with a match questions will remain. What if Coloms moved to Genoa or Colombos to Barcelona? Today’s distinct regional identities may not be reflected in the genetic code of the earlier era.
Mr. Albardaner still brings Columbus novices to the Historic Archive of Protocols in Barcelona, where they can hold a yellowed note from the 15th century filled with the calligraphic scrawl of the man he believes stumbled upon the Caribbean while looking for a western route to India.
He is less sure now that there will be a precise answer to who Columbus was or where he was from, but he is still hoping it will come from the DNA.
“Maybe it will say he’s from Catalonia. Maybe it will be a complete lockout. Maybe we find his DNA is completely dissimilar to any known DNA, he comes from Mars, well, perfect, O.K.”
“Then,” he said, “I stop.”

Peter Kiefer contributed reporting from Rome.
Published: October 8, 2007.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Filipa Moniz - conclusões após a leitura dum documento



TT, Convento de Santos-o-Novo, Doc. 477.
Convento de Santos[-o-Velho], 4-1-1475
Emprazamento em três vidas de terras de pão e herdades do convento de Santos-o-Velho a Álvaro Lopes por 550 reais anuais e 2 galinhas[1].




Edição Paleográfica – Excertos


+


Em nome de Deos aamem Saibham os que este estromento d’enprazamento virem que no ano do nacimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e sat[an]ta, e çinquo annos quatro dias do mes de Janeiro no moeesteiro de Santos setuado a çerca da çidade de Lixboa, na cassa do cabido estando hi a m[ui]to honrrada, relegiossa, senhora dona Briatriz de Menesses comendadeira do dito moeesteiro e Graçia Estevez Lianor Correa Catarina Rodriguez Sussana Pereira, Catarina de Valadares dona Lianor de Menesses Filipa Monniz Johana da Silva Johana de Lordello Briatriz de Gooes e Catarina da Rossa todas donas do dito moeesteiro estando em cabidoo e cabido fazendo chamadas a elle per soo de canpa tangida segundo seu bõo custume espeçiallmente pera este auto que se adiante segue loguo per a dita Senhora Comendadeira e donas foy dito que he verdade que o dito moeesteiro tem em Campolide (...[descrição das terras, da outra parte e das condições]) E a dita Senhora, e donas prometeram e se obrigaram de lhe manterem este contrauto (...[cláusulas e protocolo finais, incluindo a identificação das testemunhas]).




Transcrição revista por F.V.F.
O ano do documento oferece dúvidas de transcrição. Sendo claramente 1475 (qualquer incerteza se desfaz lendo a primeira sílaba (ssa) ainda na primeira linha), a grafia de setenta não é de todo óbvia por a segunda sílaba se sobrepor ao E capitular no início do documento, podendo ser teen, tan, tem. A última sílaba não permite qualquer hesitação.
«Muito honrrada», a palavra muito, estando abreviada e com o texto ligeiramente manchado, não permitindo contudo qualquer incerteza quanto ao significado, deixa ligeira dúvida quanto à transcrição a adoptar: muyto ou muito.
A transcrição do nome Beatriz, que ocorre duas vezes, é a que deixa mais dúvidas: Para além da forma adoptada com boas razões, também pode ser Bratriz, Byatriz ou Breatriz.
«Rossa», acaba por não oferecer dúvidas quando se compara com o rr da abreviatura de Rodrigues.
«Catarina», nome grafado duas vezes, aparece sempre sob a forma abreviada, pelo que se optou por desenvolver pela grafia mais simples.


Donas:
Beatriz de Meneses (religiosa, senhora, comendadeira)
Leonor de Meneses

Não-donas:
Grácia Esteves
Leonor Correia
Catarina Rodrigues
Susana Pereira
Catarina de Valadares
Filipa Moniz
Joana da Silva
Joana de Lordelo
Beatriz de Góis
Catarina Rosa.


Só D. Beatriz de Meneses é referida como religiosa, termo que aparece no singular e só aplicado a ela. Do mesmo modo, também só esta é referida como comendadeira e senhora.
Distingue-se claramente entre a Senhora e todas as outras mulheres designadas genericamente como donas e que não são referidas como religiosas ou comendadeiras.
A designação genérica de donas não significa que todas elas o sejam verdadeiramente e de direito, já que só duas delas são claramente distinguidas pelo título que de direito mereceriam individualmente, confirmando assim que as restantes não o têm.
A Filipa Moniz aqui referenciada não é dona.
Por este documento não se sabe quem é Filipa Moniz – tal como não se sabe quem são todas as outras – e a homonímia é dos maiores problemas que se colocam no estudo deste período e mesmo de posteriores.
Sendo esta Filipa Moniz a mulher que casou com Cristóvão Colombo não é dona.
Para avaliar a relativa importância social de(sta) Filipa Moniz é de ver com quem casaram as outras mulheres aqui referidas – mas mesmo isso não parece que venha a dar resultados muito relevantes.
Para avaliar o real significado de donas e de comendadeira neste contexto é de comparar este contrato com outros do mesmo género, desta e de outras instituições femininas – muito trabalhoso mas dará resultados muito interessantes.


[1] Agradece-se a Manuel Rosa a indicação da referência arquivística deste documento.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Filipa Moniz - especulação em torno dum fragmento

O documento que tem estado em causa nos últimos tempos, sendo apresentado como um fragmento sem qualquer referência arquivística esconde o sentido integral do seu conteúdo. Como tal não permite a sua total compreensão e nesta forma o seu valor é completamente nulo.
No entanto, tendo-o por base, vou-me permitir algumas especulações.


Neste fragmento consta uma data muito interessante e poderá lançar por terra alguma da pseudo-história que tem sido apresentada como história.
Logo na segunda linha apresenta a expressão cuja grafia actualizada reza o seguinte: «trinta e cinco anos quatro dias do mês de Janeiro», pelo que se presume terem-se reunido a partes deste contrato no dia 4 de Janeiro de 1435.
  • Filipa Moniz, esposa de Cristóvão Colombo, foi mãe de Diogo Colombo, em 1475, 1476, 1479 ou 1480 – os autores variam sobre esta data.
  • Presumindo que o acto referenciado no documento é no ano 1435 (pois em 1535 Filipa Moniz estava morta e enterrada há muito tempo) vão deste ano a 1475 quarenta anos, ou 45 anos se se considerar o ano de 1480.
  • Para Filipa Moniz, mulher de Cristóvão Colombo, participar ou ser referida num acto notarial deste género deverá estar já na idade da razão, digamos 15 anos, pelo que em 1475 terá 55 anos de idade e em 1480 já será sexagenária, mas mesmo que tenha só 10 anos de idade, é fácil de fazer as contas…
  • Qual a idade limite da fertilidade feminina no século XV?
  • Cristóvão Colombo, da mais alta nobreza bastarda, se não mesmo bastardo da realeza, não arranjou esposa mais jovem para casar?
  • Casaria Cristóvão Colombo com uma mulher, quiçá, trinta anos mais velha?



