sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Patrocínio Ribeiro - Cristóvão Colombo Português

Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica (...), Lisboa, Liv. Renascença, [1927], Cap. III, pp. 39-53.

Patrocínio Ribeiro neste capítulo III, e que em baixo se transcreve, pretende mostrar a perícia de Cristóvão Colombo como marinheiro; aflora a política de segredo activa e de espionagem, mas não a desenvolve; dá destaque à ordem dos Reis Católicos para que Colombo não se dirija a portos portugueses e ao facto dele o não cumprir; chama a atenção para a devoção especial de Colombo ao Espírito Santo e faz referência ao facto Deste ser representado por uma pomba; menciona o apelativo marrano e de tal ser um insulto frequente entre portugueses e castelhanos, aflorando a possibilidade de Colombo ser judeu; cita um excerto de Colombo em que este refere o serviço a outros amos, mas sem especificar o contexto em que ocorre; faz corresponder espião a homicida; o instrumento de instituição dum morgadio em que o almirante refere ter nascido e saído de Génova é sofismado e desvalorizado até chegar ao prato forte do capítulo que é a carta de Toscanelli que interpreta concluindo dizer-se aí que Colombo é português.
Em pouco mais de uma dúzia de páginas enunciam-se os tópicos que daí por diante constituirão o núcleo das teses defensoras dum Cristóvão Colombo português. De então para cá, têm-se dado voltas a estes motes, valorizando uns, desvalorizando outros, acrescentando umas cores aqui, uns círculos acolá. Desenvolveram-se tópicos, frequentemente caindo em absurdos, mas pouco mais se avançou.


Texto Integral

III

COLOMBO PORTUGUÊS


Mas a nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo — afirmada pela carta de Toscanelli e confirmada pela de D. João II = é esclarecida, ainda, por outros pontos comprovativos, por factos historicos que vou enunciar transcrevendo, primeiramente, para elucidação preambular das minhas deduções o que diz o ilustre escritor J. A. Coelho na sua eruditissima obra «Evolução geral das sociedades ibericas»:

«... é lusa e bem lusa a ideia, levada definitivamente á pratica, de uma navegação atlantica, scientifica, systematicamente realisada, e tendo por objectivo — numa primeira phase devassar os mysterios do Oceano, e numa segunda, relacionar o Levante e o Ocidente, e portanto, substituir por uma nova linha de comunicabilidade de caracter atlantico a simples arteria de caracter mediterraneo que se alargava, passando pelos desertos, desde o Indus as Columnas de Hercules. Esta concepção, verdadeiramente nova, de caracter aventuroso e essencialmente maritimo, nunca poderia sahir do cerebro dum castelhano, pois estava isolado na cerrada continentalidade do seu planalto... Na Peninsula, só a podia crear o Lusitano, porque ocupava uma situação verdadeiramente insular... franca e largamente atlantica... Por isso, apezar da América ter sida descoberta por um homem de genio ao serviço de Castela, não foi do cerebro do Castelhano que despontou essa ideia;... creada sob a influencia da alma lusa, levaram-lh’a de fora, encontrou mesmo por parte do genio castelhano dura e intransigente oposição e, francamente aceite, só o foi por uma mulher superior — a grande Isabel, a qual bisneta do grande Mestre de Avis, era de alguma maneira a nobre e digna representante do genio luso em terras de Castela». ([1])

Posto isto, vejamos pois.
O maior amigo de Colombo, em Castela, o seu grande amigo intimo mesmo, foi um frade português que, se estava de posse do segredo confidencial da descoberta, havia de estar, evidentemente, bem informado tambem sobre a verdadeira personalidade do descobridor do Novo Mundo.
É pena que nada deixasse escrito sôbre o assunto esse modesto franciscano, que os historiógrafos teem confundido com outro religioso chamado frei João Perez, quando afinal as suas entidades são perfeitamente distintas.
Colombo — numa carta endereçada aos monarcas de Castela — referiu-se a este seu dilecto amigo duma forma que, de futuro, destruirá todas as duvidas que ainda prevaleçam no espirito indeciso dos investigadores:

«Ya saben vuestras Altezas que anduve siete anos en su côrte importunandoles por esto; nunca en toda este tiempo se halló piloto ni marineiro, ni filosofo, ni de otra ciencia que todos no dijesen que mi empreza era falsa; que nunca yo hallé ayuda de nadie salvo de fray Antonio de Marchena, después de aquella de Dios eterno» ([2])
A oposição singular que o navegador encontrou na côrte de Isabel, a católica, — especialmente dum cortesão de grande influencia e muito devotado ao soberano português, Hernando de Talavera, — afim de lhe ser concedida autorisação para o seu empreendimento, é bem sintomática; D. João II sabia tudo quanto se passava em Castela, dentro e fora da côrte; refere Rezende que a espionagem diplomatica paga pelo ouro português, era exercida até pelos próprios castelhanos de destaque em cargos oficiais do Paço, «de quem recebia muitos avisos bem necessarios a seu serviço e estado e ao bem de seus reinos» e «todolos conselhos e segredos lhe eram descobertos primeiro que nenhuma coisa se fizesse». Desta fórma se explica que, tendo sabido que um piloto e dois marinheiros da carreira da Guiné se haviam ausentado do reino afim de irem oferecer os seus serviços a Castela, mandasse, pelos seus espias, apunhalar os marinheiros no caminho e trazer preso a Portugal o piloto que foi enforcado em Evora, para exemplo de futuros traidores á patria.
Mas a despeito da oposição tenaz aos projectos de Colombo, oposição que durou anos seguidos, como se sabe, sempre e sempre mais cheia de embaraços de toda a ordem a viagem foi autorizada, por fim, e o descobridor fez-se ao mar sob o patrocinio de Isabel, a católica. Ora o ousado nauta poude, afinal, partir da Peninsula para efectuar a descoberta a que se tinha proposto, porquê?

«... porque nesse tempo — é o cronista Garcia de Rezende quem esclarece, — entre os Reys de Portugal e Castella houve causas e cousas que pareciam de quebra; El Rey alem das lianças que com frança mostrava mandou no reino e fora dele fazer grandes e dissimulados apercebimentos que para se segurar da guerra que desejava escusar. por causa da sua doença, muito lhe aproveitaram». ([3])

No entanto, dias antes do embarque em Palos, os reis de Castela tinham mandado apregoar pelos seus estados que as caravelas que iam enviar-se ás Indias não podiam tocar em portos portugueses, aviso este que tanto poderia ser para salvaguarda dos nossos interesses do povo vizinho e evitar complicações previstas como para obstar a uma deslialdade de Colombo de que, de resto, não se livrou da fama, como as suas cartas posteriores o demonstram, suficientemente, muito em especial aquela que dirigiu a Dona Juana, ama do principe D. Juan e irmã de Pedro de Torres, secretario da rainha Isabel, a católica:

«Yo creo que se acordará vuestra merced quando la tormenta sin velas me echó en Lisbona, que fui acusado falsamente qué habia ide ya alla al Rey para darle las Indias. Despues supieron sus Altezas al contrário, y todo fue com málicia. Bien que yo sepa poco: no sé quien me tenga por tan torpe que yo no conozca que aunque las Indias fuesen mias, que yo no me pudiera sustener sin ayuda de Principe.»

Mas, apesar da recomendação proíbitiva dos soberanos, Colombo — no regresso — aportou, intencionalmente, a terras portuguesas. Em 18 de fevereiro de 1493 fundeou nos Açores, no pôrto de S. Lourenço da Ilha de Santa Maria, onde foi pagar uma promessa que fizera à Virgem durante a viagem, a uma capelinha rústica, edificada sobre a rocha, sobranceira ao Oceano vasto que a sua caravela vinha de sulcar pela segunda vez. Depois, aproando novamente à terra portuguesa. entrou a barra de Lisboa a 4 de março, subiu o Tejo, fundeou em frente do Restelo, e foi visitar D. João II — a Vale de Paraíso — que o hospedou durante três dias, presenteando-o, à despedida, com uma mula como sinal de distinção. E só a 13 de março é que levantou ferro para se ir a Sevilha levar, aos castelhanos, a noticia estrondosa do seu feito épico.
Não foram apenas os súbditos de Isabel, a católica, que tiveram a honra insigne de ir descobrir o Novo Mundo, nas caravelas capitaneadas pelo glorioso nauta. Colombo quiz levar portugueses comsigo, tambêm. Ao certo, não se sabe quantos teriam ido mas numa relação incompleta da equipagem, que chegou até nossos dias, figuram os nomes de dois grumetes, compatriotas nossos, que a imortalidade bafeje:

JOÃO ARIAS
filho de Lopo Arias — de Tavira —

e

BERNALDIM
criado de Afonso, marinheiro do piloto
João Rodrigues de Mafra

Relatando uma transação comercial com os naturais, quando da sua chegada a S. Salvador, escreveu Colombo aos soberanos de Castela: «Vi dar 16 ovillos de algodon por tres ceotis de Portugal, que és una blanca de Castilla...». O ceotil (nome derivado de Ceuta), foi mandado cunhar por D. João I, exclusivamente, em comemoração da primeira empresa maritima dos portugueses à Africa em 1415, de que resultou a conquista daquela praça mourisca para o nosso domínio. O facto de Colombo consignar êste episódio da sua primeira viagem — em que figura a pequena moeda comemorativa portuguesa, tem o seu quê de significativo...

Realmente, Colombo só deixou ficar à posteridade escritos seus em latim e em castelhano; mas, nos escritos castelhanos que dêle nos restam, a mais superficial análise revela logo que a ortografia de muitos termos é aportuguesada, que bastantes vocábulos são, a rigor, da nossa lingua, e que a construção sintáxica — como ela era então por êsse tempo — é, positivamente, lusitana.

Colombo, que possuia a crença sincera e fervorosa do português do tempo das descobertas, tinha uma devoção especial com o Espírito Santo. Tendo-se em vista o quanto as impressões subjectivas dos primeiros anos actuam na alma plástica, no espirito dúctil, das crianças isto parece até que vincula, etogéniamente, a sua naturalidade portuguesa. A festividade dos Açores — a mais antiga, a mais tradicional, — é a do «Divino Espirito Santo», que teve a sua origem primitiva na ilha de Santa Maria, onde a divinizada pomba tinha uma capela sob a sua invocação e festejos anuais de grande pompa, isto já ao tempo da descoberta da América. Se foi, efectivamente, à ermida do Espírito Santo, da ilha de Santa Maria, que Colombo foi orar, no dia 18 de fevereiro de 1493, quando regressou da primeira viagem ao Novo Mundo, este desembarque em terra portuguesa tem o seu não sei quê de significativo e revelador...

