sexta-feira, 18 de maio de 2007

A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (4)

FLORENTINO, Nicolau; A Mulher de Colombo, Lisboa, Pap. e Tipografia Guedes, 1892, pp. 39-48.



Texto Integral






III

A ILHA DE PORTO SANTO E A SUA COLONIZAÇÃO.
TRABALHOS E SACRIFÍCIOS DO PRIMEIRO DONATÁRIO DESTA ILHA.
BARTOLOMEU PERESTRELO: SUA VIDA ATRIBULADA, ALIANÇAS MATRIMONIAIS, MORTE PREMATURA E DESCENDÊNCIA QUE DEIXOU.





EGUNDO a crónica de Azurara, sub­sidiada por outras obras, pouco tem­po se demorou Bartolomeu Perestrelo na ilha de Porto Santo, para cuja colonização ele partira em com­panhia de diversos indivíduos, emba­lados dos mais fagueiros sonhos de fortuna.
O desengano, que o moço Bartolomeu recebeu, visitando os seus futuros domínios, foi o mesmo em que caíram muitos outros, tanto nas ilhas como no continente, aferindo a largueza da munificência régia apenas pela decantada extensão do território, pelas no­tícias imaginosas da sua fertilidade e pelo nome pom­poso do senhorio. Só conheciam o valor do que haviam impetrado, quando os encargos, a que se comprometeram, ascendendo a verba muito superior ao rendi­mento local, obrigavam-nos a declinar a exploração por parcelas a troco de rendas insignificantes, ou a rela­xá-las ao abandono, de que ainda recentemente se encontravam copiosos vestígios por muitos pontos do país. Mesmo hoje, muita gente quando vê a lista de doações, antigamente havidas pelos que prestavam serviços públicos, e segue o inventário descritivo de cada uma delas, não sabe qual admirar mais — se a liberalidade perdulária do doador, se a fortuna fabulosa do donatário. Entretanto, por livros de receita e despesa, róis e outros documentos da época, e com os meios científicos, de que actualmente dispomos para valorizar essas mercês em relação ao capital de exploração e ao rendimento agrícola e industrial, é fácil conhecer quanto tem de hiperbólicas na maior parte dos casos as concepções dos interesses auferidos por aqueles, cujo trabalho se remunerava com senhorios, capitanias, etc.


Porto Santo - Zimbralinhos
(Autor: Marcial Fernandes)

Levado pela sugestão das apregoadas bondades da ilha descoberta, Bartolomeu não soube o que pediu, talvez ao contrario de Zarco e de Tristão, cuja segunda viagem mais racionalmente se explica pelo propósito de prosseguirem na empresa começada, depois de deitar os colonos em Porto Santo, ou pelo menos, sondarem e reconhecerem aquelas paragens do Atlântico, do que de se enterrarem numa ilha, cuja área e condições geológicas, embora apreciadas de relance, não os deveriam ter seduzido, como se escreveu.
O descobrimento ([1]) imediato da Madeira, que foi dividida por ambos, e na qual se fixaram como um termo satisfatório das suas excursões marítimas, cujo alvo reconhecido eram as costas da Guiné, ajuda-nos em reflexões diversas das que restritamente nos inspira o texto dos cronistas.
Bartolomeu não tardou a conhecer, que a imaginação o traíra, e que dera excessivas largas a sua credulidade. O confronto de Porto Santo e da nova ilha encontrada por Zarco e Tristão, incomparavelmente superior à primeira, pelo seu aspecto atraente e pela prometedora valentia da vegetação, acabou de o desanimar. ([2])
Voltou pois ao reino mais provavelmente depois do encontro da Madeira. A causa desta retirada e simultaneamente da partida dos dois outros companheiros para a segunda ilha, é atribuída a uma praga daninha de coelhos, que se desenvolveu na ilha, por nela soltarem uma coelha com crias, havidas durante a viagem. No ano seguinte, se é que mediou um ano entre a ida e a volta de Bartolomeu, já matarom muy muytos, nom fazendo porem mingua para os estragos, que esmoreciam os colonos, inutilizando-lhes os trabalhos agrícolas.

Coelho Bravo
(Oryctolagus Cuniculus Algirus)

Este extraordinário poder de procriação, diante do qual a zoologia se curva impotente para explicá-lo, a nós, profano na ciência, não nos causa maior assombro. Os nossos antepassados tinham uma ingenuidade de crer, sem ver nem discutir, que, sob o ponto de vista da higiene espiritual, é simplesmente para causar inveja nestes tempos atribulados de malícia e de suspeição.
A história dos coelhos, que calou piamente no ânimo dessa boa gente, hoje não satisfaz. Melhor e mais verosímil fará que nos descrevessem a ilha de Porto Santo com o seu solo areento, impróprio para muitos géneros de cultura e sobre tudo para a indispensável arborização, a sua falta de água potável, etc. a impressão desagradável, que causaria esse ermo a um rapaz muito novo, costumado à vida da corte e que nem ao menos levara uma companheira, um dos requisitas essenciais ao verdadeiro colono e um anódino contra a nostalgia da pátria, e outras coisas idênticas, que seriam mais aceitáveis e incontroversas, e menos pueris, do que uma praga de coelhos desenvolvida num ano, por uma ninhada ainda de leite.
Encarada logicamente a questão por aquele lado é que vemos Bartolomeu Perestrelo regressar ao reino e alguns anos depois partir novamente na qualidade de provedor de Porto Santo, onde então com maiores probabilidades se encontravam bastante multiplicados os temíveis roedores.
Pode ser que para isso ele houvesse reconsiderado em vista de circunstâncias imperiosas, tais como a de uma boa notícia dos trabalhos ali continuados pelos seus companheiros, do proporcionamento de capital humana e monetário mais animadores do que os que levou na sua primeira viagem, e, finalmente, a de ter contraído matrimónio com D. Margarida Martins, tomando em seguida a resolução de tratar do futuro a todo o transe.
Porto Santo, com a vizinhança da Madeira que começou a prosperar a olhos vistos, tornou-se também mais atraente e acompanhada, encontrando à mão muitos recursos, que as suas ingratas condições locais não proporcionavam desde logo. Nem mesmo pelo decorrer do tempo as transformações e correctivos, por que passaram os domínios de Bartolomeu, graças a um insano trabalho, que o fez baquear bem cedo, e a sacrifícios pecuniários pouco mais do que inúteis, nunca a ilha se extremou por uma linha de autonomia, económica e etnográfica, que provasse os seus suficientes progressos materiais e morais; quanto mais nos primeiros anos da sua colonização.
A povoação da Madeira não foi, por certo, alheia ao concurso de causas, que determinaram Bartolomeu Perestrelo a sair novamente de Lisboa e a demandar Porto Santo. Uma das provas é a pouca estabilidade, que ele tinha nesta ilha, onde fixara residência, ou, melhor, estabelecera casa.
Partido para ali com sua primeira mulher, entrevemo-lo não poucas vezes no Machico, no Funchal e no reino, a tratar dos seus interesses locais, desenvolvendo uma actividade prodigiosa em angariar materiais agrícolas, atrair a emigração, proporcionando-lhe os instrumentos do trabalho, e alcançar do cofre real algumas mercês rendosas, que o ajudassem no oneroso custeio da beneficiação de Porto Santo.
No maior ardor das suas lides, um doloroso acontecimento veio enlutar Bartolomeu Perestrelo, a quem o seu negro horóscopo parecia poupar momentaneamente para surpreende-lo depois mais implacável aos primeiros vislumbres de ventura.
Por um dos documentos, sobre que estamos a trabalhar, conclui-se que D. Margarida Martins, sua mulher, pouco viveu além 1431. O último vestígio, que possuímos, da vida desta senhora é uma carta de D. João I, de 8 de Junho desse ano, dando a ela e a seu marido umas casas de foro, na Rua Nova, junto à Porta da Erva.
Deste casamento não houve filhos, que nos conste passando Bartolomeu a segundas núpcias com D. Brites Furtado de Mendonça, da bem conhecida família deste apelido, que também ocupa um lugar distinto na história do arquipélago.
Do segundo matrimónio conhecem-se três filhas, todas casadas com homens importantes. A primeira D. Catarina Furtado de Mendonça, foi mulher de Mem Rodrigues de Vasconcelos, comendador do Seixo; a segunda, D. Filipa de Mendonça Furtado, desposou-se com João Teixeira, ([3]) filho terceiro de Tristão Vaz, primeiro capitão donatário da jurisdição de Machico; a terceira, D. Izeu Perestrelo, ligou os seus destinos a Pedro Correia da Cunha, ([4]) capitão donatário da ilha Graciosa, e ao qual teremos mais adiante de referirmo-nos.
Enviuvando segunda vez, Bartolomeu Perestrelo, que ainda estava um homem relativamente novo, passou a terceiras núpcias com D. Isabel Moniz, filha de Vasco Martins Moniz, que a esse tempo vivia em Machico, com toda a sua grande casa, como se viu quando tratámos dos Monizes.
Esta nova aliança, a mais distinta e directamente vinculada ao nosso fito histórico, revela de certa forma a importância moral de Bartolomeu e a confiança, que inspiravam a seriedade do seu trato e o seu amor ao trabalho. Só quem conhece particularmente pela velha papelada a fidalguia orgulhosa dos Monizes, disputada em aliança pelas melhores casas da Madeira e do continente é que pode avaliar a segurança convicta com que traçamos esta nota biográfica.
D. Isabel, a julgar pela idade de seus irmãos, teria quando muito 18 anos, ao deixar a casa paterna, onde a rodeavam todas as comodidades possíveis, para seguir com seu marido para a ilha do Porto Santo, sendo-lhe companheira devotada durante os poucos anos que ele ainda viveu.
Dissemos algures que Bartolomeu não soube o que pedira, nem tão pouco em quanto estipulara o prémio dos seus serviços ao infante D. João. Com o seu génio activo e empreender julgou que transformaria os penhascos e areias de Porto Santo em húmus dum pomar, que lhe desse frutos e sombra na velhice. Enganou-se como tantos outros, que se aniquilaram obscuramente a fecundar alguns retalhos do país, perdidos por esse oceano, sem um dia de gozo na vida nem um pedaço de pão para a orfandade dos filhos.
Quanta gente não terá ligado a sua memória a ideia típica, corrente, desses feudatários, estatelados ociosamente em rambotins de nababos, acenando com ouro a todas as voluptuosidades, que pode arquitectar uma grande imaginação, servida pelo temperamento mais sensual?
Infeliz Bartolomeu Perestrelo! Infeliz nas lutas da vida e na maneira pouco respeitosa, por que a história lhe recolheu o nome. A glória de haver encontrado casualmente um monte emerso no meio do mar foi sempre tudo, mesmo em face dum labutar atlético de perto de 30 anos para revolver-lhe as entranhas, corrigi-lo, sangrar-lhe as veias profundas, fecundá-lo com o suor e muitas vezes com o próprio sangue.
E esta estranha concepção dos meios mais conducentes à glorificação individual exemplifica-se cruamente na sombra histórica do donatário de Porto Santo. Têm-se passado anos de teimosia inútil em deletrear das páginas brumosas dos cronistas uma palavra, uma sílaba, que robusteçam a suposição de que ele foi um dos que atravessaram pela primeira vez as cento e tantas léguas de mar, que vão de Lisboa ao arquipélago da Madeira.
Para nobilitá-lo, inventou-se que ele veio de Espanha para Portugal em 1428 com a mulher de D. Duarte, e logo abaixo que ele foi companheiro de Zarco e de Tristão no descobrimento de Porto Santo em 1418 (!); quando o que há de mais seguro a respeito da sua nobreza é a justificação feita por seu pai Filippone Palestrello em 1399. Para glorificá-lo como homem do mar chega-se até fantasiar manuscritos que deixou e conselhos que deu a seu genro Cristóvão Colombo, estando provado que ele nunca conheceu o homem, com quem havia de casar a sua filhinha Filipa, que ficou órfã de pai aos 5 anos de idade.
Em suma, para que Bartolomeu Perestrelo tivesse duas linhas de panegírico, mais apetecido pelos seus sucessores do que por ele, atento o seu viver atribulado, era necessário reconhecê-lo por nobre e principalmente caracterizá-lo como navegador, segundo a moda predominante da época em que viveu.
Porfiou-se em construir-lhe na areia um pedestal de glórias, ao passo que nem um olhar se deitou para a sua existência cheia de desgostos e trabalhos, e cuja resignação nos primeiros, constância e honradez nos segundos, são títulos muito mais seguros de direito à nossa admiração, do que o feito casual que se procura atribuir-lhe.