    Adenda (12-9-2007):
    Já que Manuel Rosa resolveu tornar pública a existência dum documento que alegadamente resolve as dúvidas existentes sobre Filipa Moniz, pede-se aqui publicamente que dê a referência arquivística do dito de modo a proceder-se à verificação do mesmo. Pois só as provas verificáveis são admissíveis na ciência.

    segunda-feira, 10 de setembro de 2007

    O “antes de ser já o era”


    Gosto das coisas simples e claras.
    Como é que Filipa Moniz pode ser dona?
    O título de dona pode ser recebido por doação régia, por inerência de cargo, por via paterna ou por casamento - passo à frente outras hipóteses.
    Não conheço nenhum instrumento de doação régia ou de atribuição de cargo a Filipa Moniz. Restam-nos assim as duas últimas possibilidades: em que aquela recebeu o título de dona por ser filha dos Perestrelos ou por ser casada com Colombo.
    Os Perestrelos receberam o título de dom em 1522 e Colombo recebeu o mesmo título dos Reis Católicos depois de voltar das Antilhas quando já era viúvo e tinha reconstituído a família.
    Filipa Moniz só se tornaria dona se estivesse viva na altura em que o marido se tornou dom ou na altura da aplicação do instrumento do título de dom aos Perestrelo. Só com muito boa vontade e largueza de interpretação jurídica se pode considerar que o título de dom concedido aos familiares de Filipa se lhe aplicaria depois de décadas no túmulo.
    O filho de Colombo ao dizer que Filipa era dona só revela a sua parcialidade e vontade de ilustrar a família. Claro que lhe convinha que Filipa fosse da mais alta nobreza, contudo o que se sabe é que os Perestrelo eram originários da burguesia - e este grupo pertence à ordem do povo, ao mais alto estrato do povo, mas do povo.
    Os Perestrelos ascenderam à nobreza no início do século XV, mas até lá eram burgueses com privilégios régios. Trata-se dum caso de ascensão social em relativamente poucas gerações. O mesmo se passa em relação a Colombo: um agente comercial de firmas italianas que mais tarde resolve ir em busca da Índia por ocidente e se torna almirante com títulos régios de nobreza.
    Entre o testemunho de Fernando e o instrumento de emprazamento é de valorizar o segundo pois é o mais imparcial do ponto de vista da crítica histórica no que se refere à não intitulação de dona por Filipa Moniz. Neste último documento não há qualquer intenção ou motivo para alterar a realidade social. No emprazamento o escrivão mencionou sempre quem eram as outras senhoras envolvidas e quem de facto era dona.
    De qualquer forma, Filipa Moniz, não é como a pescada que antes de ser já o era.

    Filipa Moniz (bis)

    Neste texto de há 50 anos (portanto não coevo) está escrito com todas as letras dona Filipa Moniz.


    Se mais dúvidas houvesse acabavam aqui.




    Mas o nome que consta deste fragmento de documento pode não ser o da mulher de Cristóvão Colombo, e assim sendo este instrumento deverá ser descartado do baralho colombófilo.


    sexta-feira, 7 de setembro de 2007

    Filipa Moniz


    Nesta página apresentam-se seis linhas truncadas dum instrumento de emprazamento sem referência arquivística dizendo-se ser o único documento conhecido relacionando Filipa Moniz com o mosteiro de Santos.
    De facto nessas linhas consta o nome duma Filipa Moniz, mas não o duma Dona Filipa Moniz como tem sido afirmado ser o nome e título da primeira esposa do almirante das Índias.
    Não se pode invocar tratar-se dum lapso do escrivão já que este, aparentemente, escreve primeiro o nome das mulheres com o título de dona e só depois os das que o não têm.
    Este facto até pode ajudar os seguidores do programa pseudo-histórico, já que a ser esta Filipa Moniz a filha de Bartolomeu Perestrelo não deveria ter o título de dona, pois seu pai também o não tinha.


    E mais aqui não se diz por falta de dados.

    sexta-feira, 31 de agosto de 2007

    Cristóvão Colombo: O Enigma – Manoel de Oliveira

    O realizador de cinema Manoel de Oliveira vai estrear o seu novo filme no festival de Veneza.
    A última obra do decano do cinema mundial chama-se Cristóvão Colombo – O Enigma e baseia-se no livro de Luciano da Silva e de Sílvia Jorge, Cristóvão Cólon era Português; a sua exibição será extraconcurso.
    Normalmente um romance ou um filme histórico não me merece qualquer comentário público, já que ninguém minimamente bem formado toma isso por História tal como noutras obras de ficção ninguém no seu perfeito juízo questiona a existência de fadas, elfos ou orcs.
    O próprio realizador diz que «Não se trata de um filme científico ou histórico, nem de carácter propriamente biográfico, mas sim de uma ficção de teor romanesco, evocativa da grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos».
    Assim vejo-me forçado a concordar com a primeira parte do que Manoel de Oliveira diz, mas sinto-me triste pela escolha da figura para invocar a «grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos». Cristóvão Colombo só é grande porque se enganou redondamente e pelo caminho encontrou um continente onde por um acaso da História se localiza hoje a maior potência económica do mundo e como tal é um bom mercado para o seu filme, mesmo que ele não venha a ser um blockbuster.
    Querendo evocar a épica dos descobrimentos poderia escolher inúmeros outros navegadores desde o mais famoso Vasco da Gama até aos menos vistosos Gil Eanes, Bartolomeu Dias ou até uma ficção em torno de Duarte Pacheco Pereira (ou uma figura inventada) e a exploração das correntes e ventos do Atlântico Sul, um feito de génio como nunca até aí levado a cabo pela humanidade.
    Mas se quisesse ser politicamente incorrecto – o que também é uma boa fórmula para o sucesso de bilheteira – poderia pegar em figuras como D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque ou até, de novo, Duarte Pacheco Pereira a sustentar o cerco de Cochim.
    Agora uma coisa garanto, não sou eu que vou gastar do meu bolso para ver um filme baseado numa tese fraudulenta sobre uma figura menor inventada para satisfazer egos mal alinhavados.

    sexta-feira, 3 de agosto de 2007

    Arqueologia e Aparelho do Navio - Curso Livre


    Curso Livre


    Arqueologia e Aparelho do Navio



    O curso fornecerá uma panorâmica alargada sobre a história e a arqueologia do navio em madeira, prestando especial atenção à experiência portuguesa de construção naval.
    Aulas de natureza prática permitirão uma maior familiarização com o aparelho do navio antigo.


    Docentes:
    Adolfo Silveira Martins - António Teixeira - Tiago Fraga


    14 a 21 Setembro 2007
    18.30 - 22.00
    25 horas


    Organização:
    CEmar – Universidade Autónoma de Lisboa
    Câmara Municipal de Lagos


    Local:
    Edifício da Janela Manuelina - Lagos



    130 €

    25 vagas


    Inscrições:
    282767818
    rui.loureiro@cm-lagos.pt

    quarta-feira, 1 de agosto de 2007

    A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (6)

    FLORENTINO, Nicolau; A Mulher de Colombo, Lisboa, Pap. e Tipografia Guedes, 1892, pp. 63 e 65.


    Genealogia de Cristóvão Colombo



    Genealogia das famílias Moniz e Perestrelo

    sexta-feira, 29 de junho de 2007

    A Assinatura de Colombo - Moses B. Amzalak

    (imagem retirada e adaptada de CIL)


    AMZALAK, Moses Bensabat, Uma interpretação da Assinatura de Cristovam Colombo, Lisboa, s. n., 1927, pp. 19-23.


