APELIDO Moniz, durante os primeiros anos do seu aparecimento em Portugal, figurou apenas na sua legítima derivação patronímica do valente D. Muninho Viegas, cognominado O Gasco, por ser oriundo da Gasconha. D. Muninho passou a Portugal em tempo de D. Ramiro III, rei de Leão, acompanhado de dois filhos, que não deixaram nome menos glorioso do que seu pai na denodada conquista das terras de Riba-Douro. (
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Com os Monizes coincide a nacionalização dos Guédon, também apelido francês, (
[2]) em Guedes, porque D. Muninho era casado com D. Valida Trocosendes, filha de Trocosendo Guedas, apelido, em que já então degenerara Guédon, em virtude de diversas alianças, sendo D. Trocosendo a origem conhecida, onde vão entroncar-se os Guedes, de Portugal.
O sangue vigoroso d’O Gasco não se circunscreveu, porém, na sua propagação, aos pequenos limites territoriais do nosso país, então ainda embrionário numa parcela de Espanha.
Na vida baralhada dos povos da península, e que continuou sempre assim, mais ou menos caracteristicamente, apesar da raia política, delineada pelo conde D. Henrique, alargada e consolidada pelos seus sucessores, os Monizes, como muitos outros, espalharam-se até aos Pirinéus; e na permuta, através deles estabelecida pelo génio aventureiro da época, iríamos certamente, se necessário fosse, reencontrar na pátria de D. Muninho herdeiros consanguíneos das suas famosas tradições.
Tanto assim, que já no século XII se distinguia o apelido Moniz em Castela, com manifesta radicação genealógica; e o século seguinte fornece-nos, entre outros exemplos de quanto os Monizes sustentaram ali, como em Portugal, a herança moral do seu glorioso progenitor, os de D. Diogo Moniz, mestre da ordem de Santiago em 1306, e de D. Pedro Moniz (
[3]) mestre da ordem de Calatrava e mais tarde da de Santiago, posto, em que morreu valorosamente a 5 de Outubro de 1385 na batalha de Valverde, travada entre o exercito castelhano, por ele comandado e pelo mestre de Alcântara, e o português, que tinha a sua frente o condestável D. Nuno Álvares Pereira.

Não é fácil, porém, reconstituir a sucessão rigorosa dos Monizes desde D. Muninho até fins do século XIV. Nos primeiros tempos da monarquia portuguesa, conservou-se ela sofrivelmente nítida, asseverando mesmo alguns escritores, que Mem Moniz, irmão de Egas Moniz, o Bem-Aventurado, usara já as armas da família desse apelido, que, embora admitido o facto, não perdeu de todo a sua feição patronímica. (
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Os Monizes, talvez um pouco apeados do seu antigo esplendor, desapareceram temporariamente absorvidos em diversas alianças com outras famílias – os Ataídes, os Alvarengas, os Coelhos, etc.; (
[5]) e só na fulgurante alvorada do século XV, é que surgem os primeiros elos duma cadeia genealógica, que nunca mais se solveu, a despeito dos poderosos cruzamentos de sangue, em que entrou, pelo decorrer do tempo. (
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Aparecem-nos par essa época três irmãos do apelido Moniz: Vasco, Garcia e D. Leonor; o primeiro dos quais é o ponto de partida para a sucessão ininterrupta dos Monizes, a que pertence D. Isabel, mulher de Bartolomeu Perestrelo. Retomá-lo-emos na devida altura.

O segundo, que enumeramos, e o último na ordem do nascimento, Garcia Martim Moniz, foi sujeito de grande fidelidade e valor militar. Planeada a expedição a Ceuta, Garcia Moniz distinguiu-se por sua actividade enérgica nos preparativos da empresa, e acompanhou a África o infante D. Henrique, cujos primeiros anos ele guiara com austera solicitude, nunca o abandonando um momento, nem como guarda as irreflexões da sua adolescência, nem como companheiro devotado nos perigos da sua afanosa virilidade.
