sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Garcia de Resende - Cristóvão Colombo

RESENDE, Garcia de. Crónica de D. João II e Miscelânea, Reimpressão fac-similada da nova edição conforme a de 1798, Lisboa, INCM, imp. 1991.

Texto Integral

CAPITULO CLXV.


De como se descubriram per Colombo as Antilhas de Castella.


No anno seguinte de mil e quatrocentos e nouenta e tres, estando el Rey no lugar de Val de paraiso, que he acima do mosteiro das virtudes, por causa das grandes pestes que nos lugares principaes daquella comarca auia, a seis dias de Março veyo ter a Restello em Lisboa Christouão Colombo, Italiano, que vinha do descubrimento das ilhas de Cipango, e Antilhas, que per mandado del Rey e da Raynha de Castella tinha descuberto. Das quaes trazia consigo as mostras das gentes, e ouro, e outras cousas que nellas auia, e foy dellas feyto Almirante. E fendo el Rey disso auisado o mandou chamar, e mostrou por isso receber nojo, e sentimento, assi por crer que o dito descubrimento era feyto dentro dos mares e termos de seus senhorios de Guine, como porque o dito Colombo por ser de sua condição aleuantado, e no modo do contar das cousas fazia isto em ouro, e prata, e riquezas muyto mayor do que era, e acusaua el Rey por se escusar deste descubrimento, e não no querer mandar a isso, pois primeiro se lhe viera offerecer que aos Reys de Castella, e que fora por lhe não dar credito. E el Rey foy cometido que ouuesse por bem de lho matarem ahy, parque com rua morte o descubrimento não yria mais auante de Castella. E que dando Sua Alteza a isso consentimento se poderia fazer sem sospeita, porque por elle ser descortes, e aluoraçado, podião com elle trauar de maneira que cada hum deftes feus defeitos parecesse a causa de sua morte. Mas el Rey como era muy temente a Deos não somente o defendeo, mas ainda lhe fez honra, e merce, e com ella o despedio.
E cuidando el Rey bem o negocio, e peso deste caso, se foy logo a Torres Vedras, onde logo sobre isso teue conselhos, em que foy determinado, que armasse contra aquellas partes hüa grande armada, que logo mandou fazer com grande diligencia, e fez capitão mor della dom Francisco Dalmeyda, que depois foy o primeiro Visorey da India, homem de de muyta confiança, e muyto bom caualleiro, e sendo ja a armada prestes chegou a el Rey hum mensageyro del Rey e da Raynha de Castella, os quaes por serem certificados que a dita armada hia contra outra sua que logo la auia de tornar, mandarão requerer a el Rey que a não mandasse , ate se ver per direyto, em cujos mares e conquistas o dito descubrimento cabia. Pera o qual mandasse a elles seus embaixadores e procuradores com todalas cousas que fizessem por seu titulo, e segundo razão e justiça elles se justificarião, e concertarião como fosse direyto. Pollo qual el Rey deixou de mandar a dita armada, e sobre isso mandou logo aos ditos Reys o doutor Pero Diaz, e Ruy de Pina, que da verdade bem enformados forão a elles, que estauão em Barcelona, ao tempo que per el Rey Carlos de França se fez a segunda concordia, e entrega de Perpinhãa, e do Condado de Roselhãa em Catalunha. E os ditos procuradores não tomarão com os ditos Reys concrusão algüa, e a causa foy por lhe socederem assi prosperamente suas cousas com França, e principalmente porque antes de tomarem concerto sobre a dita conquista, ilhas, e terras, quiserão outra vez ser certificados de toda a verdade dellas, e de tudo o que nellas auia, pera que ja tinhão enuiado seus nauios, que ainda não erão tornados, porque segundo fosse a estima das ditas terras assi se concertarião, e pera dilatarem esse negocio, que não parecesse que o fazião por esperar a dita armada, e passar este tempo sem se tomar concrusão, ordenarão de enuiar a reposta a el Rey por seus embaixadores, e assi lho mandarão dizer.

Nota: Destaques meus para assinalar os traços de carácter de Cristóvão Colombo.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

As Teses da Naturalidade e Linhagem de Cristóvão Colombo em Itália - tese clássica ou tese purista

República de Génova
(Ligúria, sem a Córsega)

Temos verificado a tendência para os defensores actuais da tese colombina portuguesa confundirem deliberadamente o facto de Cristóvão Colombo estar suficientemente documentado nos estudos portugueses da época, e noutras fontes estrangeiras, como "genovês" - no sentido coevo lato de natural dos Estados de Génova, ou República de Génova - com uma deficiente ligação automática à tese que identificou a partir do sc. XIX o navegador com o Cristóvão Colombo, tecelão, documentado na cidade de Génova (o próprio, ou um homónimo, dada a vulgaridade do nome).

Cidade de Génova (1489)

Com efeito, se a História dá como documentada a naturalidade italiana (genovesa em sentido largo) do descobridor das Antilhas de Castela, isso não implica ao contrário do que alguns pretendem fazer crer que seja unânime em aceitar a tese do referido Colombo tecelão. É mesmo de realçar o deficiente silogismo praticado pelos defensores de teses de um Colombo não italiano, conhecidos amantes do mistério, que ao negar a sua naturalidade na cidade de Génova, se sentem autorizados por isso mesmo, a nosso ver abusivamente, a defendê-lo como não italiano de origem.

Assim, se a constatação de Colombo como italiano é aceite incontroversa, porque bem documentada, porque assim descrito por todas as várias fontes idóneas contemporâneas que o conheceram pessoalmente - e não apenas por Rui de Pina, ou Damião de Góis, como também se tem pretendido fazer crer - não há nem nunca houve nenhuma ligação automática entre este simples facto e a sua antítese, isto é, o afirmar que não sendo o tecelão genovês, não pode ser italiano, e portanto necessariamente teria que ser, silogisticamente, português (ou catalão, ou francês, ou corso, ou galego...).

Muito ao contrário do que tem vindo a ser afirmado ou subentendido em Portugal recentemente pelos meios heterodoxos à metodologia histórica científica, também em Itália a naturalidade concreta de Colombo há muito que dá lugar a várias teses, das quais as duas principais são chamadas de, respectivamente, tese purista ou clássica - aceitando como válida a identificação oitocentista com o tecelão urbano, também dita por alguns extrapoladamente de tese genovesa - e teses anti-puristas, as que à primeira são contrárias.

As teses anti-puristas procuram apurar a verdadeira naturalidade de Colombo entre os vários locais dentro dos antigos territórios genoveses, e sua filiação e linhagem. Vindo também por vezes à baila o nome do Milanês para a naturalidade que lhe é apontada por alguns, poucos, estudos menos exactos ou contemporâneos, pois o estado antes governado por Milão teve fronteira, nem sempre estável, com o dos doges de Génova. A cidade de Pavia, aonde o filho Fernando nos diz que seu pai estudou, situa-se aliás nesta zona de fronteira agora provincial, já fora da actual Ligúria, ignoro ainda se genovesa ou milanesa quando do nascimento cronológico de Cristoferens Columbus. Cabe aqui a propósito um pequeno parêntesis, pelo facto de que de Cristoferens, alguns deduzirem um nome inventado de Salvador Fernandes, Salvador para Cristo, e Ferens para Fernandes... quando a abreviatura de Fernandes era, em português, Frz, com traço de abreviatura sobre o R, e terminada em Z, não ferens.

Mapa da Córsega genovesa
e da Sardenha aragonesa

Continuando, e fugindo ao abismo potencial presente nos charadismos onomásticos deslocados, ou mal contextualizados, posteriormente tanto o Milanado, como Génova, e ainda a Sardenha, e o antigo condado de Nice, acabariam por vir a constituir sob a dinastia de Sabóia, no sc. XIX, o reino da Sardenha, com capital em Turim, por extensão e conquista paulatina do antigo ducado transalpino da Sabóia. Entretanto, já a ilha da Córsega, parcialmente sob a obediência genovesa ao tempo de Colombo, fora vendida na sua totalidade à França pelos doges de Génova, na segunda metade do sc. XVIII - o que explica o nascimento "francês" do corso italiano Napoleone Buonaparte naquela ilha pouco depois - assim como Nice e seu território serão cedidos à França de Napoleão III a troco do seu apoio à unificação italiana empreendida pelo conde de Cavour, ministro oitocentista ao serviço de Víctor Manuel II, primeiro rei da Itália unida em 1860, e pai da rainha de Portugal D. Maria Pia de Sabóia, nascida princesa da Sardenha antes de ser princesa de Itália.

Temos pois que ao tempo do nascimento de Colombo, os Estados de Génova, além da Ligúria continental costeira, incluiam pelo menos já partes significativas da ilha da Córsega, aonde existe junto a Calvi uma Ilha Rossa, que parece também manter a tradição oral do nascimento do antigo corsário passado a Portugal, tradição que deu lugar a estudos defendendo essa hipótese, plausível porque genovesa lato senso. A expansão marítima de Génova pelo Mediterrâneo, como rival de Pisa e de Veneza (1) no monopólio da distribuição das especiarias orientais, mercadas com mais valia desde o Egipto islâmico mameluco (2) até à Cristandade ameaçada do Turco, estava então fortemente controlada pelo império comercial e militar aragonês, estabelecido nas ilhas italianas da Sardenha, da Sicília, controlando também o maior reino italiano, o de Nápoles, e algumas partes da própria Córsega; ali, nessa altura, tal como ainda hoje em partes significativas da Sardenha, se falavam já dialectos catalães semelhantes ao das ilhas Baleares.

Mapa dos Reinos da Córsega
Sardenha, e Sicília

Evidencia-se que geográfica e comercialmente, o decadente poder mercantil lígure estava como que enquadrado numa camisa de forças territorial e marítima pelo emergido poder catalão, o que levou a vários experientes marinheiros genoveses, nomeadamente a partir da Córsega, a praticarem o corso marítimo contra os súbditos do rei de Aragão, como fonte de proventos alternativa aos lucros minorados da rota de Alexandria interceptada pela força naval aragonesa. Assim se compreende que entre aventureiros genoveses já com prática de corso, no Mediterrâneo, inimigos naturais do poder catalão, preocupados com a perda dos lucros do comércio das especiarias, que Veneza defendia melhor, possa ter surgido o interesse pela nova rota oceânica de acesso a elas que os Portugueses há muito procuravam, bem como a ideia, diante dos deficientes conhecimentos científicos e geográficos mais generalizados da época, como se verifica de Toscanelli, de a procurar por uma via que se acreditou podesse ser a mais curta, para Ocidente.

As teses anti-puristas, assim chamadas em Itália por procurarem ultrapassar, com recurso a outras fontes, os documentos de tabelionato aceites desde final de oitocentos a favor do Colombo tecelão utilizados pela tese purista, ou clássica - documentos que têm problemas de exegese crítica nalguns pontos - apoiam-se primacialmente na documentação salvaguardada de fins de Quinhentos, relativa aos processos judiciais que nessa época travaram falsos membros da família de Colombo, com alguns verdadeiros parentes do mercenário navegador: apurados judicialmente esses familiares como verdadeiros, identificados os respectivos graus de parentesco com exactidão. Teve esta querela levada à barra do tribunal o propósito de alcançar vantagem sobre bens deixados por Colombo em Castela. Assim, embora ainda não tenha conseguido apurar definitivamente a localidade exacta do nascimento de Cristóvão, as teses anti-puristas crêem pelo menos ter bem conhecida e documentada a sua genealogia, e o ramo dos Colombo a que pertenceu o almirante, à luz das fontes conhecidas exaradas naqueles processos judiciais passados em julgado com força de sentença, naquela época ainda relativamente próxima dos acontecimentos. Justapostas as fontes do processo sentenciado com aqueloutras existentes sobre os restantes ramos de Colombos, não ligados entre si pelo sangue uns, e outros sim. E ainda outros documentos a referir quando oportunamente.

Voltaremos a este assunto quando nos for possível.