    Excerto da análise da assinatura


    Depois de termos focado estes dois problemas interessantes da vida de Colombo, o da sua natalidade e o da sua psicologia, vejamos aquele que constitui o objecto da presente monografia: a assinatura de Colombo.
    Reproduzimos a seguir alguns fac-similes da sua assinatura:


    A



    B

    C



    As assinaturas A e B encontram-se documentos anteriores a 1492.
    A assinatura C é usada depois da descoberta da América.
    Analisando as duas assinaturas B e C encontramos como elemento comum as letras


    S
    S A S
    X M Y


    havendo apenas diferença na assinatura propriamente dita; na primeira encontramos XPO FERENS e na segunda apenas EL ALMIRANTE.
    A assinatura B misto de grego e latim põe em evidência o nome de Cristo. Seria uma defesa de cristão-novo contra perseguições inquisitoriais? Mais tarde após a sua viagem de descobertas elimina o nome de Cristoferens substituindo-o pelo de El Almirante. Será licito formular a hipótese de uma reacção religiosa que levaria Colombo a abandonar a primeira assinatura em que tanto fez ressaltar o nome de Cristo?
    Tratemos porém das enigmáticas letras que precedem a assinatura de Colombo. Analisemos o triângulo com a letra S nos seus vértices tendo dentro a letra A.
    Os judeus chamam a Deus: Adonai אדוני palavra esta cuja primeira letra é alef א que corresponde ao nosso A.
    No livro do profeta Isaías (Cap. VI, 3) encontra-se a seguinte frase: «Santo Santo Santo: Deus dos exércitos».

    קדוש קדוש קדוש ה צבאות

    Esta frase é muito empregada nas orações hebraicas. A frase Deus dos exércitos diz-se em hebraico Adonai Sebaót.
    Supondo que a letra A que está dentro do triângulo é Adonai = Deus e que cada um dos três S é a primeira letra da palavra Santo teremos: Deus santo, santo santo, ou Deus santíssimo.
    Se considerarmos que o S se refere à palavra hebraica Sebaót teremos Deus dos exércitos.
    Vejamos agora como interpretar as letras X M Y.
    A letra X tem como sua correspondente em hebraico a letra chin ש, A letra M é a letra hebraica méme מ; e a letra Y pelo seu feitio e ainda por alguns dos seus empregos tem como correspondente a letra áin ע.
    Como o hebraico se escreve da direita para a esquerda colocando nessa ordem as letras X M Y teremos:

    Y M X
    ש מ ע
    A palavra שמע ou Chemá quer dizer Ouve e constitui a primeira palavra da frase do versículo 4 do capítulo VI do Deuteronómio e que diz: «Ouve Israel o senhor é nosso Deus, o Senhor é Único».
    É na Bíblia um dos pilares do monoteísmo e constitui o início de uma das mais conhecidas orações hebraicas, que segundo o respectivo ritual se recita três vezes por dia.
    Vulgarmente entre os judeus essa oração é conhecida só pelo nome de Chémá.

    Resumindo, se nas letras Colombo segundo a nossa interpretação quis dizer Deus dos exércitos ou Deus santíssimo, na parte final X M Y quis dizer: Deus único.
    Deste modo a interpretação que propomos para as letras que antecedem o nome de Colombo é: Deus dos exércitos e único, ou Deus santíssimo e único.

    quarta-feira, 27 de junho de 2007

    O pretenso mapa português de 1419

    A Pseudo-História e outras fraudes ligadas à história existem em todas as áreas e sobre todos os momentos do passado humano. No entanto, incidem especialmente sobre factos de conjuntural relevância mediática ou política quando tais actos são passíveis de gerar maior notoriedade e retorno financeiro para os seus autores.
    Depois de 1421 O ano em que a China Descobriu o Mundo, depois do Mapa de 1418, aparece agora o Mapa de 1419.

    Por ser matéria correlacionada com a temática deste local, e com a devida licença, publicamos aqui uma notícia dada por Vasco Gil Mantas no grupo de discussão Archport. O nosso obrigado.


    (Imagem: Pretensa cópia Setecentista do Pretenso Mapa Chinês de 1418. Infelizmente não consegui encontar nenhuma imagem do Pretenso Mapa Português de 1419 que alegadamente é influenciado pelo de «1418».)

    Foi anunciada, com pompa e circunstância (que Elgar me perdoe!...) a descoberta em Pequim de um mapa pretensamente datado de 1418 com a representação do continente americano. A imagem do mesmo corresponde, seguramente a um planisfério do século XVIII. Estamos perante mais uma sequela do famigerado livro de Gavin Menzies, que agora é um dos fervorosos defensores da autenticidade do mapa. Para complicar mais as coisas, Menzies fala de um mapa português de 1419 que representa parte do continente americano (a Califórnia!!!), mas como uma ilha. A que mapa se refere o escritor inglês? E que ilha é esta? A mítica S. Brandão?
    Esta pretensa e bombástica descoberta numa colecção privada teve já uma reacção vigorosa de Sally Church, da Universidade de Cambridge, e de Geoff Wade, professor na Universidade de Singapura, que considera, indiscutivelmente, tratar-se de um mapa moderno, de uma evidente falsificação.
    O mundo da investigação histórica e arqueológica está infiltrado por free lancers da aldrabice que encontram num público cada vez mais acrítico popularidade e êxito, conseguindo por isso os meios que tão dramaticamente faltam aos que pretendem prosseguir investigações científicas.
    Espero que os especialistas portugueses se pronunciem atempadamente sobre este mapa.
    Afinal, temos ou não o direito de falar sobre cartografia e explorações marítimas?
    Cordiais cumprimentos

    Vasco Gil Mantas (FLUC/ Academia de Marinha)

    terça-feira, 19 de junho de 2007

    Histórias da Náutica - 2º Curso de Verão

    2º CURSO DE VERÃO

    Histórias da Náutica



    Lagos / Algarve
    Junho / Julho 2007
    Biblioteca Municipal Dr. Júlio Dantas
    Organização: Câmara Municipal de Lagos
    Secretariado: Tiago Fraga
    Inscrições: 282767818 / rui.loureiro@cm-lagos.pt

    Sextas-feiras / 21.30H
    22 Junho
    Rui Manuel Loureiro DPMCD - Câmara Municipal de Lagos
    Abertura - Histórias da Náutica


    António Teixeira CEMAR - Universidade Autónoma de Lisboa
    A Arquitectura do Navio: Vocabulário Náutico Essencial

    29 Junho
    Filipe Vieira de Castro INA - Texas A & M University
    Nossa Senhora dos Mártires:
    Reconstrução de uma Nau da Índia do Século XVII


    6 Julho
    José António Rodrigues Pereira - Museu de Marinha
    A Marinha Portuguesa nos Finais do Século XVIII

    13 Julho
    Carlos Carvalho - Investigador
    Embarcações Tradicionais Portuguesas

    20 Julho
    Francisco Alves SANS - IGESPAR
    Problemas Etno-arqueológicos Relacionados com o
    Património Cultural Subaquático Português


    27 Julho
    Adolfo Silveira Martins CEMAR - Universidade Autónoma de Lisboa
    O Navio e o Mar: Séculos XIV a XVI

    quinta-feira, 14 de junho de 2007

    Luís de Albuquerque


    Anfiteatro da Sociedade de Geografia de Lisboa
    18 de Junho de 2007 pelas 18.00 horas
    Sessão de homenagem dos 90 anos do nascimento de
    Luís Guilherme Mendonça de Albuquerque
    Usarão da palavra
    Inácio José Guerreiro
    Francisco Contente Domingues
    Introdução a cargo de Rui Pinto, Presidente da Secção de História


    Rua das Portas de Santo Antão, 100
    1150-269 Lisboa
    Telefone: 21 3425401/5068
    Fax: 21 3464553
    Correio electrónico: msoc.geografia.lisboa@clix.pt



    Adenda: Invocação de Luís de Albuquerque no De Rerum Natura

    sexta-feira, 25 de maio de 2007

    A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (5)

    FLORENTINO, Nicolau; A Mulher de Colombo, Lisboa, Pap. e Tipografia Guedes, 1892, pp. 49-59.