Muitas e sucessivas provas de dedicação, aureoladas do prestígio duma espada de primeira força, deram a Garcia Moniz, sobre o infante, um ascendente moral que bem se revelou com o seu famoso pulso no seguinte episódio da tomada de Ceuta: D. Henrique, acompanhado de alguns homens de armas, irrompera pelas portas da cidade, achando-se envolvido na refrega, que se levantara entre os mouros e os primeiros portugueses, que haviam entrado. Chegou um momento em que a luta esteve seriamente comprometida para a nossa gente; porque o infante, embrenhando-se pelas ruas de Ceuta, deu de frente com um tropel de inimigos, cujo número muito superior ao dos nossos, o ia esmagando. Até se espalhou da parte de fora dos muros a notícia de que D. Henrique caíra mortalmente ferido no combate.
Garcia Moniz, que estava ao lado de D. João I, apenas ouviu a triste nova, soltou um rugido de vingança, precipitou-se louco de dor e desespero por uma das portas atulhadas de cadáveres, abriu caminho à espada, como um dos arcanjos lendários dos combates, até encontrar o infante, que, longe de haver caído, disputava quase sozinho uns lampejos mortiços de vitória. Desenvencilhou-o dos mouros, que o cingiam num círculo cada vez mais estreito, advertiu-o severamente daquela temeridade, conseguindo arrancá-lo ao perigo, que o embriagava e tornara surdo a todos os conselhos dos seus outros companheiros. Este acto heróico valeu a Garcia Moniz a amizade de D. João I e a admiração de quantos o presenciaram.

Do valente português, contudo, nada mais se sabe do que os seus prodigiosos feitos de armas e estreitas relações com o infante D. Henrique; nem mesmo se foi casado, ou se deixou sucessão.
D. Leonor Moniz foi segunda mulher de Gil Aires, secretário ou escrivão da Puridade do condestável D. Nuno Álvares Pereira, e seu alferes-mor, conciliando nós as diversas opiniões a tal respeito. Gil Aires teve sepultura no mosteiro do Carmo, de Lisboa, na capela de Nossa Senhora da Piedade. (
[7]) Deste casamento nasceram quatro filhos, que tiveram larga e distinta representação nas empresas militares e marítimas de Portugal no século XV.
Especializaremos apenas Vasco Gil Moniz, casado segunda vez com D. Leonor de Lusignan, a qual veio de Castela na qualidade de dama da infanta D. Isabel, mulher do infante D. Pedro, duque de Coimbra, e era filha de Febo Lusignan, que os linhagistas deduzem da família dos reis de Chipre. Deste ramo lateral dos Monizes é que proveio o grande patriota Febo Moniz, que em 1580 tanto sobressaiu por sua indignação e desassombrado levantamento contra a vil entrega do Reino nas mãos despóticas dos Filipes. (
[8])
Finda esta digressão, que entendemos não dever dispensar, voltemos a Vasco Martim Moniz, no qual, como dissemos, se reata o fio genealógico de D. Muninho Viegas, e que nunca mais se perde até D. Isabel Moniz.
Vasco Moniz foi um fidalgo de grande nomeada no tempo de D. João I e exerceu o cargo de vedor da casa do infante D. Henrique. Como seu irmão Garcia, também assistiu à tomada de Ceuta, tendo largo quinhão nas glórias ali ganhas pelos portugueses. Casou com D. Beatriz Pereira, filha de Paio Pereira, fidalgo da casa real, e de D. Leonor Formosa, da qual houve quatro filhos, continuando-se a sucessão no primogénito, Henrique Moniz. (
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Henrique Moniz, alcaide-mor de Silves, casou duas vezes, sendo a segunda com D. Inês Pereira, filha de D. Diogo Álvares Pereira. (
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Desta aliança nasceram 5 filhos, e o segundo na ordem do nascimento, Vasco Martins Moniz passou à ilha da Madeira, que então já se tornara um centro de bastante actividade industrial e uma espécie de acampamento para a exploração das costas africanas e sondagem dos caminhos, que nos levariam às suspiradas regiões do oriente.