__________________

1) Depois de ter suplantado o primitivo relevo inicial de Pisa no comércio mediterrânico, Génova viu, sobretudo a partir de 1420, até finais do sc. XV, a sua supremacia naval e comercial escapar-lhe para Veneza, menos incomodada pela expansão militar de Aragão; a partir de 1498, cede esta o seu lugar de principal entreposto europeu das lucrativas especiarias orientais, tão necessárias não só à alimentação e sua conservação, como também para efeitos medicinais, a Lisboa. Quanto a Génova, acabará por se refugiar na actividade bancária, sofrendo sobressaltos a partir do sc. XVI com as sucessivas bancarrotas e insolvências dos monarcas Habsburgo de Madrid, herdeiros da coroa catalã-aragonesa, em cuja órbita de interesses na Península Italiana passara a situar-se.
2) O Egipto islâmico, então em permanente conflito com a emergente potência otomana, acabará por ceder militarmente e se tornar suzerano dos sultões muçulmanos turcos a partir de 1519. O crescimento simultâneo dos Império Otomano e Português dá-se em choque geo-estratégico, com tentativa por parte de ambos de controle do rico comércio das especiarias entre o Oriente e a Europa. Um pela via terrestre tradicional, o outro pela inovadora via oceânica.
Este choque fica marcado, a partir da chegada ao Índico de D. Afonso de Albuquerque, futuro duque de Goa, nas acções militares portuguesas para estabelecimento e reforço do nosso domínio militar - com fecho naval do comércio pagão subsidiário dos turcos - nas bocas dos Mares Vermelho e Mediterrâneo, e Golfo Pérsico: mormente nas acções de Ormuz, Socotorá, e Alcácer Quibir, pois que em 1578 se corria ainda o risco de ver a suzerania turca, já presente na Argélia, estender-se a Marrocos. Isto teria aberto o Atlântico a acções militares navais e de corso contra o Algarve e ilhas portuguesas, sendo a Terceira a rota de chegada dos comboios navais do Oriente, e até contra a própria Lisboa. Compreende-se assim a acertada decisão militar e estratégica del-Rei D. Sebastião de impedir um Marrocos otomano, não fazendo nisso aliás mais do que aceder aos repetidos pedidos nesse mesmo sentido expressos em Cortes, desde o tempo da sua infância, durante a regência do Reino pela rainha D. Catarina, sua avó. Embora perdida a batalha, e morto o soberano, ficou garantido (com elevado preço) o objectivo aparentemente assim definido.
É legítimo analisar-se comparativamente a situação geo-estratégica da primeira potência continental de então, a Turquia, com os seus acessos oceânicos vitais travados pela primeira potência naval, Portugal, àquela ocorrida no sc. XX, depois de 1945, entre as duas antigas superpotências, a continental russo-soviética, e a oceânica norte-americana.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Rui de Pina - Cristóvão Colombo

PINA, Rui de. Crónica del-rei D. João II, Porto, Lello & Irmão, 1977.

Texto Integral

CAPITULO LXVI

Descubrimento das Ilhas de Castella per Collombo.


No anno seguinte de mil quatrocentos, e noventa e tres, estando ElRey no lugar do Val do Paraiso, que he acima do Moesteiro de Sancta Maria das Vertudes, por causa das grandes pestenenças, que nos lugares principaes daquella Comarca avia, a seis dias de Março arribou arrestello em Lixboa Christovam Colombo Italiano, que vynha do descobrimento das Ilhas de Cipango, e d’Antilia, que per mandado dos Reys de Castella tynha fecto, da qual terra trazia comsigo as primeiras mostras da gente, o ouro, e algüas outras cousas que nellas avia; e foy dellas intitolado Almirante. E seendo ElRey logo disso avisado, ho mandou hir ante si, e mostrou por isso receber nojo, e sentimento, assy por creer que o dicto descobrimento era fecto dentro dos mares, e termos de seu Senhorio de Guinee, em que se oferecia disensam, como porque o dicto Almirante, por ser de sua condiçam hü pouco alevantado, e no recontamento de suas cousas, excedia sempre os termos da verdade, fez esta cousa, em ouro, prata, e riquezas muito maior do que era. Especialmente acusavase ElRey de negrigente, por se escusar delle por mingoa de credito, e autoridade, acerca deste descobrimento pera que primeiro o viera requerer. E com quanto ElRey foy cometido, que ouvese por bem d’ho ali matarem; porque com sua morte o proseguimento desta empresa, acerca dos Reys de Castella, por falecimento de descobridor cessaria; e que se poderia fazer, sem sospeita, de seu consentimento, e mandado; por quanto por elle seer descortes, e alvoraçado, podiam co elle travar per maneira, que cada hü destes seus defectos, parecesse a verdadeira causa de sua morte. Mas ElRey como era Princepe muy temente a Deos, nom soomente o defendeo, mas antes lhe fez honra, e muita mercee, e co ella o despedio. E porem perseguido ElRey em sua memoria deste cuidado, e teendo sobr’isso primeiro conselho junto com Aldea-Gavinha, se foy a Torres Vedras, onde despois de Pascoa teve sobre o caso outros conselhos, em que foy detriminado que armasse contra aquellas partes, como logo armou, e grossamente: e da Armada fez Capitam Moor Dom Francisco d’Almeida, que seendo ja prestes, chegou a ElRey hü chamado Ferreira, Messegeiro dos Reys de Castella, que por serem certeficados do fundamento da dicta Armada, que em contra outra sua, que logo avia de tornar, lhe requereo que nolla sobresevesse atee se ver per dereito, em cujos mares, e conquista, o dicto descobrimenta cabia. Pera o qual enviasse a elles seus Embaixadores, e Procuradores com todalas cousas que fezessem por seu titolo, e justiça, segundo a qual elles se justificariam, desistindo, ou se concordando como razam, e dereito lhes parecesse. Polo qual ElRey desistio do enviar da dicta armada; e sobr’isso ordenou logo por seus Embaixadores, e Procuradores ao Doctor Pero Diiz, e Ruy de Pyna, que da verdade bem avisados, e instrutos foram aos dictos Reys que eram em Barcelona ao tempo que por ElRey de França Carlos se fez a segunda concordia, e verdadeira entrega de Perpinham, e do Condado de Rossolham em Catalonha. E os dictos Procuradores nom tomaram desta vez com os dictos Reys assento algü; e a causa foy por socederem assi prosperamcnte suas cousas com França; e principalmente porque ante de finalmente sobre a dicta Conquista, e Ilhas, e Terras se concordarem quiseram segundariamente ser certeficados da inteira verdade das dictas Ilhas, e Terras que ja eram descubertas, e das cousas que nellas avia, pera que tinham ja enviados seus Navios, que ainda nom eram tornados: porque segundo fosse a estima dellas, assi se concordariam, insistindo, ou desistindo. E porem pera dilatarem o negocio sem conclusam atee este tempo, tomaram por achaque d’enviar, como enviaram, a ElRey a reposta de sua embaixada per Dom Pedro d’AyalIa, e per Garcia Lopez de Carvajal seus Embaixadores, e Procuradores pera o caso. Os quaes acharam ElRey em Lixboa, e taaes meos e apontamentos fezeram, e tam imygos de razam, que a teençam que os dictos Reys teveram pera dilatar, pareceo bem crara, e manifesta. Aos quaaes Reys de Castella, despois de serem da sustancia, e posiçam das dictas Ilhas, e Terras, e cousas dellas, per os segundos seus navios bem avisados, e certeficados, ElRey tornou a enviar por seus Embaixadores e Procuradores, sobre a concordia da dicta Conquista, Ruy de Sousa, e ho Licenciado Aires d’Almadaã, e Estevam Vaaz por Escripvam, pessoas no Reyno de bõo saber, grande fiança, e muita autoridade. Os quaaes em nome d’ElRey se concordaram com os dictos Reys sobre a demarcaçam, e partiçam dos dictos mares, per certos rumos, e linhas de pollo a pollo, perque as dictas Ilhas, e terras descubertas ficaram com os dictos Reys com outra muita parte do mar, e da terra, sem prejuizo da Costa, e Ilhas da Conquista de Guinee. De que se fezeram Contratos firmados, e jurados pelos dictos Reys, de que todos mostraram receber descanso, e contentamento, por se escusarem antr’elles debates, e discordias que ja se revolviam contrairas a sua paz, e amizade. E com este assento concordado tornaram os dictos Embaixadores a Setuvel no mes de Julho do anno que vinha, onde ElRey estava sem algü melhoramento de sua doença, antes com acrecentamento de inchaços, e acidentes mortaaes, que sua vida cada dia ameaçavam.

Nota: Destaques meus para assinalar os traços de carácter de Cristóvão Colombo.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A Questão Colon'ial reavivada em Cuba, ou os EUA e o Edipiano Drama da sua Questão Cubana

O Pseudo-História Colombina recorda aos leitores, em imagens que falam mais do que muitas palavras, o cerne da questão colon'ial cubana em Portugal na actualidade. Para quem não tenha paciência de clicar na fotografia da estátua acima para aumentá-la, aqui lhe damos quanto lá vem escrito em redor do pedestal, em legenda municipal oficialíssima, serenamente instalada na Praça da Câmara, diante dos Paços do Concelho. Nada mais nem nada menos do que a

VERDADE HISTÓRICA

O descobridor das Américas sempre escondeu as suas origens e verdadeira identidade.

O mistério e as especulações perduraram mais de 500 anos. A História aceitou uma incerteza.

Recentemente, notáveis historiadoes e pesquisad
ores concluiram que "Cristóvão Colon" era português.

Filho do Infante D. Fernando - Duque de Beja e de Dª Isabel Gonçalves Zarco, o seu nome era Salvador Fernandes Zarco e nasceu no Alentejo, em Cuba.

Mas enganou-se a Câmara de Cuba, e até a oficialmente ateia Embaixada de Cuba, que ali se deslocou a conferir unção oficial ao acto religioso da bênção pseudo-histórica da estátua! Quem tem a verdade, muito muito bem escondida, somos nós! E hoje vamos dá-la em primeiríssima mão não só à Cuba e a Cuba, mas a todo o Baixo e Alto Alentejos, à alentejana Olivença ocupada, a todo o Portugal desde Melgaço às Selvagens, a toda a Lusofonia desde o Pico ao Ramelau. Diremos a veracidade a todos os nossos irmãos latinos, a todos os nossos aliados anglo-saxónicos de sempre, a todos os outros europeus, a todo o Mundo, enfim.


A Verdade Verdadinha sobre Cristóvão Vírgula

O Pseudo-História Colombina, curvado respeitosamente diante da sra. Verdade Oficial enfim alcançada e para ali prantada, pergunta à sabedoria da D. Câmara neste letreiro: mas quem documentou sem margem de erro a sra. D. Verdade Histórica?! No discurso autárquico da inauguração do monumento a “COLON” (sic) é o nome de Mascarenhas Barreto apenas quem é invocado concretamente como factor de gratidão municipal. Não o de Manuel Rosa e outros congéneres. Mascarenhas Barreto, porém, escreveu sempre Colombo como Colón, e como Colón-Zarco...

O que leva então a Câmara de Cuba, oficialmente, a preferir uma língua estrangeira com seu erro de ortografia, em solo português, embora com a desculpa de vinte anos de Pseudo-História a lavar-lhe o cérebro? Porque não Praça Zarco? Largo Colom? Rotunda, à moda actual, Rotunda Zarco-Colom? Rotunda Colom-bo resolvia logo o assunto... se fazem questão.

"Largo Colon"? Alguma osmose com a paupérrima ilha homónima aonde lentamente agoniza o ditador Fidel de Castillo? Inspiraram-se talvez no Banco Millenium e no seu ridículo novo “Cartão Prestige” (sic) mas esse tem desculpa, pois todos sabemos que a palavra Prestígio não existe em português, e que o banco é estrangeiro... E o sr. Belmiro de Azevedo, que teve o mau gosto de em plenas comemorações do 5º Centenário do Gama inaugurar um centro comercial que quiz iberista, chamando-lhe Colombo como uma nódoa tripeira persistente atirada a Lisboa, Colombo, para exigir que fosse maior o kitsch desse nome estrangeiro que o do lindíssimo centro comercial sobre o Tejo consagrado ao grande Gama português, não passa de um ignorante! Deve estar arrependido que o "Maior Centro Comercial da Península Ibérica" não se chame adequadamente COLÓN! Mas nessa altura, o iberismo economicista pseudo-europeu ainda dava tímidos passos entre nós... O letreiro da recente Praça Colombo, em Cuba, tem pois um erro que sugerimos seja corrigido, no espírito dos iberistas painéis bilingues em castelhano correcto e mau português a que a TV Colón, desculpai, a TV Cabo, já nos habituou incomodativamente há alguns anos: deveria dizer "Plaza don Cristóbal Colón", como também gosta de utilizar o sr. Manuel Rosa.

Deixe-nos agora jogar consigo um bocadinho ao "Quem é Dono da Verdade”, sra. D. Câmara da Cuba y Colón! Também queremos brincar aos colon's e colombos, e prometemos que não lhe fazemos mal se o dono for bonzinho e nos emprestar um bocado só o brinquedo. Nós sim sabemo-la toda! Deixem-nos enfim dizer... que abafamos! Sufocamos! Cristophom era um PONTO por parte de pai, e um VÍRGULA por parte de mãe! Diante do grave conflito familiar entre os pontos negros, e as vírgulas judias, de que descendia, optou por se assinar ao meio RETICÊNCIAS, enquanto esteve em Portugal, que o era sem dúvida por parte da avó paterna. Passado a Castela, como ali lhes custava a dizer-lhe o nome, passou a assinar-se apenas com a vírgula materna, ou colon, aliás todos sabemos que o colon separa os pontos... E é por isso mesmo que hoje em dia ninguém lhe conhece qualquer outra assinatura que não seja apenas "o Almirante.", ou "Cristóvão,". Traduzimos: "o Almirante Ponto", e, antes, "Cristóvão Vírgula". Isto é tão simples, tão genial, que levámos 500 anos para conseguir descobrir o OVO DE COLOMBO! Desculpai, cubanos, olé, hola! Descubierto está el huevo de Colón! Caramba!