Porto Santo

Ao donatário de Porto Santo não pertence empunhar a palma de haver descoberto a sua ilha; mas assenta-lhe legitimamente na cabeça o resplendor de mártir do trabalho, uma das consagrações sociais mais valiosas de todos os tempos.
A morte veio colhê-lo no seu posto, por volta de 1457, tendo ele pouco mais de 50 anos de idade e deixando a família em precárias condições económicas, pois que a sua capitania absorvera-lhe tudo desde os dotes de suas mulheres e benefícios, que por diversas vias alcançou, à própria saúde sem que a tanto capital ali enterrado correspondesse um rendimento sofrível para a manutenção da viúva e de seus dois filhos, Bartolomeu e Filipa, órfãos de pai ainda bem tenra idade.
Faleceu Bartolomeu Perestrelo na vila da Baleeira, da ilha do Porto Santo, e pelo que se apura de elementos mais fidedignos parece que ficou sepultado na igreja paroquial de Nossa Senhora da Piedade.

___________
[1] Sublinhámos a palavra, porque Azurara conta singelamente, que Tristão e Zarco se passaram do Porto Santo à ilha da Madeira, que se avista em dias claros. Por outro lado, também é de notar que o denso arvoredo, que cobria a última, pela própria respiração vegetal e pela evaporação da humidade sob ele depositada, devia ocasionar prolongadas perturbações atmosféricas, que não permitiriam então avistá-la do Porto Santo, como hoje.
Barros, mais ilustrado do que Azurara, lembra este fenómeno, sem que na essência do facto do descobrimento haja contradição entre ambos. Pelo contrário, explica-no-lo o primeiro, dizendo que se os vapores às vezes se confundiam com nuvens, outras vezes deixavam suspeitar a terra; suspeita confirmada, sobre tudo, pela posição constante e aparecimento do nevoeiro em ocasião de limpidez nos outros pontos do horizonte.
Por conseguinte, a simples passagem duma ilha para a outra tem todos os visos de verdadeira; ou a existência da segunda fosse averiguada do Porto Santo, ou apenas deduzida pela observação judiciosa dos fenómenos atmosféricos. Tê-la-iam suspeitado Zarco e Tristão na sua primeira viagem? Não o sabemos.
O alvoroço da descoberta fê-los voltar logo talvez, como muitos navegadores em casos idênticos, sem ao menos examinarem o achado, que levou saúde e economias ao pobre Bartolomeu, quanto mais perscrutar serenamente o horizonte.
[2] Parece que na sua primeira viagem Bartolomeu Perestrelo levava já a provedoria de Porto Santo, o que de certa forma o prendia à ilha, desvanecendo-lhe qualquer esperança de vir a compartilhar do novo achado, que Zarco e Tristão trataram logo de dividir entre si, tendo o cuidado de definir então melhor as suas garantias de povoadores da Madeira, do que o fizeram a respeito do Porto Santo.
Se estas notas comportassem o tratamento mais desenvolvido de pontos secundários, a camaradagem de Tristão e de Zarco com Bartolomeu seria tema para umas poucas de páginas.
[3] João Teixeira, residente no Machico, foi homem muito conhecido pelas suas proezas de cavaleiro e de grande caçador.
Fez uma coutada no Caniçal, enriquecendo-a com varias espécies de caça desde a javali a perdiz, e as quais em poucos anos se reproduziram de modo a rivalizá-la com as melhores coutadas do continente. Tanto que D. Manuel o soube, escreveu à câmara do Machico recomendando que conservasse zelosamente a coutada do Caniçal, pois que estava informado da sua importância e de que não havia outra igual nem semelhante onde as pessoas reais pudessem montear e caçar, no caso de algum dia irem à ilha.
A carta ficou registada nos livros da mesma câmara.
[4] Pedro Correia da Cunha era filho de Gonçalo Correia, fidalgo abastado no tempo de D. João I e ao qual este monarca, por carta de 22 de Dezembro de 1411, deu em troca da terra de Valadares a da Cunha-a-Velha, donde o filho e os seus descendentes tomaram o apelido de Cunha.

sábado, 12 de maio de 2007

A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (3)

FLORENTINO, Nicolau; A Mulher de Colombo, Lisboa, Pap. e Tipografia Guedes, 1892, pp. 21-38.


Texto integral




II

CONSIDERAÇÕES GERAIS ACERCA DOS ESTRANGEIROS EM PORTUGAL.
O PRIMEIRO ASCENDENTE CONHECIDO DOS PERESTRELOS.
NOTÍCIA HISTÓRICO-GENEALÓGICA DESTA FAMÍLIA NO NOSSO PAÍS.
BARTOLOMEU PERESTRELO.
SOGRO DE CRISTÓVÃO COLOMBO; AS SUAS TRADIÇÕES DE NAVEGADOR E DESCOBRIDOR DA ILHA DO PORTO SANTO.



A história da imigração estrangeira na península há dois movimentos de certa forma característicos: um, vindo de França e transpondo os Pirinéus, predominou durante a laboriosa gestação dos modernos estados ibéricos, o outro, com o foco em Itália e transmitido pelo Mediterrâneo, acompanhou-os na sua idade viril, bracejando pelos mares e desdobrando a sua área territorial até às regiões mais afastadas do globo.
A França tem larga representação na história peninsular por uma das camaradagens mais valiosas na guerra contra o domínio mauritano, como a Itália nas grandes explorações transatlânticas dos séculos XV e XVI. Nas lutas, de que nasceu, Portugal abriu à primeira um campo de triunfos e o caminho dos melhores interesses individuas; arvorado depois em primeiro empório marítimo e comercial da Europa, ofereceu à segunda um novo atractivo, que lhe permitiu retomar parte das suas velhas tradições de rainha do oceano e também franquiar um campo de produtiva actividade as suas mais variadas ambi­ções pessoais.
Especificamos a França e a Itália nestes dois movimentos imigratórios, por terem neles figurado respectivamente em primeiro lugar; porque as suas re­lações revestiram uma forma quase sempre amigável e por vezes sincera, o que é para admirar em épocas de lutas menos escrupulosas pela glória e pela fortuna; e porque, finalmente, além da sua acentuada influência moral, o seu sangue cruzou-se com o nosso, encontran­do-se ainda hoje vestígios límpidos por quase todo o País.
Aquém dos Pirinéus, apesar da divisória política e de diversas embrulhadas dinásticas, foi sempre tão constante a permuta de gente, e é tão conhecido o au­xílio recíproco, em diferentes colisões, entre o povo espanhol e o português, que realmente não podemos considerar, para o caso sujeito, a Espanha como uma nação estrangeira.
Notando a rara sinceridade das nossas relações internacionais, colectiva ou individualmente considera­das, deixámos subentendidas excepções numerosíssimas, de cuja particularização nos guardamos o mais possível, embora nos fosse coisa fácil de fazer.
Desde a sua primitiva, Portugal não foi a maior parte das vezes correspondido na confiança generosa e fraternal, com que abriu os seus braços aos estrangeiros, sem nunca lhes exigir passaporte, ou cartas de crença.
Hospedou-os sempre com carinho, proporcionou-lhes as mais invejáveis alianças matrimoniais, forne­ceu-lhes a matéria-prima do trabalho, abriu-lhes a porta das grandes fortunas e nobilitou-os, por fim, como fecho da sua rasgada hospitalidade.
Entre os que lutavam fraternalmente ao nosso lado, em terra e no mar, e os que exploravam tão-somente as fontes de riqueza do país em diversos ramos de negócio, desde os senhorios e comendas aos casamentos nas grandes casas, nunca se estabeleceram diferenças odiosas. O herói e o homem de negócio fo­ram sempre bem vindos; desbravavam-se-lhes indistintamente o caminho das suas aspirações, sem inquirir da sua procedência, nem perscrutar-lhes os intuitos.
Diziam que eram nobres da mais fina extracção? Lavrava-se-lhes logo, sem maior processo de habilitação, um instrumento oficial, espécie de salvo-conduto ou de talismã, que lhes franquiava os solares, onde ha­via grandes dotes, e os guindava ao úbere inesgotável da Amaltéa pública.
Não eram nobres, nem tinham quem os afiançasse como tal? A munificência régia lá descobria um serviço, ou invocava genericamente serviços para diplomá-los com pergaminhos e emparveça-los num brasão de armas.
Muitos vinham pera estes reynos cobertos de oução (lêndeas) e se iam ao despois todos agalanados e muy paraltas; como lemos algures.
Que se fossem só agalanados e paraltas; bom proveito. Felizes daqueles a que a fortuna sorriu na terra alheia, sua pátria adoptiva; mas o pior é que essa pátria adoptiva, tema das mais requintadas declamações, recebeu não poucas vezes a ingratidão e o descrédito, como paga da sua confiança e hospitalidade.
A índole, ou feitio, em extremo dócil, sociável e confiante, acarreta aos povos as mesmas consequências funestas, que aos indivíduos. O homem, que abre de par em par a sua porta a um desconhecido e o admite na familiaridade do seu lar, não difere duma nação, que deixa entrar no seu mecanismo orgânico um ele­mento estranho, sem afinidade de sentimentos, nem comunidade de interesses.
Em tal casa há apenas um jogo de azar; as pro­babilidades de ganho são inferiores às de perda, tanto, quanto é diminuta a percentagem dos exemplares aproveitados na aclimatação de seres exóticos.
Portugal experimenta há muitos séculos, e conti­nua a experimentar, os resultados demonstrativos desta profunda verdade. Recebeu muitos serviços de estran­geiros, e pode orgulhar-se de lhos ter pago por seu justo valor; salvando-se, esta clara, as excepções que haveria pela força das circunstâncias, das quais come­çou por ser vitima um grande número dos nossos mais eminentes concidadãos. Poucos, porém, agradeceram a este país hospitaleiro os serviços e acolhimento que lhes prestou; e, se dele se lembraram depois, foi só para a depreciação e para o descrédito.
Se estudarmos a fundo as nossas diversas crises morais e económicas, bem como algumas complicações internacionais que nos custaram caríssimas, não as po­demos carregar em exclusivo à conta do elemento propriamente nacional; algumas há até, onde este figura simplesmente pela sua tolerância, umas vezes passiva. Outras vezes inconsciente.
Se, por outro lado, procurarmos as vítimas dessas derrocadas, encontraremos apenas o país com aqueles que lhe estavam indissoluvelmente presos por uma choupana, por uma jeira de terra, por um pedaço da sua alma.
Estas considerações escaparam-nos instintivamente ao dobrar a papelada e ao fechar os alfarrábios, por onde andámos a procura dos Perestrelos. Não foram eles que no-las inspiraram: pelo contrário, avultam como excepções honrosas, que se consubstanciaram no sangue português. Foi todo esse caleidoscópio assombroso, que nos suspendeu frequentemente a investigação, mergu­lhando-nos numa meditação profunda.
Para reunirmos uma família tresmalhada, como a dos Perestrelos, tropeçámos com muitos outros mortos e estacámos diante de verdadeiras surpresas. Aqui, tolices que nos fazem rir; ali, torpezas que nos revoltam; acolá, desgraças que nos provocam lágrimas; mais além, rasgos de valor e de civismo, que nos arrancam bênçãos.
Os Perestrelos, como toda a gente, pagaram o seu tributo de fragilidade humana; mas tão pequeno em relação aos méritos pessoais e brilhantes serviços de alguns deles, que mal se torna reparável.
O que se tem escrito até hoje a seu respeito vai, todavia, ser modificado, porque assim o exige a histó­ria, sem lhes prejudicar no conjunto as suas belas tradições de família.