Vasco Moniz, pai de D. Isabel Moniz, mulher de Bartolomeu Perestrelo, não era um dos aventureiros vulgares, que naquela época vagueavam terra marique em busca de fortuna. Por intervenção de seu pai entrou muito novo ainda no serviço da casa real, de que teve o foro de moço fidalgo, e foi sempre muito estimado de D. Afonso V, ao lado do qual combateu nas guerras de África, tão assinaladas nesse tempo pelas conquistas de Alcácer-Ceguer, Tânger e Arzila, interessando-se até à última pela sorte do infeliz monarca.
Instalou-se na vila do Machico, onde se distinguiu de quantos portugueses e estrangeiros ali viviam, por sua generosidade, pela fidalguia do seu trato e pelo fastigio principesco da sua casa, cujas comodidades e atractivos não o enervaram; pelo contrário, sempre que o rei e o país lhe reclamaram os serviços, ele deixou a família para acudir com o seu braço e muitas vezes com a sua bolsa.
Vasco Martins Moniz impôs-se por muitos títulos a veneração dos vindouros; mas há, sobre tudo, um tão raro e sublime, do superior a todas as conquistas da espada e da bússola, que o não seguiremos minuciosamente, como aos seus antepassados, no campo da luta, para admirá-lo como homem no amor consagrado a sua mãe. Debaixo da armadura de guerreiro pulsava-lhe um coração delicado de criança, na sua mais indizível impressionabilidade filial.
Nas distracções absorventes dos combates e da vida solarenga no meio da numerosa família que constituíra, Vasco Moniz conservara sempre viva a abençoada lembrança da mulher, que lhe deu o ser, e da qual a tempestuosa agitação dos tempos o separara ainda em bem tenra idade. Poucas tréguas lhe haviam deixado os seus trabalhos para acompanhá-la nas lágrimas da viuvez e da ausência ansiosa dos filhos, que as vicissitudes do mundo lhe desgarrara para um e outro lado.
Nos últimos anos, e os mais sossegados da sua afadigada existência, Vasco Moniz vinha amiúde visitar sua mãe, D. Inês de Menezes, à vila do Torrão, onde ela vivia numa idade avançadíssima. Sentindo-se próximo a repousar de vez, reuniu ainda um resto de forças e de alento para atravessar o mar, deixou a vida ruidosa do Machico e veio refugiar-se no lar materno, falecendo aqui, com testamento fechado em 5 de Setembro de 1489, e no qual instituiu morgado da terça para seu filho primogénito.
Casou na ilha da Madeira três vezes. Do primeiro matrimónio não teve filhos, e do segundo houve três, que não destoaram por seu valor do sangue e tradições de seus antepassados. Foi sua terceira mulher D. Joana Teixeira, filha legitima do celebre Lançarote Teixeira, o Velho, (
[11]) e de D. Beatriz de Góis e neta paterna do esforçado navegador Tristão Vaz, (
[12]) materna de D. João do Rego e de D. Brites de Góis, da família do bem conhecido cronista português Damião de Góis.

O terceiro matrimónio de Vasco Martins Moniz foi fecundíssimo em filhos, alguns dos quais como, por exemplo, o bispo titular de Anel D. Cristóvão Moniz, sustentaram e ampliaram os pergaminhos desta antiquíssima família, com o mais levantado capricho cívico, inspirado nos deveres para com a pátria e na obrigação que nos impõe a lembrança de nossos maiores, como herdeiros do seu nome e dos seus haveres.
Também teve um bastardo com o nome de Vasco Moniz Barreto, que foi graduado em leis e letrado muito apreciado no seu tempo.
Um dos frutos do terceiro casamento foi uma filha – D. Isabel Moniz, terceira mulher de Bartolomeu Perestrelo, e da qual nos ocuparemos com mais particularidade, quando tratarmos de seu marido.