Mas receamos outra cousa... depois de provado que Colombo era português, depois de ficar o Pombo renomeado Colon nacionalizado nosso, com novo nome castelhano à moda da deslusitanização dos tristes dias envergonhados que correm, COLON significando em grego membro, e em hebraico ZARCO querendo dizer VÍRGULA, para um alegado descendente dos COLUNA italianos, o mínimo que se espera é que os EUA subsidiem o país que real mas ignotamente lhes deu o ser... Que o amparem na sua cruel velhice abastardada...

Os Estados Unidos da América, crendo recta e cegamente num italiano que nunca lá pôs o pé como seu pai biológico, descobrirão agora que devem o ser... a Cuba! Da Itália viera apenas um pai legal, de Castela um vizinho do pai, da França um amante da mãe, da Inglaterra um padrasto opressor... da Cuba de Portugal veio verdadeiramente o seu único e adeénico pai biológico! E não eram o mesmo! Pater putativus est.… Cruel revelação! E meio príncipe, meio judeu! Explicada fica a fascinação nos EUA pela realeza, e o poder do seu lobby judaico! Um nobre bastardo envergonhado! Explicada fica a proibição da Nobreza logo desde a Declaração da Independência! Vontade de policiar o Mundo? Sangue Português, universal, sangue de Pombal, sangue de Salazar! Não é de espantar que a Embaixada norte-americana em Lisboa não se tenha feito representar na inauguração da estátua a Columbus na Cuba! Agora sim, entendemos que a Guerra Hispano-Americana que em 1898 levou os EUA a anexar a ilha de Cuba, e por arrasto as Filipinas e outras pequenas colónias então ainda espanholas, fossem mero reflexo automático do complexo de Édipo no Tio Sam adolescente! Não era a Cuba ilha que queria controlar! Era, inconscientemente, projectadamente, a nossa Cuba do Alentejo...

By appointment to the USA's official best shrink

P. R.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Resposta aos Amigos da Cuba sobre a estátua a Cristóvão Colombo inaugurada na sua terra

No ex-blog "Colombo-o-Novo" ontem rebaptizado de "Mistério Colombo Revelado" escreve o sr. Carlos Calado, dos "Amigos de Cuba", parecendo falar em nome desta associação, o seguinte pequeno artigo intitulado "A Estátua da Polémica", que transcrevemos na íntegra:

"No dia 28 de Outubro de 2006 foi inaugurado na Cuba, Alentejo, Portugal, o único monumento dedicado a Cristóvão Colon em todo o mundo. Que ninguém se surpreenda.
Todos os outros monumentos são dedicados ao tecelão genovês Cristoforo Colombo (sonhando que este se transformou no Almirante) ou ao Almirante de Castela Cristobal Colón (sem saber bem quais foram as suas origens).
A inauguração do monumento, numa iniciativa conjunta da Fundação Alentejo-TerraMãe (cujo Presidente, Dr. José Flamínio Roza, ofereceu a estátua de bronze), da Câmara Municipal de Cuba e do Núcleo de Amigos da Cuba (associação que desde há alguns anos tem vindo a divulgar e dinamizar a questão sobre a nacionalidade e naturalidade do Descobridor das Américas)
Porquê COLON? Porque foi assim que escreveu o Rei D. João II e foi assim que escreveu o Papa Alexandre VI em documentos absolutamente incontestáveis.
Mas isto faz irritar muita gente.
Amigos da Cuba - Carlos Calado"


O Pseudo-História Colombina responde:

"...foi inaugurado na Cuba, Alentejo, Portugal, o único monumento dedicado a Cristóvão Colon em todo o mundo. Que ninguém se surpreenda."

1. Pensamos que ao cidadão comummente esclarecido não seja tanto motivo de surpresa, antes de comiseração.

"Todos os outros monumentos são dedicados ao tecelão genovês Cristoforo Colombo (sonhando que este se transformou no Almirante) ou ao Almirante de Castela Cristobal Colón (sem saber bem quais foram as suas origens)".

2. O PHC crê que os Amigos e a Câmara de Cuba pecam por soberba injustificada. Todos os monumentos erguidos no mundo a Cristóvão Colombo foram-no, sem qualquer dúvida, ao italiano documentado natural dos Estados de Génova (não necessariamente tecelão, e decerto não nascido Colon...) mercenário passado de Portugal ao serviço da coroa de Castela, independentemente de esta figura ter sido rebaptizada em Castela como Colón, e como tal designado apenas no mundo de fala castelhana. Pois que o mercenário italiano e o almirante "castelhano" sempre se soube que são a mesmíssima pessoa.
Ignoramos se existe na Galiza algum monumento ao "Colombo galego", se existe na Catalunha algum em honra do "Colombo catalão", se existe na Córsega algum em honra do "Colombo corso". Mas nesta ilha, que era então em parte genovesa, existe uma antiga marca de vinho com rótulo em homenagem ao "Colombo corso". É muito diferente no entanto uma homenagem individual a uma hipótese não aceite cientificamente, do que uma mesma homenagem feita com carácter oficial. Uma coisa é existir em Verona uma falsa casa quatrocentista dita de Romeu e Julieta, atracção turística gerando fartos lucros. Outra coisa seria o município de Verona tombar essa casa como de interesse municipal, por exemplo, por ser a "verdadeira" casa dos amantes de Shakespeare.

"A inauguração do monumento, numa iniciativa conjunta da Fundação Alentejo-TerraMãe (cujo Presidente, Dr. José Flamínio Roza, ofereceu a estátua de bronze), da Câmara Municipal de Cuba e do Núcleo de Amigos da Cuba (associação que desde há alguns anos tem vindo a divulgar e dinamizar a questão sobre a nacionalidade e naturalidade do Descobridor das Américas)."

3. É uma pena que as aludidas individualidades, antes de se prestarem a cobrir publicamente teses de pseudo-história, há muito desmontadas, não tenham antes preferido subsidiar com o muito dinheiro gasto uma investigação séria. Que permitisse estabelecer com certeza em que ponto dos Estados da República de Génova nasceu esta figura, recuperada interesseiramente para a atenção mundial apenas no sc. XIX.
Evidentemente que a descoberta exacta da terra da naturalidade de Colombo, em Itália necessariamente, em nada contribui para a afirmação no mundo nem para o progresso económico do Alentejo... Que pena não terem preferido investir em Sines, na naturalidade do grande alentejano D. Vasco da Gama, dos Gamas oriundos da alentejana Olivença. O Conde da Vidigueira é verdadeiramente o maior nauta da sua era, em termos simbólicos... Embora em termos reais talvez antes o tenha sido Bartolomeu Dias. Mas isso já são outros quinhentos. Uma certeza temos: quando como cidadãos escrevemos firme mas educadamente a protestar pela filosofia que presidiu à inauguração da estátua, no blog da Cuba, fomos imediatamente censurados... o resultado da censura, está aqui.

"...Porquê COLON? Porque foi assim que escreveu o Rei D. João II e foi assim que escreveu o Papa Alexandre VI em documentos absolutamente incontestáveis...."

Tal como bastas vezes já aqui referido, existe apenas um único documento, não estudado cientificamente, aonde consta em sobrescrito o nome Colon, aparentemente por mão diferente da que escreveu a carta. A carta pode até não ser verdadeira, total ou parcialmente. Não lhe foi ainda estudado nem o estilo, nem o suporte, nem a tinta, nem as várias caligrafias que evidencia. E mesmo que verdadeira, há mais hipóteses de ser do escrivão que do Rei. E mesmo que fosse do Rei, era dirigida a um estrangeiro já em Castela, conforme o nome em castelhano já lhe vinha. Nada mais. O sr. Carlos Calado ignora que Alexandre VI era castelhano... não leu bem o nosso artigo. Naturalmente também crê que o ex-Cardeal Borja, escrito sempre Borgia em Itália, escreveria pela sua própria mão as bulas...

"Mas isto faz irritar muita gente."

Acredito. A nós não. Antes nos faria chorar. A Câmara e os Amigos de Cuba preferem oficializar teses não sustentáveis, sem rigor científico nem metodológico, teses manipuladoras aliás, pois que ignoram deliberadamente as restantes e numerosas teses. Algumas dessas teses já centenárias, de outras nacionalidades, também elas sempre por comprovar até hoje. A Câmara e os Amigos de Cuba e a Fundação Alentejo Terra-Mãe, em vez de confiar na historiografia séria, nacional e estrangeira, preferem perseguir um desígnio. A nós não nos importa e menos nos irrita que esse desígnio não seja a dignidade da verdade. Um dia, a História esclarecerá se os estranhos actos praticados no concelho de Cuba em 2006, a respeito de Colombo, foram feitos por mero bairrismo ou regionalismo, circunstância atenuante, ou por outro tipo de interesses quaisquer.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Mais um blog

A blogosfera em língua portuguesa continua a crescer.
Uma das mais recentes novidades é o reactivado Colombo-o-Novo, agora renomeado O Mistério Colombo Revelado, cuja hiperligação está ali pró lado.
A Pseudo-História Colombina apresenta os seus formais votos de sucesso.

sábado, 13 de janeiro de 2007

Ruggero Marino, Cristoforo Colombo

  • RUGGERO, Marino. Cristoforo Colombo l’ultimo dei templari. La storia tradita e i veri retroscena della scoperta dell’America, Sperling & Kupfer, 2005, XIII-343 p. 18,00 €.

Chi era Cristoforo Colombo? Un marinaio premiato al di là dei suoi meriti? O qualcosa di più, molto di più? Perché si firmava Christo Ferens, colui che porta a Cristo? Sulla base di una nuova interpretazione di antiche carte e documenti, l’autore rivisita le vicende del "navigatore dei due mondi" e della "scoperta" dell’America. Quanto si sostiene in questo libro non è mai stato affermato in cinque secoli di scritti colombiani: complotto secolare, thriller storico-politico-teologico, sottofondo alchemico-esoterico, sorprendenti parentele, eredità templari e cavalleresche. Sullo sfondo, "mappe impossibili", spedizioni e sbarchi precedenti al 1492 fra realtà e leggenda, personaggi come Marco Polo, Pico della Mirandola, Paolo Dal Pozzo Toscanelli. (*)

Informação que acompanha a notícia da realização duma palestra do autor na Nuova Acropoli.
Lo sapevate che per Cristoforo Colombo non fu il primo viaggio quello del 12 ottobre? Questo significa che l’ “America” non è stata scoperta nel 1492...e che Cristoforo Colombo non fu un “semplice” marinaio, ma un uomo colto che sapeva dove stava andando? Infatti ritrovò delle antiche carte dell’emisfero occidentale nella Biblioteca di Innocenzo VIII... e che lo stesso Papa fu il suo più convinto sostenitore...

Ma l’intreccio della vicenda è più complesso di quello che ci hanno raccontato a scuola, perchè entrano in gioco ruoli sociali e politici.
Questo è quello che ci ha raccontato l’autore, frutto delle ricerche che porta avanti da 15 anni, per saperne di più la Sperling & Kupfer e Rai Eri ha pubblicato “Cristoforo Colombo l’ultimo dei Templari”.

Nota: Sublinhado meu.

Aditamento de 19-2-2007.
Edição portuguesa:
MARINO, Ruggero. Cristóvão Colombo – O Último dos Templários, Alêtheia Editores, Janeiro de 2007.


Para que conste e a quem interessar, este livro e este autor nunca foram usados pelos redactores da Pseudo-História Colombina como referência em qualquer dos seus textos. Afirmar-se tal só pode ser má-fé grosseira.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

"O Mistério Colombo Revelado" e os nomes conferidos a Cristóvão Colombo por seu filho Fernando Colom, à luz da etimologia

O Mistério Colombo Revelado”, obra recentemente editada em Lisboa pela Ésquilo, tem o seu título em português correcto. Existe uma razão para isso. Na realidade, quem comprará nas livrarias da Lusofonia um livro sobre um desconhecido “Colon” ou “Colón”, palavra ignorada entre nós e sugerindo imediatamente o cólon, algo que o diccionario ainda define como a “parte do intestino grosso situada entre o cego e o recto”? “O Mistério Colon Revelado” é título que imediatamente nos sugere maçadora propaganda médica, ou incompreensível tratado patológico, perigo que se conseguiu evitar à partida.

Ao abrigo de sobressaltos na intitulação, porém, o livro “coloniano”, depois de cirurgicamente nos ser revelado o seu corpo de texto interior, evidencia misteriosamente nóveis conclusões onomásticas, e não só, sobre a personagem histórica de que se ocupa. Sobre as suas origens e percurso que pretende aclarar. Assim, e por isso mesmo em consonância rectificando cegamente, altera sem pudor o nome usado desde há quinhentos anos, em português, para o biografado. Um biografado tornado mito desde os idos de oitocentos nas nações castelhana, italiana, norte-americana, e reclamado para si desde há muito por alguns galegos, portugueses, corsos, e catalães.