*
* *



Filippone, ou Filippe Palestrello é o primeiro ascen­dente dos Perestrelos, que encontramos em Portugal, por fins do século XIV, entre outros muitos compatrio­tas seus, que vieram a este reino em busca de fortuna.
Filippone era filho de misser Gabriele Palestrello, natural da cidade de Placência (Lombardia) e de sua mulher madame Bartholine Biforti ([1]), que faleceram na mesma terra da sua residência e naturalidade. Tudo isto se depreende duma justificação, que ele apresentou para se eximir a uma derrama tributaria lançada por D. João I para custear a expedição naval a Ceuta.

(Placência - Palácio Medieval)

Além da sua filiação, provou Filippone Palestrello por algumas testemunhas suas conterrâneas serem os seus ascendentes em Itália fidalgos da cota de armas e de reconhecida nobreza, facto que o isentava do paga­mento do mencionado tributo.
Este processo justificativo, apenso ao respectivo alvará, tem a data de 8 de Janeiro de 1399, e ambas as peças constituem o primeiro e mais seguro vestígio cronológico, até agora encontrado, da existência de Fi­lippone em Portugal. ([2])
Achava-se ele então na cidade do Porto, mas em 1415 encontramo-lo com residência em Lisboa e já ca­sado com uma senhora portuguesa, D. Catarina de Melo, de quem teve os quatro filhos seguintes, por ordem do nascimento: Richarte ([3]), D. Isabel, D. Branca e Bartolomeu.
Antes, porém, de entrarmos no estudo biográfico do último, faremos algumas referências a seu irmão mais velho e à progénie distinta; de que foi tronco, bem como daremos notícia circunstanciada de suas irmãs, cujos destinos, além de oferecerem uma certa no­vidade histórica, proporcionaram a Richarte e a Bartolomeu uma das relações pessoais mais valiosas da época.
Richarte Palestrello seguiu a carreira eclesiástica, obtendo o lugar de prior da freguesia de Santa Mari­nha de Lisboa, então a mais rendosa talvez do arcebis­pado. Houve em Beatriz Anes dois filhos — João Lo­pes Perestrello e Sebastião Perestrello ([4]) — legitimados por carta datada de Sintra a 11 de Julho de 1423.
Do filho mais novo não alcançámos informações de maior interesse e fidelidade. O mais velho e herdeiro da casa de seu pai, João Lopes Perestrelo, já acreditado por um largo tirocínio nas lutas do mar, teve a capita­nia da Fradeza, uma das naus da expedição às Índias em 1502, comandada por Vasco da Gama, e distin­guiu-se por essa ocasião nas lutas com o gentio de Cochim. Voltando da Índia com um avultado pecúlio, João Lopes instituiu no termo de Alenquer um grande morgado, que denominou — do Espanhol.


(Vasco da Gama)

Dois dos seus cinco filhos, Rafael e Bartolomeu ([5]) serviram na Índia com grande distinção. De Malaca partiu Rafael Perestrelo para o reconhecimento das costas da China, onde lutou com vários revezes, entre eles um cativeiro de 30 dias, o que não obstou a que também ali fizesse grande fortuna. O nome ilustre, que adquiriu, valeu-lhe ser novamente escolhido para comandar uma das naus da armada de 1519, sob as or­dens de Jorge de Albuquerque.
Omitimos muitos outros membros da família de Richarte Palestrello, e os quais mereciam menção hon­rosa, para não avolumarmos estas notas, com desvio do nosso caminho directo. Os filhos de João Lopes, mercê da fortuna de seu pai, parece que ficaram todos nas melhores condições económicas; pois que entre ou­tros documentos, que examinámos no Corpo Cronológico da Torre do Tombo, relativos a eles neste ponto, deparou-se-nos uma provisão real, datada de 21 de Agosto de 1514 para se pagar a sua filha D. Mécia Lopes Perestrelo a importância de 310$760 réis, que se lhe de­viam por empréstimo.
As duas irmãs de Bartolomeu Perestrelo, D. Isabel e D. Branca, viveram sucessivamente com o céle­bre arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha, perso­nagem notabilíssima pela opulência com que viveu e pelo seu elevado nascimento, pois que lhe circulava nas veias sangue de Henrique IV de Castela e de D. Fer­nando I de Portugal. ([6])
Estas relações, que podem atrair os reparos da nossa época, um tanto exagerada nos seus preconceitos sociais e numa aparente intransigência para com as infracções das leis civis e canónicas, naquele tempo eram viáveis à face da tolerância consuetudinária e dos exemplos promanados do seio das mais elevadas hierar­quias. ([7]) Escusamos de aduzir provas individuais onde apoiar o que adiantamos. Basta atender à descendência bastarda da alta nobreza e dos reis, sancionada pelo acolhimento, que se lhe fazia no próprio lar conjugal, pela sua representação desassombrada nos negócios públicos, e, finalmente, pela legitimação que co-honestava os actos, relevando as culpas dos progenitores e remo­vendo as máculas suspensas sobre a cabeça da progé­nie. A brilhante dinastia, que por aquele tempo presi­dia aos destinos do país, começara por um bastardo, um dos maiores reis, que empunharam o ceptro português.
D. Branca Dias Perestrelo e sua irmã D. Isabel, a quem por morte desta ela sucedera nas relações amo­rosas com o arcebispo, se não gozaram dos foros legais da esposa, pelo carácter sacerdotal do homem, a quem se prenderam nos impulsos irrefreáveis do coração, ti­veram todavia, a par da grande consideração social, as comodidades e honras duma casa verdadeiramente fidalga, e os frutos dessas uniões foram perfilhados perpetuando-se numa descendência pouco vulgar a to­dos os respeitos.
Parece que D. Isabel pouco tempo sobreviveu ao nascimento de seu filho D. João, alcaide-mor da vila de Óbidos, legitimado por carta de 13 de Agosto de 1444. Falecida esta senhora, na companhia da qual vivia a irmã D. Branca, cuja formosura, segundo o que lemos, não em inferior a de D. Isabel, a amizade fraternal, que o arcebispo lhe dedicava, transformou-se logo noutra ordem de afectos, visto o temperamento bem conhecido de D. Pedro de Noronha e a necessidade de substituir a sua defunta companheira, com a possível conciliação da estética e da conveniência administrativa.
Desta ultima união conhecem-se três filhos, também legitimados em 13 de Agosto, de 1444 ([8]) Foram os seguintes: D. Isabel, a quem nos vamos já referir; D. Diogo de Noronha, frade de S. Francisco e depois bispo de Lamego; D. Pedro de Noronha, um dos he­róis de Alcácer-Ceguer e comendador-mor da ordem de Santiago que foi encarregado por D. João II de diver­sas comissões de confiança, que sempre desempenhou com muito critério e proficiência. Teve a honra de re­presentar por procuração o príncipe D. Afonso no seu casamento com D. Isabel, filha dos Reis Católicos; e es­colhido por delegado de Portugal nas cerimónias da ele­vação de Inocêncio VIII ao pontificado, resolveu por essa ocasião varias questões que trazíamos pendentes da Sé Apostólica, devendo especializar-se a bula da cruzada para prosseguirmos nas guerras de Africa.
D. Pedro de Noronha, como lhe permitiam as suas rendas e alta influência na Côrte, encaminhou com ma­nifesta solicitude até invejáveis proeminências eclesiásticas e civis os filhos havidos das duas irmãs Perestrelo, que, sempre que precisaram, dispuseram do valioso patrocínio do afamado prelado.
Chegou, porém, um momento em que o prestígio deste começou a declinar rapidamente, e uma profun­da reviravolta se operou no seu regime doméstico. D. Branca Dias Perestrelo, em vésperas de ser mãe, foi de súbito enclausurada num mosteiro de Coimbra, por or­dem despótica do arcebispo, e ali deu a luz D. Isabel que em 1462 casou com o marquês de Montemor, filho do segundo duque de Bragança e um dos caudilhos da nobreza sublevada contra a política absorvente e centralizadora do Príncipe Perfeito.
D. Pedro de Noronha, que até então não posterga­ra de todo uns restos do decoro devido à sua pessoa e dignidade arquipiscopal, precipitou-se depois numa vida desregrada com outras mulheres, de que houve mais filhos, e D. Branca despeitada pelo seu abandono e vendo­-se preterida não tardou em sair do convento para ca­sar com Aires Anes de Beja, morador em Coimbra. Deste casamento houve larga descendência, conhecida pelos Perestrelos de Beja. ([9])