    Texto Integral




    IV
    D. ISABEL MONIZ, TUTORA DE SEUS FILHOS.
    A VENDA DE PORTO SANTO A PEDRO CORREIA. — UMA QUESTÃO DE FAMÍLIA.
    A VINDA DE CRISTÓVÃO COLOMBO PARA A MADEIRA.
    ÉPOCA DO SEU NASCIMENTO; SUA ORIGEM E A NATURALIDADE.
    CASAMENTO DE COLOMBO E DE D. FILIPA MONIZ DE MELO.
    A VIDA OBSCURA DOS DOIS CÔNJUGES.
    NASCIMENTO DO SEU ÚNICO FILHO E MORTE DE D. FILIPA.



    URPREENDIDA pela viuvez, D. Isabel Moniz pouco tempo vacilou entre as recordações de seu marido, que a prendiam a Porto Santo, e a impossibilidade de continuar a viver na capitania, tendo de prover a sua subsistência e das duas crianças que lhe ficaram, por um trabalho de administração imensamente superior às suas forças de mulher, e que tão caro custara ao infeliz Bartolomeu.
    O filho mais velho, que tinha o mesmo nome do pai, contava apenas sete anos de idade e a irmãzinha Filipa menos dois do que ele. Verdade é que para a administração da capitania durante a menoridade do herdeiro, o 2.° Bartolomeu, fôra D. Isabel nomeada tutora conjuntamente com seu irmão Diogo Gil Moniz; mas este preocupado com os negócios da sua casa, que o obrigavam a uma vida errante, pouco tempo dispunha para assistir às exigências duma tutoria, que não podia dispensar a presença enérgica dum homem.
    Nestas circunstâncias imperiosas, D. Isabel Moniz deixou Porto Santo e recolheu-se com seus filhos ao Machico, instalando-se em casa de seu pai Vasco Martins Moniz, sempre extremoso para com a filha durante a vida do marido e agasalhando-a depois na viuvez, a ela e aos netos, com os recursos da sua fortuna e os tesouros do seu coração amantíssimo.
    Se até ali a exploração de Porto Santo não se recomendava pelas seus lucros, tendo aliás à sua frente um homem do temperamento nervoso de Bartolomeu Perestrelo, faltando ele ou quem o substituísse pelo menos com metade do afã e ousadia, dessa época em diante a ilha tornar-se-ia um sorvedouro mais improdutivo de cuidados e de dinheiro.
    Temendo estes resultados negativos que, sobre o gravâme da situação económica do casal, far-se-iam sentir no futuro de seu filho, D. Isabel combinou com o outro tutor vender-se a capitania a Pedro Correia da Cunha, cunhado do menor, pois que, como vimos, era casado com D. Izeu Perestrelo, filha do segundo matrimónio de Bartolomeu.
    O preço desta transacção diz-se ser de 300$000 réis em dinheiro de contado, pago por uma vez, e réis 30$000 de juro cada ano. Por outro lado o infante D. Henrique, confirmando o acto da venda por carta de 17 de Maio de 1458, fala de uma tença de 10$000 réis.
    «... a dita ilha cuja jurdiçom he minha, a meu prazimento se convieram e trautaram por parte do dito moço com Pero Correa fidalgo da minha casa, o mostrador desta, em tal maneyra que a dito Pero Correa leixou ao dito moço dez mil réis, que de mim avía cada hum anno de tença por seu casamento por mil dobras a rezom de cento e vinte réis por dobra segundo hordenaçom do reyno».
    D. Afonso V, ratificou a carta de seu tio em 17 de Agosto de 1459.
    Livre de cuidados pelo trespasse da capitania de Porto Santo, D. Isabel Moniz, que teria então pouco mais de vinte e cinco anos de idade, fugiu a novas afeições e dedicou-se exclusivamente ao amor e educação de seus filhos. Para isso deviam-lhe ter valido de muito os elementos de que dispunha na casa paterna, onde se encontrava o que havia de mais distinto na carreira das armas a par de homens de muito sofrível cabedal literário para aquele tempo.
    Criado neste meio poderosamente educativo o pequeno Bartolomeu revelou bem cedo a sua coragem e inclinação pela vida militar, partindo para as guerras que continuamente trazíamos na África, ora por ambição de novas conquistas, ora por necessidade de manter contra as sublevações locais os domínios conquistados.
    Ainda que as posses de D. Isabel Moniz fossem pouco folgadas, envidou todos os sacrifícios para que nada faltasse ao filho nas incertezas da fortuna que ia procurar, e ele se apresentasse armado e equipado, incluindo outros acessórios mais ou menos dispendiosos de representação, pelos quais era costume aquilatar-se a procedência fidalga e opulenta dos mancebos que iam servir a pátria e o rei.
    Bartolomeu Perestrelo veio à corte, escudado pelas relações influentes de Vasco Moniz, seu avô e pela memória simpática de seu pai, embarcando aqui numa armada prestes a fazer-se de vela para Larache, quando ele chegou a Lisboa. ([1])
    Voltando à Madeira depois de cinco anos de ausência, aproximadamente, e instigado por seu cunhado Mem Rodrigues de Vasconcelos, promoveu uma demanda a Pedro Correia para anulação do contracto de venda de Porto Santo, feita por sua mãe e por seu tio Diogo Moniz. Mercê dos meios eficazes empregados por Mem Rodrigues a causa foi julgada a favor de Bartolomeu, e este reintegrado na posse da capitania por despacho de 15 de Março de 1473, devendo com os rendimentos da ilha embolsar o cunhado das importâncias dele havidas até então, conforme o estipulado no respectivo contrato. ([2])
    D. Isabel Moniz devia com razão ficar contrariada e sentida por este acto repentino e um tanto excepcional de seu filho, que, esquecendo os sacrifícios maternais para se deixar levar pelas sugestões vingativas de Mem Rodrigues contra Pedro Correia, em vez do abraço filial suspirado com o seu regresso, reprovava-lhe tão formalmente os actos da sua tutoria.
    Da mesma maneira que D. Isabel, muitas viúvas, lutando com falta de meios e com outras dificuldades para a administração de senhorios herdados por filhos menores, trespassavam a propriedade a troco de benefícios mais ou menos equivalentes e que, quando lhes não permitissem um desafogo económico, eram líquidos de despesas de custeio, de trabalhos e consumições para arrecadarem as rendas. Mesmo em casos especiais que conhecemos, e nos quais a importância das transacções representava apenas bom negócio para o comprador ou era desviado do seu fim legítimo, o primeiro passo dos filhos, chagados à maioridade, era declarar a sua conformação com os actos da tutoria e pedir ao rei que os validasse, prevenindo assim quaisquer reclamações dos futuros herdeiros.
    Por isso avaliamos bem o grande desgosto de D. Isabel Moniz, como as altas pressões que determinaram D. Afonso V a reconsiderar em 1473 sobre o seu acto de confirmação de 1459.
    Separado Bartolomeu Perestrelo menos amorosamente de sua mãe, ficou esta com uma única compensação aos pertinazes dissabores da sua vida. Restava-lhe sua filha D. Filipa, cujo carinho lhe mitigara as saudades do filho à aventura em África; e com ela se encontrava outra vez a sós nesta mesquinha intriga de família.
    Teria então D. Filipa Moniz de Melo de vinte a vinte e um anos, não lhe passando talvez pelos devaneios dourados dessa idade o pensamento de vir a ser a preferida do coração de um homem, a quem os destinos reservavam uma importância histórica e um nome universal, que ele também, por certo, estava longe até de fantasiar na obscuridade profissional dos seus primeiros anos.
    Referimo-nos a Cristóvão Colombo, que em 1474 veio para a Madeira ([3]) trazido na grande corrente de patrícios seus — os Spinolas, Cezares, Uzadamari, Cataneos Salvagos, Lomellinos, Dorias, Grimaldi, etc., etc., corrente derivada, sobre tudo, durante o meado e o declínio do século XV das costas da Itália para aquele arquipélago, e daqui para o continente.