Nele se escolhe como supostamente adequada a designação castelhana encurtada do nome do almirante das “Índias”, melhor dito almirante das Índias Ocidentais, Colon. Colon, por apócope documentadamente ocorrida em castelhano quando ele passou de Portugal a Castela, de Colombo>Colomo>Colón. Mesmo “Cristóbal Colón” permitirá decerto dar ao herói de que se ocupa uma aparência mais “ibérica”, ou seja, castelhana latu senso, visto o seu autor se apresentar algures como “historiador da Ibéria nos EUA” (sic). O livro diz desenrolar uma nova tese que irá, citamos da capa, “arrasar a historiografia oficial” com “15 anos de investigação científica rigorosa” (sic). “Iberizada” a obra, procurará dessa forma quiçá alargar o futuro mercado interessado na venda do seu trabalho da “Anglo-Saxónico-Hispânico-Franco-América” do Norte até à Íbero-Anglo-Franco-Neerlandesa-América” do Sul. Esquece-se infelizmente apenas do mercado lusófono. Ignoramos se os autores, parceria de um português há muito residente nos EUA com um estadunidense, são iberistas à última moda, segundo recente revelação pública no estrangeiro de um dos nossos ministros mais distintos. Supomos no entanto que sejam entendidos os srs. Rosa e Steele na história das nações basca, galega e castelhana, e sobretudo na da nação catalã, sita à roda do rio Ebro, a única nação das Espanhas realmente ibérica com propriedade do termo utilizável, mais ainda no tempo de Colombo. Coisas que infelizmente também os Governos portugueses desconhecem, afectando gravemente a nossa identidade perante a Comunidade Internacional. Não sendo assim muito de se arguir quem se limite a seguir tão altos exemplos históricos e culturais, de patriotismo sem mácula.

Revertendo ao ponto: não acreditando os autores que Colombo fosse italiano de nascença, e querendo defende-lo contraproducentemente como português natural, talvez por visionarem demasiadamente os necessários e úteis painéis bilingues, em castelhano e português, da ainda portuguesa TV Cabo, alteram-lhe o nome para a versão castelhanizada do mesmo! Baseia-se esta surpreendente alteração à historiografia tradicional lusófona, segundo o autor Manuel Rosa, no facto de “ele assim ter sido tratado por D. João II”, o que não se comprova; pelo papa castelhano Alexandre VI, em bulas oficialmente enviadas de Roma à corte castelhana através da respectiva chancelaria, o que não releva ao caso, além de que o próprio Borja em Itália ficou Bórgia; e “pelo seu filho natural e biógrafo”, Fernando Colombo. Fernando Colombo, filho esse aliás um castelhano nascido já em Castela de mãe castelhana, ao contrário do outro filho, legítimo, Diogo Colombo, nascido português de Filipa Moniz, senhora portuguesa.

Mais surpreendente ainda é esta preferência inusitada para o nome em castelhano quando se entende que, contra todo o corpo documental de estudos coevos existente, os autores procuram recriar a tese de alguns outros pseudo-historiadores indicados neste blog, defendendo a atribuição de uma futuramente documentável naturalidade portuguesa a Colombo. Mas, embora sem nada disto evidentemente poderem provar depois dos 12 ou 15 anos de estudo que motivaram este livro, indicia-se nele segundo parece que poderia “Cristóbal Colon” ou seja, o Colombo de novo tentativamente retirado à Itália, descender, através da família Câmara, de uma senhora que sabemos criada, ou aceite, pelos genealogistas tardios, a partir do sc. XVI. Essa senhora virtual alegadamente teria concebido em Roma (7), de Rodrigo Anes de Sá, alcaide-mor de Gaia, ao famigerado Sá das Galés (8). Infelizmente para o sentido deste enunciado, “Cecilia, ou Giulia Colonna” é uma existência cuja impossibilidade se documentou há já suficiente tempo (4), embora ainda aceite e indevidamente reproduzida em alguns lugares genealógicos de divulgação generalista mais conhecidos do grande público, como Genea Portugal, que sabemos que por largo tempo tem frequentado o sr. Rosa.

Assim, “Colon” seria abreviatura do nome da ilustríssima família principesca italiana Colonna, cujo sobrenome é oriundo do latim Columna (2), como mostram à evidência as armas parlantes desta linhagem, muito simples e com uma única coluna ao alto; enquanto que Colon nos é dito surgir do grego kolon, significando membro (1). E sabe-se que colombo vem do latim, significando pombo. Usando entre outros argumentos estes três radicais distintos de palavras, duas etimologias do latim e uma do grego, mal embrulhadas, se defende a naturalidade portuguesa de Colombo, “ocultado” sob “nome de guerra” que o próprio teria escolhido para se tornar anónimo como “agente secreto português em Castela”, ou seja (sic) o tal “Colon” inspirado no grego significando membro, devido à ascendência ilusória na linhagística senhora Colonna, ou seja, coluna.

Não se atentou também como seria estranho alguém querendo passar-se por italiano ou português, em Castela, dizer-se chamar Colón, nome grego ou de ressonância castelhana pura... mas a documentação aí está, e até à sua primeira viagem, sempre Colombo está designado como Colomo nas fontes castelhanas. E não Colon... A explicação para esta incongruência do enredo estaria em que muita gente, aquém e além Caia, incluindo as famílias reais portuguesa e castelhana, saberiam da “verdadeira identidade” de Colombo. Só que assim já se não entende porque precisaria ele mudar de nome ao ir trabalhar como agente secreto na corte dos Católicos, mas sigamos...

Voltámos então a nossa atenção para o filho natural biógrafo, que o sr. Manuel Rosa nos diz ter revelado que o nome do pai fora sempre Colon, ou Colón, ou Kolon, enfim, membro. Achavámos de facto extraordinário que uma obra tão conhecida, e traduzida em tantas línguas, não tivesse já levado os autores colombinos, em todas as outras línguas ocidentais, a ter abandonado nesse caso o uso do nome tradicional que nelas se faz, Colombus, Colomb, e até Colón, por Colon, que tanto prefere o sr. Rosa, apesar de que Colonna, em apócope portuguesa, daria Colom (Colõ), ou Colo (Cólu), jamais Colon... mas adiante.

Tendo este Fernando Colombo morrido em 1537 (6), terá deixado inédito um manuscrito em língua castelhana, de que se conhece uma primeira edição traduzida para italiano e publicada em Veneza em 1571. O original castelhano é-nos hoje desconhecido, tendo sido esta obra retraduzida do italiano para castelhano posteriormente, razão pela qual preferimos ir saber na versão italiana primeiramente impressa o que nos diz esta biografia, tão importante e sempre usada pelos biógrafos de Colombo, quanto aos vários nomes por que ficou conhecido o achador oficial das Antilhas nas diferentes nações. Tentando entender, enfim, a razão para esta de facto misteriosa, embora pouco revelada, nacionalização castelhana da designação portuguesa Colombo, opção que preferimos entender como não tendo subjacente motivos de política cultural ou comercial da actualidade, ou seja, como não motivada pelo “mercado ibérico da História” que me tenho apercebido nos últimos anos que se tem infelizmente vindo a pretender criar...

Utilizámos para o efeito o 1º capítulo, e fizemos fé na edição electrónica da obra “Historie del S. D. Fernando Colombo&...”, que se encontra integralmente em linha no sítio www.libromania.it (3).

Nela Fernando Colombo literata ao explicar floridamente o nome do pai, e suas diversas versões utilizadas, jogando habilmente entre os significados das raízes etimológicas de Colombo (pombo), Colonus (Colono) e Colon (membro) a fim de ornar estilística e simbolicamente a sua obra que quer apologética. Mas para que não nos reste dúvida, neste jogo literário encadernado livremente a misticismo ao sabor do tempo, sobre qual é o real nome da família da sua varonia, o filho biógrafo inclui a palavra “verdadeiramente” antes do sobrenome correcto da dita em Itália, antes de começar a divagar esotericamente, à moda dos humanistas, sobre ele. Atrevamo-nos corajosamente a tentar traduzir do italiano, submetendo-nos às críticas de quem melhor o dominar:
“...se abbiamo riguardo al cognome comune dei suoi maggiori, diremo che veramente fu colombo, in quanto portò la grazia dello Spirito Santo a quel nuovo mondo che egli scoprì, mostrando, secondo che nel battesimo di San Giovanni Battista lo Spirito Santo in figura di colomba mostrò, qual era il figliuolo diletto di Dio...”...

Ou seja “...tendo em conta o sobrenome habitual dos seus (do pai do autor) maiores (antepassados), diremos que VERDADEIRAMENTE foi COLOMBO, porquanto levou (ou transportou) a graça do Espírito Santo àquele Novo Mundo que ele descobriu, mostrando, tal como no baptismo de S. João Baptista o Espirito Santo, em figura de pomba, mostrou quem era o Filho dileto de Deus...”...

... “e perché sopra le acque dell’Oceano medesimamente portò, come la colomba di Noè, l’olivo e l’olio del battesimo per l’unione e pace che quelle genti con la chiesa dovevano avere...”...

Isto é, “e porque sobre as águas do Oceano, medeando-as, levou, como a pomba de Noé, o ramo de oliveira e o óleo do baptismo para a união e a paz que aquela gente com a igreja deveria ter...”...

E sobre a apócope do nome Colombo ocorrida na pronúncia e nos documentos grafando o nome Colombo em Castela, reino onde pela primeira vez o pai se tornara conhecido, informa romantizando, e sugerindo leitura esotérica sincrónica e embelezada para factos simples:

“...poiché erano rinchiuse nell’arca delle tenebre e confusione. E per conseguenza gli venne a proposito il cognome di Colón, che ritornò a rinnovare, poiché in greco vuol dire membro, acciò che, essendo il suo proprio nome Cristoforo, si sapesse di chi era membro, cioè di Cristo, per cui a salute di quelle genti egli aveva ad esser mandato. Ed appresso, se cotal suo nome noi vogliamo ridurre alla pronuncia latina, ch’è Christophorus Colonus, diremo che, siccome si dice che San Cristoforo ebbe quel nome perché passava Cristo per le profondità delle acque con tanto pericolo, onde fu detto Cristoforo, e siccome portava e conduceva le genti, le quali alcun altro non sarebbe bastato a passare, così l’Ammiraglio, che fu Christophorus Colonus, chiedendo a Cristo il suo aiuto, e che l’aiutasse in quel pericolo del suo passaggio, passò lui e i suoi ministri acciò che facessero quelle genti indiane coloni, e abitatori della chiesa trionfante dei cieli, poiché egli è da credere che molte anime, le quali Satanasso sperava di godere, non essendovi chi le passasse per quell’acqua del battesimo, da lui siano state fatte coloni e abitatrici della eterna gloria del Paradiso.”

O que dá isto “...pois que estavam (os ameríndios) ainda prisioneiros na arca (no seio) das trevas e da confusão (religiosa). E por conseguinte veio-lhe (a Cristóvão Colombo, e não aos castelhanos, diz o filho, ignorando que a História registaria a forma intermédia Colomo...) como apropriado o sobrenome Colom, que foi o primeiro a voltar a por em uso, pois que em grego quer dizer membro (kolon), até que, sendo o seu nome próprio Cristóvão, se soubesse de quem era membro, isto é, de Cristo, por quem à salvação daquela gente ele teria de ser mandado. E se aproximadamente tal nome quisermos reduzir à pronúncia latina, que é Christoforus Colonus (sic, latiniza uma palavra que diz grega e significa membro... alcançando a palavra latina não para Colu(m)na, coluna, mas para Colonos, calembour aludindo aos colonos em que a seguir dirá que seu pai transformou os ameríndios - desvio de que devia estar consciente o autor, que o precede da palavra “aproximadamente” por isso mesmo, querendo talvez salvaguardar perante o leitor a sua imagem de latinista) diremos que, assim como se diz que São Cristóvão teve esse nome porque transportava Cristo por sobre a profundeza das águas com tanto perigo, pelo que lhe chamaram Cristóvão, e assim como levava e conduzia a gente, a qual nenhum outro seria bastante para transportar, assim o Almirante, que foi Cristophorus Colonus, pedindo a Cristo a sua ajuda, e que o ajudasse naquele perigo da sua passagem (viagem), passou (viajou) ele e os seus ministros até que fizessem daquela gente indiana (sic) colonos, e habitantes da Igreja triunfal dos Céus... pois que ele teria crido que muitas almas, que Satanás esperava colher, se acontecesse que as não passasse por aquela água do baptismo, por ele foram transformadas em colonos e moradores da eterna glória do Paraíso.”

Vemos portanto que de tudo isto, basta atenção e bom senso para concluir, por entre o rebuscado quase barroco do texto, aonde está a verdade: Cristóvão Colombo era verdadeiramente Colombo, pombo, como os seus antepassados; era dito alegadamente Colom, membro, a fim de se lhe dar falsamente a glória de ter escolhido ele próprio a forma Colon com que o acolitaram em Castela; e ainda metaforicamente Colonna, coluna, radical que poderia também ser usado como alusão espiritual enaltecedora, na medida em que igualmente muito ligado a Cristo e à sua tortura. Acontece que a imensa importância dos Príncipes Colonna, seja no tempo do manuscrito, seja em 1571, altura da primeira impressão traduzida italiana, terá impedido maiores alusões ou identificações com estes, rejeitadas logo ab initio no texto (que julgamos irrelevante traduzir mais) como falsas e pretensiosas, mas ditas como possíveis para alguns na época, em que eram escritas as palavras do livro - a simples menção dessa crença, que alguém pudesse julgar os Colombo oriundos dos Colonna (2) italianos, já em si mesma era por demais gratificante ao escritor.