No descritivo das suas viagens ao Continente Novo êle extasia-se perante as belezas emocionantes da Natureza, exaltando a frescura convidativa das sombras dos arvoredos, o pitoresco das encostas alcantiladas, a elevação soberba das montanhas colossais, a fragancia penetrante das flores e o canto melodioso dos passarinhos. Isto caracteriza, profundamente, a alma lírica do lusitano, o espírito contemplativo do português, navegador e poeta.
Quando a má fé dos hespanhoes o intrigava com mais bravio furor e maior hostilidade, não lhe permitiram desembarcar na ilha Espaniola nem sequer fazer concertos nos seus navios avariados pelas tormentosas rotas dos mares ocidentais que êle, pelo seu génio luminoso, lhes dera. Naufragou na Jamaica e, após ter pedido, com uma ansiada insistência, várias e repetidas vezes socorros à colónia daquela outra ilha, o governador resolveu-se, afinal, a atendê-lo e enviou-lhe, como viveres, um porco pequeno e um barril de vinho, que mandou pôr no meio da praia, recomendando muito que ninguem da sua gente comunicasse com os companheiros do desventurado nauta e, em especial, com ele. Êste gesto infame dos castelhanos demonstra um últrage feito a um compatriota nosso, pois é sabido que já por êsse tempo portugueses e espanhoes se assacavam, mùtuamente, o epíteto depreciativo de marranos (judeus). E, por isso, escarnicadores, lhe enviaram a cuba de vinho e o animal excomungado em que o israelita não pode tocar.
Dahí, a razão de Colombo consignar, no seu «Diário», esta frase dolorida, referindo-se a si próprio: — o que te está sucedendo agora é a recompensa dos serviços que prestaste a outros amos». Outros amos são os reis de Castela, porque o seu verdadeiro amo era o rei de Portugal.
E, por essa ocasião, escreveu também: - «Quem, depois de Job, não morreria de desespero ao vêr que, apesar do perigo que corria a minha vida, a de meu filho, a de meu irmão, a dos meus amigos, nos vedavam a terra e os portos descobertos a preço do meu sangue?»
A preço do seu sangue?!... Sim, a preço do seu sangue, porque, tendo-se insurgido contra a autoridade do seu legitimo rei, D. João II, tivera necessidade de se mascarar de genovês para salvar a vida e evitar a vingança do monarca, mas vendo sempre ameaçadoramente, na alucinação remordente da sua deslealdade, o punhal homicida dos espias.
No entanto, reconforta-o a esperança da justiça póstuma, a certeza da futura imortalidade: — Quando chegaste a uma idade conveniente, Deus encheu maravilhosamente toda a terra com a fama do teu nome, e o teu nome tornou-se célebre entre os christãos». Nada receies, tem confiança. Todas estas tribulações estão escritas no mármore e não são sem motivo».
Era a submissão heróica da raça portuguesa que palpitava nele, essa heróica submissão ao fatalismo do lusitano verdadeiro, essa resignação piedosa perante a fatalidade vendo, ùnicamente, no que lhe acontecia, a interferência súbita de Deus omnisciente, o dedo justo da Providência impondo um desígnio inexorável. No seu brado vibra a fôrça máscula, o belo estremecimento nervoso que ainda anima o português aventureiro de hoje, quando pretende arrojar-se a um lance perigoso de que possa sobrevir o fim da vida: — Morra o homem e fique a fama!
Mas, dir-me-hão: Se Cristovam Colombo era, realmente, português, porque motivo consignou, então, num documento oficial, escrito em castelhano, a sua naturalidade genovêsa, naturalidade que, de resto, a maioria dos seus biógrafos tem aceitado como verídica?!...
Ora, nesse documento — a instituição de um morgadio — que tem servido, esplendidamente, as pretensões italianas, encontra-se, apenas, a declaração singular de haver saído de Génova e ter nascido nela, frase algo confusa, com o seu tanto ou quanto de desnorteante, de reservado, de obscuro, visto que Hernan Colon, biógrafo e historiador de seu pae, afirma que ele quiz que fosse desconhecido e incerta a sua origem e patria.
Portanto, Colombo, sistemáticamente, obstinadamente, envolveu-se num mistério, guardando de si para comsigo toda a verdade ácêrca dos seus antepassados, não se referindo nunca a seus paes tanto nos seus escritos como nas conversas com os seus amigos mais íntimos da côrte de Isabel, a católica. Até a sua própria família castelhana — de parte de D. Beatriz Enriquez de Córdova, sua amante ignorava onde ele tinha nascido, porque, se para alguns dos membros dessa família, era considerado como natural de Saona, para outros a duvida prevalecia na mesma, pois, tendo-se efectuado umas pesquizas, após o seu falecimento, para se determinar, com rigor, a sua verdadeira naturalidade, o irmão de D. Beatriz, Pedro de Arana, de quem fôra grande amigo, declarou singelamente, diante de testemunhas, no seu depoimento: que ouvira dizer que Cristovam Colombo era genovês, porém que não sabia ao certo de onde ele era natural.
A incerteza dessa naturalidade prevalecia também no filho de Beatriz, Hernan Colon, pois manifesta desconhecê-la em absoluto quando diz na Vida del Almirante:

«De forma que quando a sua pessoa se viu adornada de tudo quanto precisava para realizar tão grande feito, tanto menos conhecido e certo quiz que fosse a sua origem e patria, pelo que alguns, que de maneira alguma pretenderam obscurecer a sua fama, dizem que foi natural de Nervi, outros de Cugureo, outros de Buggiasco, aldeolas perto de Génova; outros, querendo exaltá-lo mais, dizem que foi de Saona, e outros genovês, e alguns outros ainda, deitando-se a adivinhar, o fazem natural de Plasencia.»

De resto Hernan Colon foi, de propósito, á Italia fazer averiguações, mas nada conseguiu apurar, em Genova, que lhe trouxesse a convicção de que seu pai era, efectivamente, aparentado com a familia Colombo daquela cidade.
Os escritores contemporaneos do denodado nauta — espanhoes, italianos, portugueses — nada dizem de positivo acerca da sua terra natal, limitando-se a copiarem-se uns aos outros. Bernaldez, auctor da «Cronica de los Reys Catolicos», amigo intimo e depositario dos papeis mais importantes do ousado navegador, chama-lhe «homem de Genova», mas, ao referir o seu falecimento, diz que era da «provincia de Milão», demonstrando assim desconhecer, tambem, a sua verdadeira naturalidade.
Como vimos é, de facto, muito duvidosa a decantada naturalidade genovêsa bem como a sua suposta nacionalidade italiana. Parece até que desconhecia, por completo, a lingua italiana, porque todos os escritos que deixou — documentos, cartas, e as notas nos seus livros de estudo — são em castelhano ou latim... sem que neles, porém, se encontre a minima referencia a Genova. É, pois, evidente que foi, apenas, por conveniencia propria que se fez passar por genovês quando abandonou Portugal e entrou em Castela, sabendo que os genovêses «tenian gran acogimento y benevolencia en la Corte de los Reys Catolicos, segundo afirma um auctor espanhol.
Foi em 1474, estando ainda em Lisboa, que o grande navegador consultou, sobre um assunto nautico, por escrito, o celebre cosmógrafo italiano Paolo Toscanelli, tendo servido de intermediario entre ambos o comerciante Lorenzo Giraldi, italiano tambem.
Na sua carta o sabio exalta Portugal, entusiasticamente, e trata Colombo por português:

«A Cristovam Colombo, Paulo, fisico, sauda:

«Recebi as tuas cartas e agradeço-te as expressões com que me favoreces. É digno do maior louvor o desejo, que mostras, de navegar do Levante para o Poente, como se indica no mapa que te enviei, e melhor poderá demonstrar-se em uma esfera propriamente dita. Foi para mim motivo de jubilo o facto de haver sida compreendida a minha demonstração, e oxalá essa viagem, que por emquanto não saiu ainda dos limites da possibilidade, se tome real e certa, para gloria de quem a levar a cabo, e para interesse de todos os cristãos. Desses paizes só pela experiencia poderás fazer ideia perfeita, emquanto que eu a faço por boas e veridicas informações, que me teem sido fornecidas por homens ilustres e de grande saber, vindos dessas regioes a esta côrte de Roma, e por varios negociantes que ali teem traficado por longo tempo, pessoas estas para mim de toda a fé.
«De modo que, quando conseguires levar a cabo essa viagem, penetrarás em poderosos reinos, em provincias e cidades riquissimas, abundantemente providas de todas as coisas de que carecemos, isto é, de todas as especies de drogas e de pedrarias em profusão. De certo ha da ser tambem muito grata aos principes e reis dessas regiões comerciarem e entreterem relações, como ha tanto tempo desejam, com os cristãos dos nossos países, não só porque entre eles existem tambem muitos sectarios da nossa religião que teem grandissimo empenho. em tratar com os nossos sabios e homens ilustres, mas tambem porque gosam ali de grande reputação os imperios e instituiçoes dos nossos paizes.
«Nao me surpreende, pois, por estas e por muitas outras coisas que sobre o assunto poderiam ainda dizer-se, que tu, que és dotado duma tão grande alma, e a mui nobre Nação Portuguesa, que em todos os tempos tem sido sempre enobrecida pelas mais heroicos feitos de tantos homens ilustres, tenhaes tão grande interesse em que essa viagem se realise».

Como se vê pela final desta carta, o florentino, o italiano, Paolo Toscanelli, exalta, com entusiasmo, um português que tencionava efectuar uma viagem maravilhosa. Se se tratasse de facto, dum genovês os termos deste final seriam, evidentemente, outras, porque a sabio de Florença decerto, empregaria outras expressões muito diferentes dirigindo-se a um compatriota. Mas como foi o comerciante italiano Giraldi que fez a apresentação de Colombo a Toscanelli, não resta a menor duvida que, para estes dois italianos, ele era português.
Ora ha outro facto ainda que confirma a nacionalidade portuguesa do denodado nauta. Apoz a descoberta da América, Colombo foi feito almirante dos mares que navegara, vice-rei das terras que descobrira, sendo-lhe concedido usar a particula Dom antes do nome, como titulo de nobresa, e acrescentado o seu brasão de armas. Numa Carta de Provisão, de Isabel, a catolica, datada de 20 de Maio de 1493, que Navarrete reproduz no volume 2.º da sua «Coleccion de los viajes y descubrimientos que hicieron por mar los espanoles desde fines del signo XV», entre outras disposições, encontra-se a seguinte:

«... un castillo é um Leon, que Nós vos damos por armas: conviene a saber, el Castillo de color dourado en campo verde, en el cuadro del escudo de nuestras armas en la alto a mano derecha, y en el outro cuadro alto a la mano isquierda un Leon de purpura en campo blanco rampando de verde, y en outro cuadro bajo a la mano derecha unas islas douradas en ondas de mar, y en outro cuadro bajo a la mana izquierda las armas vuestras que sabiades tener, las cuales armas sean por vuestras armas e de vuestros fijos y descendientes para siempre, jamas...» etc. etc.

O brasão que Colombo anteriormente adoptára para si, por sua alta recreação, decerto, — «las vuestras armas que sabiades tener» segundo refere o documento, — era muito significativo e revelador: um escudo com cinco ancoras, dispostas da mesma maneira que as quinas dos cinco escudetes da bandeira de Portugal! Parece que por esta maneira grafico-simbolico o misterioso nauta, que tão ciosamente escondia em Espanha a sua vida preterita, pretendeu soerguer um poucochinho o veu com que ocultava a sua verdadeira nacionalidade luzitana... Este numero simbolico das cinco ancoras — em confronto com as cinco quinas, e com os cinco escudetes da nossa gloriosa bandeira, — revela o misterio. Colombo era português, porque só um português buscaria uma analogia simbolica com o pavilhão épico das quinas!



O brasão de armas de Colombo
No brazão de armas de Colombo, a disposição das ancoras no escudo, é identica á das quinas dos escudetes da bandeira de Portugal, como se pode confrontar com os desenhos que reproduzimos.


[1] V. Historia da Literatura portugueza, segunda epoca: Renascença, pág. 20-21, Porto, 1914, por Teofilo Braga.
[2] «Todo esto engendró nueva ansia y golosina en Cristobal Colon (que de suyo era, aunque pobre, de anima alentado, para emprender este descubrimiento, pero no tenia el con que executárlo. Aviendo se aconsejado cõ su hermano Bartolomé Colon, y con uno Relegioso llamado Fray Juan Perez de Marchena, del Monasterio de la Rabida del Orden de San Francisco, Português de nacion, que sabia algo de Cosmografia y con parecer y acuerdo suyo fué a valerse del favor del Rey don Juan de Portugal, que no lo oyó como el quiera...”, etc. V Historia general de la Orden de Nuestra Senora de la Merced», vol. 2.º, cap. VI pág. 89, por Frei Alonso Remon, mercenário.
Neste cronista monástico o nome do frade Marchena não condiz com o dos seguintes documentos, mais antigos, que confirmam o da carta de Colombo, com todo o rigor:
«Nos parece que seria bien llevasedes con vos un buen estrologo y nos parescio que seria bueno para esto Fray Antonio de Marchena, porque és buen estrologo, y siempre nos paresció que se conformaba ron vuestro parecer».
V. «Carta mensajera», dirigida pelas reis católicos ao Almirante em 25 de setembro de 1493, dando-lhe várias instruções para a sua segunda viagem ao Novo Mundo, publicada, nos “Documentos Diplomáticos», por Navarrete.
Las Casas — na sua «Historia general de las Indias», parte l.ª, cap. XXXII, diz tambêm:
«Segundo parece por algunas cartas de Cristobal Colon escritas por su mana (que yo he tenido en las mias) á los Reys desde esta isla Espaniola, un relegioso que habia por nombre Fray Antollio de Marchena, fué el que mucho le ayudó, á que la Reyna se persuadiesse y aceptasse la petition. Nunca pude hallar de que Orden fuese, aunque creo que fuese de San Francisco, por cognoscer que Cristobal Colon después de Almirante siempre fué devoto de aquella Orden. Tampoco pude saber cuando, ni en qué, ni como le favoreciese ó que entrada tuviera con los Reys el ya dicho Padre Fray Antonio de Marchena.»
[3] V. Chronica de D. João II, respectivamente, cap. CLXIV, CLXVIII e CLXIX.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Paolo di Pozzo Toscanelli e Cristóvão Colombo

Patrocínio Ribeiro apresenta um excerto da carta de Paolo di Pozzo Toscanelli a Cristóvão Colombo onde o humanista florentino trata o futuro Almirante das Índias por Colombo.
Em O Mistério Colombo Revelado, p. 625, publica-se a versão de Las Casas da mesma carta, onde o nome do navegador aparece grafado Columbo.
Tendo fé no mesmo livro, p. 623, numa versão latina dum anexo à carta, o humanista toscano dirige-se a Cristóvão Colombo usando a grafia: Chistofaro Colonbo.
De notar que Toscanelli se refere a Colombo como Colombo e não com um qualquer outro nome. Portanto, Toscanelli é mais um, dos coevos, que não trata Cristóvão Colombo por Cristoval Colón como recentes obras querem fazer passar.