    Como eles, Colombo vinha em busca de fortuna a Portugal, de cuja atracção sobre os povos da Europa já nos ocupámos mais atrás com a possível particularidade. Oriundo de uma família operária, que teve por berço o vale de Fontanabuona, confins de Génova, o festejado navegador nasceu perto da cidade deste nome, onde seu pai Domenico Colombo tinha já fixado residência em 1430, exercendo o mister de tecelão de lãs (lanerio) que foi o meio de vida de quase todos os membros desta família, incluindo o próprio Cristóvão Colombo antes de partir para Portugal. ([4])
    Revezes económicos ou a necessidade de arranjar o pecúlio indispensável para a viagem de seu filho, ou conjuntamente os dois motivos, obrigaram Domenico a vender em 1473 um ou dois prédios de casas que tinha em Génova, achando-se nesse ano com sua família em Savona, onde Cristóvão figura pela última vez como testemunha num acto judicial de 7 de Agosto daquele mesmo ano.
    Ao tempo da sua vinda contava ele trinta e oito ou vinte e oito anos de idade, se aceitarmos dum lado a afirmação de André Bernaldes de que Colombo, seu amigo e hóspede, na época do seu falecimento, 1506, contava setenta anos, ou se do outro nos ativermos mais confiadamente a investigações modernas, que dão o almirante nascido em 1446.
    Aportado à Madeira, o ousado genovês tratou logo de se relacionar com as famílias importantes do arquipélago, utilizando a camaradagem dos seus outros conterrâneos já ali estabelecidos e insinuando-se pelo seu todo simpático, pela sua linguagem fluente em que muitos viram provas de ilustração, e, finalmente, pela conhecida predisposição fraternal para com os imigrantes italianos, que haviam provado bem, quer no granjeio da vida, pelo que tocava à benevolência dos chefes de família, quer nas aventuras amorosas e formosíssimos produtos de cruzamento, quanto às raparigas, que viam com desespero a galharda mocidade portuguesa debandar para a África, morrendo por lá solteira, ou voltando branqueada pelas intempéries do oceano e dos combates.
    A própria D. Filipa Moniz de Melo que se diz fôra moça muy lynda sintetizava a casa na aliança dos Monizes e dos Perestrelos, já lotada também com o sangue dos Teixeiras; e este esbocêto rápido, incidental, de D. Filipa feito por um genealogista, revela-nos um casamento de simples afeição com Cristóvão Colombo.
    A despeito do muito que procuramos, não vimos sequer uma referência clara a dote que ela houvesse recebido, ou a bens herdados de seu pai. E o que podia o velho Bartolomeu ter-lhe deixado, ele que enterrou tudo em Porto Santo? A mãe, D. Isabel Moniz viu-se impelida a abrigar-se na casa paterna para criar e educar convenientemente os dois órfãos; o avô, o velho Vasco Moniz, apesar de muito rico tinha nada menos do que dezasseis filhos, os bastantes para torná-lo pobre; por fim, o cofre real também, ao que averiguamos, não se abriu para animar o futuro daquele enlace tão simpático.
    É possível, porém, que nalgum recesso, a que não pudemos chegar, se encontrem dados que modifiquem a nossa opinião. Se vierem a aparecer, é menos uma impressão triste que nos causa o viver doméstico de D. Filipa Moniz e de seu marido.
    Por outra parte, o que trouxe Cristóvão Colombo de Génova? Se alguma coisa lhe coube no produto da venda feita pelo pai nas vésperas da sua partida, pouco lhe podia sobejar das despesas de viagem para se manter nos primeiros tempos até que a fortuna lhe sorrisse ou encarreirasse num meio de vida qualquer. E o caso é que ele devia ter mourejado, já para se sustentar em solteiro, já para acudir parcamente às exigências indispensáveis do seu lar conjugal. Desenhou cartas de marcar? Abriu casa de venda e hospedaria? Exerceu qualquer outro ramo de actividade, que se venha a conjecturar ou a descobrir? Eis de certo uma questão importante para o estudo de Cristóvão Colombo, descobridor da América; mas de ordem muito secundária para Cristóvão Colombo, marido de D. Filipa Moniz de Melo.
    Na pobreza singela, com que os dois se nos apresentam, vemo-los atraídos por uma afeição mútua, que os laços do matrimónio vieram consagrar em 1475, com todas as probabilidades. ([5]) o acto religioso celebrou-se no Machico e parece que em seguida os dois esposos foram em companhia de D. Isabel viver para o Funchal, residência preferida por Colombo, pois que assim ficava em contacto mais directo com todo o movimento marítimo. ([6])
    Em 1476 nasceu Diogo Colombo, único fruto deste matrimónio, cuja pequena fecundidade tem sido para nós objecto de reparo, atendendo a procedência sadia de Colombo e de D. Filipa e ao que alguns escritores nos deixam entrever a respeito da época do falecimento desta senhora.
    No trabalho genealógico de Pina Loureiro, cujos 28 volumes de original nos têm servido de muito, acabamos de ver confirmada a suspeita de que a morte da mulher de Colombo tem de se aproximar bastante do nascimento de seu filho. Adiante do nome de D. Filipa lê-se a notícia sumária: que pouco viveu depois do nascimento de seu filho. Morreria ela de parto? Gozaria apenas alguns dias ou semanas da ventura inefável de ser mãe?
    Aquela espécie de revelação, que de per si não pode precisar uma época, há um facto da vida de Colombo que se associa com um certo valor lógico para torná-la menos vaga, e o qual também nos havia impressionado. É o da partida do arrojado navegador para as regiões árcticas em 1477.
    Note-se: Colombo casou em 75, nasceu-lhe um filho em 76 e partiu para uma viagem arriscadíssima em 77, sem que a isso a houvessem obrigado quaisquer compromissos notórios ou planos traçados de antemão e amadurecidos. A sucessão rápida dos três factos tem o que quer que seja de misterioso pela precipitação do último. É pouco aceitável tanto ao raciocínio como ao coração que a vida pacífica de Colombo e de D. Filipa, vendo a sua união abençoada e o seu pobre lar em festa pelo nascimento dum filho, fosse no ano seguinte bruscamente perturba da por uma longa separação sem um motivo súbito e imperioso.
    A frase acima transcrita e o facto desta separação um tanto violenta concorrem em estreita harmonia para se fixar a época da morte de D. Filipa entre a do nascimento de seu filho e a da viagem de seu marido aos mares do norte.
    A avó do recém-nascido substituir-lhe-ia a mãe no amor e cuidados, de que a morte o privara aos primeiros sorrisos da infância; o pai, lancinado profundamente no seu coração de esposo apaixonado, tomara uma das resoluções extremas, em que desfecham as grandes crises do sofrimento moral.
    Como quer que fosse, é inegável que D. Filipa morreu muito nova ainda. Mesmo que admitíssemos livremente a hipótese dela haver vivido até às proximidades de 1484, em que Cristóvão Colombo passou ao reino vizinho, não iria além dos 30 anos de idade. Mas inclinamo-nos a crer com o possível fundamento que não teria mais do que vinte e cinco.
    Foi bem cedo para morrer, principalmente quando o futuro reservava nos seus segredos intangíveis dias de glória e de fortuna, em que lhe cabia uma parte para compensá-la das privações padecidas pela desventura pertinaz de seu pai e por amor do homem pobre, como ela, a quem ligou os seus destinos.
    Faleceu D. Filipa Moniz de Melo no Funchal e, segundo se conclui de vários elementos, foi sepultada na sé da mesma cidade. ([7])