Termine-se com este excerto:

“...e ancora quelli che più salgono sopra il vento, lo fanno di Piacenza, nella qual città sono alcune onorate persone della sua famiglia, e sepolture con armi, e lettere di Colombo, perché in effetto questo era già l’usato cognome dei suoi maggiori ancorché egli, conforme alla patria dove andò ad abitare e a cominciar nuovo stato, limò il vocabolo acciò che avesse conformità con l’antico, e distinse quelli che da esso discendessero da tutti gli altri che erano collaterali, e così si chiamò Colón.”“...(depois de referir outras alegadas terras, ou “pátrias” de Colombo, junto a Génova, revela a mais corrente e acreditada naturalidade dele) e ainda aqueles que mais saiam sobre o vento, o fazem de Placência, na qual cidade há algumas honradas pessoas da sua família, e sepulturas armoriadas, e cartas de Colombo, pois que com efeito este era já o sobrenome (apelido) usado dos seus antepassados ainda que, em conformidade com a pátria (terra, país) para aonde foi morar e a começar novo estado, limou o vocábulo até que ficasse conforme à Antiguidade (Greco-Latina), e distinguisse aqueles que dele descendessem de todos os outros (da família Colombo) que (lhes) eram colaterais, e assim se chamou (ou aceitou chamar-se...) Colón”.

Colon, em italiano, só o vemos usado com acento: Colón. Pois se sabe em Itália decerto que é a castelhanização de Colombo. Por muito doirada e disfarçada em membro (1) que se tenha querido apresentar a apócope ocorrida em Castela, apócope que fica provada não ter nascido, de maneira nenhuma, de um gesto isolado decidido pelo Almirante Colombo, como gostaria de nos iludir o seu filho Fernando Colom.
Sugerimos portanto e em definitivo que numa eventual segunda edição deste estranho livro, ou noutras obras que venham a escrever-se sobre o mesmo personagem, se lhe guarde o uso consuetidinário, na Língua Portuguesa, do seu nome original italiano COLOMBO, tal como é descrito pelos estudos de todos os coevos em Portugal, ou quando muito, COLOM, que um ou dois deles parece também terem utilizado, e é possível que tenha sido conhecido como tal aqui, antes de passar a Castela para a sua aventura.

_______________

1) Kolon aliás, em grego, como já vimos, significa também intestino, ou seja, algo direito e soltamente independente. É outro nome ainda hoje para intestino grosso na língua portuguesa.
2) O DIZIONARIO ETIMOLOGICO ONLINE, diccionario etimológico italiano em linha, informa, clareando-nos esta alegada suposição honrosa que queria tornar os Colombo em alegados descendentes dos Colonna, segundo Fernando, que o radical de Colombo (pombo) teria sido transmitido pelos antigos italianos através da forma intermédia Cólum-en, chaminé (em forma de coluna, supõe-se) por os pombos em cima delas nidificarem, tomando-lhes o nome.
3) Cf. Colombo.
4) Cf. Monteiro, Fernando M. Moreira de Sá, 2000, Sás - as origens e a ascensão de uma linhagem, Genealogia & Heráldica, n.º 3, p. 73, (vd. p. 102 et al.), Janeiro/Junho, Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica, e História da Família da Universidade Moderna do Porto.
5) Nascimento da linhagem Câmara: houve genealogias tardias que indicavam como mulher do achador oficial da Madeira, o 1º capitão-donatário João Gonçalves Zarco (depois João Gonçalves Zarco da Câmara de Lobos, mas apenas sete anos antes de morrer, com cerca de 72 anos) a "Constança Rodrigues de Sá", ou até "Constança Rodrigues de Almeida".
Depois que el-Rei D. Afonso V atribuiu o sobrenome Câmara de Lobos à família, ao conceder ao velho cavaleiro da Casa de seu tio, João Gonçalves, uma cota de armas novas, os então recentes fidalgos abandonaram o uso do sobrenome ou apelido Zarco, assinando-se apenas Gonçalves da Câmara, e depois ainda mais simplesmente, apenas da Câmara. Foi só no sc. XVIII que retomaram o Zarco, instituindo a dupla Zarco da Câmara, e até a tripla onomástica Gonçalves Zarco da Câmara, pelo menos, na linha dos condes e marqueses da Ribeira Grande, oriunda da dos condes de Vila Franca do Campo, na ilha de São Miguel.
A importante "capitoa Constança Rodrigues", sempre documentada nas fontes sem título de dona, não se crê nem se prova que pudesse pertencer à linhagem dos Sá, ou dos Almeida, bem antes pelo contrário; da mesma forma que como atrás se disse não se documenta qualquer terceiro casamento entre Rodrigo Anes de Sá e a alegada Cecília, ou Júlia, ou Maria Ana Colonna, de quem a Capitoa, caso tivesse sido mesmo uma Sá, pudesse ser oriunda.
Muito haveria a dizer ainda a este respeito, mas firmemo-nos no ponto, aqui crucial, de que Constança Rodrigues, genearca dos Câmara , era decerto de origens bem mais modestas. Como aliás seu marido João Gonçalves (* Leça da Palmeira, em 1394, + Funchal, em 1467) de quem não se sabe se foi Zarco de apelido, ou alcunha, como querem alguns, ou se pertenceu a uns seus contemporâneos do sobrenome Zarco, documentados em Lisboa. Zarco nasceu com efeito aparentemente em família ligada ao mar, tendo tido um percurso nobiliárquico muito lento, através do serviço na Casa do infante D. Henrique, com quem fez a guerra; sendo marinheiro além de guerreiro, só ascende à nobreza passada a meia idade, com todos os filhos já crescidos (cavaleiro em 1437, no cerco de Tânger; pai legítimo com Constança Rodrigues a partir de c. de 1420; finalmente elevado a fidalgo de cota de armas, porta de entrada inferior no estatuto de nobreza ou fidalguia de linhagem, apenas em 1460).
É completamente impossível crer, além de contrário às fontes existentes, que pudesse ter casado, tantos anos antes sequer de ser armado cavaleiro, com uma Sá, e menos, se esta fosse Colonna de sangue...
As pretensões dos Sás a descenderem dos Colonna afiguram aliás enquadrar-se na plétora nobiliárquica de ascensões da corte de D. Manuel I, como paralelas a outras mistificações de genealogias ilustres adoptadas ao subir bruscamente na hierarquia de corte uma família, e já estudadas documentalmente por investigadores como Braamcamp Freire, Manuel Lamas de Mendonça, e Manuel Abranches de Soveral: caso da dos Furtados minhotos, que acrescentam o Mendoça dos srs. de Mendoza; caso dos Manoéis, que se dizem descender del-Rei D. Duarte. No sc. XVI os Sás, com poucos costados de primeira plana aristocrática, ocupavam já cargos dos mais altos na corte, como o de camareiro-mor, e é justamente de quinhentos que datam as primeiras genealogias dizendo-os descendentes da indocumentada senhora Colonna, que aliás não é referida nas genealogias italianas de tempo algum, nem nas portuguesas antes da Renascença, o que se afigura indício bastante conclusivo para senhora de tão alta linhagem como ela teria que ser, uma Colonna feudal, sobrinha de Cardeal, da corte dos Papas em Roma e Avinhão. Nem se compreende aliás que, tendo tido descendência em Portugal, ninguém se reclamasse dela, nem lhe usasse o sobrenome, mormente descendência feminina, como era o hábito, matrilinear, por longas gerações sempre transmitindo o sobrenome mais prestigioso disponível inicial, quando indicava origem real bastarda, ou alta hierarquia da primeira senhora da linha.
6) Ou em 1539, consoante.
7) Ou em Lisboa, que no final do sc. XIV teve um arcebispo da família Colonna, pelo breve espaço de um ano, quando nomeado cardeal voltou a Itália; cronologia porém incompatível com o nascimento de João Rodrigues de Sá; ou em Avinhão, aonde teria ido em embaixada Rodrigo Anes de Sá, e havia um cardeal Colonna, mas se documenta que Rodrigo Anes era casado com outrém.
8) Mãe entretanto identificada, segundo a melhor documentação, como tendo sido Mécia Pires (de Avelar?) primeira mulher do pai do "Sá das Galés" (apud. op. cit. nota 4).

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Novas Regras

O espaço reservado aos comentários dos leitores está a ser usado com fins insultuosos e difamatórios. Se tais comportamentos ilustram o mau carácter de quem assim age por outro lado em nada dignificam este sítio.
Por isso decidiu-se pôr fim à possibilidade de comentar directamente o que aqui é posto.
No entanto entre os comentários feitos até agora, há muitos que trazem contributos importantes e alguns até contra-argumentos sérios às posições dos autores desta página. Assim quem tiver algo de relevante a dizer poderá fazê-lo para o endereço electrónico desta página (pseudo.historia.colombina@gmail.com) e à medida que nos for possível pô-los-emos com o devido destaque.
Lamentamos ter de chegar a este ponto. Só se traduzirá em mais trabalho para nós, pelo que pedimos desde já desculpa se houver atrasos no cumprimento desta promessa.
Sabemos que se trata duma severa limitação à liberdade de expressão dos nossos leitores e que por essa razão até dissuadirá muitos de darem um contributo valioso, mas temos de reconhecer a nossa ingenuidade ao crermos na bondade humana.
Temos também a plena consciência de que, no mínimo, iremos ser acusados de tentar calar as ideias que nos são adversas, mas é mais um risco que assumimos.
Os comentários feitos até agora, mesmo alguns que mereceriam ser removidos, continuarão disponíveis como prova da razão por que fomos forçados a agir assim.

sábado, 6 de janeiro de 2007

A oferta de D. João II a Castela

[D. João II viu] que Castela estava mais interessada em reconquistar Granada aos mouros do que em navegar até à Índia (...).

O Mistério Colombo Revelado, p. 223.

Castela não queria um império ultramarino mas D. João II, altruisticamente, insistia em oferecer-lho e tanto insistiu que os castelhanos a contragosto lá acabaram por aceitar.
Buscar a Índia não passava pela cabeça de Castela, como bem se mostra no Colombo Revelado. D. João II dá-lhe essa ideia e, não satisfeito, vai insistir para que se faça aquilo que os Reis Católicos não desejam?

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Pseudo-História: cá como lá - Gavin Menzies, 1421


Fenómenos como os que aqui se tratam não são novos, como já visto, nem exclusivos de Portugal. Curiosamente, pergunto-me, quantos dos defensores destas ideias em Portugal, subscreveriam ideias como as propaladas por Gavin Menzies?

Menzies, Gavin. 1421, o ano em que a China descobriu o mundo, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004.

Também este autor tem má opinião dos historiadores:
Acho que se fosse historiador nunca teria escrito este livro. Os historiadores são, por norma, conservadores e não querem contradizer as teorias aceites pela maioria. Sobretudo, não querem parecer ridículos.

in Visão n.º 588.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Agentes secretos e conspiradores ao serviço de D. João II

Três podem guardar um segredo, se dois estiverem mortos
Benjamin Franklin

(1ª de cinco epígrafes ao Cap. VI de O Mistério Colombo Revelado)


Para a execução da sua missão enganadora Cristóvão Colombo conta com ajudas de imensos outros agentes secretos e conspiradores:
Pêro da Covilhã
Fr. António de Lisboa
Pedro de Montarroio
Afonso de Paiva
José de Lamego
Rabi Abrãao de Beja
Fr. António de Mascarenhas a.k.a Juan Perez (?)
Rui de Pina
Pedro de Alcáçova
D. Diogo Ortiz de Calçadilha
Mestre Rodrigo
Mestre Moisés = José Vizinho
Fr. Gaspar Gorrício
D. João II
D. Isabel, a Católica
D. Fernando Colombo
Fr. Jorge de Sousa
Martim da Boémia / Behaim
Maximiliano I
Jerónimo Munzer
Bernardo Boil / Bnyl / Buil / Bonil
Toscanelli (eventualmente)
Bartolomeu Dias
Garcia de Resende
Juanoto Berardi
Vespúcio
etc.


(Exemplos retirados unicamente do capítulo VI de O Mistério Colombo Revelado)

Adenda de 7-1-2007

Luís de Oria / Lodisio d’Oria
Lorenzo di Berardo e irmão(s)?
Bartolomé Marchioni
Francisco de Bardi
Simón Verde
Gerardo Verde
Andrés Colombo
Francesco Carduchi
Diego de Ocaña
Jerónimo Rufaldi
Violante ou Briolanja Moniz a.k.a.(?) Beatriz Hidalgo
D. Isabel da Silva, marquesa de Montemor
irmãos de Filipa Moniz
Diego Mendez de Segura
Cristobál Muñiz / Cristóvão Moniz
Juan de la Cosa

Há muitos mais nomes, mas no texto em género de rol torna-se difícil, ou mesmo impossível, compreender qual o papel atribuído a cada personagem enumerada.