*
* *



Bartolomeu Perestrelo, o mais novo dos quatro filhos de Filippone, por morte de seu pai ficou a cui­dado de seus irmãos, e ainda de tenra idade obteve colocação na casa do infante D. João, estreitamente re­lacionada com a de seu irmão D. Henrique nas cam­panhas de África e no auspicioso início dos nossos descobrimentos marítimos. Depois foi cavaleiro da mesma casa.
A natureza dos serviços mais ou menos públicos, por ele prestados numa época de trabalhos tão variados e complexos, não é fácil, porém, de precisar por enquanto. Da mesma forma que os cronistas do tem­po passaram rapidamente por diversas personagens, cujos nomes nos transmitiram pelo simples motivo de relações com outros mais salientes, ou com um facto histórico, não consagraram a Bartolomeu Perestrelo, senão referências vagas, como povoador e donatário da ilha de Porto Santo.
Nestas duas mercês, principais vestígios da pas­sagem de Bartolomeu pela história, e que lhe foram feitas pelo infante D Henrique, admitiram-lhe alguns escritores implicitamente a dupla qualidade de homem de mar e de descobridor, a despeito da palavra séria de Azurara e de Barros.
Não duvidamos de que ele houvesse bem mere­cido da generosa amizade e confiança de D. Henrique pelos seus méritos pessoais e por alguns dos vários serviços, que tanto distinguiram outros homens do seu tempo sem ser nas lides do mar; não nos encostamos tão-pouco confiada e exclusivamente à crítica, que atribui à influência de D. Pedro de Noronha as graças que lhe foram dispensadas. O que, porém, não pode­mos em consciência concluir, pela que se lê em di­versos escritos, pelo teor dos documentos relativos a Bartolomeu, e ainda por palpáveis contradições cronológicas, é que Bartolomeu Perestrelo fosse desco­bridor da ilha de Porto Santo, ou colaborador impor­tante de Gonçalves Zarco e de Tristão Vaz nesse empreendimento marítimo.
Para o reconhecer como tal, invocam alguns escritores, avultando entre eles D. Francisco de S. Luís, a prática geral daqueles tempos, isto é, serem dadas as capitanias das terras descobertas aos que tinham a prioridade do descobrimento. Assim aconteceu muitas vezes, mas não com a generalidade que possa formar uma regra para abranger Bartolomeu Perestrelo.
Jácome de Bruges, primeiro povoador e donatário da ilha Terceira, e igualmente Joz de Utra da ilha do Faial, não tomaram a mínima parte no descobrimento das duas ilhas. E além destes outros exemplos, mais levam-nos a pôr de parte a ideia de uma prática geral, na concessão das capitanias. Lembraremos, contudo, ainda outro caso sintético que imprime um novo carácter à questão das doações.
É a que D. Afonso V fez a Fernão Teles da ilha das Flores, cuja jurisdição e senhorio se consideram geralmente dados em primeiro lugar a D. Maria de Vi­lhena, o que é um absurdo; ou, apesar das prescrições da lei mental então vigente, por ela obtidos de Gomes Dias Rodovalho, quando a referida D. Maria era mulher de Fernão Teles e por morte deste ficou administrando as Flores, como tutora de seu filho me­nor Rui Teles. ([10])
Os descobridores da ilha foram Diogo de Teive e seu filho João de Teive, e foi este último que transaccio­nou com Fernão Teles a trespasse de todos os seus direitos segundo uma carta régia de confirmação, da­tada de 28 de Janeiro de 1475. Que nos conste Fernão Teles nunca ali esteve depois de ser donatário, quanto mais andar às apalpadelas por aquela região capri­chosa do Atlântico em procura da formosa ilha.
Por outro lado, a carta de doação de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo, bem como a de confirmação da venda, que sua viúva e um irmão desta Diogo Gil Moniz, tutores de seu filho menor Bartolomeu fizeram a Pedro Correia da Cunha, não aludem a quaisquer serviços que hajam imperado para tal mercê, e menos ainda a primazia de Bartolomeu, como descobridor. Pelo contrário, no segundo desses documentos até se diz: que ele me pediu por mercê, que porquanto seu desejo e vontade era povoar a minha ilha de Porto Santo, o que realmente não se compadece nem ainda com qualquer pressuposição de direitos imediatos, que ele tivesse à referida capitania.
Quanto a companheiro de Zarco e de Tristão no descobrimento, e principalmente a havê-los precedido na empresa, além das considerações anteriores, que nos parecem conclusivas, opõe-se a cronologia a verosi­milhança deste traço histórico de Bartolomeu Perestrelo. Tristão Vaz era já homem feito em 1418, época em que se fixa o encontro da primeira ilha do arquipélago da Madeira. Tinha ele então de 33 para 34 anos, e Zarco andava pela mesma idade, ou por mais avançada ainda, a concluir do que diz João de Barros com respeito aos herdeiros de Zarco disputarem as gló­rias de Tristão por este não ser homem de tanta idade e qualidade como João Gonçalves. Se uma diferença de idade, que não podia ser grande, constituía base para esse pleito moral entre os representantes dos dois he­róis, que faria se se pusessem dum lado os de Bartolomeu a litigar com os de ambos eles reunidos do outro.
Pois que, por diversos cálculos e, sobre tudo, pela época de que se pode aproximar o casamento de Filip­pone, segundo os nobiliários, notando que Bartolomeu foi o quarto fruto desse matrimónio, ele não te­ria mais de metade dessa idade, acrescendo ainda a circunstância considerável de D. Isabel Moniz, terceira mulher de Bartolomeu Perestrelo ser bisneta materna de Tristão Vaz.
Bartolomeu Perestrelo estava, portanto, numa idade pouco própria a atribuir-se-lhe, na falta absoluta de dados históricos que provem o seu talento precocíssimo para a vida do mar, o comando de qualquer expedição ou a sua escolha para representar nela um papel igual ao de Zarco e de Tristão, já celebres nas lides de África, e com o seu nome de marinheiros feito nas travessias de Portugal a Ceuta e a outros pontos nas costas norte e oeste do continente negro. Foi, sim, em companhia dos dois, na corrente entusiástica e sonhadora dos que se ofereceram para ir povoar Porto Santo, um novo paraíso pela mais jocosa das antifra­ses.
Em conclusão, a fama arranjada a Bartolomeu Perestrelo, como navegador não se estriba sequer em considerações de maior procedência. Que ele se tivesse distinguido em qualquer outro ramo de actividade da época, não está fora de razão e de justiça admiti-lo em face da mercê, que lhe fez o infante, e do bom acolhimento que lhe dispensaram famílias, ciosas do seu sangue e pergaminhos, com as quais ele contraiu alianças matrimoniais.
Liquidado, pois, este ponto de velho debate histórico, entremos noutras mais intimamente relacionados com a existência do capitão donatário da ilha de Porto Santo.