    _____________
    [1] Para que as notas não avolumem mais do que o texto, deixamos de referir-nos a muitos documentos curiosos, que serão publicados se viermos a concluir o trabalho, de que extractamos o presente opúsculo. Todavia, como espécimen dos progressos da ciência náutica naquela época, damos na íntegra o parecer acerca do rumo mais curto, que os navios tinham de seguir para Larache.
    «Senhor = eu estyve com os pylotos que em esta cydade estam partycando sobre a nosa hyda do cabo de Santa Maria. Senhor, Larache demora a rota ao sueste e ca-le ao susueste e Azamor imos tomar por o sul bj legoas a borlavento da banda de Anafe e se majs o vosa alteza qyser que a vosa armada va a borlavento sera neçesaryo governarmos hüa syngradura a qarta do sueste e hyremos tomar o cabo do Camelo que som doze legoas de Azamor e qando achegarem a fundo de çem braças reconheceram a terra bem e depoys da terra conhecyda iram por aqele fundo ate sobre Azamor e depois que vyrem Azamor aguardaram mor bonança e bom vento e bõa maree pera irem dentro. — estes pylotos he Joham da Rua — Joham Gonsalvez — Gonsalo Pynto — Antonio d’Oliveira — Symam Lourenço — Gaspar Fernandez = Gaspar Affonso.»
    [2] Não encontrámos provas de Pedro Correia da Cunha haver fixado a sua residência em Porto Santo, durante o tempo da sua capitania, nem tão pouco na ilha Graciosa, de que foi donatário, e para onde alguns escritores dizem que ele partira em 1485. Pelo contrário, o que achamos de mais positivo é que ele viveu na sua quinta da Charneca, termo de Lisboa, onde também faleceu em 1499. Igualmente não vemos justificado o epíteto de aventureiro que se deu a Pedro Correia e a fama de navegador, que lhe atribuíram.
    [3] A época da vinda de Colombo varia segundo diversos escritores de 1470 a l474, prevalecendo este último ano, tanto em vista de muitos factos da sua vida, que não cabem no ponta de vista especial destas notas, como do que em seguida se vai ler.
    [4] Consta de alguns actos onde ele figurou de testemunha com declaração desse ofício.
    [5] Em algumas datas concordamos com o trabalho consciencioso do erudito académico D. José Maria Asensio — Los restos de Cristóval Colon están en la Habana — Sevilha, 1881.
    [6] Porto Santo também disputa a glória de haver sido residência temporária de Cristóvão Colombo. Não atinamos com a causa que o houvesse atraído para ali. A sogra e a mulher estavam desligadas da capitania desde 1458 a 1473 pelo trespasse desta a Pedro Correia, e por certo que depois da sentença, que na última data anulou a favor do filho a venda feita por D. Isabel, esta não lhe iria pedir hospedagem.
    Colombo, mal comparado com o Santo Lenho, apesar das suas colossais proporções históricas, saiu pequeno para as muitas terras, que lhe disputam o berço, a casa e o túmulo.
    [7] A vida de Colombo em Portugal e a de sua família foram sempre romantizadas até pelos únicos que nos podiam fornecer dados mais seguros e verdadeiros para reconstituí-las. Neste caos, porém, vai-se fazendo alguma luz. Dos seus escritos autobiográficos, dos que se atribuem a D. Fernando seu filho bastardo e das declarações de D. Diogo Colombo seu filho legítimo, estão hoje documentalmente contestados vários pontos, o que nos obriga a pôr de reserva aqueles, sobre que a história ainda não pronunciou o seu veredictum.
    A lenda dos seus amores em Lisboa, o falecimento de sua mulher nesta cidade e a sua sepultura numa capela do Carmo, tudo isso fica tão deslocado na engrenagem de épocas, pessoas, lugares e factos averiguados, que não necessita de grandes esforços para cair pela base.
    Ainda diligenciámos ver se os restos mortais de D. Filipa seriam trasladados da Madeira para aquele convento. Não há notícia de tal, apesar dos registos de enterramentos se encontrarem ainda hoje sofrivelmente completos. Daria, pois, talvez origem a essa versão o saber-se da existência da capela de Nossa Senhora da Piedade fundada no Carmo por Gil Aires, casado com D. Leonor Moniz, da ilustre família da sogra de Colombo.


    sexta-feira, 18 de maio de 2007

    A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (4)

    FLORENTINO, Nicolau; A Mulher de Colombo, Lisboa, Pap. e Tipografia Guedes, 1892, pp. 39-48.



    Texto Integral






    III

    A ILHA DE PORTO SANTO E A SUA COLONIZAÇÃO.
    TRABALHOS E SACRIFÍCIOS DO PRIMEIRO DONATÁRIO DESTA ILHA.
    BARTOLOMEU PERESTRELO: SUA VIDA ATRIBULADA, ALIANÇAS MATRIMONIAIS, MORTE PREMATURA E DESCENDÊNCIA QUE DEIXOU.





    EGUNDO a crónica de Azurara, sub­sidiada por outras obras, pouco tem­po se demorou Bartolomeu Perestrelo na ilha de Porto Santo, para cuja colonização ele partira em com­panhia de diversos indivíduos, emba­lados dos mais fagueiros sonhos de fortuna.
    O desengano, que o moço Bartolomeu recebeu, visitando os seus futuros domínios, foi o mesmo em que caíram muitos outros, tanto nas ilhas como no continente, aferindo a largueza da munificência régia apenas pela decantada extensão do território, pelas no­tícias imaginosas da sua fertilidade e pelo nome pom­poso do senhorio. Só conheciam o valor do que haviam impetrado, quando os encargos, a que se comprometeram, ascendendo a verba muito superior ao rendi­mento local, obrigavam-nos a declinar a exploração por parcelas a troco de rendas insignificantes, ou a rela­xá-las ao abandono, de que ainda recentemente se encontravam copiosos vestígios por muitos pontos do país. Mesmo hoje, muita gente quando vê a lista de doações, antigamente havidas pelos que prestavam serviços públicos, e segue o inventário descritivo de cada uma delas, não sabe qual admirar mais — se a liberalidade perdulária do doador, se a fortuna fabulosa do donatário. Entretanto, por livros de receita e despesa, róis e outros documentos da época, e com os meios científicos, de que actualmente dispomos para valorizar essas mercês em relação ao capital de exploração e ao rendimento agrícola e industrial, é fácil conhecer quanto tem de hiperbólicas na maior parte dos casos as concepções dos interesses auferidos por aqueles, cujo trabalho se remunerava com senhorios, capitanias, etc.