Mas esta carta também tem servido para fundamentar os devaneios oníricos dum Colombo português, por se ver nela a afirmação da nacionalidade do futuro almirante. Estes excertos da carta de Toscanelli têm sido usados como uma das provas da nacionalidade portuguesa de Colombo.
que tu, que és dotado duma tão grande alma, e a mui nobre Nação Portuguesa, que em todos os tempos tem sido sempre enobrecida pelos mais heroicos feitos de tantos homens ilustres, tenhaes tão grande interesse em que essa viagem se realise[1].
Ou na versão castelhana:
tu que eres de grande corazon, y toda la nacion de portugueses, que han seido, siempre hombres generosos en todas grandes empresas, te vea con el corazon encendido y gran deseo de poner en obra el dicho viaje[2].
A interpretação possível é no mínimo ambígua. Trata-se duma enumeração. Até parece haver uma dicotomia: de um lado tu e do outro a nação portuguesa e em lado algum está a associação dos dois elementos, do tu à nação portuguesa.
A bem da verdade, é mais fácil ver neste documento a negação da nacionalidade portuguesa de Colombo do que a sua confirmação.

[1] Apud. Patrocínio Ribeiro, A Nacionalidade Portuguesa de Cristovam Colombo, Lisboa, 1927, p. 50.
[2] Apud. Manuel Rosa & Eric J. Steele, O Mistério Colombo Revelado, Lisboa, 2006, p. 625.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Censura aqui não há

Já no passado os debates sobre a nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo descambaram no insulto, veja-se o que se passou quando Mascarenhas Barreto ainda conseguia fazer correr a tinta na imprensa.
Uma das características da pseudociência, logo também da pseudo-história, é a incapacidade de aceitar a crítica sem tomar isso como algo de pessoal, o que leva os partidários destas correntes de argumentação a cair no insulto por incapacidade de demonstração com base na experiência, no documento, na análise e no raciocínio lógico, ou seja, por falhas insanáveis dos métodos (ou falta deles). A não aceitação da crítica, reputando-a sempre e no mínimo de incompetente, é a demonstração final do que é a pseudociência, pois recusa que a única forma de validação do conhecimento é a crítica. Para mais informação sobre este tema veja-se este excelente artigo (se ainda não foi adulterado).

Tudo isto para enquadrar um comentário posto hoje (Quarta-feira, Dezembro 20, 2006 8:45:00 AM) por um anónimo:

Pessoal nao vale a pena gastarem o vosso tempo com esses preguiçosos da leitura... Se eles nem leram as criticas a barreto nem barreto, como é que teriam lido o livro de Manuel Rosa?!
Como ja se sabe eles nao repondem à critica das suas pseudo criticas..
Tambem devo lembrar que fui aqui varias vezes censurado mas mesmo assim nao me tornei paranoico ao ponto de pensar que MR tem 20 heteronimos e q censura tudo no seu forum.
E sim, o ultimo anonimo ta certo, quando ja nao se tem nada para dizer faz-se ataques pessoias...com a juda da paranoia...


Ignorando por irrelevantes os dois primeiros parágrafos, quer-se aqui desmentir peremptoriamente o terceiro. É absolutamente falso que se tenha censurado qualquer comentário nesta página. Até agora, removeram-se unicamente dois comentários por conterem linguagem obscena, torpe. Se mais como tais houver, seguirão o mesmo caminho. Se alguém acha que expressões obscenas são aceitáveis como argumentos duma discussão, então deverá procurar outras paragens, pois aqui não será tolerado.
Quanto aos insultos que diariamente têm sido dirigidos aos autores, mais do que afectar os destinatários, revelam muito de quem os profere.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Alentejo Terra Mãe

No número 6 da revista Alentejo Terra Mãe, Maria Antónia Goes assina um artigo intitulado “Cristóvão Colombo, aliás, Colon, era de Cuba!” Surge logo como primeira preocupação deste artigo o facto de Colombo não poder ser um cardador de lã pois casou com Filipa Moniz, uma nobre portuguesa filha dum Perestrelo.
São enunciados alguns autores que preconizaram a nacionalidade portuguesa de Colombo e contam-se entre eles Patrocínio Ribeiro, Mascarenhas Barreto, Manuel Luciano da Silva, José Rodrigues dos Santos, Manuel Rosa e Eric Steele. Nesta listagem constam portanto trabalhos de ficção como é o caso do Codex 632 e trabalhos de pseudo-história em que se podem incluir todos os outros.
A autora cita ainda Lopes de Oliveira que numa obra de 1949 se fundamentou em Baltazar Teles (1595-1675), Gaspar Frutuoso (1522-1591) e o Padre Cordeiro (que não se conseguiu apurar quando viveu) para afirmar que Colombo teve conhecimento de terras no Atlântico Ocidental por marinheiros que morreram todos, não se percebe se duma assentada ou gradualmente, depois de recolhidos na casa do dito Colombo na sequência dum naufrágio.
Segundo o artigo, Lopes de Oliveira justifica que o verdadeiro nome de Colon era Salvador Fernandes Zarco baseado em autores que viveram dezenas de anos (um século no que se refere a Baltazar Teles) depois de Colombo ter estado na Madeira e ter passado por Portugal. Chega a afirmar que era filho de D. Fernando e de Isabel Sciarra da Câmara baseado numa citação em latim onde alguém refere que estes eram os seus pais, mas - talvez para agradar ao público e influenciado por Alexandre Dumas - refere ainda que Colombo ou Salvador Fernandes Zarco era o filho ilegítimo do dito duque que fez com que a mãe fosse para Génova ter o filho entregando-o então a Susana casada com o cardador de lã.
Portanto, conclui-se para justificar que Colombo sabia de terras a Ocidente, que era nobre e não um cardador de lã, há que confiar em Lopes de Oliveira socorrendo-se de autores que não conheceram Colombo e que viveram um século depois. Todos os autores coevos que não se referem a Colombo nestes termos são omitidos.
Refere-se ainda que Cristóvão era tido por Patrocínio Ribeiro como um predestinado cujo objectivo era descobrir o Novo Mundo baseado num livro de Profecias inédito que provavelmente só o dito Patrocínio teve a honra de ver.
Passa-se de seguida a analisar a firma, que em português corrente se pode designar de assinatura de Cristóvão Colombo, e que no artigo é designada também por hieróglifo. Contudo, não se trata dum hieróglifo pois não se consegue ver qualquer representação que designe um pictograma da escrita egípcia, distinguindo-se perfeitamente caracteres latinos e, no caso da palavra Cristóvão a utilização de caracteres gregos (xpo).
De acordo com Patrocínio Ribeiro que inverteu os caracteres ou letras da sigla que acompanhava sempre a assinatura de Colombo chega-se à conclusão que afinal Colombo era de Colos uma povoação alentejana. Até este momento Colombo é de duas localidades do Alentejo: Colos e Cuba se contarmos com a referida no título. E os leitores mais incautos poderão pensar Colombo é definitivamente alentejano! Neste aspecto ainda estamos atrás dos italianos, são necessárias mais terras a reivindicar a naturalidade de Colombo.
Mas, continuando a leitura do artigo: passa-se de seguida para a origem judaica de Colombo que apenas se justifica com o facto de Colombo querer esconder a sua verdadeira identidade. A teoria explicativa elaborada por Marcarenhas Barreto com base na Cabala surge neste contexto. Colombo é judeu por isso usa a Cabala ou se usa a Cabala é judeu. No entanto ficou por referir a Cabala e o estudo cabalístico da assinatura foi uma apropriação de Mascarenhas Barreto de outros autores anteriores, como Barbosa Soeiro ou Pestana Júnior.
Refere-se ainda que Colombo não pode ser italiano porque não dominava o italiano, na medida em que não há documentação nesta língua. Contudo, esta mesma argumentação não é aceite para o português, pois não há nada escrito neste idioma com excepção de algumas palavras que se podem explicar como sendo influência da sua presença em Portugal e em alguns casos dirigidas ao seu filho, esse sim português de nascimento.
A nacionalidade portuguesa de Colombo também é justificada pela proibição decretada por D. João II dos estrangeiros embarcarem em navios portugueses. Mas, esquecem-se Vespúcio, Noli, Cadamosto e todos os genoveses que desde D. Dinis serviam a marinha portuguesa (vinte pelo menos). Para não falar do elevado número de bombardeiros alemães e flamengos que serviam as armadas da Carreira da Índia e do Estado da Índia assim como criados e aventureiros como Linschoten que com os seus escritos incentivou os Países Baixos à expansão ultramarina.
Para reforçar que Colombo não era estrangeiro argumenta-se com a proibição destes navegarem para a Guiné nem que fosse em navios portugueses. Ora, o que está demonstrado é que apesar dessa proibição os estrangeiros nunca deixaram de navegar para a Guiné ou outras partes em navios próprios ou não. Para além disso, o atlas de Henricus Martelus (c. 1489) nega a política de sigilo portuguesa, ou pelo menos manifesta a sua grande permeabilidade, pois cerca dum ano depois da viagem de Bartolomeu Dias consta nele toda a informação geográfica dessa viagem (ver cópia exposta na Sociedade de Geografia de Lisboa).
Colombo também era português porque “fazia os seus cálculos usando a criptografia náutica portuguesa”, seja isso o que for!
As alusões ao tratado de 1479-1480 estão erradas pelo que se recomenda a revisão da matéria. As alusões ao papel de Salvador Fernandes Zarco (assimilado a Cristóvão Colombo) decorrentes deste erro são, portanto, de todo descabidas.

Em nenhum lado se mencionam os trabalhos historiográficos que rebatem tais ideias e muito menos se faz a referência a informações contrárias às difundidas. Trata-se claramente de manipulação da História com fins propagandísticos venha-se lá a saber do quê?

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

As armas de Cristóvão Colombo

Um excerto da carta de Isabel de Castela que confere brasão de armas a Cristóvão Colombo é publicada em 1927 por Patrocínio Ribeiro.[1]

«... un castillo é um Leon, que Nós vos damos por armas: conviene a saber, el Castillo de color dourado en campo verde, en el cuadro del escudo de nuestras armas en la alto a mano derecha, y en el outro cuadro alto a la mano isquierda un Leon de purpura en campo blanco rampando de verde, y en outro cuadro bajo a la mano derecha unas islas douradas en ondas de mar, y en outro cuadro bajo a la mana izquierda las armas vuestras que sabiades tener, las cuales armas sean por vuestras armas e de vuestros fijos y descendientes para siempre, jamas...»

E conclui de imediato e sem mais nada:

O brasão que Colombo anteriormente adoptára para si, por sua alta recreação, decerto, — «las vuestras armas que sabiades tener» segundo refere o documento, — era muito significativo e revelador: um escudo com cinco ancoras, dispostas da mesma maneira que as quinas dos cinco escudetes da bandeira de Portugal! Parece que por esta maneira grafico-simbolico o misterioso nauta, que tão ciosamente escondia em Espanha a sua vida preterita, pretendeu soerguer um poucochinho o veu com que ocultava a sua verdadeira nacionalidade luzitana... Este numero simbolico das cinco ancoras — em confronto com as cinco quinas, e com os cinco escudetes da nossa gloriosa bandeira, — revela o misterio. Colombo era português, porque só um português buscaria uma analogia simbolica com o pavilhão épico das quinas!
Manuel Rosa[2] apresenta uma citação muito parecida mas, tal como Ribeiro (que não é mencionado), não referencia a fonte, o que é sistemático em ambos e impeditivo da necessária confirmação dos dados apresentados.
Neste capítulo, além de se tecerem considerações várias como se algum ajuste de contas houvesse a fazer, há uma dispersão por temas marginais, secundaríssimos e esotéricos que em vez de esclarecerem só mistificam. Fazem-se declarações de fé[3], remonta-se ao conde D. Henrique de Portucale para procurar um entroncamento borgonhês, passa-se pela simbologia rosacruziana, para acabar por reconhecer a «tamanha escassez dos factos»[4] e de nada se ter avançado neste capítulo que adiante algo ao que Patrocínio Ribeiro escrevera.