[1] Bartholomine Biforti, segundo outros. O apelido Biforti aparece pelo decurso do tempo, e na mesma família dos Perestrelos, escrito de diferentes modos: Biforte e Bisforti; e até uma terceira neta de Gabriel e de Bartholine se apelidou Brachiforti. Foi esta D. Leonor Perestrelo Brachiforti, filha de João Lopes Perestrelo e casada com Gil Vicente da Maia, falecido em 16 de Janeiro de 1451. Ambos jazem no cruzeiro dos Capuchos da Car­nota e no epitáfio ainda se lê claramente assim escrito o nome daquela senhora.
[2] Jacinto de Pina Loureiro, talvez o genealogista mais consciencioso e minucioso e que fundamenta quase sempre a sua extensa obra em provas irrefutáveis e documentos arquivados na Torre do Tombo, diz-nos que o documento acima existia ainda no começo do século XVII em mão de D. Leonor Lobo Perestrel­o, que era então casada com Diogo Saldanha, sendo por esse meio que se veio a saber quais eram os seus ascendentes e as armas que esta família usara em Itália.
As armas dos Perestrelos são: Escudo partido em pala; na primeira, em campo de oiro, um leão de púrpura armado de ver­melho; na segunda, em campo de prata, com banda azul, carrega­da de três estrelas de oito pontas entre seis rosas de vermelho de três em três em pala. Timbre o leão do escudo Com uma estrela na espádua.
[3] Seguimos exactamente o nome que lhe dá a carta de legitimação dos filhos, desprezando as variantes ortográficas, que se encontram nos genealogistas.
[4] Acompanhamos as modificações sucessivas que o apelido sofreu em Portugal, segundo o texto de diferentes escritores.
[5] Este Bartolomeu Perestrelo teve em galardão de seus serviços a provedoria da Fazenda Real de Malaca, sendo capitão-­mor Jorge de Albuquerque, ou, como quiserem, Jorge de Mello Pereira de Albuquerque.
[6] Tanto D. Pedro de Noronha, como seus irmãos, foram personagens importantes. D. Fernando, segundo conde de Vila Real, D. Sancho de Noronha, conde de Odemira e D. Constança de Noronha, 2.ª mulher de D. Afonso, primeiro duque de Bragan­ça, constituíram com seu irmão, o 3.º arcebispo de Lisboa, um núcleo de força social de primeira ordem.
[7] A mancebia não era coisa corrente, tolerada pelas leis e pelos usos, só na época a que nos referimos, e exclusiva do nosso país. Não incorreremos, porém, na indelicadeza desnecessária de entrar na casa alheia. De muitas provas, que temos, do que a tal respeito se passava entre nós desde os primeiros tempos da monarquia e das tristes condições sociais da mulher nos séculos passados, apenas indicámos ao leitor um documento, que se encon­tra no Livro 4.° de Além-Douro, a folhas 274. É a transacção efectuada entre D. Diniz e Branca Lourença. O rei dava-lhe a vila de Mirandela, motivando essa mercê da seguinte forma: E esta vos faço por compra do vosso corpo, e se Deus tiver por bem que eu haja de vos filho ou filhos, que a elles fique a dita villa.
Caso verdadeiramente assombroso para a época de hoje; mas o dr. Francisco Brandão, que aproveitou o documento na sua Monarchia Lusitana, diz-nos que essas coisas não eram estranhadas naquele tempo. E tanto o não eram, que D. Afonso, filho de D. Dinis, assina com seu pai aquele curiosíssimo papel! O mesmo cronista pondera, que a rainha Santa Isabel não o assinou, pelo decoro que se lhe devia guardar, visto que a mercê era feita a uma mulher, com quem o rei ofendia sua esposa. E faltava apenas para cúmulo que esta assinasse a transacção, em que figuram como testemunhas nada menos do que sete bispos, um mordomo-mor e um chanceler!
A compra do corpo de Branca Lourença estava perfeitamente válida com a assinatura de tantos maiorais da igreja romana e mais do que garantida pela rubrica dum infante em vésperas de ser rei.
De passagem: D. Diniz foi o fundador do convento de Odivelas, e com tanta solicitude velava pela recato das freiras, que nem estas podiam tomar banhos do mar senão sob a sua real pre­sença.
[8] O facto dos eclesiásticos legitimarem filhos era antigamen­te vulgaríssimo. Para que disso se faça uma ideia apontamos al­guns de muitos exemplos: Os bispos da Guarda, D. Gonçalo, D. João e D. Álvaro, legitimaram um grande número deles; alguns, ho­mens insignes. O bispo de Évora, D. Afonso, primo del-rei D. Manuel, reconheceu por seu filho a D. Francisco de Portugal, em 1515; o bispo do Porto D. João de Azevedo, a D. Manuel da Silva, em 1516 além de outros; e o de Viseu, D. João de Abreu a Diogo Gomes de Abreu em 1508.
Os seculares que houveram filhos de freiras, legitimando-os depois, também foram em quantidade considerável; e a própria circunstância das mães estarem no convento ao tempo da concepção e do parto, não obstava a legitimação. Como exemplos, apenas dois: o de D. António, filho de Rui de Sá e de Catarina de Lemos, freira da ordem de S. Bernardo, e o de Gonçalo de Barros, filho dum fidalgo do mesmo nome e de Isabel Dias, também freira professa.
Os próprios bastardos, havidos nas condições mais ofensivas de moralidade conjugal, gozaram sem estorvos do benefício de legitimação. João de Noronha, casado com D. Isabel de Sousa legitimou por filho em 1510 a Diogo de Noronha, nascido de uma escrava por nome Catarina, ao serviço doméstico de sua mu­lher. E como ele muitos outros, em casos idênticos, e as vezes ainda coloridos de circunstâncias mais aviltantes.
[9] Chegaram a tal ponto os actos imorais de D. Pedro de Noronha, que o povo o perseguia e injuriava pelas ruas, sendo-lhe tirado o governo do arcebispado e fugindo ele em seguida para Castela, donde regressou com certeza antes de Agosto de 1444, a concluir pelos actos da legitimação de seus filhos.
A época da saída pode determinar-se em 1439 por um docu­mento desse ano, que encontramos nos Elementos para a História do Município de Lisboa, do nosso distinto amigo Freire de Oliveira, um dos mais valiosos trabalhos de investigação moderna, a que a restrição do título encolhe aparentemente o valor de verdadeiro subsídio para a história geral do país. Esse documento é um alvará em que se ordena «que metade das rendas do arce­bispado de Lisboa fosse aplicada no pagamento das dívidas, que o arcebispo D. Pedro deixara e a outra metade nas coisas pertencentes ao mesmo arcebispo» — 8 de Dezembro de 1439.
Não deixam de ser curiosos os seguintes traços biográficos que nos dá Pina Loureiro:
D. Pedro de Noronha filho do l.º conde D. Afonso Henriques de Castela e de sua mulher a sr.ª D. Isabel. Vendo-se privado de seus estados pelas inquietações de seu pai, se fez eclesiástico e foi o 3.º arcebispo de Lisboa e prelado de grande autoridade e respeito, e assim por morte del-rei D. Duarte foi um dos adjuntos ao governo do infante D. Pedro; porém, seguiu nas dissenções, que teve a rainha D. Leonor com o dito infante, o parti­do da rainha, instigado por seu cunhado o duque de Bragança; cometeu depois acções indecentes a sua dignidade, e assim o senado de Lisboa lhe suspendeu as rendas e dignidades, e, vendo que em muitas terras se lhe perdia o respeito, se retirou a Castela donde depois voltou a este reino e retomou a inimizade an­tiga do infante de cuja morte e desgraça foi ele grande parte.
«Está sepultado na sua sé de Lisboa na capela do Sacramento e tem em sua sepultura o letreiro seguinte: Aqui jaz o Reverendíssimo em Cristo padre o Sr. D. Pedro Arcebispo desta cidade, neto do nobre rei D. Fernando de Portugal e neto de el-rei D. Henrique de Castela, cuja alma Deus haja; o qual se finou em 12 de Agosto de 1452.»
[10] D. Maria de Vilhena, à semelhança do que fez D. Isabel Moniz com a ilha do Porto Santo, também vendeu a ilha das Flo­res a João da Fonseca, com a diferença, porém, de que o acto de D. Maria foi reconhecido pelo filho como válido, enquanto que Bartolomeu Perestrelo n.º 2 propôs e conseguiu a anulação da venda feita por sua mãe a Pedro Correia da Cunha.

terça-feira, 8 de maio de 2007

A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino (2)

FLORENTINO, Nicolau; A Mulher de Colombo, Lisboa, Pap. e Tipografia Guedes, 1892, pp. 11-20.


Texto integral


A MULHER DE COLOMBO

I

A FAMÍLIA MONIZ. – SEU TRONCO, GLORIOSO PAPEL HISTÓRICO
E DEDUÇÃO GENEALÓGICA
ATÉ D. ISABEL MONIZ, 3.ª MULHER DE BARTOLOMEU PERESTRELO
E SOGRA DE CRISTÓVÃO COLOMBO


APELIDO Moniz, durante os primeiros anos do seu aparecimento em Portugal, figurou apenas na sua legítima derivação patronímica do valente D. Muninho Viegas, cognominado O Gasco, por ser oriundo da Gasconha. D. Muninho passou a Portugal em tempo de D. Ramiro III, rei de Leão, acompanhado de dois filhos, que não deixaram nome menos glorioso do que seu pai na denodada conquista das terras de Riba-Douro. ([1])
Com os Monizes coincide a nacionalização dos Guédon, também apelido francês, ([2]) em Guedes, porque D. Muninho era casado com D. Valida Trocosendes, filha de Trocosendo Guedas, apelido, em que já então degenerara Guédon, em virtude de diversas alianças, sendo D. Trocosendo a origem conhecida, onde vão entroncar-se os Guedes, de Portugal.
O sangue vigoroso d’O Gasco não se circunscreveu, porém, na sua propagação, aos pequenos limites territoriais do nosso país, então ainda embrionário numa parcela de Espanha.
Na vida baralhada dos povos da península, e que continuou sempre assim, mais ou menos caracteristicamente, apesar da raia política, delineada pelo conde D. Henrique, alargada e consolidada pelos seus sucessores, os Monizes, como muitos outros, espalharam-se até aos Pirinéus; e na permuta, através deles estabelecida pelo génio aventureiro da época, iríamos certamente, se necessário fosse, reencontrar na pátria de D. Muninho herdeiros consanguíneos das suas famosas tradições.
Tanto assim, que já no século XII se distinguia o apelido Moniz em Castela, com manifesta radicação genealógica; e o século seguinte fornece-nos, entre outros exemplos de quanto os Monizes sustentaram ali, como em Portugal, a herança moral do seu glorioso progenitor, os de D. Diogo Moniz, mestre da ordem de Santiago em 1306, e de D. Pedro Moniz ([3]) mestre da ordem de Calatrava e mais tarde da de Santiago, posto, em que morreu valorosamente a 5 de Outubro de 1385 na batalha de Valverde, travada entre o exercito castelhano, por ele comandado e pelo mestre de Alcântara, e o português, que tinha a sua frente o condestável D. Nuno Álvares Pereira.


Não é fácil, porém, reconstituir a sucessão rigorosa dos Monizes desde D. Muninho até fins do século XIV. Nos primeiros tempos da monarquia portuguesa, conservou-se ela sofrivelmente nítida, asseverando mesmo alguns escritores, que Mem Moniz, irmão de Egas Moniz, o Bem-Aventurado, usara já as armas da família desse apelido, que, embora admitido o facto, não perdeu de todo a sua feição patronímica. ([4])
Os Monizes, talvez um pouco apeados do seu antigo esplendor, desapareceram temporariamente absorvidos em diversas alianças com outras famílias – os Ataídes, os Alvarengas, os Coelhos, etc.; ([5]) e só na fulgurante alvorada do século XV, é que surgem os primeiros elos duma cadeia genealógica, que nunca mais se solveu, a despeito dos poderosos cruzamentos de sangue, em que entrou, pelo decorrer do tempo. ([6])
Aparecem-nos par essa época três irmãos do apelido Moniz: Vasco, Garcia e D. Leonor; o primeiro dos quais é o ponto de partida para a sucessão ininterrupta dos Monizes, a que pertence D. Isabel, mulher de Bartolomeu Perestrelo. Retomá-lo-emos na devida altura.


O segundo, que enumeramos, e o último na ordem do nascimento, Garcia Martim Moniz, foi sujeito de grande fidelidade e valor militar. Planeada a expedição a Ceuta, Garcia Moniz distinguiu-se por sua actividade enérgica nos preparativos da empresa, e acompanhou a África o infante D. Henrique, cujos primeiros anos ele guiara com austera solicitude, nunca o abandonando um momento, nem como guarda as irreflexões da sua adolescência, nem como companheiro devotado nos perigos da sua afanosa virilidade.
Muitas e sucessivas provas de dedicação, aureoladas do prestígio duma espada de primeira força, deram a Garcia Moniz, sobre o infante, um ascendente moral que bem se revelou com o seu famoso pulso no seguinte episódio da tomada de Ceuta: D. Henrique, acompanhado de alguns homens de armas, irrompera pelas portas da cidade, achando-se envolvido na refrega, que se levantara entre os mouros e os primeiros portugueses, que haviam entrado. Chegou um momento em que a luta esteve seriamente comprometida para a nossa gente; porque o infante, embrenhando-se pelas ruas de Ceuta, deu de frente com um tropel de inimigos, cujo número muito superior ao dos nossos, o ia esmagando. Até se espalhou da parte de fora dos muros a notícia de que D. Henrique caíra mortalmente ferido no combate.
Garcia Moniz, que estava ao lado de D. João I, apenas ouviu a triste nova, soltou um rugido de vingança, precipitou-se louco de dor e desespero por uma das portas atulhadas de cadáveres, abriu caminho à espada, como um dos arcanjos lendários dos combates, até encontrar o infante, que, longe de haver caído, disputava quase sozinho uns lampejos mortiços de vitória. Desenvencilhou-o dos mouros, que o cingiam num círculo cada vez mais estreito, advertiu-o severamente daquela temeridade, conseguindo arrancá-lo ao perigo, que o embriagava e tornara surdo a todos os conselhos dos seus outros companheiros. Este acto heróico valeu a Garcia Moniz a amizade de D. João I e a admiração de quantos o presenciaram.