    Porto Santo - Zimbralinhos
    (Autor: Marcial Fernandes)

    Levado pela sugestão das apregoadas bondades da ilha descoberta, Bartolomeu não soube o que pediu, talvez ao contrario de Zarco e de Tristão, cuja segunda viagem mais racionalmente se explica pelo propósito de prosseguirem na empresa começada, depois de deitar os colonos em Porto Santo, ou pelo menos, sondarem e reconhecerem aquelas paragens do Atlântico, do que de se enterrarem numa ilha, cuja área e condições geológicas, embora apreciadas de relance, não os deveriam ter seduzido, como se escreveu.
    O descobrimento ([1]) imediato da Madeira, que foi dividida por ambos, e na qual se fixaram como um termo satisfatório das suas excursões marítimas, cujo alvo reconhecido eram as costas da Guiné, ajuda-nos em reflexões diversas das que restritamente nos inspira o texto dos cronistas.
    Bartolomeu não tardou a conhecer, que a imaginação o traíra, e que dera excessivas largas a sua credulidade. O confronto de Porto Santo e da nova ilha encontrada por Zarco e Tristão, incomparavelmente superior à primeira, pelo seu aspecto atraente e pela prometedora valentia da vegetação, acabou de o desanimar. ([2])
    Voltou pois ao reino mais provavelmente depois do encontro da Madeira. A causa desta retirada e simultaneamente da partida dos dois outros companheiros para a segunda ilha, é atribuída a uma praga daninha de coelhos, que se desenvolveu na ilha, por nela soltarem uma coelha com crias, havidas durante a viagem. No ano seguinte, se é que mediou um ano entre a ida e a volta de Bartolomeu, já matarom muy muytos, nom fazendo porem mingua para os estragos, que esmoreciam os colonos, inutilizando-lhes os trabalhos agrícolas.

    Coelho Bravo
    (Oryctolagus Cuniculus Algirus)

    Este extraordinário poder de procriação, diante do qual a zoologia se curva impotente para explicá-lo, a nós, profano na ciência, não nos causa maior assombro. Os nossos antepassados tinham uma ingenuidade de crer, sem ver nem discutir, que, sob o ponto de vista da higiene espiritual, é simplesmente para causar inveja nestes tempos atribulados de malícia e de suspeição.
    A história dos coelhos, que calou piamente no ânimo dessa boa gente, hoje não satisfaz. Melhor e mais verosímil fará que nos descrevessem a ilha de Porto Santo com o seu solo areento, impróprio para muitos géneros de cultura e sobre tudo para a indispensável arborização, a sua falta de água potável, etc. a impressão desagradável, que causaria esse ermo a um rapaz muito novo, costumado à vida da corte e que nem ao menos levara uma companheira, um dos requisitas essenciais ao verdadeiro colono e um anódino contra a nostalgia da pátria, e outras coisas idênticas, que seriam mais aceitáveis e incontroversas, e menos pueris, do que uma praga de coelhos desenvolvida num ano, por uma ninhada ainda de leite.
    Encarada logicamente a questão por aquele lado é que vemos Bartolomeu Perestrelo regressar ao reino e alguns anos depois partir novamente na qualidade de provedor de Porto Santo, onde então com maiores probabilidades se encontravam bastante multiplicados os temíveis roedores.
    Pode ser que para isso ele houvesse reconsiderado em vista de circunstâncias imperiosas, tais como a de uma boa notícia dos trabalhos ali continuados pelos seus companheiros, do proporcionamento de capital humana e monetário mais animadores do que os que levou na sua primeira viagem, e, finalmente, a de ter contraído matrimónio com D. Margarida Martins, tomando em seguida a resolução de tratar do futuro a todo o transe.
    Porto Santo, com a vizinhança da Madeira que começou a prosperar a olhos vistos, tornou-se também mais atraente e acompanhada, encontrando à mão muitos recursos, que as suas ingratas condições locais não proporcionavam desde logo. Nem mesmo pelo decorrer do tempo as transformações e correctivos, por que passaram os domínios de Bartolomeu, graças a um insano trabalho, que o fez baquear bem cedo, e a sacrifícios pecuniários pouco mais do que inúteis, nunca a ilha se extremou por uma linha de autonomia, económica e etnográfica, que provasse os seus suficientes progressos materiais e morais; quanto mais nos primeiros anos da sua colonização.
    A povoação da Madeira não foi, por certo, alheia ao concurso de causas, que determinaram Bartolomeu Perestrelo a sair novamente de Lisboa e a demandar Porto Santo. Uma das provas é a pouca estabilidade, que ele tinha nesta ilha, onde fixara residência, ou, melhor, estabelecera casa.
    Partido para ali com sua primeira mulher, entrevemo-lo não poucas vezes no Machico, no Funchal e no reino, a tratar dos seus interesses locais, desenvolvendo uma actividade prodigiosa em angariar materiais agrícolas, atrair a emigração, proporcionando-lhe os instrumentos do trabalho, e alcançar do cofre real algumas mercês rendosas, que o ajudassem no oneroso custeio da beneficiação de Porto Santo.
    No maior ardor das suas lides, um doloroso acontecimento veio enlutar Bartolomeu Perestrelo, a quem o seu negro horóscopo parecia poupar momentaneamente para surpreende-lo depois mais implacável aos primeiros vislumbres de ventura.
    Por um dos documentos, sobre que estamos a trabalhar, conclui-se que D. Margarida Martins, sua mulher, pouco viveu além 1431. O último vestígio, que possuímos, da vida desta senhora é uma carta de D. João I, de 8 de Junho desse ano, dando a ela e a seu marido umas casas de foro, na Rua Nova, junto à Porta da Erva.
    Deste casamento não houve filhos, que nos conste passando Bartolomeu a segundas núpcias com D. Brites Furtado de Mendonça, da bem conhecida família deste apelido, que também ocupa um lugar distinto na história do arquipélago.
    Do segundo matrimónio conhecem-se três filhas, todas casadas com homens importantes. A primeira D. Catarina Furtado de Mendonça, foi mulher de Mem Rodrigues de Vasconcelos, comendador do Seixo; a segunda, D. Filipa de Mendonça Furtado, desposou-se com João Teixeira, ([3]) filho terceiro de Tristão Vaz, primeiro capitão donatário da jurisdição de Machico; a terceira, D. Izeu Perestrelo, ligou os seus destinos a Pedro Correia da Cunha, ([4]) capitão donatário da ilha Graciosa, e ao qual teremos mais adiante de referirmo-nos.
    Enviuvando segunda vez, Bartolomeu Perestrelo, que ainda estava um homem relativamente novo, passou a terceiras núpcias com D. Isabel Moniz, filha de Vasco Martins Moniz, que a esse tempo vivia em Machico, com toda a sua grande casa, como se viu quando tratámos dos Monizes.
    Esta nova aliança, a mais distinta e directamente vinculada ao nosso fito histórico, revela de certa forma a importância moral de Bartolomeu e a confiança, que inspiravam a seriedade do seu trato e o seu amor ao trabalho. Só quem conhece particularmente pela velha papelada a fidalguia orgulhosa dos Monizes, disputada em aliança pelas melhores casas da Madeira e do continente é que pode avaliar a segurança convicta com que traçamos esta nota biográfica.
    D. Isabel, a julgar pela idade de seus irmãos, teria quando muito 18 anos, ao deixar a casa paterna, onde a rodeavam todas as comodidades possíveis, para seguir com seu marido para a ilha do Porto Santo, sendo-lhe companheira devotada durante os poucos anos que ele ainda viveu.
    Dissemos algures que Bartolomeu não soube o que pedira, nem tão pouco em quanto estipulara o prémio dos seus serviços ao infante D. João. Com o seu génio activo e empreender julgou que transformaria os penhascos e areias de Porto Santo em húmus dum pomar, que lhe desse frutos e sombra na velhice. Enganou-se como tantos outros, que se aniquilaram obscuramente a fecundar alguns retalhos do país, perdidos por esse oceano, sem um dia de gozo na vida nem um pedaço de pão para a orfandade dos filhos.
    Quanta gente não terá ligado a sua memória a ideia típica, corrente, desses feudatários, estatelados ociosamente em rambotins de nababos, acenando com ouro a todas as voluptuosidades, que pode arquitectar uma grande imaginação, servida pelo temperamento mais sensual?
    Infeliz Bartolomeu Perestrelo! Infeliz nas lutas da vida e na maneira pouco respeitosa, por que a história lhe recolheu o nome. A glória de haver encontrado casualmente um monte emerso no meio do mar foi sempre tudo, mesmo em face dum labutar atlético de perto de 30 anos para revolver-lhe as entranhas, corrigi-lo, sangrar-lhe as veias profundas, fecundá-lo com o suor e muitas vezes com o próprio sangue.
    E esta estranha concepção dos meios mais conducentes à glorificação individual exemplifica-se cruamente na sombra histórica do donatário de Porto Santo. Têm-se passado anos de teimosia inútil em deletrear das páginas brumosas dos cronistas uma palavra, uma sílaba, que robusteçam a suposição de que ele foi um dos que atravessaram pela primeira vez as cento e tantas léguas de mar, que vão de Lisboa ao arquipélago da Madeira.
    Para nobilitá-lo, inventou-se que ele veio de Espanha para Portugal em 1428 com a mulher de D. Duarte, e logo abaixo que ele foi companheiro de Zarco e de Tristão no descobrimento de Porto Santo em 1418 (!); quando o que há de mais seguro a respeito da sua nobreza é a justificação feita por seu pai Filippone Palestrello em 1399. Para glorificá-lo como homem do mar chega-se até fantasiar manuscritos que deixou e conselhos que deu a seu genro Cristóvão Colombo, estando provado que ele nunca conheceu o homem, com quem havia de casar a sua filhinha Filipa, que ficou órfã de pai aos 5 anos de idade.
    Em suma, para que Bartolomeu Perestrelo tivesse duas linhas de panegírico, mais apetecido pelos seus sucessores do que por ele, atento o seu viver atribulado, era necessário reconhecê-lo por nobre e principalmente caracterizá-lo como navegador, segundo a moda predominante da época em que viveu.
    Porfiou-se em construir-lhe na areia um pedestal de glórias, ao passo que nem um olhar se deitou para a sua existência cheia de desgostos e trabalhos, e cuja resignação nos primeiros, constância e honradez nos segundos, são títulos muito mais seguros de direito à nossa admiração, do que o feito casual que se procura atribuir-lhe.