Nota: atenção que Calcutá é diferente de Calecute, p. 227.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Patrocínio Ribeiro - Palavras de Abertura

Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica (...), Lisboa, Liv. Renascença, [1927], pp. 5-12.


A
NACIONALIDADE PORTUGUESA
DE
CRISTOVAM COLOMBO

Texto Integral

PALAVRAS DE ABERTURA


A importancia que de longe vem tomando o problema da nacionalidade de Christovam Colombo, disputada por genoveses e espanhoes, levou-nos com certo fundamento, baseados nos conhecimentos que os portuguezes sempre revelaram desde o inicio das descobertas realisadas atravez do mar mysterioso, e da primazia no encontro das terras mais remotas a lançar á publicidade esta obra, por todos os motivos notavel.
Não ha dúvida sobre a reputação creada na Europa pelos navegadores portuguezes desde os meados do seculo XV e o estabelecimento scientifico creado pelo genio do Infante D. Henrique, no Promontorio da costa do Algarve; como tambem é certa a estada cm Portugal, — centro e origem dos mais arrojados empreendimentos, de navegadores estrangeiros como Americo Vespucio, vindo aqui adquirir conhecimentos, sem os quaes, dificilmente poderiam exercer a profissão a que se destinavam.
Com a publicação do trabalho de Patrocinio Ribeiro, em portuguez e inglez, para mais largo conhecimento das suas deduções, cuidamos prestar um alto serviço á sciencia e verdade historica nem sempre respeitada e talvez, tendenciosamente deturpada.
O publico e o juizo critico dos historiadores, poderão avaliar melhor do que nós o fazemos, do criterio e razão scientifica contidos nos factos, mais que simples coincidencias, para levarem o malogrado e erudito escriptor a sustentar a nacionalidade portugueza de Christovam Colombo. Já em 1915 fôra apresentada à Academia de Sciencias de Portugal pelo mesmo auctor, uma memoria intitulada o Caracter mysterioso de Colombo e o problema da sua nacionalidade, estudo sensacional, mais tarde ampliado e admiravelmenie refundido, estudo que o notabilissimo publicista sr. Julio de Lemos, ilustre secretario perpetuo do Instituto Historico do Minho, considerou explendido titulo de imortalidade do seu modestissimo auctor. Por sua vez, aquele Instituto, dirigia a Patrocinio Ribeiro e á Academia, a par de agradecimentos as mais calorosas felicitações por tão brilhante como notavel escrito.
O trabalho presente, aumentado com outros estudos e novamente refundido, deverá constituir um glorioso padrão do patriotismo e profundo saber do eminente escritor.
Os espanhoes, provaram já, não ser Christovam Colombo, genovez; mas não provaram que fosse espanhol.
Consideram segura a afirmativa de ter nascido entre a Galiza e o Algarve, no extremo ocidental da Peninsula, documenta que publicamos em apendice, assim como alguns historiadores italianos reconhecem como oriundo de Portugal o irmão do famoso navegador, Bartholomeu Colombo, tambem não se provou até hoje, apezar das persistentes investigações dos mais notaveis historiadores espanhoes, que fosse Colombo natural da Galiza.
Restava então averiguar se era portuguez, o que ainda não haviam tentado os investigadores. Patrocinío Ribeiro, arguto e meticuloso, espirito dotado d’uma inteligente e bem formada competencia, provada em muitos trabalhos anteriores de incontestavel valor, executados pela paciente vontade d’um benedictino, estava designado a bem da verdade, para desvendar o mysterío.
Ou fosse pelas perseguições movidas em torno do seu genio audaz; ou pela pouca importancia que poderia representar para o desenvolvimento comercial da Europa, a descoberta de um imaginario caminho para as Indias pelo Ocidente, idealisado com interesse e fantasia por Colombo; o que é certo, é que os portuguezes, emprehendendo a execução de um largo plano estabelecido em Sagres, desde o conhecimento da forma esferica da terra, procuravam chegar á India pela costa da Africa, tendo descoberto o Cabo da Bôa Esperança 6 anos antes da expedição de Palos, com o fim de fazerem derivar para Portugal, o comercio riquissimo do lendario Oriente.
Os portuguezes não ambicionavam terras incultas e selvagens, que absorvessem gente e dinheiro; por esta razão repeliam os oferecimentos feitos mediante exigentes propostas, para a descoberta de terras que eles conheciam havia 29 anos, (desde 1463) antes, da primeira viagem de Colombo. Lá tinham estado os Côrte-Reaes, Alvaro Martins Homem, Afonso Sanches e muitos outros.
O objectivo era o caminho seguido em 1498 por Vasco da Gama; e certos disto, estavam os Portuguezes, prestando toda a atenção e louvor a esse extraordinario acontecimento, sobre o qual, Camões concebeu e realisou, a maravilhosa epopeia que permaneceu eterna; e Portugal, dedicou-lhe um esforço, que não lograram merecer outras descobertas — nem mesmo o Brasil.
No Seculo de 28 de Dezembro de 1926, publicou. o ilustre historiografo sr. Antonio Ferreira de Serpa um magnifico e bem documentado artigo, provando a descoberta da America dezenas de anos antes de Colomho, por navegadores portaguezes; e em 15 de Fevereiro do corrente ano o mesmo auctor; publica ainda sob o titulo A prioridade do descobrimento da America pelos portuguezes, um notabilissimo artigo em que o proprio Colombo, confessa ter sabido das expedições dos filhos do verdadeiro descobrídor, João Vaz Corte-Real, cujas indicações seguiu na sua viagem.
Em muitos pontos se confirma o criterio de Patrocnio Ribeiro, com eloquente demonstração e perfeito raciocinio que já não é possivel permanecer em dúvida.
Sendo como é caso largamente demonstrado e bem esclarecido quanta á questão da prioridade, toma maior destaque e mais se confirma n’esses artigos a provada nacionalidade tal como é apresentada pelo auctor d’esta obra.
Quando, porém, os italianos asseguram que o irmão de Colombo é Portuguez e os espanhoes teem como certo, ter este nascido na parte que vae da Galiza ao Algarve, o trabalho firmado por Patrocinio Ribeiro è uma obra altamente notavel e verdadeiramente sensacional. Todos os documentos que possam vir à luz da publicidade, e que a morte não consentiu a Patrocinio Ribeiro — infelizmente — o seu estudo, na casa da India em Espanha como na Torre do Tombo em Portugal, temos a convicção, que não darão senão maior relêvo a esta valiosa e interessantissima monografia.
Critico e historiador, contista e inspirado poeta, dispondo d’um estilo leve e limpido como a agua fresca dos regatos, corre nas paginas admiraveis dos trabalhos que Patrocinio Ribeiro nos legou, ora graciosos e alegres, ora de critica e de analise, tocados sempre pela luz brilhante do seu espirito e do seu talento.
Theofilo Braga, tinha pelo auctor da Nacionalidade Portugueza de Colombo, uma particular estima; admitindo-o em 14 de Maio de 1912 como socio da Academia de Sciencias de Portugal, por unanimidade de votos, depois d’esta ter apreciado a sua memoria, A verdadeira «Célia» de Sá de Miranda, como prova de talento, profundo saber e meticuloso estudo. Nessa comunicação, Patrocinio Ribeiro concluia, que Célia era a celebre poetisa Victoria Colonna, (Marqueza de Pescara) e não como afirmava Theofilo, Isabel Freire.
Délia, era uma personagem diferente e d’ela provinha, sem duvida, uma errada interpretação.
A 2 de Julho, apresenta Patrocinio áquela douta Academia os interessantissimos quesitos: O que é o genio? e em 30 do mesmo mez, a notavel monogrofia A bem-amada de Bernardim Ribeiro e as personagens secundarias da «Menina e Moça»; comentando n’este trabalho todos os raciocinios e documentação, para estabelecer o principio de que foi a poetisa de Almada, D. Leonor Mascarenhas, a bem-amada (Aonia), inspiradora musa do poeta bucolista e não Joana Tavares, mostrando-nos pelo entrecho da celebre novela em criptónimos e anagramas, as personagens de Joana, a louca, a imperatriz Isabel de Portugal, Margarida de Valois, Francisco I, Carlos V, Filippe I e Jacopo Sanazaro. Em Agosto de 1912 e Setemblo de 1913, sob a epigrafe de A ecloga II de Bernardim Ribeiro, retificava no Diario de Noticias a interpretação, a que juntou outros novos elementos biograficos; publicando em Novembro de 1920 um artigo no Seculo, em que prova a permuta de versos, entre o reformador da poesia lyrica em Portugal e a fermosa e mal empregada Lianor.
No espolio literario legado á posteridade, podémos tomar nota de muitas obras de incalculavel valor, que é necessario não deixar permanecer ineditos ou sepultados no pó do esquecimento, e, a par d’estas obras ainda alguns preciosos escriptos que merecem ser publicados. D’essa relação damos conhecimento publico, em homenagem ao auctor e em beneficio das letras nacionaes:
«Chrisfal», Apontamentos diversos (Inedito); «O auctor oculto do Chrisfal» (publicado); «Menina e Moça», celebre novela portugueza do seculo XVI, interpretada por Patrocinio Ribeiro, (Inedito): «O amôr lésbio atravez dos seculos» (Inedito); «Onomotografia» assignaturas (impresso); I, Diversos artigos publicados na Ilustração Portugueza; II, Artigos publicados em diversos jornaes; III, Artigos de colaboração em varios jornaes de Lisbôa e provincias: «Favo de Amôr», contos com um prefacio de Julio Dantas (Inedito); «O Sol de Africa», contos (Inedito); «A conjura dos sargentos» (Inedito); «Antologia dos Poetas Brasileiros» (Inedito): «A bem-amada de Bernardim Ribeiro» (lmpresso); «Amorosidade elaborativa de Gustavo Flaubert» (Impresso); «A verdadeira Célia de Sá de Miranda» (Impresso); «Eduardo Metzner», estudo biografico (Inedito); «Dicionario dos termos obscenos», coligidos em linguagem popular do nosso tempo por * * * (Inedito); «Colombo» (apontamentos varios); A nacionalidade Portugueza de Colombo» (publicado no Jornal da Europa); «Rocal de Vidrilhos», versos (Inedito); «Musa Ironica», versos escolhidos.
Nasceu Patrocinio Ribeiro na Ericeira, a 9 de julho de 1882; de compleição fraca e mediana estatura, a côr morena o nariz aquilino, formando uma curva com o prolongamento da testa, os olhos pequenos e perscrutadores de miope, sob o largo supercilio negro e cerrado; na boca um permanente e leve sorriso de amarga ironia e o inseparavel cigarro.
Foi socio correspondente da Academia de Sciencias de Portugal e socio da Associação dos Arqueologos. Estudou na Casa Pia: mas a sua persistencia e ancia de saber, dominaram-o sempre atravez da curta existencia.
Serviu na Inspecção das Bibliothecas, foi bibliotecario archivista na Escola Pratica de Infanteria em Mafra e á data do seu falecimento, em 2 de Dezembro de 1923, era escriturario no Archivo da Camara Municipal de Lisbôa.
Colaborou no Ocidente, O Seculo, Diario de Noticias, Jornal da Europa, A Capital, Ilustração Portugueza, Victoria e muitos outros jornaes da provincia.
Foi um incansavel lutador, torturado pela pertinacia d’uma bronchite e atormentado pela dolorida concentração do seu espirito, na absorção da propria materia. Alegre e quasi ingenuo como as crianças, foi antes de tudo um sonhador e um poeta como foi um profundo observador.
«A nacionalidade portugueza de Colombo» revela nas suas paginas cheias de saber e de logica o grande exemplo do seu patriotico intuito.
Lisbôa, Abril de 1927

OS SEUS AMIGOS

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

Patrocínio Ribeiro - Os documentos de Pontevedra

Patrocínio Ribeiro, A nacionalidade portuguesa de Cristovam Colombo. Solução do debatidissimo problema da sua verdadeira naturalidade, pela decifração definitiva da firma hieroglífica (...), Lisboa, Liv. Renascença, [1927], Cap. I, pp. 13-27.

Celso Garcia de la Riega defendera que Cristóvão Colombo era espanhol. Esta tese que assentava em documentos grosseiramente falsificados, cedo ou tarde, cairia por acção da crítica; uma queda para a qual Patrocínio Ribeiro poderia contribuir apontando – como apontou – as falhas de lógica dessas ideias. No entanto, e movido pelo espírito nacionalista, decide ele próprio atribuir uma nova nacionalidade a Cristóvão Colombo: a portuguesa.
Decide combater um mal, com outro mal, embora, em abono da verdade, sem recorrer à falsificação das fontes. Estava era longe de imaginar aonde os seus seguidores iriam chegar.