Do valente português, contudo, nada mais se sabe do que os seus prodigiosos feitos de armas e estreitas relações com o infante D. Henrique; nem mesmo se foi casado, ou se deixou sucessão.
D. Leonor Moniz foi segunda mulher de Gil Aires, secretário ou escrivão da Puridade do condestável D. Nuno Álvares Pereira, e seu alferes-mor, conciliando nós as diversas opiniões a tal respeito. Gil Aires teve sepultura no mosteiro do Carmo, de Lisboa, na capela de Nossa Senhora da Piedade. ([7]) Deste casamento nasceram quatro filhos, que tiveram larga e distinta representação nas empresas militares e marítimas de Portugal no século XV.
Especializaremos apenas Vasco Gil Moniz, casado segunda vez com D. Leonor de Lusignan, a qual veio de Castela na qualidade de dama da infanta D. Isabel, mulher do infante D. Pedro, duque de Coimbra, e era filha de Febo Lusignan, que os linhagistas deduzem da família dos reis de Chipre. Deste ramo lateral dos Monizes é que proveio o grande patriota Febo Moniz, que em 1580 tanto sobressaiu por sua indignação e desassombrado levantamento contra a vil entrega do Reino nas mãos despóticas dos Filipes. ([8])
Finda esta digressão, que entendemos não dever dispensar, voltemos a Vasco Martim Moniz, no qual, como dissemos, se reata o fio genealógico de D. Muninho Viegas, e que nunca mais se perde até D. Isabel Moniz.
Vasco Moniz foi um fidalgo de grande nomeada no tempo de D. João I e exerceu o cargo de vedor da casa do infante D. Henrique. Como seu irmão Garcia, também assistiu à tomada de Ceuta, tendo largo quinhão nas glórias ali ganhas pelos portugueses. Casou com D. Beatriz Pereira, filha de Paio Pereira, fidalgo da casa real, e de D. Leonor Formosa, da qual houve quatro filhos, continuando-se a sucessão no primogénito, Henrique Moniz. ([9])
Henrique Moniz, alcaide-mor de Silves, casou duas vezes, sendo a segunda com D. Inês Pereira, filha de D. Diogo Álvares Pereira. ([10])
Desta aliança nasceram 5 filhos, e o segundo na ordem do nascimento, Vasco Martins Moniz passou à ilha da Madeira, que então já se tornara um centro de bastante actividade industrial e uma espécie de acampamento para a exploração das costas africanas e sondagem dos caminhos, que nos levariam às suspiradas regiões do oriente.
Vasco Moniz, pai de D. Isabel Moniz, mulher de Bartolomeu Perestrelo, não era um dos aventureiros vulgares, que naquela época vagueavam terra marique em busca de fortuna. Por intervenção de seu pai entrou muito novo ainda no serviço da casa real, de que teve o foro de moço fidalgo, e foi sempre muito estimado de D. Afonso V, ao lado do qual combateu nas guerras de África, tão assinaladas nesse tempo pelas conquistas de Alcácer-Ceguer, Tânger e Arzila, interessando-se até à última pela sorte do infeliz monarca.
Instalou-se na vila do Machico, onde se distinguiu de quantos portugueses e estrangeiros ali viviam, por sua generosidade, pela fidalguia do seu trato e pelo fastigio principesco da sua casa, cujas comodidades e atractivos não o enervaram; pelo contrário, sempre que o rei e o país lhe reclamaram os serviços, ele deixou a família para acudir com o seu braço e muitas vezes com a sua bolsa.
Vasco Martins Moniz impôs-se por muitos títulos a veneração dos vindouros; mas há, sobre tudo, um tão raro e sublime, do superior a todas as conquistas da espada e da bússola, que o não seguiremos minuciosamente, como aos seus antepassados, no campo da luta, para admirá-lo como homem no amor consagrado a sua mãe. Debaixo da armadura de guerreiro pulsava-lhe um coração delicado de criança, na sua mais indizível impressionabilidade filial.
Nas distracções absorventes dos combates e da vida solarenga no meio da numerosa família que constituíra, Vasco Moniz conservara sempre viva a abençoada lembrança da mulher, que lhe deu o ser, e da qual a tempestuosa agitação dos tempos o separara ainda em bem tenra idade. Poucas tréguas lhe haviam deixado os seus trabalhos para acompanhá-la nas lágrimas da viuvez e da ausência ansiosa dos filhos, que as vicissitudes do mundo lhe desgarrara para um e outro lado.
Nos últimos anos, e os mais sossegados da sua afadigada existência, Vasco Moniz vinha amiúde visitar sua mãe, D. Inês de Menezes, à vila do Torrão, onde ela vivia numa idade avançadíssima. Sentindo-se próximo a repousar de vez, reuniu ainda um resto de forças e de alento para atravessar o mar, deixou a vida ruidosa do Machico e veio refugiar-se no lar materno, falecendo aqui, com testamento fechado em 5 de Setembro de 1489, e no qual instituiu morgado da terça para seu filho primogénito.
Casou na ilha da Madeira três vezes. Do primeiro matrimónio não teve filhos, e do segundo houve três, que não destoaram por seu valor do sangue e tradições de seus antepassados. Foi sua terceira mulher D. Joana Teixeira, filha legitima do celebre Lançarote Teixeira, o Velho, ([11]) e de D. Beatriz de Góis e neta paterna do esforçado navegador Tristão Vaz, ([12]) materna de D. João do Rego e de D. Brites de Góis, da família do bem conhecido cronista português Damião de Góis.


O terceiro matrimónio de Vasco Martins Moniz foi fecundíssimo em filhos, alguns dos quais como, por exemplo, o bispo titular de Anel D. Cristóvão Moniz, sustentaram e ampliaram os pergaminhos desta antiquíssima família, com o mais levantado capricho cívico, inspirado nos deveres para com a pátria e na obrigação que nos impõe a lembrança de nossos maiores, como herdeiros do seu nome e dos seus haveres.
Também teve um bastardo com o nome de Vasco Moniz Barreto, que foi graduado em leis e letrado muito apreciado no seu tempo.
Um dos frutos do terceiro casamento foi uma filha – D. Isabel Moniz, terceira mulher de Bartolomeu Perestrelo, e da qual nos ocuparemos com mais particularidade, quando tratarmos de seu marido.


[1] Estes dois filhos chamavam-se Egas Moniz e Garcia Moniz, nomes mais tarde usados também por outros indivíduos desta família. Com D. Muninho, segundo afirmam o conde de Barcelos e outros, veio igualmente um seu irmão, D. Sesinando, que foi bispo do Porto. Dizem mais esses autores, que aquele Egas Moniz casado com D. Toda Hermigues Alboasar, descendente de D. Ramiro, é o avô de Egas Moniz, aio do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques.
[2] Armorial Universel, por M. Gouffroy d’Eschavanes - Paris, 1844, vol. 1.º, pág. 205.
[3] A Pedro Moniz de Godoy chamam alguns escritores Pedro Nunes, por terem pela antiga preferência usual seguido o patronímico Nunes, tirado de Nuno Fernandes, pai do valente mestre de Santiago.
[4] Egas Moniz era também filho dum Muninho = Muninho Hermigues.
As armas dos Monizes são em campo azul, cinco estrelas de oiro postas em aspa, e por timbre um leopardo de azul com uma estrela das armas, na testa.
[5] Lê-se nos nobiliários mais autorizados, que dos descendentes conhecidos de D. Muninho Viegas, o Gasco, se passou aos Ataídes por Martinho Viegas de Ataíde, que se presume ser neto de Egas Moniz, e que, fora de toda a dúvida, é o sexto avô do 1.º conde de Atouguia.
[6] Todavia, entre outros vestígios históricos, que provam não haver sido completa uma tal absorção, apontaremos o seguinte: Frei Marcos da Silva, cronista de S. Francisco e diversos autores escrevem que no primeiro claustro do convento de S. Francisco de Lisboa, descendo pela escada que ia da portaria, à esquerda e pegado com o arco da capela, lia-se em latim a inscrição seguinte, que acomodamos a linguagem portuguesa:
À honra e louvor do sumo rei e da mui Bem-aventurada Virgem Madre e do Bem-aventurado Paraninfo Gabriel arc., João Moniz, clérigo e tesoureiro do ilustríssimo rei de Portugal, fez este claustro, capela e capítulo, e sua alma descansa em paz MCCCX.
Ou seja no ano 1272 do nascimento de Cristo.
[7] Esta capela foi fundada por Gil Aires; e, como ele não teve filhos da primeira mulher, passou em propriedade aos seus descendentes e de D. Leonor Moniz.
[8] Febo Moniz foi sepultado na capela fundada pelo seu ascendente Gil Aires. Actualmente são os condes de Sampaio os representantes directos do insigne português, por uma bisneta dele, D. Luísa Moniz de Torres e Lusignan, que herdou a casa do último Febo Moniz em linha recta.
[9] Um destes quatro filhos, por nome Vasco Moniz, casou com D. Aldonça Cabral e houve deste matrimónio D. Joana Pereira, mulher do 1.º vice-rei da Índia D. Francisco de Almeida. De Vasco Moniz descendem os marqueses de Angeja.
D. Beatriz ou Brites Pereira não era filha legítima, mas encontramos a sua legitimação no respectivo livro (3.°) a fl. 105.
[10] Diogo Álvares Pereira, primo do condestável, comendador-mor de Santiago e governador da casa do infante D. João filho del-Rei D. João I, foi casado com D. Mécia de Resende, dama da rainha D. Filipa e filha de Fernão Vasques de Resende. Deste casamento nasceram 2 filhas e 1 filho: 1.ª D. Isabel, mulher de D. Álvaro de Castro, alcaide-mor do Sabugal, conhecido pelo cognome de o do Torrão; 2.ª D. Inês, mulher de Gonçalo Nunes Barreto, alcaide-mor de Faro; 3.º Afonso Pereira, caçador-mor del-Rei, e que herdou em dote de sua 1.ª mulher a alcaidaria-mor de Santarém.
[11] Lançarote Teixeira, tronco duma numerosíssima e distinta família, era filho de Tristão Vaz, um dos heróis de Tânger e Ceuta, e companheiro de Zarco no descobrimento do arquipélago da Madeira.
Lançarote Teixeira foi uma reprodução típica admirável dos grandes cavaleiros medievais e gozava duma fama universal na arte de cavalaria. Altas personagens afluíam a Machico, vila da sua residência, para com ele aprenderem, e admirarem-no nos brilhantes torneios, que se faziam entre Machico e Santa Cruz, permitindo a avultada fortuna de Lançarote imprimir o maior fausto e lustre a estas festas varonis.
[12] Tristão Vaz, cavaleiro da casa do infante D. Henrique e donatário da jurisdição do Machico, foi homem célebre como guerreiro e navegador. Acompanhou o infante nas diversas jornadas de África, praticando actos de subido valor na tomada de Ceuta e no cerco de Tânger, onde foi armado cavaleiro pelo próprio D. Henrique. Voltando este as suas atenções e prodigiosa actividade para os empreendimentos, que desvendaram a Portugal os preciosos segredos do oceano, encontrou em Tristão Vaz um dos mais esforçados colaboradores da sua obra imortal.
Em 1418, indo em companhia de Gonçalves Zarco descobriu a ilha de Porto Santo, e no ano seguinte a da Madeira.
Uma das suas sete filhas, D. Ana Teixeira, deu causa a que Tristão Vaz cometesse um acto cruel, que lhe acarretou graves dissabores. D. Ana e um rapaz fidalgo, chamado Simão Barradas amavam-se com ardente afecto; mas o pai opôs-se terminantemente a essas relações, que continuaram às ocultas até que um dia, Tristão surpreendendo-os, fez desaparecer o Barradas, sem que se lhe soubesse o destino nem a causa do desaparecimento. Passados anos, descobriu-se que o amante de D. Ana fôra metido num subterrâneo, onde durante todo esse tempo esteve submetido à dura e degradante penitência de andar moendo em uma atafona. O caso foi participado a el-Rei, que mandou acto continuo a Tristão Vaz que comparecesse na côrte acompanhado de sua filha.
Vieram os dois. Sua alteza deu D. Ana em casamento a um fidalgo seu protegido, e ordenou que o pai fosse posto a ferros. Julgado pouco tempo depois, a sentença importou-lhe na perda da capitania e num degredo para a ilha do Príncipe. Expiada a culpa, voltou Tristão a Portugal; e a sua idade avançada bem como a recordação dos seus antigos serviços demoveram o rei a perdoar-lhe e a reentregá-lo na posse do Machico, que ainda governou por algum tempo, até que, indo em 1470 ao Algarve tratar de negócios da sua casa, morreu em Silves com 85 anos de idade, tendo nascido, por conseguinte, em 1385.

terça-feira, 1 de maio de 2007

A Mulher de Colombo - Nicolau Florentino


FLORENTINO, Nicolau; A Mulher de Colombo, Lisboa, Pap. e Tipografia Guedes, 1892, pp. 5-10.