Se as armas apresentadas são as de Cristóvão Colombo e se, para efeitos de discussão académica, as âncoras são legítimas, ou seja, «las armas vuestras que sabiades tener» antes de 1493, então ter-se-á que procurar entre as famílias portuguesas (e estrangeiras!) aquelas que têm âncoras anteriores a essa data e ver se nelas se pode encaixar o navegador de forma mais plausível do que tem sido feito até aqui.
Não sendo âncoras os elementos que deveriam figurar, mas outros quaisquer em X, então dever-se-á fazer o mesmo que em cima foi enunciado.
Mas também se se enveredar pelo caminho «dos elementos que deveriam figurar mas não figuram», então todas as famílias brasonadas antes dessa data são candidatas a parentes de Cristóvão Colombo.
Mas também, ainda, os elementos que constam na ponta inferior do escudo, e que não são referidos pela carta da rainha D. Isabel, deveriam merecer atenção na pesquisa de acordo com os critérios e considerações acima enunciados.

Um problema de outra ordem é o de se saber se Cristóvão Colombo tinha ou não tinha armas antes de 1493.
Na ausência de fontes que o atestem ou desmintam não se pode saber. O que não invalida a possibilidade de se colocar toda uma série de hipóteses que, como tais, nunca serão certezas. É que a possibilidade de fazer História tem limites e quando estes são atingidos há que ter a humildade de o reconhecer e de não inventar.

Como hipóteses, e não como certezas do que quer que seja, e partindo de determinados pressupostos também eles hipotéticos, convinha considerar o seguinte:
Assumindo que Cristóvão Colombo não tinha armas, este poderia ter insinuado ou declarado possuí-las e nunca ter feito prova disso, acabando o poder, voluntária ou involuntariamente, por acreditar, esquecer o assunto ou, não acreditando, deixar-se ludibriar. Afinal um almirante, vice-rei, etc. tem de ter alguma dignidade e pedigree, além de que a própria dignidade que o estado devia apresentar a isso impelia.
Querendo o poder omitir as armas originais de Cristóvão Colombo por este ser o português (ou qualquer outro) que se diz ser, não omitiria também, e se calhar mais facilmente, a falta destas por qualquer razão, como por exemplo pelas razões acima referidas?
Se a rigidez, apresentada quase como canónica, da atribuição, reconhecimento e vigilância das armas era tanta, então porque é que hoje não abundam por todos os arquivos os registos das suas atribuições, confirmações, reconhecimentos e reprovações? Afinal, se a heráldica era assim tão importante, esses registos deveriam ter sido religiosamente guardados e sobrevivido até aos nossos dias. Mas havendo essa rigidez, não havia sempre a possibilidade da excepção pela simples vontade régia que em Portugal, por exemplo, se exprimia na forma escrita sob a fórmula «de minha certa ciência e poder absoluto... sem embargo da ordenação e do parecer dos doutores», o que na prática, e no extremo, permitia ao rei ser senhor absoluto impondo a sua vontade ao arrepio da Lei?

Como se referiu, a possibilidade da História está limitada às fontes disponíveis. Para além delas fica-se limitado à formulação de hipóteses e conjecturas cuja plausibilidade está condicionada pelas possibilidades epocais e argumentação racional. Ora, plausibilidade, possibilidade epocal e argumentação racional não são objectiváveis e é nelas que residem grande parte das verdadeiras polémicas em História. Isto já de si é verdadeiramente complicado, tornando-se ainda mais quando pelo meio aparece quem se recuse a operar com os mesmos valores.

[1] Patrocínio Ribeiro, A Nacionalidade Portuguesa de Cristovam Colombo, 1927, p. 51.
[2] Manuel da Silva Rosa & Eric J. Steele, O Mistério Colombo Revelado, 2006, cap. XVII.
[3] «De acordo com a nossa crença de que Colon era um membro da realeza portuguesa (...)», Id., Ib., p. 525.
[4] Id. ib., p. 526.

domingo, 17 de dezembro de 2006

As armas de Cristóvão Colombo, as Quinas, e as outras

Como anteriormente mostrei, há outras famílias em cujas armas figuram cinco elementos repetidos dispostos em X. Os exemplos apresentados foram escolhidos de forma perfeitamente casual, mas duvido que tenham maiores relações sanguíneas com a família real que a maioria das restantes famílias brasonadas de Portugal.
Barbosa Soeiro escrevinhou sobre armas de Colombo e das Quinas nacionais, fez uns poucos jogos de geometria (e mais poderiam ser feitos) para chegar ao ponto de partida: Cristóvão Colombo era português! Este método historiográfico fez escola e quase 80 anos depois é retomado e adaptado no Mistério Colombo Revelado, p. 524 e ss. Só que em vez de pontos e linhas trabalha-se agora com círculos.
Há explicação de origem coeva para três quartos do escudo (a saber: castelo invoca Castela, leão o reino do mesmo nome, as ilhas as terras descobertas) e estando reservado o último para as armas de família, aonde acabaram por figurar as tidas por enigmáticas âncoras.
Estas âncoras têm sido vistas sob as mais especulativas e delirantes perspectivas, excepto pela mais óbvia e normativa da armaria que é o representarem serviço naval de relevo. Se Colombo anteriormente não tinha armas, e para não ficar o campo vazio, o que é que lá havia de pôr e que mais sentido fizesse?

O que é que significam as imagens acima apresentadas?
Não sei. Diga-mo quem souber. A mim pareceu-me um exercício engraçado.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Patrocínio Ribeiro - Assinatura de Cristóvão Colombo

Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica (...), Lisboa, Liv. Renascença, [1927], Cap. IV, pp. 55-73.

Texto Integral

IV

DECIFRAÇÃO DEFINITIVA DA FIRMA HIEROGLIFICA


Cheguei, finalmente, ao ponta mais interessante deste meu estudo histórico — determinativo da verdadeira nacionalidade do celebrado descobridor da America: — a análise do curioso hieroglifo com que autenticava os documentas oficiais e todos os seus escritos de maior importância, hieroglifo singular que é a chave do complexo e tão discutido enigma da sua naturalidade.
Documentalmente, históricamente, nada se sabe de positivo dos antepassadas de Cristovam Colombo, das seus progenitores, da data certa do seu nascimento, dos episódios da sua infância, do objectivo da sua educação, dos primeiros anos da sua vida, etc., etc. Êle, que escreveu tanto, que deixou tantos manuscritos da seu proprio punho, nada quiz revelar, porém, sôbre a sua familia nem a respeito da sua propria personalidade! Sabe-se todavia, que teve dois irmãos — um chamava-se Diogo e foi clerigo, e o outro Bartolomeu, que Antonio Galla, auctor coevo genovês, afirma ter nascido em Portugal. Sabe-se, tambem, que viveu alguns anos em Lisboa de onde escreveu ao sábio florentino Toscanelli, e onde casou com D. Filipa Moniz de Melo, filha de Bartolomeu Perestrelo, donatário da ilha do Porto Santo, tendo nascido dêste consórcio um filho chamado Diogo. Foi acompanhado por esta criança que o futuro descobridor do Novo Mundo saíu de Portugal afim de se dirigir a Huelva, onde residia sua cunhada D. Violante Moniz, casada com Michelle Moliarte. Viveu, então, em casa do duque de Medinaceli algum tempo, até que, após várias peripécias, conseguiu ser apresentado à rainha Izabel, a católica, que se interessou por êle e o autorizou, ao cabo de alguns anos, a efectuar a sua viagem maravilhosa, que iniciou a 3 de Agosto de 1492. E, em consequência dêste feito famoso, esse português obscuro, mas denodado nauta e marinheiro intrépido, conquistou a imortalidade gloriosa, firmando, definitivamente, o seu lugar na História sob um nome castelhano: Cristobal de Colón.
É interessante, porém, que sendo conhecido no seu tempo por êste nome, nunca assim se tivesse assinado mas, únicamente, desta maneira inconfundivel.

XPOFERENS
(Christoferens)

Por disposição testamentária, ele até deixou muito recomendado, aos seus descendentes, que autenticassem, sempre, todos os documentos com a firma de que tinha feito uso:

«... firme de mi firma la cual agora acostumbro, que és una X com una S em cima y una M com una A romana en cima, y en cima dela una S y despues una Y griega con una S en cima con sus rayos y virgulas, como yo agora fajo; y se parecerá por mis firmas de las cuales se hallaram muchas y por esta parecerá. Y no escrebirá sino el almirante puesto que outros titulos el Rey le desse o ganasse; esto se entiende en la firma y no en su ditado que poderá escribir todos sus titulos como lo pluquire; solamente en la firma escribirá el Almirante.»


A assinatura de Colombo
(1) e (2) — Antes de 1492: Christoferens
(3) — Depois da descoberta da America: El Almirante

Esta recomendação singular aos seus descendentes — certamente para que a firma-hieroglifica se perpectuasse atravez dos tempos — não deixa de ser significativa num homem tão misterioso, dum caracter tão reservado e tão enigmatico, que, conforme via o seu nome tornar-se mais e mais célebre «tanto menos conocido y cierto quiso que fuese su origen y patria».
Ora a assinatura habitual do grande nauta, antes de embarcar para a primeira viagem ao Ocidente, era esta:

.S.
.S. A. S.
X M Y
XPOFERENS


Depois da descoberta — quando entrou na posse de todos os direitos e honras que pelo seu feito épico ganhara — passou a assinar-se assim :

.S.
.S. A .S.
X M Y
EL ALMIRANTE


Como se vê, esta firma exótica é uma verdadeira charada, charada extranha que diferentes históriografos modernos teem procurado decifrar debalde. Apos algumas tentativas falhadas, coube-me a sorte, porém, de ter conseguido descobrir a complexa chave do tenebroso enigma onomatográfico, como em seguida vou expor.
Todos os escritos que o descobridor do Novo Continente deixou á posteridade, como já vimos, são em latim ou castelhano. É singular que, dizendo-se natural de Genova — de onde yo sali y donde yo nasci — nada deixasse escrito na lingua materna! E é singularíssimo, também, que tendo vivido tanto tempo em Portugal — segundo o que históricamente se conhece dêle — nada deixasse escrito em português puro. Mas se é aceitavel supôr que o denodado nauta não sabia italiano, não tem aceitação alguma possível o seu desconhecimento total da língua portuguesa... tanto mais que as palavras que os investigadores espanhoes teem tomado por termos galegos são, genuinamente lusitanas.
Ha aqui, pois, um mistério.
Analisando a firma que Colombo usava em Castela — pois não se conhece escrito algum seu, durante a sua permanência em Portugal — apenas se lê, claramente, XPOFERENS (Christoferens) duas palavras latinas — Christo e Ferens equivalentes á expressão: — o que conduz Cristo, o que vai com Cristo, o que leva Cristo.
Ora porque não escreveu êle, correntemente, em latim, Christophorus, que tem a mesma significação?
A razão explica-se:.— é porque a firma está escrita em grego e os vocábulos Christo e Ferens equivalem ao Christoforos da referida língua, que escrito com caracteres próprios seria de dificil leitura, e escrito em caracteres latinos estabeleceria confusão com a fórma gráfica italiana: Christóforo.
Intencionalmente, premeditadamente, pretendendo assim ocultar ainda a sua nacionalidade, êle imprime á sua própria assinatura um carácter hieroglífico, evitando assinar-se com o nome castelhano porque era conhecido — Cristobal de Colon — e com o italiano Cristoforo Columbo — que realmente lhe pertenceria se fôsse genovês, como pretendera fazer acreditar ao apresentar-se nos domínios de Izabel a católica. Espirito culto, homem de vistas largas, com uma pr [espaço em branco] literária e erudita, que poucos dos seus contemporâneos possuíam, Colombo, extremamente inteligente, descobriu a fórma gráfica de universalizar o seu nome sem todavia o revelar duma maneira clara, terminante, certa, pois o Xpoferens que êle inventou, equivalerá, perpectuamente, ao Christopher dos inglezes, ao Christophe dos franceses, ao Cristobal dos espanhoes, e ao Xpovão ou Christovam dos portugueses.
No apelido, porém, é que esta o inigma. Êsse apelido — Colon — por que era conhecido, jamais êle o escreveu junto ao seu nome próprio. Misteriosamente, recomenda aos seus descendentes que façam sempre uso da firma que usar, essa firma-hieroglífica que era o seu segrêdo e que ele, meticulôso em extremo, queria que se perpetuasse através dos séculos. Nenhum biografo ligára importancia a esta recomendação de Colombo, ninguem reparára no cuidado intimo com que formulara esta disposição testamentária. A firma era enigmática, tenebrosa, indecifrável, diziam os investigadores, encolhendo os hombros com indiferença. Alguns, porém, mais pertinazes, tentavam matar a charada. E todos iam bater ao mesmo ponto: as letras soltas eram apenas, as iniciais de nomes de santos! Eu nunca me convenci d'isto. Tinha a certeza moral de que só par êsse facto, Colombo não tomaria tanto interesse para que o mistério da sua assinatura passasse á posteridade. Uma razão mais poderosa devia haver, pensava eu, registando as opiniões da firma-invocatória. E puz-me a estudá-la com afinco, com pertinácia, procurando a decifração integral, buscando uma solução mais coerente, mais lógica.
Durante longos meses, a firma hieroglífica de Colombo constituiu toda a minha preocupação e, coisa curiosa, quanto mais impenetrável me parecia, mais e mais crescia em mim o desejo intenso de decifrá-la.
Uma noite, casualmente, reparei que o desenho dos três primeiros caractéres gregos da palavra Colon se assemelhava, notávelmente, ao do X, M, e Y sobrepostos ao Xpoferens, se bem que estas três letras estivessem invertidas... Estava encontrada a chave do enigma, estava morta a charada. Emocionado com a minha descoberta, tratei logo de a verificar, de a analisar, e a palavra que a constitui, então, encheu-me de surpreza, deixou-me, positivamente, assombrado!
Ora a firma-hieroglífica, apesar da declaração de Colombo no seu testamento, — ...que és una X con una S en cima, y una M com una A romana en cima, y en cima dela una S y despues una Y griega com una S en cima com sus rayos y virgulas, como yo agora fajo...» — é composta, apenas aparentemente, por cinco caracteres latinos diferentes, repetindo-se duas vezes o S, por mera disposição estética, talvez.
E assim esses caracteres aparentemente latinos — que uma simples casualidade, como já expliquei, me fez descobrir invertidos — são rigorosamente helénicos e equivalentes ás seguintes letras do alfabeto grego:— o X ao Khi o M ao ómega, o Y ao lambda, o S ao sigma, entrando tambem o alpha A, que ocupa o centro da firma e que ás vessas — V — dá um V ou um U.
Afirmar é muito, mas comprovar é tudo. Vamos pois, fazer a confirmação rigorosa desta afirmativa verídica.
Ora a firma misteriosa de Colombo, como já vimos, era esta:

.S.
.S. A .S.
X M Y
XPOFERENS


Supondo as letras, que estão sobrepostas ao XPOFERENS, como numa projecção, teremos:


Eliminada agora a parte superior, por ínutil, fica-nos:


Está agora a firma na sua ordem racional, isto é: o nome próprio antes do apelido como é de uso, como é vulgar. Foi evidentemente, sob esta primitiva forma que Colombo a concebeu, porque os caracteres são rigorosamente gregos, excepto o do centro que dá um V romano decerto para não se repetir o ómega. Vejamos pois:


Revelado o caracter oculto da firma, encontrados por esta forma os caracteres que a compõem, basta juntá-los — o Khi, o ómega, o lambda, o V, e qualquer dos sigmas, para se poder ter a palavra grega que resulta dessa combinação;


A palavra grega é Cholus; portanto, a firma escrita em grego rigoroso, daria Xptophoros Cholos (Christophoros Cholos) e, traduzindo-a em latim teremos:

XPOFERENS
COL
V
S


Encontramos assim Xpoferens Colus ou, com mais rigor, Christophorus Colus.
Portanto, a decifração integral da curiosa charada da assinatura do imortal descobridor da América é esta, muito simplesmente:

CHRISTOFERENS COLVS


que se pode traduzir em português corrente, em português. do nosso tempo, desta maneira:

CRISTOVAM DE COLOS


Ora a povoação de Colos só existe em Portugal, na provincia do Alentejo. ([1]) É uma vila antiquissima, de


Decifração integral da firma
(I) A assinatura, mais vulgar, do grande navegador.
(II) A firma isolada parece escrita cm caracteres, aparentemente, latinos.
(III) Na firma invertida esses caracteres são gregos, correspondentes aos do n.º IV, como o confronto demonstra claramente.
(V) As letras gregas que entram na composição da firma.
(VI) A assinatura em grego: Christoforos Cholus.
(VII) A assinatura em latim: Christoferens Colus.


fundação romana, edificada na raiz dum pequeno monte, entre duas ribeiras afluentes do Sado, — a ribeira da ferraria e a de S. Romão — perto de Messejana, pertencente ao distrito e bispado de Beja, no concelho e comarca de Odemira.
Nasceria então o denodado nauta Cristovam de Colos na vila de Colos? Será esta, de facto, a sua naturalidade que sempre e tão obstinadamente, ocultou? Será esta modestíssima povoação alentejana a sua verdadeira terra natal? Tudo o parece indicar, como veremos.
De resto, no seu tempo, era vulgaríssimo em Portugal, empregar-se, logo em seguida ao nome próprio, a designação local da naturalidade. Assim temos, entre outras personalidades históricas de destaque, os navegadores: Diogo de Azambuja, João de Santarém, Gonçalo de Sintra, Pedro de Sintra, João de Mafra, Pero de Alemquer, João Afonso de Aveiro, e os viajantes: Pero da Covilhã, Ayres de Almada, Pero de Évora, Abraão de Beja, José de Lamego e Fernão Martins de Santarém.
Mas Colos — como berço natal de Colombo — tem ainda outros argumentos a seu favor. Quando o sol é muito forte, muito quente, muito intenso, os habitantes de Colos referindo-se á penetração molestante dos raios sobres sobre a pele, costumam dizer:—Está um grande espeto!
Ora este termo — espeto — que eu nunca tinha ouvido empregado nesta acepção e que, percorrendo o Baixo-Alemtejo, o ouvi unicamente em Colos, foi usado por Colombo, com o mesmo significativo sentido, numa passagem da carta que, em 4 de Março de 1493, escreveu a Luiz de Santangel, comunicando-lhe a descoberta que vinha de efectuar:

«En estas islas fasta aqui no he hallado hombres monstrudos, como muchos pensavan, mas antes és toda gente de muy lindo acatamiento, ni son negros como en Guinea, salvo con sus cabellos corredios, y no se crian adonde ay espeto demasiado de los rayos solares; és verdade qu'el sol tiene ali gran fuerça, puesto que és distante de la linea equinoccial veinte é seis grados».

Esta passagem da carta — «espeto demasiado de los rayos solares» — empregada nesta acepção exclusiva, puramente regionalista, tem o seu quê de significativa e reveladora.
Presentemente, existe ainda nas proximidades da vila de Colos, uma herdade chamada Colombais.
Era conhecida sob a mesma designação nos princípios século XVIII — segundo se lê numa escriptura de compra de 1709 — e não será arriscado supor-se que já existiria com o mesmo nome em pleno século XV, no século em que nasceu Cristovam Colombo.
Ora o vocábulo Colombais parece derivar-se das palavras portuguesas Colombar, ave congénere ao pombo, ou de Colombário, que significa pombal.
Mas pode tambem ter uma origem latina, por exemplo: de Columbarius, ou Colombaris (re), respeitanta a pombo, ou de Columba, (ae) a pomba, e Columbus (i) o pombo. Nasceria Colombo nesta herdade? Eis um ponto histórico que convem estudar com a maior atenção, quando se encontrarem os necessários documentos para se poder fazê-lo com criterio e segurança.
Colos, de resto, resolve tambem o problema tenebroso do apelido castelhano do grande nauta, porque o nome portuguesíssimo de Cristovam de Colos — segundo uma regra etimológica — transportado à língua de Cervantes, traduzido em espanhol, dá, muito simplesmente, Cristobal Colon.
E aqui está um apelido deturpado, improvisado, que serviu depois, explendidamente, ao seu possuidor.
Cristovam de Colos passou a ser, então, para os castelhanos, o estrangeiro Cristobal de Colon, apenas, que se dizia genovês e descendente dos Almirantes Colombos.
E conquanto houvesse por êsse tempo o apelido Colon na Península, pois existiam famílias Colons em Pontevedra, Tarragona e em Plazencia — originárias, decerto, do ramo francês Cullam — nenhum dos cronistas contemporâneos do ousado navegador se lembrou de lhe atribuir parentesco com quaesquer destas famílias. Para êstes, Cristovam de Colon era, muito simplesmente, um Colombo italiano.
Dá-se, porêm, a circunstancia singular de que, por êsse tempo, vivia em Génova um tecelão chamado Cristoforo Columba, filho de Dominico Columbo e de sua mulher Suzana de Fontanarubia, personagem completamente obscura que os historiógrafos italianos modernos tem procurado identificar, de balde, com o próprio Cristobal de Colon, descobridor da America, mas nada de comum existe entre êles, a não ser... a analogia do nome próprio: Cristovam.
Apesar de tudo, Colombo declarou-se natural de Génova, ocultando, todavia, o nome de seu pai e de sua mãe, que se não sabe quem foram.
Mas mentiu, e mentiu com um fim reservado muito pessoal e muito intimo.
Ora essa mentira intencional, dizendo-se nascido numa cidade onde nunca pôs os pés, trouxe-lhe, de certo, a vantagem de o impôr na côrte de Izabel a católica, como homem do mar, como marinheiro de longo curso, como marítimo experimentado em navegações ousadas, pois por êsse tempo os genoveses eram os rivais dos portugueses na arte de marear.
E assim, sob este aspecto, sob esta máscara recomendativa, imaginou ser-lhe muito mais facil conseguir os seus fins, como de facto depois se viu, se bem que a luta fôsse obstinada, tenaz, durante uma série de anos, de solicitações e vexames, segundo reza a História, e como ele próprio, por varias vezes, amarguradamente, acentuou nos seus escritos.
Mas, alguns auctores modernos pretendem ver nessa mentira de Colombo a maneira prudente de ocultar a sua origem israelita, que seria, evidentemente, um grande obstáculo ás suas aspirações e um grande estôrvo aos seus desígnios.
Podem ter razão, também, esses biógrafos, tanto mais que as enfadonhas dificuldades que Colombo encontrou para lhe aceitarem o oferecimento dos seus serviços nauticos, em Castela, os cristãos-novos — Luís de Santangel, Luís de Torres, Rodrigo Triana e outros, — que levou por companheiros nessa primeira viagem ao Ocidente, onde não quiz ir um único padre, as profusas citações bíblicas dos seus escritos, os legados do seu testamento a judeus residentes em Lisboa, a forma entusiástica como exalta as sublimidades do Ouro, com todo o calor dum verdadeiro hebreu ganancioso, e outros, e vários outros pontos sintomáticos, tudo parece provar uma possível origem israelita.
Por esse tempo, os sábios semitas viviam livremente na côrte portuguesa, cercados pela estima e consideração dos próprios monarcas.
D. Afonso V — que teve no hebreu Isaac Abrabanel, o seu verdadeiro ministro das finanças — foi um acérrimo defensor dos judeus, dando-lhes, até, a mais ampla liberdade dentro do reino.
Seu filho e sucessor — o impávido D. João II — tambem os estimava muitíssimo, especialmente os que ele conhecia como homens de comprovado mérito e competencia.
Foi perante a sua insistente solicitação que o grande estralico judeu Abraham Zacuto, distinto matemático autor do famoso «Almanach perpetuus», veiu para Portugal exercer o elevado cargo de astrónomo real.
Mestre Josepo Judeu, ou José Vizinho, era astrónomo e médico da Junta dos Matemáticos, tendo efectuado várias viagens á Guiné para determinar com rigor algumas latitudes.
Abraham de Beja e José de Lamego — que desempenharam missões diplomáticas do maior segredo e da mais alta importancia para a vida política da nação — eram ambos hebreus, como o era, também, Mestre Rodrigo, físico-mor da côrte.
Garcia de Rezende — no capítulo XCI da sua Chrónica — refere que Mestre Antonio, cirurgião-mor do reino, era judeu e, ao tornar-se cristão-novo, foi seu padrinho de baptismo o próprio D. João II.
Muitos e muitos dos nossos navegadores de maior destaque, da época das descobertas, eram antigos judeus conversos, cristãos-novos.
Colombo seria judeu português convertido? Seria cristão-novo, tambem?
É muito possível que o fôsse, conforme vimos.
Mas, cristão-novo ou cristão-velho, o que não resta a menor dúvida é que êste homem genial nasceu na província do Alentejo e que, pelo seu feito épico, comprovou possuir íntegras todas as qualidades heroicas da raça portuguesa, que Camões brilhantemente, enalteceu nos versos candentes dos Lusíadas!
Mais uma grande gloria cabe, a Portugal par ter dado ao mundo Cristovam de Colos, êsse seu filho eminente, navegador ousado, denodado nauta, descobridor imortal, «que cuando fué su persona a proposito y adornada de todo aquello que convenia para tan gran hecho tanto menos coñocido y cierto quiso que fuese su origen y patria...»