Texto Integral

I

OS FAMOSOS «DOCUMENTOS» DE PONTEVEDRA


«De modo que cuando fué su persona a proposito y adornada de todo aquello que Convenia para tan grand hecho, tanto menos conocido y cierto quiso qui fuese su origen y patria, e casi algunos que en cierta manera quisieron oscurecer su fãma, dicen que fui de Nervi, otros de Cugureo, otros de Buggiasco, logarcillos cerca de Genova, y situados en su ribera; otros que quisieron exaltarie mas, dicen és Saona, y otros, genevés, y algunos tambien saltando más sobre el viento lo hacen naturàl de Plasencia».
Herman Colon, Vida del Almirante Don Cristobal Colon.



Em todas as circunstâncias da sua vida oficial — a mais conhecida — o celebrado descobridor da América ocultou sempre sistemáticamente, a verdadeiro nome da terra do seu nascimento a até mesmo o seu próprio apelido de familia, duma forma intencional, premeditada, com um fim reservado muito pessoal e muito intimo.
As variantes ortográficas dêsse presuposto apelido em documentos coevos, — Colomo e Colombo — a declaração singular de seu filho Fernando, na Vida del Almirante, que seu pai «volvió a renovar el de Colon» — e o facto de nem uma unica vez êle se ter assinado pelo sobrenome porque éra conhecido, são provas mais que suficientes para fazer crêr que o grande navegador adoptara um pseudónimo.
Todavia a cidade de Pontevedra, na Galiza, pretendeu demonstrar, últimamente, ser o verdadeiro e único berço natal de Cristóvam Colombo, colocando-se assim ao lado das vinte e tantas povoações italianas que, entre si, veem disputando, de há muito, essa honra insigne.
Ahí por fins de Abril de 1914 — como, decerto, toda a gente se lembrará ainda —o sr. dr. D. Enrique de Arribas y Turull, advogado galego, efectuou, na ampla sala Portugal da Sociedade de Geografia, de Lisboa, uma conferência subordinada ao título estrondoso: Cristobal Colon, natural de Pontevedra.
Nessa celebérrima conferência — não será descabido, talvez recordar aqui de novo — o orador preconizava a teoria moderna da naturalidade galaica do descobridor da América, segundo os trabalhos históricos do seu conterraneo D. Celso Garcia de La Riega, que fôra o primeiro a proclamar a novidade no seu livro Colon Español:
Para firmar melhor a sua argumentação, D. Enrique Turull referiu-se, largamente, a uns documentos antigos, descobertos por D. Garcia de La Riega, manuscritos de grande valor — segundo a sua maneira de vêr — por se achar consignado nêles o facto incontroverso da naturalidade galaica do denodado nauta que deu um novo mundo ao mundo.
E — verdade, verdade — êsses documentos referentes na sua maioria, aos Colons de Pontevedra, citados pelo conferencista, produziram uma viva emoção no culto auditório dessa noite memorável. Mais ou menos, os ouvintes sentiram-se abalados e propensos a acreditar nessa espantosa documentação, pois vinte e um documentos, vinte um pergaminhos amarelecidos pelos séculos, vinte e um manuscritos gatafunhados da era de 1413 a 1529, afirmando e comprovando a esplanada teoria, não são coisas para desprezar e pôr em dúvida! De resto, todos os membros conhecidos da família do denodado nauta figuravam nêsses documentos célebres: os irmãos, os filhos e até o proprio pai e a mãe!...
Eu tive conhecimento dos assuntos tratados nessa conferência apenas pelo relato dos jornais do dia seguinte. Achei comprovações excessivas, analogias demasiadamente flagantes, tópicos singularmente palpáveis, e éssa superabundância de documentos autênticos fez-me nascer uma suspeita... Ruminando-a, durante algum tempo, procurei maneira de me poder informar, o mais detalhadamente possível, do conteúdo dêsses famosos documentos de Pontevedra, e quando o consegui, em parte, pareceram-me tão deficientes, tão vagos, tão poblematicos, tão despidos de importância e interêsse, que me enchi de coragem para estudar o complexo problema colombino e reivindicar para Portugal a glória de ter dado ao mundo o marinheiro ilustre que descobriu a América.
Em Agosto dêsse ano, porém, estalou a guerra europeia, emocionando o mundo inteiro. Fui forçado a suspender os meus estudos colombinos, os meus trabalhos de investigação histórica sobre o assunto, durante o tempo que estive ausente da metrópole, durante os meses que permaneci em Mossamedes fazendo parte da expedição do Sul de Angola, contra os alemães. Quando regressei de África — em Maio de 1915, por motivo dum desastre, — continuei desde logo, na tarefa que com tanto gôsto e afinco encetára. Os famosos documentos dos Colons espanhois não me intimidavam, tanto mais que a suspeita continuava a ferroar-me como um caruncho obstinado... e o meu espírito, anciadamente, previa uma torpeza! Ah! se eu pudesse ir á Galiza vêr, rebuscar, analisar, meter o naris nos papeis de Pontevedra — pensava de contínuo, de mim para comigo. No entanto, ia trabalhando sempre com ardor, com fé, com entusiasmo. E, final mente, em 23 de Novembro dêsse mesmo ano, consegui apresentar na Academia de Sciências de Portugal a minha memória sobre O carácter misterioso de Colombo e o problema da sua nacionalidade, em que refutava a pretendida nacionalidade espanhola do imortal nauta, opondo, honestamente, uma novíssima argumentação portuguesa.
Transcrevo, em seguida, a resposta que nessa memória dei ao sr. Arribas y Turull sôbre o assunto em questão:

«Colombo é espanhol, nasceu em Pontevedra, — afirma-se.
«Quem primeiro o afirmou, em terras de Espanha, foi Celso Garcia de La Riega, erudito investigador histórico; e foi o sr. dr. D. Enrique Maria de Arribas y Turull — distinto advogado — que veio preconizar na nossa terra, por meio de conferências publicas efectuadas em Lisboa e Pôrto, esta verdade evidente, segundo a sua maneira de vêr.»
«Ora eu — que a época me encontrava em Beja, absorvido nas ocupações da minha vida profissional, — não assisti a essas interessantes prelecções, mas adquirindo há tempo o livro que o ilustre conferente publicou sôbre o assunto, li-o atentamente, e tão atentamente o li que não posso deixar de refutar certas afirmativas exóticas que na referida obra são feitas, em especial, nas referências directas ao nosso país.([1])
«Depois de, para defesa da sua tese, ter apontado algumas analogias de nomes entre as terras baptisadas por Colombo, no Novo Mundo, e uma igreja — San Salvador, uma bahia — Puerto Santo, — uma praça, — La Galea — e quatro confrarias de Pontevedra, — San Miguel, Santa Catalina, San Nicolás e San Juan Bautista — mas sem se recordar, talvez, de que «sôbre simples homonímias no se puede cimentar nada solido en la história» — como tão criteriosamente disse Garcia de La Riega ([2]) acrescenta o sr. Turull a pág. 77 do seu curiosissímo livro:
«De todo lo expuesto deducimos, que ni una sola vez se le ocurre a Colon imponer a sus descubrimientos un nombre italiano o portugués, o que por lo menos recuerde cosa alguna de estos países».
«Ora não se pode ser menos exacto! Colombo impoz, de facto, alguns nomes portugueses ás novas terras descobertas, e tão portuguesas são essas denominações que nem a própria Pontevedra — com os seu famosos documentos! — poderá contestar.
«A um porto e a um rio, recendescobertos, deu o grande navegador estes dois nomes inconfundiveis: — Puerto de Santa Maria de Belen e Rio de Belen.
«Onde encontra o sr. D. Enrique Turull nomes identicos em Espanha? Não os pode encontrar lá porque são bem portugueses, pois Rio de Belem designa o Rio Tejo em frente de Santa Maria de Belem, que era por esse tempo uma pequena povoação ao ocidente de Lisboa.
«Mas ha mais ainda.
«Colombo baptisou duas ilhas novas, com o nome de S. Tiago e Santa Maria, respectivamente. Ora S. Tiago é uma das ilhas do arquipelago português de Cabo Verde, e Santa Maria aquela ilha dos Açores a que ele intencionalmente arribou no dia 18 de fevereiro de 1493, regressando já da sua primeira viagem ao ocidente.
«Se no século XV havia, em Pontevedra, uma praça chamada La Galéa e uma bahia com o nome do Porto Santo, também na ilha da Madeira — onde Colombo viveu algum tempo — havia a ponta da Galé, e Afonso Baldaia, em 1436, tinha dado nome identico a um cabo que descobrira na costa da Africa; e Porto Santo sugere logo o nome daquela ilha onde o ousado navegador residiu com os seus parentes portugueses da parte de sua mulher, sendo fácil, portanto, determinar porque motivo assim denominou uma enseada de Cuba e um cabo da ilha Trinidad.
«Para demonstar ao sr. dr. Turul1 que é menos verdadeira a sua desconforme afirmativa de que ni una sola. vez se le ocurre a Colon imponer a sus descubrimientos un nombre italiano o portugués, o que por lo menos recuerde cosa alguna de estos paises», indicarei alguns, a seguir, onde a homonimia é flagrante.
«Vejamos, pois:
«A um cabo da ilha Fernandina chamou Cabo Verde, — o cabo Cabo Verde, em África, fôra descoberto pelo português Diniz Fernandes, em 1444.
«Puerto de Santa Catalina, em Cuba, — o cabo de Santa Catarina tinha sido o limite das descobertas de Portugal no reinado de D. Afonso V, e havia uma ponta de terra, na ilha da Madeira, com o mesmo nome.
«Puerto de Santa Maria, na ilha Espaniola, — porto de identica denominação na ilha do Sal do arquipelago de Cabo Verde.
«Isleu Cabra, — ilha das Cabras, na Costa de S. Tomé.
«Isla Santa Cruz, — portos de Santa Cruz nas ilhas da Madeira, Graciosa e Flores.
«Vale del Paraizo, — foi em Vale do Paraizo, povoação perto de Vila Franca de Xira, que Colombo foi recebido por D. João II, de Portugal, e onde esteve hospedado trez dias, em Março de 1493, quando, vindo de regresso da descoberta do Novo Mundo, arribou a Lisboa, intencionalmente.
«Rio del Oro, — o rio do Ouro, no continente africano descoberto de 1436, por Afonso Baldaia, e rio de nome identico na ilha de S. Tomé.
«Isla Guadalupe, — costa de Guadalupe, ilha de S. Tomé.
«Islas San Christovam, San Miguel, e San Thomás, — das ilhas dos Açores assim denominadas; a ilha de S. Tomé tambem fôra, primitivamente, conhecida por S. Tomás.
«Islas de Nuestra Señora de las Nieves, — Santa Maria das Neves, bahia a que chegou Alvaro Fernandes no tempo do infante D. Henrique, e nome dum monte que se avista do mar, na costa ocidental de Portugal, entre o Cabo da Roca e Peniche, muito conhecido dos nossos mareantes que lhe chamam tambem Alto de Manjapão.
«Islas San Vicente e Santa Luzia, — ilhas do arquipelago de Cabo Verde.
«Cabo Cabrão, — ponta do Bode, na ilha da Madeira.
«Rio del Sol, — ribeira da ponta do Sol, na Madeira.
«Cabo de S. Vicente, — Cabo de S. Vicente, no extremo ocidental da provincia do Algarve.
«E, não cito mais, para me não alongar demasiadamente.
«Mas se bem que não creia — como crê o sr. Turull, — que o descobridor da America fosse impondo nomes de igrejas e confrarias ás ilhas que via pela primeira vez — pois denominava-as, certamente, conforme as analogias topograficas de outras terras conhecidas e evocadas das reminescencias das suas viagens anteriores, — no entanto, a mero titulo de curiosidade, pois «sobre simples homonimias no se puede cimentar nada solido en la historia», apontarei algumas coincidencias de denominação, que topei no decurso dos meus trabalhos, entre localidades alentejanas e as novas regiões por ele baptisadas, convindo advertir nesta altura que D. Filipa Moniz — com quem casou — era duma familia oriunda do Alentejo, e que Diogo Gil Moniz — tio materna de D. Filipa — foi reposteiro-mór do infante D. Fernando, senhor de Beja, onde tinha casa.
«Á primeira ilha descoberta no Novo Mundo pôz-lhe Colombo o nome San Salvador, — «a comemoracion de Su Alta Magestad al cual maravillosamente todo esta ha dado» — (S. Salvador, paróquia de Beja desde 1306).
«Á segunda ilha encontrada chamou Concepcion, (convento da Conceição, fundado em Beja pelo infante D. Fernando, em 1467). e Sr.ª da Conceição, nas proximidades de Colos.
«Isla Santa Maria la antigua, (Santa Maria da Feira a mais antiga paróquia de Beja, que foi mesquita de mouros e cujas memórias mais remotas datam de 1282).
«Isla de San Juan Bautista, (S. João Baptista, paróquia de Beja desde 1320).
«Isla San Thiago, (S. Thiago Maior, paróquia de Beja desde 1329).
«Isla San Bartolomeu, San Martinho, Santa Cruz, San Miguel, Santissima Trinidad, Santa Luzia, Santa Margarida, Espírito Santo, Nuestra Señora de las Nieves, (S. Bartolomeu da Serra, S. Martinho das Amoreiras, Santa Cruz, S. Miguel do Pinheiro, Santíssima Trindade, S. Luzia, S. Margarida da Serra, Espírito Santo e Nossa Senhora das Neves, povoações no termo de Beja).
«Isla Guadalupe, (Serra do Guadalupe que se avista do castelo de Beja, para o lado de Serpa) e Sr.ª de Guadalupe, perto da Vidigueira.
«Islas Juana, Cubanancan, Colba ou Cuba (Vila da Cuba, ao norte de Beja).
«Castelo Verde foi a primeira fortaleza fundada por Colombo, na América, (vila de Castro Verde, ao sul de Beja).
«Tinha o apelido de Esquivel o primeiro governador da ilha de S. Tiago e, presentemente, há ainda a rua do Esquivel em Beja.
«Com respeito á analogia de denominação, a cidade portuguesa Beja e seu districto leva a palma á de Pontevedra, como se vê e constata pelo mapa que adiante publicamos! Se a Galiza apresenta sete nomes identicos, apenas; o Alentejo fica-lhe muito superior neste ponto, sem ser necessário incluir as confrarias...
«Diz, também, o ilustre autor do Crisiobal Colon natural de Pontevedra, que Colombo no supo el idioma italiano ni el portugués.
«É arriscado, porém, fazer uma afirmação dêste quilate sabendo-se, tanto mais, que viajou e conviveu com portugueses, que casou com uma dama da aristocracia portuguesa, que residiu em Lisboa, na Madeira, em Porto Santo e, talvez, nos Açores, etc. Mas o sr. D. Enrique Turull, para afirmar tal, baseia-se em o famoso nauta ter escrito, no seu Diário de Navegación, esta passagem:

«... en el Catay domina um principe que se llama Gran Kan, que en nuestro romance significa rei de los reis...»