Texto Integral




REFLEXÕES PRELIMINARES


Há mais de um ano que procuramos definir a verdadeira posição de Cristóvão Colombo no meio do movimento marítimo do século XV e as suas relações com Portugal, onde casou e abriu caminho para as glórias, que o esperavam no Novo Mundo.
Este tema, hoje palpitante do maior interesse e oportunidade, seduziu-nos mais pelo desejo de formar um juízo seguro acerca dos debates sobre ele levantados, do que pela mira pretensiosa de vir um dia a decidir de qual dos lados contendores está a razão e a verdade.
Ainda, quando o fruto das nossas pesquisas e reflexões chegasse a ser tão completo, que justificasse uma tal presunção, faltava o convencer-nos de que ele lograria melhor sorte, que os estudos até hoje elaborados por penas de autoridade muito superior.
Alguns desses estudos, apreciáveis por sua larga crítica e investigação, embora não determinem o perfil rigoroso de Colombo, levam-nos, todavia, desde já a conclusões importantes, constituindo o alicerce indispensável a um futuro edifício, o norte consciencioso duma nova ordem de trabalhos interessantes e proveitosos.
Mas o que lhes aconteceu? O mesmo que a todas as tentativas de rectificação de um ponto ou determinando vulto da história de qualquer país; o mesmo que acontecerá, quando a investigação der por concluída a tarefa encetada acerca do famigerado genovês, rematando os seus esforços de hoje com as triunfais descobertas de amanhã, sem todavia lhe regatear o que tem de justo a sua fama de cosmógrafo e de navegador.
Na presente época, o verdadeiro historiador trabalha pela simples questão de consciência pessoal e de gosto artístico. Quer dizer, trabalha como toda a gente, cujos horizontes de actividade e de vistas morais não vão além das paredes de uma oficina, onde recebe a salário e passa umas horas de distracção íntima, ou de um gabinete de curioso, onde cria um mundo seu, povoado de alegrias e de visões de glória.
Mais nada. O alcance cívico da sua obra, a propriedade fecundante do seu espírito dizimado às parcelas, a justa avaliação da sua luta intelectual, em que para produzir duas linhas de verdade tem de folhear muitas vezes dezenas de páginas de mentira, revolver e joeirar contos e contos da tradicional lareira, tudo isso, que lhe constituiria a ambicionada palma da sua missão humanitária, é coisa vã que apenas se encontra em fórmulas amáveis e nas exterioridades convenientes, sob que a sociedade disfarça a sua indiferença por quem trabalha e a sua triste noção do bem e da justiça.
Para que o historiador se enganasse era necessário desconhecer o meio, em que vive e trabalha. E o conhecimento deste é-lhe tão indispensável, como o daquele que vai fazer reviver, se preferir pôr-se em contacto directo com o espírito popular a ocupar somente um lugar de honra nas bibliotecas dos sábios.
Assim, o trabalho de coleccionação e assimilação tão reconhecidamente improbo e difícil torna-se às vezes pouco diante da forma de apresentação, querendo-se conciliar a verdade com o sabor literário e as ideias da época.
Daqui a diferença na esfera de acção entre a obra do que se internou nos claustros e arquivos para viver na mais estreita identificação com o passado, ressurgido por ele numa admirável fidelidade de forma e palpitação de vida, e a do que não saiu do seu tempo para burilá-lo segundo o gosto, as crenças, e até o idealismo do meio social que o há-de ler.
O que escreveu, isolado do mundo, entre trincheiras de cantaria tumular, fez uma reprodução artística que poucos estão no caso de admirar e muitos menos ainda no de compreender; o que esboçou tão-somente a história sem perder de vista o revolutear caprichoso da sua época conseguiu sem dúvida alguma uma área de simpatias e de influência educativa incomparavelmente superior.
Porque o facto é este. Nenhuma, ou poucas fases moralmente doentias têm atravessado a nossa sociedade, como a dos últimos anos, devido ao excesso de desenvolvimento do sistema nervoso sobre o muscular. Até na morte voluntária se procura com aplauso geral o romance que não encontrámos na dura positividade da vida, senão filtrado através das páginas fantasiosas, que se converteram num artigo indispensável de passadio moral.
Nestas condições, a que resultado pode visar um trabalho de rectificação histórica, esfriado por documentos, traçado a esquadro, imposto com a voz austera e catedrática, que resulta da convicção da verdade e da indignação pela mentira?
Quando o espírito popular, pela sua morbidez crescente, se torna cada vez mais sequioso e insaciável de lendas e ficções, quem ousará com esperanças de vitória destruir-lhe, ainda por cima, parte do seu minguado repasto?
Aquele, que o pretenda, tem de contar ao certo com duas coisas: a suspeita ofensiva das intenções que o animaram e a necessidade de corroborar oficialmente até a mínima circunstância destrutiva da lenda, que se abraçou e parafraseou sem uma prova, um documento, um testemunho, sequer!
E, quando o consiga, a sociedade responder-lhe-á: «muito bem, parece que não mentiste; mas guarda para ti a verdade que ninguém te pediu, que eu prefiro a falsa tradição, que me legaram os bons velhos.»
Com efeito, temos visto quase sempre a lenda substituída pela lenda, no domínio da tradição registada nos escritos antigos e modernos: mas raras vezes a lenda substituída pela história, e nunca esta com a voga corrente e entusiástica da primeira.
Há páginas de conscienciosa reivindicação e de justiça póstuma, mas que representam apenas uma declaração de voto, com mero valor pessoal, cativo à cotação discricionária do optimismo ou do pessimismo.
As próprias correcções de efemérides, que pela mudança de um algarismo não alterariam a essência do facto, como acontece em diversos casos, raríssimas vezes têm conseguido vingar contra a intransigência apaixonada, com que se abraça por completo a transmissão oral ou escrita dos velhos fazedores de historietas.


*
* *


Ao trabalho que temos entre mãos não agouramos melhor sorte do que a dos publicados até hoje sobre o mesmo assunto. Por enquanto, pouco mais nos termos adiantado a eles, a não ser na confirmação de alguns pontos e nas demarcações dos nossos mares e colónias com os de Castela, no tempo de Cristóvão Colombo e no de seu filho D. Diogo.
Sacrificamos, porém, a ocasião momentosa, que se nos oferecia agora para publicar essas notas, a obrigação de não terminá-las precipitadamente, e vamos apenas destacar a parte, que se refere aos Monizes e Perestrelos, de cuja aliança proveio D. Filipa Moniz de Melo, mulher do ilustre navegador.
Anima-nos a isso um sentimento patriótico e o aproveitar o ensejo de nos associarmos às alegrias do povo espanhol de ambos os hemisférios, ao qual nos prendem, como irmãos, tantos laços étnicos e consanguíneos.
Se não podemos orgulhar-nos, como a Espanha, de nos haver associado a Cristóvão Colombo na sua cruzada ao novo mundo; Portugal, embora lhe ponham ainda dúvidas no seu glorioso desbravamento de todos os caminhos marítimos, acha-se intimamente ligado no melhor do seu sangue ao homem que vai ter, ao cabo de quatro séculos de largo registo histórico, a mais ruidosa e estimulante apoteose dos tempos modernos.
A festa em honra de Colombo, marido de D. Filipa Moniz de Melo, além de revestir um carácter verdadeiramente universal, deve também causar aos portugueses o santo e íntimo regozijo de uma festa de família.
Lisboa, Julho de 1892.


N. Florentino

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Cristóvão Colombo – Frei Bartolomé de las Casas (8)

Las Casas, Frei Bartolomé de. Historia de las Indias escrita por fray Bartolomé de las Casas obispo de Chiapa ahora por primera vez dada a luz por el marques de la Fuensanta del Valle y d. José Sancho Rayon, Tomo I, Madrid, Imprenta de Miguel Ginesta, 1875. (Tomo I, Capítulo XXXVI, página 266 a 271).




CAPITULO XXXVI.


Fué avisado Cristobal Colon que andaban ciertos navios del rey de Portugal por prenderle.- Dióse priesa para salir del puerto de la Gomera; salió jueves á seis dias de Setiembre del dicho año. - Va contando las leguas que cada dia con su noche, conforme á las dos cuentas dichas, andaba, etc.