[1] Colos — Vila de Portugal, no Alentejo. El-Rey D. Manuel I, a fez Vila dando-lhe foral; antigamente era lugar do Termo da Vila de Sines.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Patrocínio Ribeiro - Cristóvão de Colos

Patrocínio Ribeiro, achando que a assinatura de Cristóvão Colombo não diz nada sobre quem ele realmente é, decide estudá-la para a decifrar. Não chegando a lado algum, repara que invertendo as três linhas superiores obtém letras gregas – bem, força um pouco e converte o A invertido num V ou U latino, mas não faz mal – e, se não conseguia decifrar o que fosse em caracteres latinos, consegue-o com gregos – vá lá, já houve quem tivesse de recorrer a hebraico de duvidosa qualidade – e obtém um nome que serve para fundamentar a tese de ser o navegador português: Cristovão de Colos.
A bem da verdade, a haver enigma e pelo princípio da Navalha de Occam, a solução deverá passar pela decifração dos caracteres latinos; ainda assim a opção de Ribeiro pelos caracteres gregos (mais ou menos) é mais plausível que o recurso por Mascarenhas Barreto a caracteres hebraicos lidos através da Cabala (seja lá isso o que for) para obter o nome Salvador Fernandes Zarco, o qual para Manuel da Silva Rosa se tornou na hipótese mais provável para o nome dum Cristóvão Colombo português.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Nacionalidade Portuguesa de Colombo por Casamento

Cristóvão Colombo era português se, de facto, foi casado com Filipa Moniz. Pelas leis de então, tal como pelas de agora, o casamento garante a nacionalidade.
Não se quer com isto dizer que ele seja estrangeiro de nascimento nem o seu contrário; tal como não se quer deitar fora a "certeza" presente de que ele foi casado com Filipa Moniz, e que esta era quem se tem dito que era.
Convém realçar que Bartolomeu Perestrelo tinha ascendência italiana. Tal origem pode ter determinado um contrato matrimonial duma filha deste - embora já falecido na altura - com um italiano. Ainda dentro desta hipótese, não se deve descurar a possibilidade de serem famílias conhecidas uma da outra e até mesmo com anteriores relações familiares ou outras.
Como tudo o resto, tanto as "certezas" como as hipóteses carecem de crítica e de demonstração documental, pois, como se tem visto e continuará a ver, muita escória ainda virá à superfície.


(Gráfico elaborado a partir dos dados fornecidos por Patrocínio Ribeiro. Carregue na imagem para ampliar)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Patrocínio Ribeiro - a família da esposa de Cristóvão Colombo

Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica (...), Lisboa, Liv. Renascença, [1927].

Texto integral da genealogia que apresenta

Ascendência e descendência de D. IZABEL MONIZ — Sogra de Colombo

HENRIQUE MONIZ, alcaide-mór de Silves, casou em 2.as núpcias com D. IGNEZ PEREIRA, filha de D. Diogo Alvares Pereira e, entre outros filhos, geraram:
VASCO MARTINS MONIZ
que, passando á ilha da Madeira, fixou residência no Machico, e ali casou por três vezes, sendo a última com D. Joana Teixeira, filha de Lançarote Teixeira, o velho, e de D. Brites de Gois, neta paterna de Tristão Vaz, 1.º capitão donatário do Machico, e de sua mulher D. Branca Teixeira, da casa fidalga dos Teixeiras, de Vila Real, e neta materna de João do Rego e de sua mulher D. Brites de Gois. Vasco Martins Moniz faleceu na vila do Torrão, onde residia sua mãe já bastante idosa. Do seu casamento com D. JOANA TEIXEIRA,
nasceram:
GARCIA MONIZ
de quem não falam os
genealogistas.
DIOGO GIL MONIZ
Foi reposteiro-mór e vedor da fazenda do infante D. Fernando, senhor de Beja, onde tinha casa. Era casado com D. Leonor da Silva, filha de Ruy Gomes da Silva, senhor da Chamusca e Ulme, e de D. Branca de Sousa, irmã do 1.º conde de Abrantes. Dêste casamento nasceu D. Francisca da Silva, que casou com D. Sancho de Noronha. 3.º conde de Odemira; ela faleceu antes de 1521 e foi sepultada no convento de Santo Antonio de Odemira. Diogo Gil Moniz exerceu com sua irmã viuva, D. Izabel Moniz, a tutoria de seu sobrinho Bartolomeu Perestrelo, durante a menoridade dêste.
FREI CHRISTOVAM MONIZ
Era da Ordem dos Carmelitas. Foi bispo titular de Reona, e coadjutor do bispado de Evora. Sendo eleito prior do convento do Carmo, em Lisboa, no ano de 1510, exerceu o cargo até 1522. Em 1528, coma bispo, sagrou a igreja de Colares.
D. IZABEL MONIZ
Foi a 3.ª mulher de Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatário da ilha de Pôrto Santo. Quando seu marido faleceu na vila da Baleira, da referida ilha, recolheu-se a casa de seu pai com os seus dois filhos Bartolomeu de 7 anos, e Filipa, de 5, vendendo a capitania de Pôrto Santo a Pedro Correia da Cunha, casado com D. Iseu Perestrelo, filha de Bartolomeu Perestrelo e de sua segunda mulher D. Brites Furtado de Mendonça, venda esta que seu filho mais tarde fez anular. Exerceu a tutoria de seus filhos menores conjuntamente com seu irmão Diogo Gil Moniz. Do seu casamento com Bartolomeu Perestrelo parece ter havido os seguintes filhos:
BARTOLOMEU PERESTRELO
Casou com D. Guiomar Teixeira, que assassinou, e em segundas núpcias com sua cunhada D. Solana Teixeira.
FILIPA MONIZ DE MELO
que casou com Cristovam Colombo.
BRIOLANJA ou VIOLANTE MONIZ
que casou com Michelle Muliarte.

Ascendência e descendência de BARTOLOMEU PERESTRELO — Sogro de Colombo

Gabrielle Pelestrello e Bartholine Biforti geraram FILIPPONE PELESTRELO, que casou com D. CATHARINA DE MELO
Dêste casamento nasceu:
BARTOLOMEU PERESTRELO
da casa do Infante D. Henrique, e o primeiro donatário da ilha de Porto Santo, para onde fôra com alguns colonos do continente
Casou com D. Margarida Martins, que assassinou.
Casou em segundas núpcias, com D. Brites Furtado de Mendonça, filha do capitao-mór do mar Afonso Furtado, de quem teve:
D. FILIPA, que casou com Mem Rodrigues de Vasconcelos, comendador do Seixo e senhor das terras do Caniço (Madeira).
D. CATHARINA FURTADO, que casou com João Teixeira, 3.º filho do 1.º capitão donatário do Machico, Tristão Vaz.
D. ISEU PERESTRELO, que casou com Pedro Correia da Cunha, proprietário da quinta da Charneca, perto de Lisboa, onde faleceu em 1499. Dizem alguns nobiliários que tambem foi capitao da ilha Graciosa.
Casou em 3.as nupcias com D. ISABEL MONIZ, filha de Vasco Martins Moniz e de D. Joana Teixeira, de quem teve:
BARTOLOMEU PERESTRELO
Que era menor de oito anos quando seu pai faleceu. Foi tutelado por sua mãe e seu tio Diogo Gil Moniz. Embarcou em Lisboa para Larache, afim de tomar parte nas guerras de Africa. Após alguns anos de ausência, voltou á Madeira e, instigado por seu cunhado Mem Rodrigues de Vasconcelos, promoveu uma demanda a seu cunhado Pedro Correia da Cunha, para anulação do contracto da venda de Pôrto Santo, efectuado por sua mãe durante a sua menoridade. Venceu esta demanda em 15 de Março de 1473. Casou com D. Guiomar Teixeira, filha do navegador Tristão Vaz e de sua mulher D. Branca Teixeira, de quem teve um filho chamado Bartolomeu e, assassinando sua esposa por adultério, casou em segundas nupcias, com a irmã dela D. Solana Teixeira.
D. BRIOLANJA ou VIOLANTE MONIZ
Que casou com Michelle Muliarte, e residiam em Huelva, onde Colombo os foi procurar, quando saíu de Portugal, em 1484. Parece que já tinha enviuvado no começo do século XVI, pois Diogo Colombo, filho do navegador, no seu testamento de 16 de Março de 1509, determina o seguinte: Manda vintiseis. Item manda que a mi tia Brigulaga (sic) Moniz seran dados por sus tercios veinte mil maravedis en cada un año mientras que viviere para sus necessidades computados los dies mil marevedis que la salia dar. Diogo Colombo, irmão do descobridor, tem no seu testamento a seguinte verba tambem: Item, mando que se paguem a Briolanza Muñiz diez ducados de oro, en lismonai, e perdoa-lhe uma divida antiga de oito mil maravedis.
D. FILIPA MONIZ DE MELO(1)
Esteve no mosteiro de Santos, segundo diz o autor da Vida del Almirante. Parece que faleceu no Funchal, onde seria sepultada. Casou com Cristovam Colombo, de quem teve:
DIOGO COLOMBO
que casou, em Castela, com D. Maria de Toledo, e geraram:
IZABEL DE COLON
que, em 3 de Maio de 1531, casou com D. Jorge de Portugal, conde de Gelves, viuvo já de D. Guiomar de Ataíde.
(1) Conforme o costume entre as famílias portuguesas do século XV, adoptou o apelido do avô materno (Vasco Martins MONIZ) e o da avó paterna (D. Catharina de MELO).

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

A Nacionalidade Portuguesa de Cristóvão Colombo e as Quinas



Em A Nacionalidade Portuguesa de Cristovam Colombo, pp. 51-53, Patrocínio Ribeiro vê nas armas de Colombo mais um elemento de prova ao constatar que as cinco âncoras têm a mesma disposição em X que as Quinas dos escudetes de Portugal.
Barbosa Soeiro, como visto anteriormente, dá início à interpretação cabalística; esta, desenfreada nas mãos de outros autores, vai atingir o paroxismo em O Português Cristóvão Colombo..., que na p. 544 vai mais longe que qualquer outro na interpretação das armas, não escapando, inclusive, o esquisito detalhe na base:

(...) esta inovação – pretensamente consentida por Colon-Zarco – é passível de justificação, por representar, no chefe da ponta, a câmara esotérica; e Câmara era o nome de nobilitação concedido a João Gonçalves Zarco e transmitido a todos os seus descendentes. E em banda vê-se o símbolo alquímico-templário da crisopeia: o ouro conseguido sobre a prata da argentopeia. Também a representação da «terra firme» no terceiro quartel do escudo se justifica, porque Colón-Zarco (conquanto só a tivesse explorado, para os Reis Católicos, no decurso da sua 4ª viagem às Antilhas, em 1504) já declará-la tê-la descoberto muito antes da primeira expedição. Quanto ao quarto quartel do escudo, reservado pelos Soberanos de Espanha pa «las armas vuestras que solíades tener», supõe-se logicamente que seriam os besantes (não de prata como os das «quinas» das armas de Portugal e dos Infantes, mas de ouro), em campo azul, que o almirante, precavidamente, teria substituído por ancoretes (ou ancorotes), correspondentes aos angoroths hebraicos, ou seja, precisamente, as mesmas moedas simbólicas. E segundo a nossa tese, tê-lo-ia feito para que o supusessem filho de uma Henriques e não de uma Zarco de comprometedora ascendência judaica.

Desta pérola para cá, é o ocaso.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

As armas de Cristóvão Colombo e as Quinas

Como é que se explicam estas armas cabalisticamente?

Em cima, da esquerda para a direita: Armas de Barbudo, Guedes, Coutinho.
Em baixo, pela mesma ordem: Machado, Maldonado, Velho.
(in Genea)

Em que é que diferem de parte das armas de Cristóvão Colombo e das «Quinas» das armas nacionais?

domingo, 10 de dezembro de 2006

Barbosa Soeiro - Assinatura de Colombo

Que voltas é que se dá para, a partir do que abaixo se segue, chegar à melhor hipótese de Salvador Fernandes Zarco ser o nome verdadeiro de Cristóvão Colombo?
Confesso que após duas leituras deste texto ainda não consigo formular uma dúvida que seja. Não compreendo rigorosamente nada.