«E, por isto, conclue que o grande Almirante dice que el castellano és su romance, que é como se dissesse que a língua castelhana era a sua própria língua, o seu idioma natal. Ora o Diário, da primeira viagem de Colombo, que chegou até nossos dias; não é o auténtico, o primitivo, o original, pois foi coordenado por Las Casas, que alterna a sua linguagem com a do navegador. O trecho citado e transcrito pelo sr. Turull, como argumento de pêso, vem precisamente no preambulo, e esse preambulo, acrescentado depois, parece mais do coordenador, pelo estilo do que do próprio punho de Colombo ([3]).
Mas suponhâmos que foi, de facto, o descobridor da America o auctor dessas linhas; elas nada significam para se poder deduzir e afirmar a sua nacionalidade espanhola porque o grande nauta, mesmo como estrangeiro, ao traduzir a frase duma lingua desconhecida para os reis de Castela — aos quais se dirige no preambulo — podia, muito belamente empregar a expressão nuestro romance tal qual como o alemão Valentim Fernandes, que escrevendo em português ahi por 1506, as suas Chronicas das ilhas do Atlantico — que fazem parte do celebre manuscrito de Munich, de que existe uma cópia na Biblioteca Nacional de Lisboa — empregava periodos como estes;

«Arvores nascem nesta ilha da Madeira de muitas sortes e diferenciadas das nossas delas e delas não».
«A sua feição é fóra das nossas arvores».
«E esta arvore não tem nenhuma feição das nossas arvores porém se quer parecer acerca como a cerejeira».
«Toda esta ilha é cheia de arvores e diferenciadas das nossas salvo figueiras e parreiras que os portugueses lá levarão».
«Das outras aves já todas são da arte das nossas terras».
«Ovelhas ha nesta ilha tão grandes como de Portugal, e não teem lan se não no papo, e todo outro é cabelinho curto, como cão de nossa terra».

«Mas pelo facto deste estrangeiro, escrever em português, nossa terra poder-se-ha deduzir que ele nascera em Portugal? Não, evidentemente. Logo Colombo podia muito bem escrever nuestro romance — traduzindo assim essa passagem da carta em latim que recebera de Paolo Toscanelli, — sem que por isso quizesse designar a sua nacionalidade espanhola.
Alegam tambem, os partidarios da naturalidade galaica do imortal descobridor, que ele, numa das suas cartas dirigidas aos Reis Católicos, escreveu isto:
«Llego a un mundo nuevo y bajo un nuevo cielo, y és cosa maravillosa ver las arboledas y frescuras y el agua clarissima y las aves y amenidad que invitan a permanecer contemplando tanta hermosura. Hermosura de la tierra, tan solo comparable con la de la campina en Cordoba, aire embalsamado, puro como el de Abril en Castilla canto del ruisenor como en España, montañas en la Isla Juana (Cuba) que parecen llegar al cielo, copiosos e saludables rios, immensa variedad de arboles de gran elevacion con hojas tan reverdecidas y brillantes, cual suelen estar en España en el mes de Mayo y siete u ocho variedades de palmas, Superiores a las nuestras en su belleza y altura... ([4])
«Ora estas comparações não servem de argumento porque não comprovam — como pretende o sr. dr. Turull que o ousado navegador nasceu em Pontevedra; não palpita nelas o espírito nativo — como tenta insinuar o distinto advogado — mas demonstram apenas, muito simplesmente, a necessidade lógica dos confrontos, pois é bem natural que o estrangeiro Colombo evocasse regiões conhecidas dos monarcas de Castela para lhes pintar a beleza das novas terras descobertas. Ilógico e descabido seria êle referir-se, nos seus descritivos, as regiões portuguesas por onde tinha andado, que a rainha Izabel e o rei Fernando não conheciam. decerto.
«O alemao Valentim Fernandes, que já citei, faz comparações identicas, estabelece os mesmos confrontos, não com o calor exuberante e meridional do célebre nauta, concordo, mas sucintamente, lacónicamente, com o ar frio e rápido dum verdadeiro germânico. Referindo-se a ilha da Madeira diz êle na sua Chronica.

«E tem todas as frutas que ha em Portugal afóra cerejas» .
«Dos peixes a metade são differenciados dos de Portugal».
«Escrevendo em português, e para portuguêses, não seria risível que êste cronista se puzesse a evocar a sua pátria alemã? Ora Cristovam Colombo seguiu a mesma orientação, muito naturalmente.
«Mas o descobridor da América, ao referir-se as belezas de Maio e ao canto do rouxinol, designa a Espanha, em absoluto, e nesta comparação pode abranger Portugal, tambem, onde canta o rouxinol e Maio reverdece deslumbrantemente. É muito possivel que até fosse esse o seu fim, que tivesse isso exclusivamente em vista, atendendo a não ter determinado nesse ponta região alguma de àlem-fronteiras, e ter baptisado uma das ilhas descobertas com a significativa denominação de Espaniola.
«Os escritores portuguezes, antigos, usavam então muito essa designação exclusiva para indicar toda a peninsula Ibérica.
«O cronista-mor Damão de Gois, aludindo a fauna de Sintra, deixou escrito:

«... ha nela muita caça de veados, e outras alimarias, e sobretudo muitos, e muito boas frutas de todo o genero das que em toda Hispanha podem achar...»

«E, referindo-se á chegada de Vasco da Gama a Calecut, por ocasião da sua primeira viagem á India, esclarece melhor:

«... até que forão dar com dous mercadores de Tunez dos quaes hun per nome Monçaíde fallava castelhano, que em o degradado entrando pola porta da casa, conhecendo no trajo que era Hispanhol lhe perguntou de que nação da Hispanha era, e sabendo que portuguez lhe mandou dar de comer...» ([5]).

«Por argumenta supremo, por prova irrefutável, — segundo a opinião do ilustre advogado — há, ainda, os documentos de 1413 a 1529, escritos em galego, onde o apelido de Colon aparece frequentes vezes, que desfralda nas paginas do seu livro como uma bandeira vitoriosa mas... nuns fac-similes tão apagados e tão reduzidos que é impossivel lêr-se alguma coisa!...
«Ora se na escritura de 14 de Outubro de 1495, que cita, se fala em «la heredad de Cristobal de Colon — el proprio Almirante, como afirma, — e se tal Cristobal Colon era, de facto, o descobridor do Novo Mundo com propriedades em Pontevedra, como poderia ele declarar-se estrangeiro, em Castela, e escrever em 1498, um documento oficial:

«La dicha ciudade de Genova, de donde yo sali y donde yo naci...»

quando havia muito já que a fama de seu nome enchia o mundo inteiro e... até mesmo a própria Galiza?!
«Mas nos documentos de Pontevedra aparece, tambem, o apelido Fonterosa — que o sr. dr. Turull diz ser o da mãe de Colombo. Ora foram os modernos genealogistas italianos que tendo descoberto uma Suzana Fontanarrossa, casada com um tal Domenico Colombo, supuzeram que devia ser a mãe do denodado marinheiro.
«E assim, o distinto advogado galego, pretendendo refutar a nacionalidade italiana do descobridor da América, contradizendo-se, vai insensivelmente... seguindo os italianos!»
Quando publiquei o que deixo transcrito nos «Trabalhos da Academia de Sciências de Portugal» ainda não tinha sentido a exalação acre da mentira, ainda me não tinha ferido o olfato o bafo nauseabundo da fraude estupenda!... Os famosos documentos de Pontevedra teem uma história nojenta que repugna aos historiógrafos sérios e aos investigadores honestos.
O meu presado amigo e consócio da Academia sr. Oscar de Pratt teve a extrema gentileza de me chamar a atenção para o «Informe que presenta a la Real Academia Galega de la Corunha el individuo de numero D. Eladio Oviedo y Arce, sobre el valor de los Documentos Pontevedreses, considerados como fuente del tema Colon Español, propuesto primeramente por D. Celso Garcia de La Riegà, y ahora renovado por sus continuadores», trabalho monumental de crítica, erudição e desassombro, publicado no n.º 122, ano XII, do Boletim da mesma Academia, de 1 de Outubro de 1917.
Ainda há galegos honestos, felizmente, e entre eles deverá incluir-se, para o futuro, o saudoso Oviedo y Arce, benemérito da História. Com uma honestidade muito de louvar, o escrupuloso paleógrafo analisou, com a maior atenção e cuidado, os famosos documentos de Pontevedra e, com uma honestidade muito mais de louvar ainda, veio dizer, alto e bom som, com desassombro, com altivez, sem rebuço, que êsses documentos famosos tinham sido falsificados, velhacamente.
Pois é verdade, e com náuseas, Garcia de la Riega — que o sr. dr. Arribas e Turull enalteceu na Sociedade de Geografia de Lisboa, como sendo o primeiro investigador do seu paiz — era, simplesmente, um falsario! Nos manuscritos antiquíssimos de Pontevedra ele raspou, modificou, substituiu o que muito bem quiz para dar vulto a sua teoria da naturalidade espanhola de Colombo.
Portanto os famosos documentas de Pontevedra são nulos, inúteis, para a soluçao do problema colombino, porque no son colonianos, puesto que han sido falsificados en los passages referentes al tema de aquella teoria y carecen, por lo tanto, de todo valor historico en cuanto fuentes del tema Colon Español, segundo diz Oviedo y Arce.
Relativamente as obras de Garcia de La Riega, informa o mesmo auctor:
«El libro Colon Español» en que este tema se expone, no és mas que una pobre ficcion, una supercheria, que solo por la dañesca a la cultura regional, merece ser desemuascarada para aviso de los unos y ridiculisada para exemplo de los otros».
«La Gallega, nave capitana de Colon, otro libro de Garcia de La Riega con ciertas infulas de original, representa una nueva jaceta de la personalidad literaria de este autor quien pretendiendo tratar su tema, a fuer de investigador sereno, que antepone los documentas a la erudicion libresca resulta, no un cientifico, como pedria creerse, si no un «invencionero». «La Gallega» no és una obra historica; és una ficcion amañada con documentas sospechosos y documentos falsificados».
Desmascarada assim a intenção velhaca de Garcia de La Riega por um seu compatriota, perdem todo o interesse documental os famosos documentos de Pontevedra, estragados de resto, pelas alterações e retoques do falsificador que os inutilisou até para a própria historia da sua terra.
Perante este fracasso de falsificação da Historia, as pretensões galegas á solução do problema colombino desfizeram-se em terra, pó, cinza e nada...
Mas não merece a pena ocuparmo-nos por mais tempo de coisas torpes...

[1] V. Cristobal Colon, natural de Pontevedra, por D. Enrique Maria de Arribas y Turull. Madrid, Imprenta de «La Enseñanza» Ruiz, 33, bajo, 1913.
[2] V. Crisbabal Colon y Fonterosa, artigo de D. Celso Garcia de La Riega, publicado em «La Ilustracion Española y Americana» de S. de Janeiro de 1902.
[3] V. «Coleccion de los viajes y descubrimientos que hicieran por mar los españoles desde fines del signo XV» por D. Martim Fernandez de Navarrete, vol. 2.º
[4] Citação de D. Enrique Turull. V. «Cristobal Colon natural de Pontevedra» pág. 159.
[5] «Chronica de el-rey Don Emanuel» primeira parte, cap. XXII e XXXIX; respectivamente.