    Porto Santo

    Ao donatário de Porto Santo não pertence empunhar a palma de haver descoberto a sua ilha; mas assenta-lhe legitimamente na cabeça o resplendor de mártir do trabalho, uma das consagrações sociais mais valiosas de todos os tempos.
    A morte veio colhê-lo no seu posto, por volta de 1457, tendo ele pouco mais de 50 anos de idade e deixando a família em precárias condições económicas, pois que a sua capitania absorvera-lhe tudo desde os dotes de suas mulheres e benefícios, que por diversas vias alcançou, à própria saúde sem que a tanto capital ali enterrado correspondesse um rendimento sofrível para a manutenção da viúva e de seus dois filhos, Bartolomeu e Filipa, órfãos de pai ainda bem tenra idade.
    Faleceu Bartolomeu Perestrelo na vila da Baleeira, da ilha do Porto Santo, e pelo que se apura de elementos mais fidedignos parece que ficou sepultado na igreja paroquial de Nossa Senhora da Piedade.

    ___________
    [1] Sublinhámos a palavra, porque Azurara conta singelamente, que Tristão e Zarco se passaram do Porto Santo à ilha da Madeira, que se avista em dias claros. Por outro lado, também é de notar que o denso arvoredo, que cobria a última, pela própria respiração vegetal e pela evaporação da humidade sob ele depositada, devia ocasionar prolongadas perturbações atmosféricas, que não permitiriam então avistá-la do Porto Santo, como hoje.
    Barros, mais ilustrado do que Azurara, lembra este fenómeno, sem que na essência do facto do descobrimento haja contradição entre ambos. Pelo contrário, explica-no-lo o primeiro, dizendo que se os vapores às vezes se confundiam com nuvens, outras vezes deixavam suspeitar a terra; suspeita confirmada, sobre tudo, pela posição constante e aparecimento do nevoeiro em ocasião de limpidez nos outros pontos do horizonte.
    Por conseguinte, a simples passagem duma ilha para a outra tem todos os visos de verdadeira; ou a existência da segunda fosse averiguada do Porto Santo, ou apenas deduzida pela observação judiciosa dos fenómenos atmosféricos. Tê-la-iam suspeitado Zarco e Tristão na sua primeira viagem? Não o sabemos.
    O alvoroço da descoberta fê-los voltar logo talvez, como muitos navegadores em casos idênticos, sem ao menos examinarem o achado, que levou saúde e economias ao pobre Bartolomeu, quanto mais perscrutar serenamente o horizonte.
    [2] Parece que na sua primeira viagem Bartolomeu Perestrelo levava já a provedoria de Porto Santo, o que de certa forma o prendia à ilha, desvanecendo-lhe qualquer esperança de vir a compartilhar do novo achado, que Zarco e Tristão trataram logo de dividir entre si, tendo o cuidado de definir então melhor as suas garantias de povoadores da Madeira, do que o fizeram a respeito do Porto Santo.
    Se estas notas comportassem o tratamento mais desenvolvido de pontos secundários, a camaradagem de Tristão e de Zarco com Bartolomeu seria tema para umas poucas de páginas.
    [3] João Teixeira, residente no Machico, foi homem muito conhecido pelas suas proezas de cavaleiro e de grande caçador.
    Fez uma coutada no Caniçal, enriquecendo-a com varias espécies de caça desde a javali a perdiz, e as quais em poucos anos se reproduziram de modo a rivalizá-la com as melhores coutadas do continente. Tanto que D. Manuel o soube, escreveu à câmara do Machico recomendando que conservasse zelosamente a coutada do Caniçal, pois que estava informado da sua importância e de que não havia outra igual nem semelhante onde as pessoas reais pudessem montear e caçar, no caso de algum dia irem à ilha.
    A carta ficou registada nos livros da mesma câmara.
    [4] Pedro Correia da Cunha era filho de Gonçalo Correia, fidalgo abastado no tempo de D. João I e ao qual este monarca, por carta de 22 de Dezembro de 1411, deu em troca da terra de Valadares a da Cunha-a-Velha, donde o filho e os seus descendentes tomaram o apelido de Cunha.