Barbosa Soeiro, «A Assinatura de Colombo sob o Aspecto Cabalístico», in Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica (...), Lisboa, Liv. Renascença, [1927].

Texto integral

Por insistente solicitação da minha parte, o meu prezadíssimo amigo, talentoso publicista, e distinto clínico, Dr. Barbosa Sueiro, dignou-se fazer a análise da assinatura do descobridor da América, sob o ponto de vista do Ocultismo. Como não conheço nenhuma análise, neste género, com a devida vénia, reproduzo, na integra o interessantíssimo trabalho de Barbosa Sueiro, que ficará como um valioso estudo sôbre o carácter misterioso de Colombo, enriquecendo assim a vastissima bibliografia colombina. – O Auctor [Patrocínio Ribeiro].


A ASSINATURA DE COLOMBO
SOB O ASPECTO CABALÍSTICO



Cristovam Colombo – é ponto de fé para mim – teve certos conhecimentos das chamadas sciências ocultas, quer adquiridos directamente nalguma associação secreta do tempo, onde estives se filiado, quer tomados dalgum iniciado na mesma sociedade, ou de qualquer amigo que cultivasse tais sciências. Dada a possível origem israelita de Colombo, é facil supor como êle os poude obter, porventura dalgum intimo que fôsse conhecedor da cabala.

*
* *

A forma como Colombo extraíu das armas portuguesas o brazão que usava – descoberta por Patrocínio Ribeiro – indica, para mim, o dedo de pessoa acostumada a manejar assuntos referentes a Cabala. Pela primeira figura se verifica como Colombo fez a transformação de escudetes em âncoras.


Cada ancora foi construída sôbre 5 pontos dispostos em cruz, fazendo passar por 3 pontos, respectivamente, o segmento rectilíneo e o segmento de curva. Assim:


Pode verificar-se o seguinte: a linha recta passa por 3 pontos (ternário); a linha curva passa, também, por 3 pontos (ternário). o numero cabalístico 3 duas vezes repetido (3+3), uma das vezes para indicar uma linha recta e outra para indicar uma curva (linhas antagónicas) revela-nos o hexagrama:

Linha recta, passando por 3 pontos, pode significar.

Linha curva, passando por 3 pontos, pode significar.

Ancora, formada pelas duas linhas antagonicas, pode significar

Cada ancora equivale, pois, a um hexagrama. Cumpre ainda notar que os hexagramas sao 5, e cada um dêles tem o valor cabalístico de 6; teremos, pois:

6X5=30
3+0=3

segundo uma simples operação cabalística.
Existe, portanto, no brazão de Colombo o número cabalístico de 3. Existe, também, o de 5, se considerarmos cada hexagrama uma unidade. Existe ainda o de 7, porque sendo de 25 o numero total de pontos, sôbre que os hexagramas foram construídos, obteremos por uma operação:

2 + 5 = 7.


Aliás, a disposição dos pontos em cruz, já nos revelava o quaternário, que pode corresponder ao hexagrama, representando a linha vertical o triângulo de vértice superior e a linha horisontal (antagónica da vertical) o triângulo de vértice inferior:


Sendo Colombo português, e de origem israelita por ventura, é interessante constatar como êle, ou alguem por êle, conseguiu extrair do escudo das armas de Portugal, um escudo novo, auxiliado pela Cabala.
Cumpre referir que a âncora, bem coma o hexagrama, fazem parte do simbolismo de certos Ritos Rosacrucianos.

*
* *

Passemos agora á assinatura de Colombo. É esta:

.S.
.S. A .S.
X M Y
XPOFERENS


Analisemos a parte superior da assinatura:

.S.
.S. A .S.
X M Y


Vemos 3 SSS, dispostos segundo os vértices dum triângulo cada um deles ladeado por dois pontos.

.S.
.S. .S.


Aqui se revela o ternário (3) e cada letra, ladeada por dois pontos, pode aludir ás duas significações com que elas são usadas na Franc-Maçonaria:

Saude! Saude! Saude! ou trez vezes Saude !


ou então:

Salus! Stabilitas! Sapientia!


Os 2 pontos juntos de cada S podem querer significar tambem, que se deve duplicar o triângulo, obtendo-se assim que apareça o hexagrama:



Se unirmos por três linhas as letras, 3 a 3, obteremos:



Revelando-se assim a cruz de 5 braços, que aparece em certas associações herméticas, e que pode corresponder ao tetragrama, visto que é uma cruz.
O contôrno da parte superior da assinatura é pentagonal, o que nos revela o pentagrama (5):



Se contarmos as letras desta figura verificamos serem 7.
Temos, pois, na parte superior da assinatura, os números cabalísticos 3, 5, 7, o tetragrama e o hexagrama.
Na parte inferior da assinatura ha 9 letras:

XPOFERENS


o que indica, talvez, da parte de Colombo, um grau de iniciação elevado pela apresentação dêste numero.
O simbolismo, revelado na asinatura de Colombo, pertence a certos ritos rosacrucianos, e pode tambem fazer parte das doutrinas secretas dos Templários.
Tenho razoes para crêr (o que seria tango expôr aqui) que a Ordem do Templo, apesar de extinta no tempo de D. Diniz, subsistiu em Portugal, trabalhando activamente, porventura bem protegida, de forma a escapar as horrendas perseguiçôes que os católicos apostólicos e romanos exerciam nos que não eram católicos, segundo a sua ortodóxia.

BARBOSA SUEIRO

sábado, 9 de dezembro de 2006

Zarco, Zargo e Zarga

Talvez nada signifique, mas para que conste aqui fica.

Zarco, adj. (do ár. zarka, fem. de azrak, azul, de olhos azuis). Que tem os olhos azul-claros. Que tem malha branca em volta de um ou de ambos os olhos (falando-se dos cavalos, dos touros, etc.). vol. XII.
Zarga, s. f. prov. beir. Mulher má; bruxa.
Zargo, s. m. Zol. Género de insectos coleópteros da subordem dos adéfagos, família dos Coraliídeos, a que pertencem espécies da fauna da Madeira.

in José Pedro Machado (coord.), Grande Dicionário da Língua Portuguesa, vol. XII, s. l., Sociedade da Língua Portuguesa / Amigos do Livro, 1981, pp. 650-651.


Zarco, adj. Do ár. zarqã’, «(a) que tem olhos azuis», f. de azraq, «azul; de olhos azuis; brilhante». Este adj. aparece com frequência do séc. XV, em documentos que mencionam o célebre navegador João Gonçalves Zarco, voc. por vezes também escrito Zargo. Descobriu como se sabe a ilha de Porto Santo em 1418. O apelido é, porém, mais ant., pois que já corria na época de D. Dinis; assim: «Joã zarco jurado e preguntado sobre los sanctos Auangelhos se quando El Rey don Sancho fazia frota...», em Desc., I, p. 47. Zargo em 1447: «Eu Johã Gonçallvez zargo caualejro da casa do Jfante dom anrique...», Desc., I, p. 453.

in José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 7ª ed., vol. V, Lisboa, Livros Horizonte, 1995, pp. 416-417.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Resposta à pessoa que assina como Manuel Rosa

A presente página tal foi dito no Ponto de Situação foi feita para criticar escritos que manifestamente estão errados, como é o caso das obras incluídas na lista da bibliografia da barafunda e agora renomeada de bibliografia da controvérsia.
Por se constatar que, de há muitos anos para cá, ideias erradas sobre a vida e, principalmente, as origens de Cristóvão Colombo têm tido receptividade junto do grande público e como também se tem a consciência de que o trabalho dos historiadores acaba frequentemente por não sair dos círculos científicos, muito por causa de limitações financeiras que relegam a divulgação para um plano secundário, criou-se esta página.
Quando em 1916 Patrocínio Ribeiro tece algumas considerações sobre a vida de Colombo estava longe de imaginar o que se seguiria. De então para cá muito se escreveu dentro da mesma linha, repisando as mesmas ideias, inclusivamente copiando-as sem o devido crédito, e frequentemente com pouco siso. O aproveitamento político de então deu lugar a outros interesses e aproveitamentos de que é única vítima o público que confia no que é impresso, pressupondo haver por detrás um juízo científico rigoroso e avalizado.
No entanto, e quanto à crítica prévia, as coisas não funcionam assim e ainda bem, já que deste modo ninguém poderá acusar alguém de censura e de coarctar ideias porventura inovadoras. Agora, não se pode esperar que depois da divulgação pública de ideias estas sejam acolhidas sem crítica. A crítica é essencial à validação do conhecimento, caso contrário têm-se dogmas.


O anonimato dos autores desta página é propositado por várias razões:
1. Evitam-se ataques pessoais e/ou institucionais.
2. A formação ou ausência dela não devem ser tidos como causa de crédito ou descrédito.
3. A objectividade da crítica não se mede pelo estatuto de quem critica.
4. Cada um avaliará se as críticas têm ou não razão de ser e independentemente do nome que estiver por detrás delas.
5. Tal como referiu não sabe quem somos, portanto não pode avaliar quem não conhece.
6. O que interessam são as ideias, os argumentos, as justificações, as provas.

Acerca da nacionalidade de Colombo, o problema só surgiu em finais do século XIX no quadro dos nacionalismos. Isso deverá querer dizer qualquer coisa, não?

Como já foi referido, o nome Cristóvão Colombo designa a pessoa que chegou ao Novo Mundo em 1492. Podem fazer-se as opções gráficas que se quiserem mas a pessoa é a mesma. D. Taraja ou Tareja não é conhecida como tal mas como D. Teresa pois é essa a grafia actual do nome. O mesmo se passa com a personagem bíblica Isaac que se pode escrever Yshaac, Ysaac, Isac, Isaque... O que interessa é o homem ou a mulher; o nome não é a coisa em si, ou seja não é a essência, a realidade ou a verdade, pois essas são inatingíveis ao Homem.

A crítica, tal como Descartes e Kant a descrevem, serve para verificar se existe um método e, existindo, a sua consistência. A crítica não pretende substituir-se à tese, apenas a quer validar ou não. Quem critica pode não saber tanto como o criticado, pois também, pondo em linguagem simples, um treinador ou um crítico desportivo não é obrigado a ser melhor desportista que os desportistas que treina ou critica.

Acerca do livro, temos opiniões diferentes.

No que diz respeito à história de Colombo muito foi e será escrito. Contudo, no que diz respeito à comunidade científica o assunto está resolvido até que surjam melhores provas, pois até agora não foram apresentadas e o que é agora apresentado como tal já foi rebatido a seu tempo. O mais recente livro vai sendo criticado – em História há sempre tempo.

O grande problema consiste na dificuldade em fazer transparecer para o grande público o que circula pela comunidade científica e pelos meios académicos. Esta página, nesta matéria, tenta ajudar a combater a situação pretendendo fazer a ponte entre a comunidade científica e o grande público.

Como nota de carácter meramente pessoal, para a minha participação na presente página muito contribuiu que me tivessem censurado na Wikipédia. A censura, tal como tive oportunidade de dizer na altura, é a arma dos que não têm argumentos. Ou seja, a censura da minha liberdade de expressão levou-me a reagir, pois considero que ninguém tem o direito de me calar. Mas mais importante do que isso é a possibilidade de retribuir à comunidade aquilo que ela investiu em mim.