En estos dias fué avisado Cristobal Colon como andaban por aquellas islas tres carabelas armadas del rey de Portugal para lo prender, porque como supo el Rey que se habia concertado con los reyes de Castilla, pesóle mucho en el ánima, y comenzó á ver y á temer la suerte que le habia quitado Dios de las manos, por lo cual debió mandar en la isla de la Madera, y de Puerto Sancto, y de los Azores, y en las partes y puertos donde tenia gente portoguesa, que á la ida ó á la venida lo prendiesen, segun despues pareció por la burla que le hicieron a la vuelta en las islas de los Azores, pero desta vez no lo toparon las dichas tres carabelas. Tomada pues agua y leña y carnaje, y todo refresco y lo demas que vido serle para su viaje necesario, en la Gomera, mandó dar las velas á sus tres navíos, jueves, á 6 de Setiembre, y salió del puerto de la Gomera luego por la mañana. El sábado, á tres horas de la, noche, comenzó á ventar el viento Nordeste manso, y tomó su camino hácia el gueste que es el Poniente derecho, porque aquellos tres dias primeros tuvo calma y no pudo andar nada; llevó siempre aquella via del gueste ó Poniente derecho, hasta pocos dias ántes que descubriese la tierra que tornó una cuarta de viento á la mano izquierda del Austro, que se dice cuarta del Sudoeste, como abajo parecerá; anduvo aquella noche, hasta domingo de mañana, 36 millas, que son 9 leguas, á 4 millas por cada legua contando. Domingo, 9 dias de Setiembre, navegó, hasta que se puso el sol, 60 millas, que son //

(Página 267)

// 15 leguas, y en la noche, anduvo á 10 millas por hora y en doce horas fueron 120 millas que montan 30 leguas; aqui gobernaban los marineros mal porque iban una cuarta á la banda del Norueste, por lo cual riñó mucho Cristóbal Colon con ellos. Lunes, 10 dias de Setiembre, con su noche anduvo 60 leguas á 1 millas por hora, que son dos leguas y media, pero no contó sino 48 leguas en la cuenta pública que habia de mostrar á los marineros. Martes, 11 de Setiembre, navegó su vía del gueste, y anduvo 20 leguas y más, pero no contó sino 16 por la causa dicha; y éste dia vieron un gran trozo de mastel de nao de 120 toneles y no lo pudieron tomar; y en la noche anduvo cerca de otras 20 leguas, y contó para la cuenta pública 16. Miércoles, 12 de Setiembre, por su mismo camino anduvo, entre dia y noche, 33 leguas, contando para la cuenta pública algunas menos. Jueves, 13 de Setiembre, anduvo, entre dia y noche, otras 33 leguas; éranles las corrientes contrarias. En este dia, al principio de la noche, las agujas noruesteaban, esto es decir que no estaba la flor de lis que señala el Norte derecha hacia él, sino que se acostaba á la mano izquierda del Norte, y a la mañana nordesteaban, que es decir, que se acostaba la flor de lis á la mano derecha del Norte, hácia donde sale el sol. Viernes, 14 de Setiembre, navegó su camino siempre al gueste, anduvo entre dia y noche 20 leguas, contó ménos algunas para la cuenta pública; hoy dijerori los marineros de la carabela Niña, donde iba Vicente Yañez, que habian visto un garpao y un rabo de junco, que son aves que no se apartan de tierra, segun dicen, sino hasta 15 ó 20 leguas, pero creo que no se tenia aun desto mucha experiencia. Sábado, 15 de Setiembre, anduvo entre dia y noche 27 leguas y algo más; vieron esta noche caer del cielo un maravilloso ramo de fuego 4 ó 5 leguas dellos y todas estas cosas alborotaban y entristecian la gente, y comenzaban á estimar que eran señales de no haber emprendido buen camino. Domingo, 16 de Setiembre, anduvo 38 leguas, contó algunas ménos, tuvo aquel dia algunos nublados y lloviznó. Dice aquí Cristóbal Colon, que hoy, y siem pre de allí adelante, hallaron aires temperatísimos, que era, //

(Página 268)

// segun dice, placer grande el gusto y amenidad de las mañanas que no faltaba sino oir ruiseñores, y era el tiempo como por Abril en el Andalucía; tenia, cierto, razon, porque es cosa maravillosa la suavidad que sentimos desde medio golfo para estas Indias, y cuanto más se acercan los navíos a estas tierras, tanto mayor sienten la templanza y suavidad de los aires y claridad de los cielos, y amenidad y olores que salen de las arboledas y florestas dellas, mucho más, cierto, que por Abril en el Andalucia. Aquí comenzaron á ver muchas manadas ó balsas estendidas de hierba verde, aunque mas tiran á color amarilla, y, porque ya se les iba haciendo el camino luengo y léjos la guarida, y habian comenzado á murmurar del viaje y de quien en él los habia puesto, viendo estas balsas de hierba muy léjos y que eran muy grandes, comenzaron á temer no fuesen peñas ó tierras anegadas, por lo cual se movierori á mayor impaciencia y á más recia murmuracion contra Cristóbal Colon, que los guiaba; pero visto que pasaban los navíos por ellas, perdieron por entónces, aunque no del todo, el temor. Juzgaron por esto todos que debia estar cerca de allí alguna isla; Cristóbal Colon afirma que isla podia ser, pero no tierra firme, porque la tierra firme hacia él muy adelante, y no estaba engañado. Por aqui parece que los navíos de Cáliz, que arriba en el cap. 9.º digimos, de que hace Aristóteles mencion en el libro De admirandis in natura auditis, antiguamente arrebatados con tormenta, haber llegado á ciertas regiones en la mar, donde hallaron grandes balsas de ovas y hierbas, son estas y que llegaron hasta aquí. Lúnes, 17 de Setiembre, navegó su camino al gueste y andarian dia y noche 50 leguas y más, asentó ménos algunas dellas; ayudábales la corriente, vieron mucha hierba y muy á menudo, y era hierba que juzgaban ser de peñas, la cual venia de hácia el Poniente; estimaban todos que debia estar cerca tierra, por lo cual cobraban algun esfuerzo y aflojaban en el murmurar. Habian andado hasta allí 370 leguas, las cuales estaban de la isla del Hierro,que es la más occidental de las islas de Canaria. En este lúnes marearon los pilotos el Norte, y hallaron que las agujas noruesteaban //

(Página 269)

// una gran cuarta; temieron todos los marineros mucho, y paráronse todos muy tristes, y tornaron á murmurar entre dientes sin declararlo del todo á Cristóbal Colon, viendo cosa tan nueva y que nunca hobieran visto ni jamás experimentado, y por ende temian si estaban en otro mundo; pero cognosciéndolo Cristóbal Colon, mandó que tornasen á marear el Norte en amaneciendo, y hallaron que estaban buenas las agujas. La causa que Cristóbal Colon asignó desta diferencia, fué que la estrella que acá nos parece que es el Norte, hace movimiento, pero no lo hacen las agujas. En amaneciendo, aquel lúnes, vieron muchas hierbas de rios, en las cuales hallaron un cangrejo vivo, el cual guardó Cristóbal Colon, y dijo que aquellas eran ciertas señales de haber por allí tierra, porque no se suelen hallar 80 leguas de tierra. El agua de la mar hallaban ménos salada despues que dejaron atras las islas de Canaria, y, cada dia, segun decian, más hermosa; decia que era esto gran señal de ser los aires más puros y dulces. Vieron tambien muchas toninas, y estas son las que vieron los navíos de Cáliz, de que habló Aristóteles, que mataron muchos y llamólos atunes.

Iban toda la gente muy alegres, y los navíos el que más podia correr más corria, por ver primero tierra. Lo uno, porque es natural los hombres querer ser cada uno el primero y llevar al otro ventaja, aunque sea á su padre, aún en las cosas chicas y de poca importancia, como parece en el juego del ajedrez y en los otros, cuanto más en las señaladas y grandes. Lo otro, porque la Reina, por suplicacion de Cristóbal Colon habia mandado y hizo merced de 10.000 maravedís de juro, de por vida, al primero que viese la primera tierra. Dijo aquí Cristóbal Colon, que porque aquellas señales eran del Poniente, esperaba en aquel alto Dios, en cuya mano estaban todas las victorias, que muy presto le daria tierra. Vido aquella mañana una ave blanca con la cola luenga, que se llama rabo de junco, que no suele, diz, que dormir en la mar. Mártes, 18 de Setiembre, navegó aqueste dia con su noche más de 55 leguas, puso en la cuenta pública 48; llevaba //

(Página 270)

// todos estos dias el mar bonanza, como en el rio de Sevilla. Martin Alonso que iba por Capitan de la Pinta, que era muy gran velera, dijo al capitan Cristóbal Colon desde ella, que habia visto gran multitud de aves ir hácia el Poniente, y que aquella noche se queria adelantar, porque esperaba que descubriria tierra, y certificósele mas por una gran cerrazon y escuridad de nublado espeso á la parte del Norte, la cual suele muchas veces estar sobre la tierra, y parece della 10 y 15 y 20 leguas. Desto no curó Cristóbal Colon, porque le parecia que aún no era tiempo, ó no estaba en el paraje donde él esperaba ver la tierra. El miércoles, 19 de Setiembre, tuvo alguna calma, y con todo, entre dia y noche anduvo 25 leguas; puso en la cuenta pública 22, y á las diez horas deste dia, vino á la nao Capitana un alcatraz, y á la tarde vieron otro, que no suelen apartarse de tierra 20 leguas; vinieron unos lluveznitos de agua sin viento, que es cierta señal de tierra. No quiso detenerse barloventeando, para recognoscer si habia tierra, de lo cual no dudaba sino que iba entre y en medio de algunas islas, como en la verdad hay muchas, porque su intincion llevaba enderezada de navegar más al Poniente, diciendo que allí habia de hallar las Indias, y porque le ayudaba el tiempo que era bueno,y porque decia que, placiendo á Dios, á la vuelta todo se veria. Aquí descubrieron los pilotos sus puntos de sus cartas; el de la carabela Niña se hallaba de Canaria 440 leguas, el de la Pinta 420, el de la nao Capitana, donde iba Cristóbal Colon, justas 400. El pasaba y cumplia con todos, tratando siempre del menor número, porque no desmayasen, lo cual cuanto más vian que estaban léjos de España, mayor angustia y turbacion los comprendia, y cada hora crecian en murmurar, y más miraban en cada cosa de las seãales que vian, aunque las que habian visto, de aquellas aves, luego les daban esperanza; pero como nunca la tierra parecia, no creian ya cosa, que habian estimado que aquellas señales, pues faltaban, que iban por otro nuevo mundo de donde jamás no volverian. El jueves, 20 de Setiembre, se mudaron algo los vientos, y anduvo algo fuera //

(Página 271)


// de su camino una cuarta y áun media partida, que son dos vientos, y andarian hasta 7 ú 8 leguas por ser calmarias. Vinieron este dia dos alcatraces á la nao Capitana, y despues otro; tomaron un pájaro con la mano que era como garjas, que es ave de rio y no de la mar; tenia los piés como gaviota. Vinieron tambien, en amaneciendo, dos ó tres pajaritos cantando, y ántes que el sol saliese desaparecieron, despues vino otro alcatraz, y venia del gueste y iba al Sueste; era señal certísima que dejaban al Nordeste la tierra, porque estas aves duermen en tierra, y por la mañana vánse á la mar á buscar su vida, y no se alejan 20 leguas. Estas aves pusieron algun consuelo en los navíos. Viernes, 21 de Setiembre, fué lo más calma, navegaria, dello á la vía, dello fuera della, 13 leguas. Hallaron grandísima cantidad de hierba, que parecia que la mar era llena della. Esta hierba, veces los alegraba, creyendo que verian presto tierra, veces los hacia casi desesperar, temiendo dar por ella en alguna peña, y algunas volvian los que gobernaban el navío, por no entrar por ella, con temor de lo que agora dije, porque tan espesa era que parecia retardar algo los navios. Vieron una ballena, que tambien no es chica señal de no estar léjos de tierra; la mar era muy llana como en un rio, y los aires suavisísimos.



Eduardo Albuquerque