Bibliografia da controvérsia (05)

  • RIBEIRO, Patrocínio. A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica / The Portuguese nationality of Christopher Columbus. The much discussed problem of his actual nationality at last disposed of through the conclusive decifration of his hieroglyphic sign, Lisboa, Liv. Renascença, [1927].
    O capítulo «A Assinatura de Colombo sob o Aspecto Cabalístico» é da autoria de Barbosa Soeiro.
  • RIBEIRO, Patrocínio. O caracter misterioso de Colombo e o problema da sua nacionalidade, Coimbra, Imp. da Universidade, 1916, Sep. Academia de Sciencias de Portugal, 1 serie, t. 5.
  • RIBEIRO, Patrocínio. Será Colombo português?, 1.ª ed., Lisboa, Prefácio, imp. 2000.
    É na realidade uma reedição da edição de 1927 com outro título.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Ponto da Situação

  1. O objecto desta página é a Pseudo-História Colombina. Ou seja, quer-se criticar escritos que se pretendem passar por obras historiográficas sérias, mas que não passam de construções mais ou menos complexas sobre erros básicos de leitura de documentação ou de interpretação mais ou menos manipulada para corresponder a teorias preconcebidas.
  2. O protagonista desta página é Cristóvão Colombo, nome em português do navegador que chegou ao Novo Mundo em 1492, independentemente das grafias usadas ao longo dos tempos, dos nomes adoptados pelos diversos autores que escreveram sobre o assunto, das traduções do nome para diversas línguas e suas divergências, ou de invenções puras de heterónimos que lhe queiram imputar.
  3. Neste sítio não se criticam pessoas e muito menos se insultam. Apenas se criticam ideias e construções teóricas feitas por alguns autores sem terem qualquer base documental ou factual e tendo-a não a interpretam correctamente ou deturpam-na.
  4. A História faz-se essencialmente com documentos e factos, mas também aceita indícios e construções teóricas se tiverem uma base bem fundada e uma boa argumentação resultante dum método que há milhares de anos tem vindo a ser definido pelos historiadores. Esse método pressupõe a crítica do autor sobre as suas fontes, mas também deve ser avalizado pelos outros historiadores e pela sociedade em geral que cada dia é mais global.
  5. As ideias têm de sobreviver à crítica, pois sem ela não há História, há propaganda, há manipulação, há gato a ser vendido por lebre. Qualquer teoria que não resista à crítica mais superficial, que não resista a um sofisma que seja, não tem viabilidade enquanto proposta de explicação do real.
  6. A sociedade em geral deve estar consciente desta diferença, por isso se fez esta página pois o assunto está resolvido há muito tempo para a comunidade científica, pelo menos até que surjam boas provas em contrário.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Zargo e zarqa

(...) Eu Joha[m] Gonçallvez Zargo cavalero da cassa do Ifante dom Anrique e regedor por ho dito senhor em a sua ilha da Madeyra em o Fonchal e seus termos (...)


(Excerto da leitura, transcrição e edição feitas a partir do documento apresentado em O Mistério Colombo Revelado, p. 399)

Os autores do referido livro lêem Zarqo e não Zargo e já se mostrará porquê.

Como se pode ver na segunda imagem, João Gonçalves Zarco é referido pelo tabelião que faz este documento como sendo Zargo e não Zarqo. O próprio João Gonçalves assina Zargo, como se pode ver nesta primeira imagem.


É Zargo e não Zarqo como facilmente se comprova comparando o g de Zargo com o g de Gonçalves ou o g de regedor – são praticamente iguais.




Se dúvida persistir continue-se a comparar e veja-se como o tabelião, ou o seu escrivão, desenha o q em Henrique (grafado anriq, tendo o q um traço sobreposto indicando tratar-se de abreviatura) ou ainda como desenha o q (que isolado com um traço sobreposto é abreviatura de pronome, conjunção, advérbio ou locução), que .




Lendo-se Zarqo e não Zargo permite aos autores darem um salto para zarqa, que dizem ser uma letra hebraica, e mergulharem em divagações hebraico-cabalistas sobre as quais nesta nota crítica não se entrará, ficando a crítica para a via hebraica para pessoa mais competente. Quanto à Cabala, não é um método historiográfico.

Uma última nota de ironia para referir que, e baseado unicamente no que se vê neste documento, o indivíduo conhecido por João Gonçalves Zarco não é João Gonçalves Zarco, pois não assinava assim, assinava João Gonçalves Zargo. Entenda-se deste modo: Cristóvão Colombo nunca terá assinado Colombo, por isso...

(Texto revisto em 6-12-2006 23:05 para tornar mais clara a ideia por detrás do discurso.)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Dar a mão à palmatória

Gentilmente foi-me apontado um erro de leitura na assinatura de Filipe IV de Espanha, o qual publicamente aqui reconheço.
Contudo, e não releva em nada o sucedido, seja um F, seja uma cruz, seja um maneirismo final meramente decorativo, não deixa de ser muito parecido com o monograma criptográfico de Cristóvão Colombo, tal como o designam Luciano da Silva, Manuel Rosa e Eric Steele.
Este meu erro tem o mérito de demonstrar a validade do princípio de Occam (KISS, posto de forma ligeira): a explicação mais simples é, provavelmente, a verdadeira. E esta última explicação é sem dúvida mais simples.
Ora é precisamente este princípio que está totalmente ausente nas dissertações referenciadas como tema deste sítio – um sítio que discute ideias e não pessoas!

Voltando ao meu erro, todos os erros têm explicação e este não é excepção:
fui negligente;
esqueci a lição em que um grande mestre de paleografia me chamou a atenção para o facto dos reis portugueses assinarem com uma cruz (5 pontos, quinas) depois da palavra Rei e que os espanhóis não o faziam, pondo o seu nome, excepto Carlos V que variava frequentemente a sua assinatura;
deixei-me levar pela tradição portuguesa da cruz e esqueci que os espanhóis podiam fazer diferente;
estava a seguir uma linha específica de raciocínio, essa sim importante, e esqueci que são os detalhes que mais contribuem para dar coerência e credibilidade ao todo.

A possibilidade de eu voltar a errar é grande, admito-o, e desejo ser corrigido quando assim for, pois não tenho pretensões à verdade e só quero ser honesto.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Cristóvão Colombo: agente (pouco) secreto

Afinal Cristóvão Colombo era ou não um agente secreto?
O Mistério Colombo Revelado, pp. 153-154, confunde na resposta que dá à pergunta. Assim refere-se que a vida de Colombo é uma fraude intencional já que ele não é quem se diz ser. E é uma fraude com vários cúmplices, entre os quais os reis de Castela e de Portugal.

Castela sabendo da fraude queria fazer de Colombo um homem sem pátria para que as descobertas por ele feitas permanecessem nas mãos de Castela e não caíssem nas de Portugal. Por essas descobertas serem feitas por um nobre português, «um cidadão da realeza portuguesa» - um conceito historiográfico novo que urge desenvolver – colocaria em perigo a soberania castelhana sobre as Índias servindo nelas como vice-rei e governador. Este perigo é razão para tirar a Colombo e a seus herdeiros todo o poder que inicialmente lhes tinha sido dado.
Portugal, por seu lado, usa secretamente Colombo para entreter Castela e desviar a atenção dos castelhanos do Atlântico Sul, da África e da Índia – uma afirmação que não é nova mas que aqui não encontra o devido reconhecimento – e por isso Portugal fingia não dar atenção ao Almirante, escondendo o seu elevado estatuto social.
Além dos portugueses o infiltrarem como agente secreto em Castela e de ser conhecido como português de alta nobreza, parente do rei, tinha muitos cúmplices.

Todas estas ideias estão apresentadas de forma muito confusa, sendo contraditórias e implausíveis. Além de que para nada disto se apresentar qualquer prova documental que sugira o mais leve indício.
Não há prova documental da origem nobre, de qualquer forma de espionagem praticada por Colombo ou de os monarcas ibéricos terem jogado Colombo como espião da sua política internacional. Pelo Tratado de Alcáçovas-Toledo as novas terras descobertas estavam no território de Portugal e a sua posse seria obviamente disputada pelos reinos ibéricos, não faz qualquer sentido que o rei português enviasse um seu familiar com a proposta de descoberta de terras que lhe caberiam por direito e depois assentir na sua dádiva a Castela como que num gesto de boa vontade.
A «fraude intencional bem planeada contra o mundo» defendida no livro assenta na ideia de Colombo ser um espião duplo ao serviço de Castela e Portugal. Contudo não é plausível um plano secreto ser do conhecimento de muita gente e ainda assim ser bem sucedido.

Como é que pode haver muitos cúmplices e conseguir-se manter os muitos segredos que tal plano e sua execução pressupõem?
Como é que o segredo foi mantido então e como é que nada transpirou para fora depois?
Então os Reis Católicos sabem quem Cristóvão Colombo é e deixam-no fazer o que se propõe?
Sabendo os Reis Católicos quem ele é e deixando-o fazer o que se propõe de que modo é que Castela ficaria debilitada por ele ser português?
Não casavam monarcas ibéricos entre si?
Não casavam as suas filhas com os reis vizinhos?
E por via destes casamentos não se debilitariam interesses bem mais importantes que os ultramarinos?
Não houve verdadeiros portugueses a servirem a coroa Castelhana sem que o facto da sua nacionalidade constituísse óbice ou perigo para os interesses castelhanos?
Não houve estrangeiros a servirem a Coroa Portuguesa sem que isso fosse motivo de preocupação ou de perigo para Portugal?
Porque razão haveriam os portugueses de querer afastar os castelhanos dum plano que estes não tinham?
Porque razão quereria D. João II lembrar aos castelhanos aquilo de que nunca se haviam lembrado?

Afirmações peremptórias precisam de fundamentação sólida e para estas nada é apresentado.
Interpretações complexas necessitam de fundamentação sólida e boa argumentação lógica, o que não é o caso apresentado.
Não faz qualquer sentido a afirmação sobre as preocupações castelhanas sabedoras da nacionalidade portuguesa de Cristóvão Colombo, ainda mais quando isso é contraditado pela afirmação que imediatamente se segue.

Adenda
5-12-2006 13:30

Você não entendeu o jogo. Os cumplices estavam a esconder "a linhagem" de Colombo não que ele era um agente secreto. Os cumplices trabalhavam em comum para esconder os pais de Colombo. Entendi que foi esse o "fraude internacional" em que eles todos estavam envolvidos.
(Comentário de theman_ny)



Que linhagem havia para esconder?
Não tiveram os reis portugueses ao longo de toda a História bastardos que toda a gente conhecia e recebiam as maiores honras eclesiásticas e civis?
Não quis D. João II coroar o seu próprio bastardo, D. Jorge?
Porque razão, se Colombo fosse bastardo real, de alta linhagem ou mesmo de baixa, haveria de se esconder de forma tão pífia?
Sendo a linhagem de Colombo um segredo de algibeira, conhecida em Portugal e Castela, para quê tanto trabalho a baralhar as provas?
Já agora, se Colombo não era espião para quê esta capa?


As duas ideias expressas nas páginas 153-154 são nucleares para tese defendida, no entanto faltam-lhes coerência e são contraditórias.

sábado, 2 de dezembro de 2006

Assinatura de Colombo (04)

Muito se tem escrito sobre a assinatura de Cristóvão Colombo, tecendo em torno dela as mais desvairadas interpretações e fazendo com isso correr rios de tinta.
Uma das razões para tal facto poder-se-á dever à pouca familiaridade desses autores com a documentação antiga.
A imagem que se segue mostra a assinatura de Frei António de Guevara (1480-1545). Nela consta, no lado esquerdo, um sinal a que o tipo de autores referidos chamam colon ou semi-colon. Do lado direito pode ver-se um duplo traço vertical com um ponto, que será sem dúvida um colon seguido dum semi-colon.
Confesso honestamente que o seu significado me escapa totalmente. No entanto vi escrito algures que os membros da Ordem de Cristo assinavam com algo de semelhante.
É matéria a ver.


Também já aqui se escreveu sobre o putativo monograma de encriptação de Cristovão Colombo, para o qual se avançou com uma explicação bem mais prosaica que a de muitos autores.
A imagem em baixo mostra a assinatura de D. Filipe IV de Espanha (1605-1665). No fim há uma cruz que na cursividade da escrita, com uns maneirismos decorativos, fica igual à referida sigla do 1º Almirante das Índias.

Correcção
4-12-2006

No último parágrafo, a última frase não vale, devendo passar a ler-se:
No fim há um rabisco que parece ser um F, de Filipe, que na cursividade da escrita, com uns maneirismos decorativos, fica igual à referida sigla do 1º Almirante das Índias.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

ADN de Cristóvão Colombo

Noticia Andalucia Investiga em 31-10-2006:
(...) De ahí a que el último estudio que ha pretendido ahondar en los orígenes del Descubridor haya comparado las 477 muestras de ADN recogidas a españoles, franceses e italianos apellidados Colom y Colombo con parte de los restos de Hernando Colón, hijo del almirante. “Lamentablemente, hemos concluido que hasta la fecha no es posible determinar su origen, aunque somos optimistas porque en cuanto desarrollemos nuevas técnicas podremos comparar los cromosomas”, dijo [José Antonio] Lorente [Acosta, do Laboratorio de Identification Genética da Universidade de Granada](...)

Tem-se divulgado por essa Net fora que o estudo acima referido veio pôr de lado a hipótese de Cristóvão Colombo poder ser genovês, francês ou espanhol, deduzindo por exclusão de partes que seria português.
Contudo, perante a notícia e a informação disponível parece a qualquer pessoa de bom senso que não é isso de que se trata. O estudo ainda não conseguiu determinar a origem do Almirante, tendo única e aparentemente posto de parte a sua relação genética com as 477 amostras usadas.
Não se poderá sustentar qualquer tese com base neste estudo sem se saber as metodologias, as técnicas usadas e as suas conclusões e mesmo depois disso há que aguardar pela crítica da comunidade científica, que o validará ou não.
Até lá há que ter paciência.